sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os lesados do NES

«Quem olhou para as contas da época passada, pode ver que as contas deram um prejuízo considerável. Assumidamente, não houve qualquer surpresa, porque ficou definido pela SAD que não haveria vendas, porque o treinador de então achou que os os jogadores não deveriam ser vendidos». Fernando Gomes, 07-06-2017

Três anos de trabalho
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Lembram-se dos tempos em que se dizia que, no FC Porto, o treinador treina, o jogador joga e a estrutura cuida de todo o resto? Entrámos, aparentemente, numa nova era: aquela em que o trabalho do treinador da equipa principal do FC Porto também passa por ser responsabilizado pelos prejuízos apresentados pela SAD. 

Fernando Gomes já habituou os adeptos do FC Porto às mais surreais intervenções, desde as camisolas sem patrocinador que ficam mais bonitas aos alertas para a necessidade de uma contenção que nunca chegou a pôr em prática.

Mas esta nova intervenção, de responsabilizar o treinador (no caso, o ex-treinador) pelo maior prejuízo da história da SAD, desafiam todos os limites da compreensão que se possa ter para decisões que, no cargo que ocupa, nunca são fáceis de tomar.

Aquando da operação Euroantas, o próprio Fernando Gomes admitiu que havia a necessidade de cumprir o fair-play financeiro. E na apresentação do maior prejuízo da história da SAD (em que ninguém se lembrou de dizer que era culpa do NES - como tem sido hábito, assim que um treinador deixa o FC Porto, leva com ele culpas que nunca lhe seriam imputadas enquanto estivesse no cargo), Fernando Gomes afirmou isto: «Nas nossas conversas estamos em sintonia relativamente ao que fazer: reduzir custos e não depender da venda de jogadores. Não temo sanções mais graves».

E agora, o que admitiu Fernando Gomes? «Se o FC Porto vai ter de vender jogadores? É evidente que sim.» Era capaz de ser mais fácil encontrar sintonia e segurança numa defesa composta por Kralj, Butorovic, Stepanov, Sonkaya e Benítez do que coerência nas palavras do administrador responsável pelas finanças do FC Porto. 

Esta falta de lógica não é nova. Basta recordar as palavras de Pinto da Costa em finais de novembro. «Havia dois caminhos. Era fácil apresentar resultados positivos: no último dia [de mercado], por exemplo, ofereceram-nos 30 milhões de euros por Herrera, 40 milhões por Danilo e quiseram pagar a cláusula de rescisão do André Silva que era de 25 milhões. Aí tínhamos feito 95 milhões e em vez de apresentarmos um resultado negativo íamos apresentar um resultado positivo de 40 e tal milhões. Mas a nossa opção foi aguentar porque tivemos prejuízo, mas os ativos continuaram cá, o André Silva renovou contrato».

Pinto da Costa afirmou, nesta entrevista à ESPN, que o FC Porto recusou as vendas (e fala no plural, não numa vontade expressa de NES - Danilo sempre foi imprescindível, mas Herrera foi opção intermitente e André Silva acabou secundado por Soares nas suas opções) devido a esta razão: «Não é só pelo dinheiro, é pelo prestígio porque o FC Porto, a par do Manchester United, é quem tem mais presenças na Champions e tínhamos a Roma para tentar eliminar logo a seguir. Se perdessemos esses três jogadores em cima da pré-eliminatória, as nossas possibilidades de eliminar o adversário iam diminuir muito. Foi uma opção e conseguimos o objetivo de ir para a Champions e esse prejuízo já está menor».

Ora então. O presidente do FC Porto afirmara que a SAD recusou propostas no último dia do mercado por Herrera, Danilo e André Silva, por causa do play-off com a Roma. Falta só realçar que o play-off com a Roma disputou-se a 17 e 23 de agosto. Ou seja, o FC Porto recusou a venda de jogadores porque queria estar na máxima força para um play-off que tinha sido disputado na semana anterior? 

Perante esta organização/coerência digna de um Phasianidae de cabeça cortada, o mais fácil acabou mesmo por ser isto, pelo menos na visão assumida por Fernando Gomes: coitados dos lesados do NES, neste caso, a SAD do FC Porto. 

Mas depois de tudo isto, a principal vítima tem um nome: Sérgio Conceição, que no dia seguinte à sua apresentação no FC Porto (uma excelente conferência de imprensa, a todos os níveis, com posições fortes e esclarecedoras em todas as vertentes) recebe a notícia de que ficará privado de 3 jogadores na Liga dos Campeões. 

O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions, devido à falta de jogadores formados no clube com mais de 21 anos, e agora viu a UEFA reduzir a lista de 25 para 22 jogadores, o que vai certamente limitar as opções do treinador. E não, a responsabilidade não é de Nuno Espírito Santo. Nunca será de mais renovar os votos de confiança e apoio no trabalho de Sérgio Conceição, que ainda não deu o primeiro treino e já ficou sem três jogadores. Bem vindo ao FC Porto, mister!

Este é, infelizmente, o resultado de uma das frases mais acertadas que Pinto da Costa alguma vez proferiu: «Nada tenho contra políticos que são políticos, mas quando os vejo no futebol deito logo as mãos à cabeça, cheira-me logo a esturro». Sem mais a acrescentar. 

10 comentários:

  1. Boa tarde,

    Li mais este seu excelente post, mas fiquei com uma duvida, este ano podemos apresentar 30 milhões de prejuízo tendo em consideração o acordo que fizemos com a UEFA?

    De acordo com as suas previsões temos que vender os 100 milhões de que se fala, ou neste caso só precisamos vender 70 milhões?

    Um abraço

    Filipe Sampaio

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  2. Não há crise.. quem vai pagar as multas á UEFA vai ser os vencimentos dos administradores da SAD, a começar pelo seu presidente que prescindem dos mesmos. Nunca pensei passar tanta vergonha com estes sr. administradores da SAD.
    Cumprimentos portistas
    A. Martins

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  3. Boas...

    Bem, realmente termos alguém que consegue culpar um ex-treinador pelo insucesso das contas do clube, é cm certeza alguém que deve pensar que os adeptos/sócios andam a dormir.

    Devo também dizer que estava com algum receio com as "multas" aplicadas pela UEFA. Mas de certa forma a coisa nem correu muito mal, porque o FCP conseguiu um valor limite "engraçado" para este ano (30 milhões) o que pode permitir ao clube não ter de vender tantos jogadores quanto se pensaria. E claro, Maxis e Casillas têm de ir para outras bandas, pois os seus salários são monstruosos.

    Agora o Sérgio Conceição... Apesar de não ser claramente o meu favorito, a verdade é que deu uma conferência de apresentação bastante directa e frontal. Parece-me ter a cabeça no sítio ("só o grito não chega") e sobretudo parece estar disposto a assumir o risco elevado de treinar o FCP numa altura difícil para o clube.

    O que me parece também é que com o SC, a aposta na formação será mais intensa e penso honestamente que este ano o Ruben Neves vai finalmente dar o salto qualitativo que todos nós desejamos, bastando para isso o SC incutir o espírito que incutiu no Otávio.

    Cmpts

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  4. "FC O Porto compromete-se a alcançar o cumprimento do equilíbrio financeiro até ao período de monitorização de 2020/21 (ou seja, os relatórios financeiros que terminam em 2018, 2019 e 2020).

    O FC Porto compromete-se a reportar um défice máximo de equilíbrio financeiro de 30 milhões de euros no final do ano financeiro de 2017, de 20 milhões de euros no final do ano financeiro de 2018 e de 10 milhões de euros no final do ano financeiro de 2019.

    O FC Porto aceita que, para o ano financeiro que termina em 2018 e para o ano financeiro que termina em 2019, o rácio entre as despesas com funcionários e as receitas, bem como os custos financeiros, estão restringidos e que o resultado líquido de actividades de transferências está definido.
    "
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    Então isto quer dizer que estamos obrigados a baixar o défice de ano para ano SEM contar com as vendas de jogadores, certo?
    Ou seja, o objectivo é, em 2020, haver um break even entre receitas e custos sem vendas...?

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  5. Fernando Gomes representa o que é a actual estrutura. Eles já não estão interessados no bem do FC Porto como principal objectivo, já não são organizados, parece que fazem navegação à vista.
    É preciso mudar isto.
    A.M.

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  6. Subscrevo, lamentáveis, inaceitaveis as declarações de Fernando Gomes sacudindo a água do capote, e sobretudo responsabilizando o Treinador(e auto desresponsabilizando-se), isso não se faz, e revela muita coisa ...

    "O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions, devido à falta de jogadores formados no clube com mais de 21 anos, e agora viu a UEFA reduzir a lista de 25 para 22 jogadores, o que vai certamente limitar as opções do treinador"

    As restrição de inscritos na Champions, é um não caso, até porque na próxima temporada teremos mais gente jovem no principal plantel, e que podem integrar a Lista B. Daí que não faz sentido criar esse inusitado alarmismo.

    Querem um exemplo? Vamos transportar a lista de inscritos na Champions na temporada 16/17, para a próxima temporada, e subtrair os 3 Inscritos na Lista A.

    Formados Localmente 5: Sá, Danilo, André André, João Teixeira e Diogo Jota.

    Dos 25 jogadores, dois do quais terão de ser guarda-redes. Há um mínimo de oito vagas reservadas exclusivamente para os 'jogadores formados localmente'. No anterior plantel tinhamos 5 jogadores formados localmente. Como o FC Porto só pode inscrever 22 jogadores na Lista A, sobram portanto 14 vagas (jogadores) para inscrever livremente, Qual eram no plantel anterior:
    Casillas, Maxi, Marcano, Felipe, Alex Telles, Oliver, Soares, Brahimi, Corona, Layun, Boly, Herrera, Otavio e Depoitre! (os restantes 14, todos estrangeiros).

    Portanto, do plantel 16/17, no cenário actual com restrições, apenas 22 inscritos na Lista A, ficariam 5 jogadores inscritos formados localmente, e 14 jogadores inscritos livremente!

    Depois, na Lista B teriamos os seguintes nomes: João Costa, Fernando, Ruben Neves, Rui Pedro e André Silva.

    E pergunto, do plantel 16/17, e tendo em conta apenas os 22 inscritos na Lista A, e não os 25 jogadores inscritos, quem ficaria de fora? Eu respondo, todos os Atletas do FC Porto que pertenciam ao plantel 16/17 seriam inscritos na Champions.

    Acresce que no próximo plantel principal, supostamente serão integrados o Dalot, o Jorge Fernandes (provavelmente como 4º central), o Rafa, e ainda o Mikel, todos podem ser inscritos na Lista B, excepto o Mikel.

    Formados localmente, podem regressar o Hernani e o Ricardo Pereira.

    "O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions"
    Perante esta vossa afirmação, pergunto, qual o Atleta do FC Porto que não foi inscrito na Edição Champions 2016/17? (já deixei a resposta em cimas...)

    Nem todo o Portismo come geladas com a testa... E o rigor com verdade, sem manipular a informação sempre foram boas práticas, mesmo num blog!

    PT

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  7. Peço desculpa por estar a utilizar o seu blog, mas como não tenho outra forma de tentar "chegar" aos jornalistas do Porto Canal e gostaria de lhes fazer um apelo.
    Agora que começaram a mostrar alguma "material" sobre o corruptos, gostava de lhes deixar a seguinte sugestão para poder ser trabalhada para o próximo Universo Porto da Bancada:
    Façam, por favor, uma análise aos seguintes dados comparativos, desde a época 2013:

    - Penalties marcados contra e a favor do clube do regime e do Porto;
    - Carttões vermelhos e amarelos mostrados ao regime e ao Porto;
    - Número de expulsões nos jogos realizados por eles e por nós;
    - Número de jogadores das outras equipas impossibilitados de jogar na jornada seguinte contra o regime e contra nós;
    - Resultados obtidos pelo regime quando tinham os padres (vitórias/empates e derrotas e se celebravam missa fora ou em casa);
    - Número de auto-golos de que beneficiaram e, se acharem bem, que jogadores estiveram envolvidos.

    Não deixem passar em claro o post feito pelo ex-ábitro Marco Ferreira depois do programa da última treça-feira.

    Questionem a investigação e o procedimento da PGR e Ministério Público.

    Não vacilem e estiquem a corda até onde for possível esticar, porque esta é a hora da verdade.

    O nosso clube merece esta luta, ela fundamental para o futuro do futebol em Portugal.

    Presidente, admnitradores e comunicação... peço-vos... esta é a vossa hora, o momento de marcarem golo em nome da camisola.
    Contem com os adptos para o que for preciso, mas temos de sentir que estão a dar tudo pelo nosso F.C. do PORTO.

    ABraço

    Pedro Louçano

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  8. Que esses votos de confiança e apoio não se esvaneçam caso o titulo não apresente as nossas cores na próxima época (noc noc)
    Sejamos adeptos conscientes da situação do clube que com esta venda anedótica do nosso maior ativo só revela a marioneta que somos na mão do ventríloquo JM.
    Que o próximo passo já seja com o direito

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  9. Não vou defender fernando gomes, pois ele abriu buracos por todo o sitio onde passou.. mas pelo menos é portista.ja um tal de midas que foi para paris não parece ter lesado ninguem.. TRIBUNAL DO DRAGÂO por que não aproveita e escreve um artigo sobre a obra de Antero no Porto dos ultimos anos?! podiam começar pelo facto da existencia de pessoas da terra dele afirmarem que este senhor era adepto de um clube de lisboa em criança..
    Quanto ao NES muito me admira virem tentar defender alguem que não deu nada ao porto na vida e que sempre andou a reboque do amigo benfiquista Jorge Mendes, não me parece que o plantel do porto se tenha valorizado grande coisa no mercado durante esta epoca..mas vamos ver se NES tal como outro grande treinador que por cá passou não vai para uma 2ª liga descer a 3ª.. espero é que os 'amigos' do NES não comecem já a deitar abaixo o SC

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  10. Parabéns pelo artigo e de um modo geral pelo trabalho desenvolvido.

    Já quase nos confundimos de certo modo com um clube de fachada, dependente de uma horda de empresários e comissionistas. Um clube como muitos outros que caíram nas mãos de um ""filantropo"" qualquer. O mais triste e degradante é perceber que isso não aconteceu. De quando em vez ainda somos lembrados por Pinto da Costa que o FCPorto é dos associados. Embora já quase não pareça este o caso, os associados ainda possuem algum poder na estrutura. A participação nos actos eleitorais e AGs assumem uma especial importância neste momento do clube. Não concordando minimamente nem estando agradados com o rumo que o nosso clube tomou, nem com o saque e jogos de interesse a que assistimos, é tão somente nosso o dever de agirmos. Devemos lembrar a administração de que os associados não são clientes, apenas interessados no espectáculo desportivo, e que o clube também nos pertence.
    Não acredito que haja uma multitude de associados e adeptos que se revejam em muitos dos elementos da SAD, sendo um dos casos mais flagrantes o do indivíduo acima retratado, que com este episódio só vem confirmar a falta de carácter, já que parece não apresentar problemas em sacudir a água do capote ilibando a administração da qual faz parte de qualquer ingerência do clube e falha no planeamento da época transacta, preferindo culpar o antigo treinador pelo, pasme-se, insucesso financeiro (!!).

    Outra questão será o espírito acrítico de muitos de nós, associados e adeptos, que nos torna de certo modo cúmplices e figuras compactuantes com a destruição do clube. Embora seja certo não parecerem existir alternativas viáveis para suceder a PdC (sim, este não é eterno), não é este motivo algum para nos conformarmos.
    Enquanto houver elementos afectos a claques (SD) que considerem um presidente algo maior e mais importante que um clube, tomando uma posição dogmática sobre tudo o que é dito/defendido pela direcção, sem nunca questionarem a validade das posições tomadas, nem as consequências reais que estas têm no clube, apenas contribuem para o entorpecimento do clube. Uma claque transformada em milícia durante AGs, calando qualquer foco de pensamento alternativo ou crítico. Da mesma forma que o FCPorto não pode ser refém de um presidente, não o deve ser de uma claque.

    Não tenho intenção de menosprezar qualquer claque, aliás valorizo e reconheço a importância do seu apoio, tendo já por diversas ocasiões assistindo a jogos em campo adversário partilhando do mesmo entusiasmo e entrega das claques no meio delas.
    Do mesmo modo sei reconhecer aquilo que vários elementos desta direcção já fizerem e alcançaram com o clube, engrandecendo-o.
    O quero pretendo realçar é a importância do debate de diferentes ideias e daquilo que deve mudar para que o FCPorto volte a pautar por aquilo que nos habituou, vencer desde 1893.


    Cumprimentos,
    Diogo Vieira

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