quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Prova dos 9 ultrapassada

É o som de «Arrivederci Roma» que começamos com um facto... Bem, tirem as conclusões por vocês próprios: a Roma teve mais jogadores expulsos neste play-off contra o FC Porto do que o Benfica no seu ciclo de tricampeão. Sim, mais jogadores expulsos em 180 minutos (para ser mais exato, em 140 minutos) do que em 3 campeonatos inteiros. 

Posto isto, o FC Porto conseguiu uma das mais marcantes vitórias do passado recente. A Roma era favorita em toda a linha, e depois do resultado no Dragão ainda o era mais. Não seria pelo resultado de hoje que o FC Porto perderia o acesso à Liga dos Campeões. Não ganhar em Itália é normal. Perder com Aroucas e Tondelas é que não o é. Por isso, é uma vitória histórica, por o FC Porto ter desafiado o favoritismo da Roma, o desnivelamento financeiro (que curiosamente só existe ao nível do valor já investido em contratações, pois segundo a Gazzetta dello Sport a Roma paga salários inferiores aos do FC Porto - 55,5M€ em 2015-16), a própria história e de ter contornado debilidades a nível de construção do plantel com uma vitória que não faz ninguém ir do 8 ao 80, inclusive escrita numa noite atípica (não é todos os dias que se joga contra 9 jogadores, e a euforia pós-jogo não pode cegar um factor que teve, de facto, alguma influência na partida), mas que reacende aquela chama de crença que carateriza o portismo. 

Foi um objetivo alcançado, foi uma noite feliz, foi uma boa injeção de motivação para Alvalade. Foi um jogo que tão cedo não veremos repetido, mas que nos deixa plenamente satisfeitos e motivados, embora sem embandeirar em arco. Os portistas muitas vezes conseguem ser, simultaneamente, os adeptos mais exigentes do mundo e também aqueles que de menos vitórias necessitam para reacender a motivação. Não podemos ser o clube que está no limbo entre a euforia e a depressão. Esta equipa foi a mesma que empatou na primeira mão, que esteve a perder em Vila do Conde e que só marcou perto do fim ao Estoril. Tem qualidades, tem defeitos. As qualidades são para serem enaltecidas, elogiadas e potenciadas. Mas não servem para esconder os defeitos, que devem sempre ser identificados e trabalhados. Agora, Alvalade. 





Iker Casillas (+) - Casillas não fez o melhor jogo da sua carreira no Olímpico de Roma. E todos ainda se recordam daquela fífia no jogo da primeira mão. Mas para a história fica isto: nenhum jogador da Roma conseguiu marcar a Casillas em 180 minutos de Champions. Que mais se pode pedir a um guarda-redes? É certo que o mérito é sempre repartido pela defesa e pelo processo defensivo da equipa, mas Iker fez uma série de defesas importantes na eliminatória e revelou-se um elemento decisivo. Um FC Porto que não sofre golos é um FC Porto que estará sempre mais perto de vencer. É Casillas o destacado, mas em representação pela valia de o FC Porto não ter deixado nenhum romano marcar. 

O melhor Felipe
Centrais (+) - O melhor e mais consistente Felipe (hoje chamar-lhe-ia Felipão, mas o Scolari ainda pensa que o estou a elogiar) até ao momento formou uma dupla de betão com Marcano, que está a ter um início de época de elevado nível. Limitar Dzeko a um único remate é obra. Fortes pelo ar, confiantes e limpos no desarme, sem deixarem espaço nas costas da defesa e sem tremerem perante um adversário com bons atacantes e que precisava de marcar. E sim, o FC Porto deve continuar a ver com bons olhos a chegada de um central. Estes são os mesmos centrais que tremeram na primeira mão, e não podem esperar que uma equipa em inferioridade numérica ataque tanto e de forma tão contínua como uma equipa que joga com 11. Felipe e Marcano fizeram um bom jogo, mas usar este único jogo como conclusão de que o FC Porto não necessita de mais um central é um tiro que pode fazer ricochete durante a época, nomeadamente nos clássicos e na Champions. A ter em atenção já no domingo. 

Os mexicanos (+) - «E agora, como é que eu mantenho este gajo no banco?» Se não é nisto que Nuno está a pensar, devia ser. Layún, uma vez mais, foi absolutamente decisivo. Entrou a frio para o lugar de Maxi e mostrou toda a sua capacidade durante 45 minutos, mesmo no flanco oposto. Esteve impecável defensivamente (a ideia pré-concebida de que Layún defende mal está tão enraizada que nem notam as melhorias que tem tido neste aspeto), com uma disponibilidade física útil e impressionante, obrigando sempre o FC Porto a acelerar o jogo pelo seu corredor. Herrera viu que Layún estava com a corda toda, e soube desmarcá-lo na perfeição para o 2x0. Um jogo equilibrado de Herrera, bom no passe e que também esteve na jogada para o 3x0, num golpe individual de Corona (Manolas ainda anda à procura dele). É este o Corona que faz falta ao FC Porto: mais objetivo, a progredir com a bola colada ao pé e sem caixinhas pelo meio. Foi o jogador que mais jogadas de perigo criou e o golo foi um justo prémio, além de estar mais maduro a defender. Se fosse homem de apostas, diria que vai fazer mais do que Rafa em 2016-17. Depende de Corona mostrar que é capaz. Os mexicanos foram bons e recomendam-se, numa noite em que é difícil escolher quem não mereça destaque positivo, desde Danilo a André André. Para já ficam estes. Há espaço para mais no domingo, por isso quem quiser que se chegue à frente.

Pressão (+) - Cada vez mais, o FC Porto está a apostar num 4x2x3x1. Uma das formas de condenar esta tática às críticas é chamar-lhe «duplo pivô». Mas não é por aí que merece ser destacada, mas sim pela forma como o FC Porto meteu os 4 homens mais adiantados na pressão ao início de construção da Roma. Não só inibiu como enervou a equipa adversária. Só André Silva é verdadeiramente forte fisicamente, mas Otávio, Corona e André André/Herrera são capazes de uma pressão aguerrida, como se de carraças se tratassem. Não se encolher perante a Roma foi essencial. É certo que o FC Porto acabou por não criar muitas ocasiões de golo na primeira parte, mas a forma como impediu que a Roma fizesse o que fez nos 30 minutos iniciais no Dragão equilibrou tudo. Ah, e finalmente um livre bem estudado: Danilo, Marcano e Felipe, os mais altos e fortes no jogo aéreo, a atacarem a meia direita da grande área, onde Otávio meteu a bola. Simples e eficiente. 





Tremer sem razão (-) - A partir do momento em que o FC Porto está a vencer e a jogar contra 9, é óbvio que as exigências e perspetivas da eliminatória mudam. E aqueles 15 minutos, entre a segunda expulsão e o 2x0, deixaram o FC Porto num nervosismo imenso e inexplicável. A equipa parecia dividida entre o medo de sofrer estando a jogar contra 9 e a pressa de fazer o 2x0. Jogando contra 9, basta trocar a bola tranquilamente, que as linhas e o espaço abrem-se sozinhos (o lance do 3x0 foi um excelente exemplo). Aliado a isto, a saída de Otávio, para a entrada de Sérgio Oliveira, foi um Ai Jesus. Sérgio Oliveira entra e acumula uma série de más decisões (perde a bola, vê cartão e permite um ataque pelo seu lado em 40 segundos), impróprias para quem não quer ser considerado o elo mais fraco do meio-campo do FC Porto. O golo de Layún tranquilizou toda a gente, e a partir daí o FC Porto estabilizou por completo, mas com a possível chegada do #30 alguém terá de saltar. E aquele camisola 3 que vimos ontem entrar em campo em Roma bem precisa de um abanão, senão é um forte candidato.

Estamos na Liga dos Campeões. Parabéns aos jogadores, ao treinador e aos adeptos que apoiaram a equipa ao longo da eliminatória, sobretudo aos que se fizeram ouvir em Roma. Mereceram!

domingo, 21 de agosto de 2016

André Silva resolve, mas não disfarça tudo

Soube bem. Uma daquelas vitórias em que a qualidade pode só aparecer as espaços, mas que não deixou dúvidas quanto ao empenho e luta da equipa. Desde 2004, o FC Porto ganhou sempre o primeiro jogo da época em casa no campeonato. A última equipa a impedir isso foi o... Estoril, com um 2x2 no Dragão, resultado que envergonhou toda a gente, inclusive um banco de suplentes que tinha Quaresma, Raúl Meireles, Derlei e McCarthy. Comparando com o banco de ontem, certamente dará que pensar. Já lá vamos.

O FC Porto nem sempre jogou bem, mas teve o caudal ofensivo suficiente para justificar a vitória. Cruzou, rematou, pressionou, poucas vezes deixou o Estoril contra-atacar e coube a André Silva mostrar que o FC Porto, mesmo em dias não tão bons, pode contar com ele. Mas depender sempre dele, não. Para bem do FC Porto e do próprio André Silva. Segue-se o dificílimo jogo em Roma e a não muito menos complicada visita ao Sporting. Na antecâmara a esses desafios, a vitória contra o Estoril deixou claro que vamos ter um FC Porto lutador e combativo, mas com opções manifestamente curtas para esperar - ou poder exigir - vitórias que não se vêem desde 1996 (no caso de Itália) ou desde 2008 (no caso de Alvalade). A história existe para ser contrariada, mas sem condições bem podem rezar a todos os Espíritos e Santos. 





Miguel Layún (+) - É impressionante a capacidade de Layún, o lateral, conseguir criar mais situações de golo do que Corona, Varela e Adrián juntos. Tentou 4 vezes o remate, mas destacou-se novamente sobretudo nas assistências, ao fazer 8 passes/cruzamentos para zonas de finalização. Com ele, o FC Porto tem sempre um dínamo constante na asa esquerda, que nunca deixa que a equipa adormeça. Porque perdeu prontamente a titularidade para Alex Telles, só Nuno Espírito Santo o poderá explicar. A intenção de meter os laterais a procurar mais a linha e menos o espaço interior pode ajudar a justificar. Então que faz a Layún? Com 20 metros de corredor pela frente, puxa para dentro, cruza a partir de zona interior e mete a bola redondinha para André Silva fazer o resto. Que se lixe a profundidade, que se lixe a linha. Layún cruza de onde quer e para onde quer. E assim o FC Porto ganhou o jogo.

André Silva (+) - Há quem diga que teve uma noite má. Bom, o que foi a noite má de André Silva? Foi o único capaz de meter uma bola no fundo da baliza do Estoril, marcou pelo 5º jogo oficial consecutivo e garantiu 3 pontos para o FC Porto. Se fez isto numa noite má, mal podemos esperar para ver o que fará em noites boas. Dito isto, é claro que André Silva tem que melhorar a receção (sobretudo orientada - veja e revela vídeos de Jackson quando estava no FC Porto) e decidir melhor no 1x1, mas lá está: é um ponta-de-lança que está sempre, sempre presente. Movimenta-se sempre bem e está sempre à procura da bola, sem que com isso o FC Porto deixe de sentir que tem uma referência na grande área. Se é certo que Layún cruzou a bola redondinha, André Silva foi inteligente a antecipar-se e a atacar o espaço. Um belo golo.


Rúben Neves (+) - Durante anos, houve uma teoria que dizia que o FC Porto perdia muito quando usava Fernando nos jogos em casa. Há quem diga o mesmo de Danilo Pereira, como se o médio mais recuado ainda fosse, aos tempos de hoje, o trinco que só tem que dar sarrafada, cortar a bola e jogar simples para o colega mais próximo. Basta comparar quantos golos o FC Porto sofria no Dragão com Fernando e quantos passou a sofrer desde que Fernando saiu. Não é certamente a única razão, mas o FC Porto esteve 6 anos sem perder no Dragão, sempre com Fernando como o 6 predileto.

Não é portanto por Danilo Pereira não ser pertinente nos jogos em casa que foi para o banco. Está, isso sim, a acusar o facto de ter tido um período de férias mais reduzido e de ter apanhado a pré-época num ritmo avançado. Para quem não se recorda, Danilo apresentou-se no Olival e dois dias depois Nuno meteu-o logo a titular em Guimarães. Danilo Pereira ainda não está no ponto fisicamente, e Rúben Neves dá todas as garantias para, nos jogos em casa, jogar sem problema na posição 6. E de certeza que não foi por ter chorado, pois pobre do treinador que dá a titularidade a um jogador só porque este jogou.

Rúben Neves jogou porque é uma garantia de qualidade. Não tem a dimensão física, nem o jogo aéreo de Danilo, mas todo o jogo do FC Porto começou e passou pelos seus pés (fez mais de 90 passes). A diferença, que favorece Rúben Neves, é a amplitude que o FC Porto ganha com ele em campo. A bola circula mais, os passes longos saem melhor (embora não tenha deixado de falhar alguns - melhorou muito na segunda parte), e dispensa que a bola passe por 4 jogadores para ir de um flanco ao outro. A abertura para Layún foi soberba. Ele e Danilo não são incompatíveis em campo. Mas estando um ou outro, nunca será por aí que o FC Porto terá menos argumentos para vencer. Pelo contrário. Se falta criatividade, não é por quem está na posição mais recuada do meio-campo, mas sim por quem está à frente.

Ataque constante (+) - Contra a Roma, o FC Porto teve muitas dificuldades em entrar na grande área. Contra o Estoril, mudança completa: dos 17 remates que a equipa fez na primeira parte, 15 foram feitos dentro da grande área. Assim, com tanta capacidade de meter bolas na grande área (algo que tem muito a ver com a utilização de Layún), pode entender-se a preferência por um jogador com o perfil (expressão-chave) de Depoitre. Com tantas bolas a cair na grande área, haverá sempre uma ou duas a serem aproveitadas. O FC Porto fez 39 cruzamentos e beneficiou de 17 pontapés de canto. São muitas bolas a cair na grande área, e André Silva não pode estar em todo o lado. No entanto, há também que criar alguma versatilidade. Por exemplo, a determinada altura Nuno só pedia a Corona para meter a bola na área. Corona esteve sempre a fazê-lo, mas dos seus 14 cruzamentos só 3 foram parar a zonas de remate dos colegas. Ainda assim, com tanto caudal ofensivo, será uma raridade para o FC Porto não fazer golos no Dragão.





Pobreza alternativa (-) - Assim que começou a segunda parte, o FC Porto já não tinha mais opções de ataque no banco. É inqualificável que o FC Porto chegue a este jogo tendo apenas Adrián López como opção de ataque no banco. Tudo isto começa na forma como estão condicionas as opções de Nuno Espírito Santo. Sim, acham mesmo que NES não usa Brahimi ou Aboubakar simplesmente porque não quer? É certo que tem que haver alguma concertação entre o treinador e a SAD. Se o treinador sabe que a SAD precisa de vender Aboubakar ou Brahimi, tudo bem. Mas se assim é, há que dar alternativas ao treinador!

Por exemplo, Vítor Pereira sabia que ia perder Falcao e Hulk. Mas pôde usá-los no início de época. Neste caso, Nuno não utiliza Brahimi e Aboubakar e nem sequer tem alternativas. Crítica, talvez, só por ter preterido Gonçalo Paciência, que não conta para NES desde o início da pré-época. E ontem, sem um único ponta-de-lança como alternativa a André Silva, teria certamente dado muito mais jeito do que Sérgio Oliveira, também ele regressado dos Jogos Olímpicos. Aqui, a responsabilidade é de Nuno. Uma coisa é não ter alternativas em número, outra é tê-las mas achar que a qualidade não chega. Mas se assim é, normalmente aproveita-se o que se tem. 

Há também a questionar os casos de Alberto Bueno e João Carlos Teixeira. João Carlos era o maior criativo dos 3 médios que o FC Porto tinha no banco. Então fica João Carlos no banco para entrarem André André e Sérgio Oliveira, ao mesmo tempo em que o FC Porto fica sem o seu médio mais criativo (Otávio)? Não fosse o golo de André Silva e NES já estaria a receber o seu primeiro enxoval de críticas pelas suas opções táticas. Mas na verdade, o golo não passou pelos médios - foi de Layún para André Silva. As mexidas no meio-campo deixaram muito a desejar. João Carlos Teixeira tem tudo para ser um jogador útil, sobretudo não havendo mais opções criativas disponíveis. Assim, como entender o seu papel, sobretudo diante do possível e agradável regresso de Óliver? E o que dizer de Alberto Bueno? Aqui, são opções do treinador, então NES só pode responder por elas. Mas na ausência de alternativas a Aboubakar e Brahimi, a responsabilidade é da SAD. 

O único avançado ontem disponível como alternativa era um jogador que, há um mês, estava dispensado na equipa B. Se o FC Porto quer lutar pelo título e ir à Champions, não pode apresentar uma pobreza tão grandes a nível de alternativas. Em quantidade e qualidade. 

Silvestre (-) - Nunca houve treinador do FC Porto que não gostasse de Varela. Foi assim com Jesualdo, Villas-Boas, Vítor Pereira, Paulo Fonseca. Até Lopetegui o queria muito no arranque para 2014-15. Em 2015-16, percebeu que já não era o extremo que idealizava. E Nuno, com os 45 minutos de ontem, arrisca muito bem concluir o mesmo. Admita-se, não fez sentido nenhum Varela fazer uma pré-época (maioritariamente) a lateral para ontem jogar a extremo. Mas Varela já não é aquele extremo de rasgo, capaz de galgar metros com bola, evitar um ou dois defesas e criar lances de perigo. Varela é cada vez mais um extremo de apoio, por a velocidade já não ser a de outros tempos. Mas jogando em apoio, Varela tem que fazer várias coisas: segurar bem a bola, solicitar o lateral pelas suas costas, ter critérios nos cruzamentos para a grande área e saber procurar os médios no espaço interior. Ontem não fez nada disso. Assim não. Se é certo que poucos extremos trintões são titulares no FC Porto, nenhum a jogar assim mereceria sequer um lugar na ficha de jogo. Pede-se mais ao melhor marcador português da história do Estádio do Dragão.

Duas notas finais. O Tuttosport diz que Rúben Neves foi oferecido por Jorge Mendes à Juventus. Ora os empresários não podem oferecer jogadores sem terem uma procuração atribuída pelos clubes, portanto: a) ou o Tuttosport mentiu; b) ou Jorge Mendes ofereceu ilicitamente o jogador; c) ou o FC Porto permitiu de facto a Jorge Mendes que este oferecesse Rúben Neves à Juventus. Pim-pam-pum.

André Silva renovou até 2021, com cláusula de rescisão de 60 milhões de euros. Felizmente, esta renovação de contrato foi bem mais fácil de fechar do que a renovação de 2014, que quase afastou André Silva do FC Porto. Saúde-se esta excelente notícia, antes de André Silva se estrear na seleção nacional. O FC Porto comunicou a informação básica, não falando sobre a eventual envolvência de Jorge Mendes na renovação de contrato, ou se eventualmente o agente ficou com uma parte (digamos 10%) do seu passe. Seria, sem dúvida, preocupante quanto ao rumo a seguir na aposta na formação. É que a Promosport já tinha 10% de André Silva. Juntando a isto eventuais 10% de Jorge Mendes (que, diga-se, é a percentagem base de Mendes nas vendas a outros clubes), seriam já 20% nas mãos de empresários num atleta que só há bem pouco tempo começou a ganhar o seu espaço no FC Porto. E tendo uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros, estaríamos já a falar de potenciais 12M€ destinados a empresários. Deve ter sido mesmo difícil convencer André Silva a renovar contrato com o clube do seu coração. Que nunca ninguém ganhe nada com uma transferência de André Silva, pois seria sinal de que continuaria muitos e longos anos no FC Porto. É o que todos os adeptos do Futebol Clube do Porto desejam.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Rafa e o resto

A opinião d'O Tribunal do Dragão foi dada a conhecer ainda antes do futuro de Rafa ficar definido, e mantém-se - as avaliações, depois de conhecido o futuro de um jogador, podem ser sempre influenciáveis. Portanto, foi feita antecipadamente. E de todas as más notícias que o FC Porto possa ter nesta pré-época, não contratar Rafa, num potencial negócio de 20 milhões de euros, é provavelmente a última delas.

Problema seria não haver alternativa
O problema não é a não chegada de Rafa. É ter esperado, esperado, esperado por Rafa e, uma vez mais, o FC Porto ficar a arder. Aconteceu com Bernard, aconteceu com Lucas Lima, aconteceu com Rafa. António Salvador estava exigente? Partia-se para o plano B. Rafa não estava convencido em assinar pelo FC Porto? Partia-se para o plano B. Custava sequer metade de 20M€? Nem valia a pena sentarem-se à mesa, partia-se para o plano B.

A questão é: há plano B? Faz esta semana um mês que Nuno Espírito Santo, após a derrota contra o PSV, disse que todos os reforços estavam «identificados». Um mês depois, só chegou Depoitre, e nem sequer chegou a tempo do playoff, o objetivo para acelerar a sua contratação (se já estava identificado e demorou tanto tempo a ser contratado, pior ainda).

Não há Rafa, há mais jogadores. Certamente mais baratos. Mas torna-se muito difícil explicar aos adeptos que o FC Porto não está numa posição favorável financeiramente quando se contrata Felipe, Alex Telles e Depoitre por cerca de 20 milhões de euros. Voltamos à questão: o FC Porto queria um jogador com as caraterísticas do Rafa... ou queria o Rafa? Por outras palavras, às vezes pagar 5M€ pelo Manel sai «mais barato» (expressão traiçoeira) do que pagar 3M€ pelo Zé. Como assim? Tudo pode depender da modalidade de pagamento, do custo imediato, da envolvência de determinado empresário. Coisas que não combinam com total autonomia.

Torna-se impossível afirmar que não há dinheiro para cometer loucuras quando Layún, Depoitre, Felipe e Alex Telles foram todos comprados tendo como preço base os 6M€. Agora, se o FC Porto tinha dinheiro para o Rafa, nenhum adepto vai aceitar que não haja dinheiro para uma alternativa. 

Portanto, a notícia de que Rafa vai para o Benfica não é incomodativa. Rafa não valia, à data de hoje, o que custava. Importa não esquecer que a SAD tinha que fazer mais-valias superiores a 70M€ em 2015-16, e não fez. Importa não esquecer que a SAD previa entrar na Champions diretamente em 2016-17, e não entrou. Importa não esquecer que Indi, Aboubakar e Brahimi foram afastados do plantel com vista a vendas, e ainda não foram transferidos. Importa não esquecer que a SAD do FC Porto não é auto-sustentável, por isso continuarão a ser necessárias vendas em 2016-17. Importa não esquecer que vai transitar um prejuízo que pode muito bem ultrapassar os 40M€ para 2016-17. 

Importa não esquecer que vence, em setembro, um empréstimo de 17M€ que tem como garantias Herrera ou Brahimi. Importa não esquecer que o FC Porto terá, ao longo do próximo ano, 79M€ de dívida à banca para pagar/renegociar. Importa não esquecer que o FC Porto tinha previstas despesas de 36M€ com jogadores que já estavam no clube para 2015-16. Importa não esquecer que o FC Porto não acaba hoje, e que não podemos hipotecar o futuro por um presente que nem sequer é garantido

Portanto, não fico preocupado por Rafa não ter vindo para o FC Porto. Fico, isso sim, preocupado por a 19 de agosto ainda não haver «o» extremo que o mercado deveria trazer. Se o FC Porto não passar em Roma, será muito por culpa da escassez de opções disponíveis para estes jogos. Repare-se que a expressão não é escassez de contratações, mas de opções. Ter Brahimi, Aboubakar ou até Depoitre ou Gonçalo Paciência disponíveis para esse jogo já daria qualquer coisa mais.

Mas para alguns portistas, isto já não foi apenas falhar a contratação de Rafa. Isto foi perder uma batalha com o Benfica. Embora entendendo o lamento, mas afinal o que queríamos? Rafa era encarado como um reforço para o plantel ou como um braço de ferro para mostrar que o Benfica ainda não vence as batalhas todas? Sinceramente, não faz sentido encarar isto como nenhum tipo de derrota perante o Benfica. O FC Porto queria Rafa antes do Benfica. Queria-o para reforçar o plantel, não era para dizer que desviou um jogador do Benfica. Logo, ter ido para o Benfica é igual a ter ido para o Sporting, para o Zenit ou para o Agrário, onde Vítor do Poste estaria sempre atento ao limite do fora-de-jogo. 

Mas sim, há um padrão que preocupa com naturalidade os adeptos. Todos se lembram de casos que vão desde Lisandro a Falcao, Alex Sandro a Mangala, Danilo a Álvaro Pereira. Jogadores que o Benfica queria e que o FC Porto desviou - pagando mais, logicamente. Sobretudo de 2013 para cá, o FC Porto não mais desviou jogadores do Benfica (Maxi Pereira pode ser considerada a exceção). Começou a prestar mais atenção, coincidência ou não, aos alvos do Sporting (Danilo Pereira foi o único desvio realmente bem sucedido, ainda que nunca tenha estado efetivamente com um pé no Sporting). E desde 2013, o Benfica é tricampeão e o FC Porto nada vence.

Antero Henrique chegou a dizer que o FC Porto não roubava jogadores, mas sim que era «mais rápido» a agir. E era verdade. Cristian Rodríguez assinou em 5 minutos, Álvaro Pereira assinou em 4. E agora, o que é feito dessa rapidez do FC Porto? Quanto tempo terá demorado Rafa a assinar pelo Benfica? Onde está aquela sagacidade que até levava Pinto da Costa a dar gozo ao Benfica, agradecendo o trabalho dos olheiros do rival? Já agora. Se não há Rafa, onde estão as equipas sombra/virtuais do FC Porto, que permitiam identificar rapidamente uma solução no mercado? Onde está a rapidez do FC Porto na resposta às necessidades da equipa? Curiosamente, a última grande venda do FC Porto, Alex Sandro, foi dado como exemplo, numa entrevista de Antero de 2013, da eficácia das equipas sombra. 

Alguns adeptos reclamam que o FC Porto deveria ter-se pronunciado publicamente sobre o caso Rafa. Não concordo. Primeiro, porque admitir publicamente o interesse no jogador pode correr mal, como foi exemplo Raúl Jiménez em 2014. Depois, porque admitir o interesse no jogador iria criar (ainda mais) expetativas nos adeptos. O FC Porto deve sempre que possível tratar as transferências em sigilo e apresentar os jogadores quando já estão assegurados. Neste caso, não podia falar sobre Rafa, pois não sabia se ia conseguir o jogador (se havia tantos adeptos que viam em Rafa a encarnação de D. Sebastião, a desilusão podia ser maior); por outro, não podia desmenti-lo, porque estava de facto interessado. Neste caso, nada a apontar ao clube. Só esperemos que não tomem ninguém por ignorante e que agora finjam que nunca quiseram o jogador. Estamos em 2016. O FC Porto não tem que desmentir o Rafa, nem lamentar que ele não tenha vindo. Tem simplesmente que ir procurar uma alternativa igualmente boa. Ou melhor. 

O desfecho do costume
Mas agora falemos, uma vez mais, de um homem que definitivamente nunca poderá ser presidente do FC Porto: António Salvador. Porquê? Porque com ele o FC Porto nunca ganha nada. Nada, zero. Desde que António Salvador é presidente do SC Braga, o FC Porto nunca sacou um bom jogador de Braga. Nem um! É que já nem o sentido de voto nos órgãos de decisão do futebol português é comum. 

Desde que António Salvador é presidente do SC Braga, o FC Porto já lhes jogadores como Paulo Santos, Cândido Costa, Maciel, César Peixoto, Jorginho, Alan, Luís Aguiar, Renteria, Diogo Valente, Adriano, Ukra, Hélder Barbosa, Miguel Lopes, Beto, Emídio Rafael, Sami ou Josué. A maioria não tinha lugar no FC Porto, mas eram jogadores mais do que úteis para o SC Braga, já para não falar de antigos jogadores da formação do FC Porto, como André Pinto ou Ricardo Ferreira.

E durante estes 13 anos, o que foi buscar o FC Porto a Braga? Andrés Madrid, Kieszek e Orlando Sá. Que proveitoso tem sido tudo isto. Enquanto o FC Porto nunca consegue nada das relações com o SC Braga, Luís Filipe Vieira leva sempre a melhor junto de António Salvador. Enquanto presidente do SC Braga, certamente que faz bem o seu trabalho: vende os jogadores pelas melhores propostas e farta-se de sacar jogadores à pala no FC Porto, enquanto mantém relações privilegiadas com o Benfica e tem Jorge Mendes a ajudar a fazer a papinha. Voltar a emprestar jogadores ao SC Braga seria perto de inaceitável. Por outro lado, isso não implica que agora se vá buscar tudo o que mexe a Guimarães, ok?

Perder Rafa não é um problema. Aceitar um negócio de 20M€ por Rafa, isso sim, seria um problema. E não ter uma alternativa a Rafa, para ontem, seria o maior problema de todos. Contra o Estoril, a mesma receita do Rio Ave: é para vencer e moralizar, mas não para iludir. E se a SAD não reagir, as ilusões não chegam ao final do mês.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Em Roma sê Porto

Já era difícil, agora tornou-se ainda mais. Não foi um problema de falta de empenho, de todo. Antes de falta de eficácia, cabeça e bastante clarividência em alguns momentos do jogo. O caudal ofensivo esteve lá, mas houve demasiada precipitação, tanto que em mais de 60 minutos a jogar contra 10 o FC Porto só marcou de penalty. E numa segunda parte que até foi bem conseguida, além do penalty (não esquecendo outro que ficou por marcar), o FC Porto só fez mais um remate na direção da baliza adversária. A parra foi vasta, a uva nem tanto e ainda não se percebe muito bem o que pretende Nuno Espírito Santo semear e colher, sabendo que os terrenos que tem à disposição não são os mais férteis. Os ventos de Roma ameaçam levar tudo. Pensemos nisso depois de vencer o Estoril.





Movimentações de André Silva
André Silva (+) - André contra o mundo. Se é certo que não foi particularmente incisivo no remate (apenas 2 em 8 à baliza), André Silva garante uma coisa que, por exemplo, Aboubakar não conseguia fazer: presença permanente. O FC Porto sente sempre que André Silva está ali. Sente sempre que há uma referência para segurar a bola, para vir buscar jogo, para atacar o espaço na grande área. É um ponta-de-lança completo, desinibido. Estreou-se na Europa com um golo, aos 20 anos. Fernando Gomes tinha 22. Não errou um único passe (15/15), arrancou 5 faltas e correu todo o meio-campo adversário, nunca tendo deixado de marcar presença na grande área, ligeiramente descaído para a direita. Vejam o heat map. Será muito difícil ir à Champions, mas se o FC Porto tiver hipóteses de ir as mesmas passarão muito por André Silva.

Movimentações de Otávio
Otávio (+) - Outro menino em estreia em noites de Champions. Também contribuiu para muito desacerto nos remates (1/6, capítulo a melhorar), mas foi sempre a gota de criatividade e capacidade individual no FC Porto. Foi o mais solicitado durante toda a partida (tocou 80 vezes na bola), meteu 5 bolas em zona de finalização e foi dos poucos a ter capacidade para, num rasgo, abrir a defesa da Roma. Está a acrescentar - e a disfarçar - muitas coisas neste arranque de época, e é cada vez mais claro que faz a diferença em zonas interiores. Quando, ou se, chegar um extremo ao plantel, desviá-lo para ser o homem mais adiantado do meio-campo será um passo natural.




Não foi discreto, foi péssimo (-) - Nuno analisou que o FC Porto teve «20 minutos discretos». Não foram discretos. Na verdade deram bem nas vistas, de tão maus que foram. O FC Porto iniciou a partida como uma equipa incapaz de assumir o jogo, de construir uma jogada, de fazer circular a bola. A pressa de meter a bola na frente era tanta que o chutão para André Silva chegava a ser irrisório. O FC Porto quer ser uma equipa de transição rápida, mas isto não é transição rápida, isto é dar a bola ao adversário e não perceber que tem que ter calma para construir, calma para perceber que para jogar em transição rápida é preciso ter espaço; e por vezes é preciso criar esse espaço antes de isso acontecer. Este trio de meio-campo - melhor, a organização deste trio - dificilmente durará muitos jogos (Herrera não pode jogar tão atrás, André não pode jogar tão à frente), ainda que o FC Porto tenha esboçado um 4x4x2. O FC Porto chega aos 35 minutos com 30% de posse de bola. Nunca vimos uma equipa vir ao Dragão ter tanta posse de bola aos 35 minutos. Dirão que isso, por si só, não ganha jogos. Mas a verdade é que a Roma massacrou durante todo esse período e, não fosse a expulsão de Vermaelen, as coisas poderiam ter ficado ainda mais feias. 

Chuta, cruza, chuta, cruza (-) - O FC Porto teve oportunidades para ganhar o jogo. Atacou muito (67 vezes), mas muitas vezes sem nexo. Os remates de fora da grande área (13) quase nunca levaram perigo. O FC Porto teve sempre dificuldades em entrar ou aproximar-se da grande área em progressão. Na segunda parte, a equipa descobriu espaço nos corredores, mas os jogadores poucas vezes conseguiam ir à linha, optando por cruzar ainda com alguma distância. O FC Porto fez 30 cruzamentos na partida, 22 dos quais na segunda parte, mas há limites para André Silva; e o FC Porto perdeu muito com a saída de Adrián López, cujas movimentações estavam a beneficiar André Silva (e o espanhol teve ações importantes no ataque). O mais irónico é que, a determinada altura, o FC Porto está sempre a meter bolas na grande área e faltava lá mais alguém para ganhar nas alturas, para bater os centrais. Depoitre, Aboubakar e Gonçalo Paciência, por diferentes razões, não deram um contributo que podia ter sido útil. 

A tradição (-) - 13 minutos de competições europeias 2016-17 e o FC Porto já tem um lance para o Watts da Eurosport. Casillas tremeu (depois salvou várias vezes o FC Porto), Alex Telles salvou, mas os fantasmas da época anterior continuam: o FC Porto treme pela mais pequena coisa na defesa. O autogolo de Felipe é um infortuito, mas em 2 jogos são já 2 golos sofridos em pontapés de canto. Na transição defensiva, o FC Porto está demasiadas vezes exposto e desequilibrado, sendo lento a recuperar. Na Roma, a maioria dos jogadores do seu 11 seriam titulares no FC Porto, o que diz muito da sua qualidade, mas uma vez mais o FC Porto sofre mais por erros próprios do que por imposição do adversário. Marcano vai sendo o melhor elemento da defesa. Isso se calhar diz muito.

O banco (-) - Nuno Espírito Santo não tem culpa da escassez de opções no banco. É inaceitável que um jogador valioso como Brahimi, o principal desequilibrador do FC Porto, não conte para o playoff da Champions. Para os mais esquecidos, foi muito graças ao argelino que o FC Porto passou o playoff de 2014-15. Para que raio foi Brahimi apresentado, então? Para não desvalorizar o ativo da Doyen? Para quê, se depois não conta para jogos importantes? Outrora o FC Porto vendia jogadores depois de eles darem o seu importante contributo à equipa; agora não só os jogadores não saem como não dão o seu contributo. No meio de tudo isto, Nuno fica com opções curtas para ir à Champions. A jogar contra 10, com a Roma completamente encostada às cordas, o FC Porto não teve opções para dar companhia a André Silva; e então que faz o FC Porto quando tem hipóteses de matar a eliminatória? Tira o jogador mais criativo da equipa (Otávio) e mete Evandro. Isto não é um FC Porto que explorou todas as suas opções para ganhar. Também porque, na verdade, não havia muito por onde escolher. Uma eliminatória começa a perder-se assim. E a culpa não foi de Nuno, nem de Felipe, nem de Herrera, nem de Depoitre. 

Duas notas. Rúben Neves não é o primeiro, nem o último jogador que está para entrar, mas depois o treinador muda de ideias. Não sabemos o que se passou durante a semana. Não sabemos se Rúben treinou sempre com os titulares, ia jogar de início e depois, em cima da hora, Nuno mudou de ideias; não sabemos o que lhe disse Nuno ao intervalo; nem sabemos o que levou Nuno a mudar de ideias. O treinador diz que num minuto as coisas mudam, e só ele saberá o que é, aos seus olhos, mudou naquele momento. Mas Rúben Neves, naquele momento, não foi o Rúben profissional; foi o Rúben adepto. Queria ver o FC Porto ganhar, queria ajudar, e deixou-se levar pela emoção. Está a viver uma nova realidade, pois saiu um treinador que favorecia as suas caraterísticas (Lopetegui) e tem tentado, nos últimos meses, encaixar em dinâmicas diferentes. Mas Rúben tem que ser mais rijo. A sua oportunidade vai chegar novamente. Rúben Neves não está aqui de passagem. É presente e futuro do FC Porto. Teve uma quebra, assumiu-o e vai fortalecer-se. À Porto.

A titularidade de Adrián López, que curiosamente foi relevada antecipadamente na TSF, por João Ricardo Pateiro, que também já tinha confirmado Nuno Espírito Santo como treinador do FC Porto atempadamente. Qual é o primeiro dado a retirar desta titularidade? É que Adrián tem que ser titular frente ao Estoril. Nenhum adepto do FC Porto admitirá que isto tenha sido uma titularidade à Cristian Rodríguez vs Barcelona na Supertaça Europeia, com a intenção de valorizar o jogador para uma venda. Por isso, a opção de Nuno visa recuperar o jogador, recuperar o ativo. E assim é, agora há que mantê-la.

Não valerá de nada Adrián ter jogado de início frente à Roma para agora voltar para o banco. Se é para recuperar o jogador, vamos recuperá-lo, mantendo uma aposta fixa. Por exemplo, teria sido demasiado fácil atirar André Silva para o banco depois das suas dificuldades iniciais até chegar ao primeiro golo pelo FC Porto. Mas José Peseiro, com a sorte de não haver uma alternativa a garantir mais, manteve a aposta em André Silva e os resultados estão à vista. Adrián teve ações interessantes frente à Roma, não foi de todo a tábua rasa que chegámos a ver em 2014-15, e é um ativo caro no plantel. Por isso, se é para recuperar o jogador, que se tenha a certeza que o FC Porto fez tudo o que era possível. Passar da titularidade para o banco ou para a bancada seria um sinal de que a titularidade de Adrián visava a sua valorização no mercado, e não a sua reintegração no FC Porto. Ninguém admitiria isso. Por isso, vamos Adrián, de início contra o Estoril. 

E esta é para calar os críticos, que dizem que o FC Porto não dá oportunidades aos jogadores da equipa B. Adrián López, há um mês, estava na equipa B e agora foi titular no play-off da Champions. Tomem lá!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Rafa

É o nome mais incontornável deste defeso, numa novela que se arrasta há semanas e que será pela primeira vez analisada neste espaço. Rafa pode, simultaneamente, ser uma boa adição ao plantel e um mau exagerado negócio no contexto atual. Um paradoxo, sem dúvida, mas que não é exceção (Hulk também foi uma excelente adição ao FC Porto, mas o custo do seu passe foi altamente sobrevalorizado). Tudo dependerá dos custos envolvidos. Rafa não vale 20 milhões de euros. E é difícil aceitar que valha sequer metade. Recuemos um ano no tempo.

A última Coca-Cola (?)
«Se (o Rafa) vale 20 milhões, se calhar o Gonçalo Paciência ou o Ricardo Pereira valem 25 milhões. E o Ivo Rodrigues valeria 20». Palavras sábias de Pinto da Costa, que admitiu o interesse no jogador, mas reconhecendo que pagar 10 milhões de euros na altura por Rafa (correspondentes a 50% do passe que o Braga detinha) era, citando, «uma burrice». 100% de acordo. Podemos gostar de Rafa, mas não estamos a falar de um jogador que valha nem sequer perto os valores que estão a ser veiculados.

Vejamos. Há um ano, Rafa era um suplente dos sub-21. Hoje, é um suplente da seleção A, que foi ao Euro 2016 para jogar apenas 1 minuto contra a Áustria. O Euro2016 não valorizou Rafa, a não ser que considerem que o simples facto de marcar presença nos bancos de um Europeu faz com que o valor do passe dobre.

No Braga, o que foi a época 2015/16 de Rafa? Objetivamente, foi muito melhor do que a época anterior. Valorizou-se, sim. Passou a 20 milhões de euros? Não brinquem.

Estamos a falar de um jogador que não tem propostas de Inglaterra, não tem propostas de Itália, não tem propostas de Espanha. Rafa teve uma proposta do Zenit, que não lhe suscitou interesse, e tem o convite do FC Porto, que há um ano não lhe despertava interesse mas agora, com perspetivas de titularidade e percebendo que não está a despertar o interesse de nenhum outro clube (nem com Jorge Mendes associado), já encara o FC Porto com bons olhos. 

Mas compare-se o rendimento de Rafa com o do seu colega de equipa Pedro Santos. Rafa, em 30 jogos na Liga, fez 8 golos e 2 assistências. Já Pedro Santos, em 23 jogos, fez 7 golos e 6 assistências. Há mais para além de golos e assistências, claro. Por exemplo, ver a eficácia e número de remates (1,9 e 16% por jogo), as tentativas de drible eficazes (38%), o número de situações de golo criadas por 90 minutos (apenas 1.2) e a eficácia de passe em zona de perigo (74%). E em todos estes aspetos, estatisticamente, Rafa perde em todos os dados para Corona, Otávio e Brahimi em 2015-16. 

Tendo em conta que o FC Porto, ainda que não controlando a totalidade dos seus passes, não chegou a pagar 20M€ por Corona, Otávio e Brahimi juntos, não faz sentido aceitar por Rafa tal avaliação, tendo em conta que Rafa não garante, no curto prazo, nada acima de Brahimi ou Corona. Tirando, sem dúvida, a velocidade. Mas como aproveitar essa velocidade?

Pensar em tirar proveito de um jogador veloz não pode ser pensar apenas em correr, caso contrário Hernâni hoje estaria aqui. Um exercício: abram um vídeo qualquer de Rafa, no Youtube, e vejam como e onde ele faz a diferença. Em 80% dos lances em que se destaca, Rafa sobressai pelas suas arrancadas. Quando arranca com bola, sempre coladinha ao pé, é quase sempre imparável. É essa a sua grande valia. Se tem espaço, arranca e não o param.

Comparando com Brahimi, que está de saída, a diferença é que Rafa é mais direto. É forte nas diagonais e as suas arrancadas são mais orientadas, procurando sempre a baliza, enquanto Brahimi, por exemplo, retia mais a bola. Mas Brahimi, mesmo entre as suas rotundas, acabava por rematar mais e melhor (2,9 remates/jogo, com eficácia de 29%), finta melhor (55% de eficácia) e passa melhor (86%) no meio-campo adversário. Rafa pode aumentar os seus números jogando num FC Porto de ataque? Sem dúvida que sim. Mas é um produto inacabado. E o FC Porto não pode entrar em loucuras por produtos inacabados.

O FC Porto não tem um jogador com as caraterísticas de Rafa no plantel, mas Rafa vai ter que se adaptar a uma nova realidade. Aqui não terá tanto espaço para jogar e vai sofrer marcações mais apertadas. Rafa não é um João Moutinho - o mais caro entre transferências de jogadores portugueses (Rafa não vale o que Moutinho valia em 2010) -, que tinha caraterísticas para chegar e encaixar na equipa. Rafa não poderá ser no FC Porto o que era no Braga. Muito menos o que era nos sub-21 ou na seleção A. Isto, claro, se o negócio se concretizar.

O Braga controla, neste momento, 80% do passe de Rafa, depois de se ter comprometido a pagar 4M€ para recuperar 40% do passe que pertenciam a Jorge Mendes. Esta recompra avaliaria Rafa em 10M€, embora isso nunca seja linear. Mas o Braga só terá que pagar essa recompra depois de transferir Rafa. Ou seja, António Salvador estará pressionado a vender nesse sentido - jamais iria já recuperar a % do passe se não fosse para vender. Mas António Salvador nunca, nunca deu um bom negócio ao FC Porto. Pelo contrário, o FC Porto já deu ao SC Braga uma dúzia deles.

O que tirou o FC Porto da ligação ao Braga na última década? Escolham se gostaram mais de Kieszek, de Andrés Madrid ou de Orlando Sá. O SC Braga foi sempre bem mais proveitoso para o Benfica. Benfica esse também atento a Rafa, mas só com disponibilidade para avançar se vender Carrillo e/ou Salvio. Mas o mais curioso é que, embora Jorge Mendes já não controle o passe de Rafa, pode indiretamente ajudar o Benfica, com propostas daquelas mirabolantes pelos referidos jogadores por parte de clubes como o Mónaco, Atlético ou Wolves. O Sporting também desejava Rafa, mas dependeria da venda de João Mário e outro jogador.

Rafa, concretamente, é um jogador com pouco mercado, o que por si só justificaria que o FC Porto jamais aceitasse entrar em loucuras por ele. É simplesmente impossível que o competente departamento de scouting do FC Porto não seja capaz de identificar jogadores com as caraterísticas de Rafa que custem um terço. E às vezes nem é preciso ir muito longe - todos viram o exemplo de Diogo Jota, que despontou no Paços, aos 18 anos, para fazer uma época superior à de Rafa no campeonato. O clube vendeu 60% do seu passe por 65 mil euros em 2014. Será que a Pacheco & Teixeira, que comprou 20% do passe por 30 mil euros, tem quem perceba mais de futebol do que o FC Porto? Certamente que não.

Rafa pode ser útil? Pode. Se vale 10, 15 ou 20 milhões de euros, então toda a Europa do futebol parece estar a dormir. É que entre clubes espanhóis, ingleses, alemães, franceses ou italianos, endinheirados, nenhum pareceu interessado em avançar por Rafa. Já o FC Porto, que vem de uma época de prejuízo colossal e não gerou as mais-valias necessárias (acima de 40M€), tendo manifestas limitações neste momento na capacidade de investimento (e ainda sem vender ninguém), é que parece ser o único clube a considerar que Rafa é a última Coca-Cola do deserto. O FC Porto ou, a bem da verdade, muitos dos seus adeptos.

Então: o FC Porto precisa de um jogador com as caraterísticas de Rafa... ou precisa mesmo do Rafa? Não há justificação possível para, neste momento, colocar Rafa num pedestal e fazer dele um dos jogadores mais caros da história do FC Porto e o mais caro da história do Braga. Se António Salvador puxa a corda, boa sorte a tentar conversar com outro clube. O FC Porto já esteve dependente de alguns jogadores que fizeram parte deste clube, como Madjer, Deco ou Hulk. Mas nunca esteve dependente de jogadores que não chegaram a ser contratados. 

Não será pela ausência de Rafa que o FC Porto deixará de ter menos hipóteses de lutar pelos seus objetivos. A não ser que todos os restantes clubes da Europa estejam condenados ao insucesso, pois, tirando o Zenit, aparentemente nenhum deles se lembrou de Rafa. Se António Salvador quiser continuar a esticar a corda, cá vai um refresco de memória do quão arriscado isso pode ser: em 2013 disse que recusou 23M€ por Éder e 14M€ por Douglão. Que grande desvalorização sofreram até à hora de saída.

Se não houver acordo por Rafa, por desacordo de verbas, não haverá problema nenhum, pois pelo preço exigido pelo SC Braga o FC Porto encontra - ou deveria encontrar - facilmente alternativas a Rafa. O problema não será se não vier Rafa: é se o FC Porto depositar exclusivamente as suas fichas em Rafa e, no final, não vier ninguém. Mas quem vier, já vem tarde, pois vamos para o play-off sem extremo, sem Rafa, sem Brahimi (que sentido faria jogar contra a Roma se não foi opção para a 1ª jornada?). Vão fazer falta? Esperemos que não. Nem quarta-feira nem durante a época. 

domingo, 14 de agosto de 2016

Para moralizar, não para iludir

A história é sempre a mesma. Na primeira jornada, não importa se há ópera [inserir estilo musical favorito], o que importa é ganhar. Na 2ª vai ser igual. E na 3ª. E em qualquer jornada em que seja essencial ganhar pontos, ora para aumentar ou encurtar distâncias em relação aos rivais, ora para mantê-las. Nunca chega a haver muito bem uma necessidade de futebol deslumbrante, mas sim de pontos e vitórias. Sabendo que bom futebol deixa sempre qualquer equipa mais próxima de vencer.

O FC Porto fez o que importava, estreando-se a vencer, mas sem deixar de espelhar as dificuldades próprias de uma pré-época que deixa imenso a desejar, inclusive e sobretudo na gestão de ativos. Os casos de Brahimi e Aboubakar, que deixam Nuno Espírito Santo a ter que responder perante questões incómodas, são ilustrativos. O FC Porto não deveria nunca deixar de tirar partido dos seus ativos, estando eles ou não próximos da saída. Vejam-se os casos de Falcao e Hulk, que iniciaram a época antes de serem transferidos. 

Poderão dizer que Brahimi e, sobretudo, Aboubakar não têm a influência que Hulk ou Falcao tiveram. Mas outrora o FC Porto vendia jogadores quando atingiam o pico de valorização e já tinham ajudado a equipa a conquistar títulos. Nos casos de Indi, Brahimi e Aboubakar, não só não atingiram o tal pico como saem sem colaborar na conquista de títulos; além de que saem primeiramente pela necessidade do FC Porto de vendas, não por já serem, à imagem de Falcao ou Hulk, jogadores com imenso mercado e procura. 

A 15 dias do final do mês, a construção e redefinição do plantel continua atrasada de forma muito preocupante (palavra mais simpática possível neste contexto), mas a primeira vitória já cá está. Com a balda defensiva já tradicional, mas com uma reviravolta, palavra essa tão estranha ao FC Porto no passado recente. Agora vamos ao mais difícil, com a certeza de que o FC Porto conseguiu responder às adversidades no primeiro jogo da época. 





Otávio (+) - Num só jogo, Otávio quase consegue ir a mais disputas de bola do que Quintero em toda a sua carreira no FC Porto. E é aí que vai nascendo a diferença. Otávio tem a capacidade de conseguir colocar a bola onde quer, mas com o upgrade de saber ser agressivo no meio-campo adversário. Otávio fez 6 desarmes na partida, o que não é muito próprio num médio-ofensivo (emprestado à ala esquerda - o tempo o dirá se por convicção de NES, ou por ausência do substituto de Brahimi), pressiona, corre, não se esconde do jogo. Mais do que saber ler o jogo, sabe ler os companheiros - já sabe de cor as movimentações de André Silva. O seu talento nunca suscitou dúvidas, restava saber se haveria lugar para ele num contexto de equipa. Não só há como o FC Porto não pode, neste momento, dispensar o seu virtuosismo.


Efeito mexicano (+) - Mesmo encondendo-se do jogo muitas vezes, Corona foi objetivamente dos mais perigosos do FC Porto. Fez um bonito golo e procurou dar sempre o corredor a um algo desgastado Maxi Pereira, com quem nem sempre combinou da melhor forma. Ainda assim, meteu duas bolas em zonas de finalização e as vezes em que arriscou no 1x1 foram bem sucedidas (6 em 8). Quando Corona aparece, aparece bem. Mas precisa de aparecer muito mais. Já Héctor Herrera, numa posição mais recuada do que o recomendável (já lá vamos), foi o poço de energia habitual, abriu e transportou jogo, também faturou e foi o mais esclarecido do meio-campo.

Outros destaques (+) - Ao primeiro jogo oficial, um efeito positivo de meter os laterais a procurar a linha em vez do espaço interior (foi assim que Alex Telles cruzou para o 1x1). André Silva jogou com a disponibilidade e versatilidade habitual e marcou o ponto, mas se for para bater penaltys vai ter que praticar muito, pois nunca foram uma especialidade sua. Jogo bastante sereno e positivo de Marcano.





Meio caminho (-) - Resumidamente: André André não pode jogar tão à frente e Herrera não pode jogar tão atrás. Pode ser circunstancial, pois a chegada de um extremo pode levar NES a rever os seus planos para Otávio, mas André André é uma formiguinha de trabalho, talhado para jogar na posição 8 quando está bem fisicamente; mas nunca vai ter aquele palmo de criatividade necessária para jogar mais próximo de André Silva. Por outro lado, Herrera melhorou muito na segunda metade de 2015-16 por ter subido no terreno. É certo que Herrera, jogando mais recuado, tem mais soluções para pegar no jogo, mas não pode ficar tão próximo do raio de ação de Danilo. Além de que Herrera é o melhor médio do FC Porto a aparecer em zonas de finalização e também aquele que mais rapidamente consegue recuperar posição numa transição. Esta estrutura de meio-campo dificilmente desbloqueará jogos mais difíceis ao longo da época.

Passividade (-) - Os primeiros 30 minutos foram francamente maus para o FC Porto. A equipa melhorou, mas sem deixar de permitir ao Rio Ave mais ousadia do que seria admissível. O Rio Ave meteu 9 bolas em zona de finalização, contra 8 do FC Porto. Felizmente, a eficácia fez a diferença a favor do FC Porto. Além disso, por 29 vezes o Rio Ave conseguiu meter a bola na grande área do FC Porto (que meteu 30 na área adversária). No passado recente, vimos qualquer equipa a marcar facilmente ao FC Porto, nem que só atacasse uma vez. Dar tanta iniciativa ao Rio Ave (que fez 13 remates, contra 12 do FC Porto, ainda que grande parte de meia distância) não é um bom presságio.

A rever (-) - Não é que se possa esperar que Felipe, com 27 anos, pouco mais de dois de futebol a sério e em estreia na Europa, não vá ter algumas dificuldades na adaptação ao futebol europeu. Mas a insegurança e o nervosismo foram claros - e Felipe não tem em Marcano um central que vá, propriamente, assumir-se como patrão durante a sua adaptação. Felipe sentiu o dilema entre pontapear ou tentar construir. Coisas que terá que melhorar num ciclo de jogos dificílimo. Ingenuidade de Alex Telles na expulsão (e simultaneamente perceber que aqui pode ver cartões com muita facilidade), Maxi Pereira (13ª época sempre a jogar, sem lesões graves) acusou algum cansaço. É bom lembrar que Maxi Pereira recusou um período de férias, depois da Copa América, para começar a trabalhar mais cedo no FC Porto. Esperemos que o descanso não lhe faça falta, pois será difícil Maxi Pereira voltar a fazer uma época com 40 jogos. Por fim, pede-se um pouco mais de rapidez e destreza no ataque do FC Porto, que obrigue o Rio Ave a recorrer mais vezes à falta (o Rio Ave só fez 9 faltas em todo o jogo e 5 foram sobre Otávio, enquanto o FC Porto fez o dobro).

Neste momento, o FC Porto é líder da Primeira Liga. O mais difícil não é chegar à liderança, é mantê-la. Mas o primeiro passo já foi dado.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Pontapé de saída

Quem não se lembra do colinho que até atropelou os regulamentos da FIFA? Tiago Martins e Fábio Veríssimo foram promovidos a árbitros internacionais contra as diretrizes da FIFA, que indicam que os árbitros «devem ter arbitrado regularmente na principal divisão do seu país durante pelo menos dois anos».

Tiago Martins foi promovido quando tinha dois jogos de Primeira Liga, enquanto Fábio Veríssimo, no espaço de um mês, passou de árbitro na distrital a árbitro internacional.

Entretanto, mudou a mosca, mas o resto permaneceu intacto. Saiu Vítor Pereira, entrou José Fontelas Gomes. Mas não sem em novembro último Vítor Pereira pisar, uma última vez, as recomendações da FIFA. João Pinheiro, então com 27 anos e apenas dois jogos de Primeira Liga, foi promovido a internacional, juntamente com Sérgio Piscarreta, que em 2015 passou do C2N3 para a primeira categoria. E que bem correu.


Piscarreta foi despromovido no ano seguinte não só à sua promoção à primeira categoria mas também no seu ano de estreia como árbitro internacional. Isto no ano seguinte à histórica descida de Marco Ferreira, que logo depois abandonou a arbitragem e revelou o que passava nos bastidores. Nunca será de mais lembrar. 


O Conselho de Arbitragem não só promove árbitros contra as diretrizes da FIFA como é capaz de, no ano seguinte, despromover o mesmo árbitro. É histórico para Piscarreta. Nenhum outro campeonato na Europa tem um caso idêntico. 

E agora vemos a ascensão de João Pinheiro, um jovem árbitro, agora de 28 anos, que foi promovido a árbitro internacional em novembro de 2015 - um mês após ter apitado pela primeira vez um jogo grande, no caso um jogo do Benfica na Taça de Portugal. Tirando isso, tal como Tiago Martins, tinha apenas 2 jogos de Primeira Liga na carreira. 

João Pinheiro foi um de 11 árbitros a declarar apoio a José Fontelas Gomes na corrida à presidência do Conselho de Arbitragem, num elenco de luxo que contava com nomes como João Capela, Carlos Xistra, Bruno Paixão, Jorge Ferreira e Manuel Mota. E agora, na primeira época completa que terá Fontelas Gomes como presidente do CA, o jovem árbitro vai estrear-se num jogo grande da Primeira Liga.

Qual? O Tondela - Benfica. Oxalá o jogo corra bem, pois seria tramado um jovem e promissor árbitro, internacional aos 27 anos, ficar desde logo manchado pela histórica dificuldade do Benfica em começar os campeonatos a vencer.


Está dado o pontapé de saída para a carreira de Fontelas Gomes à frente do CA, na mesma jornada em que Fábio Veríssimo, outro internacional precoce, vai arbitrar o FC Porto, enquanto Carlos Xistra vai dirigir o Sporting. Sporting esse que merecerá todo o interesse em ser seguido durante a época 2016-17, em particular a sua equipa de juvenis, que contratou o talentoso Alexandre Gomes. Que só por mera e impertinente coincidência é filho de José Fontelas Gomes. Aquela perguntinha que irrita: o que se diria se fosse o FC Porto?

PS: Já foi dito praticamente tudo sobre o caso Depoitre. Ninguém sabia que o jogador não podia ser inscrito para o playoff da Champions. Mas a quem gere os destinos do FC Porto é sempre exigível muito mais. E nem é exigir assim tanto, basta saber os regulamentos das provas em que o clube está inscrito. O presidente confirmou que o assunto foi tratado com máxima celeridade, enquanto estava a acompanhar a Volta, e Depoitre chegou ao Porto na companhia de D'Onofrio às 2 da manhã. Pinto da Costa diz que foi inscrito com o objetivo de estar disponível para a Champions. Ou seja, não houve nenhuma reserva ou cautela assumida, pois a verdade é que o FC Porto julgava que o jogador podia jogar. Não podia, até porque o regulamento não permite diferentes interpretações. Felizmente o «esclarecimento» publicado pelo FC Porto não é assinado pelo Conselho de Administração, senão a vergonha seria ainda maior. Ou então é maior ainda por não ser diretamente assumido, e por ter que ser Nuno Espírito Santo (já começa!) quem teve que responder às questões sobre esse tema.

Depoitre vs. pré-época
Mas de facto, é confusa a questão de contar com Depoitre já para o playoff da Champions. Conforme foi defendido no post anterior, o FC Porto passou toda a pré-época a treinar e a trabalhar um esquema no qual Depoitre não encaixa (pelo menos nunca tão bem como André Silva). E era com uma semana de trabalho que ia já ser opção contra a Roma? As caraterísticas de Depoitre são mais importantes do que os mais de 50 treinos que Nuno fez com o plantel? É verdade que meter um ponta-de-lança forte na grande área para o chuveirinho não é a tática mais complicada de se trabalhar, mas o FC Porto teve quase 2 meses para preparar uma dinâmica de jogo forte, em que se assuma e possa confiar em André Silva. Se Depoitre iria fazer falta, tinha que ser contratado muito antes, não em cima do fecho das inscrições. A demora tem uma palavra, a mais utilizada nos últimos três dias: amadorismo. Um erro que não víamos em Portugal desde que o Sporting, de Godinho Lopes, tentou inscrever Marius Niculae (com as devidas diferenças, de bem maior gravidade pendente para o FC Porto). Bater no fundo não é perder com o Tondela, é ter um ato de gestão só à altura do Sporting de Godinho Lopes. 

Embora Depoitre tenha sido contratado com o objetivo de estar já disponível contra a Roma, não foi contratado para jogar apenas o playoff. A época será longa e oxalá consiga revelar utilidade em jogos futuros. De preferência antes do final do mês. Porque se acham que já seria útil com uma semana de treinos, então isso só pode deixar água no boca para quando tiver um mês de trabalho.

O FC Porto começa amanhã um campeonato para o qual não é favorito. Não, o FC Porto não é favorito para ser campeão em 2016-17. E o que é isso de ser favorito? Basicamente, aquilo que o Bayern Munique era na final da Taça dos Campeões Europeus de 87, ou aquilo que o Manchester United era nos oitavos de 2004, ou aquilo que a França era no Euro 2016. O padrão está bem claro: o favoritismo cai quando se depara contra uma equipa onde todos remam para o mesmo lado, em prol do bem comum e maior. O problema existe quando acham que isto tem que começar pelos internautas, e não pelos superiores. A Nuno Espírito Santo e ao plantel uma mensagem de força e incentivo. Enquanto lutarem pelo FC Porto, os portistas lutarão com vocês.

PS2: Só para lembrar. O International Board aprovou uma série de alterações nas leis de jogo para esta época, que o FC Porto vai estrear em Vila do Conde. Era só mesmo para lembrar. Não vá alguém esquecer-se dos regulamentos.