quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Noite de Champions

«Leicester, Club Brugge e Copenhaga. Resumidamente, o FC Porto já passou em grupos mais complicados e já foi eliminado em grupos mais fáceis. O objetivo é ir aos 1/8, algo que já foi assumido. No ano passado o FC Porto parecia ter feito o suficiente, mas 10 pontos não chegaram. Apontemos, pelo menos, aos 11 esta época, embora sempre com a intenção de ganhar todos os jogos. Será certamente um grupo competitivo. O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra (15 derrotas em 17 jogos), não ganhou nas três últimas visitas à Dinamarca e na Bélgica perdeu seis jogos em sete. Leicester, Club Brugge e Copenhaga são campeões dos respetivos países e, muito provavelmente, cada uma destas equipas pensa o mesmo que o FC Porto: o grupo podia ser muito mais complicado».
Este foi o comentário d'O Tribunal do Dragão aquando do sorteio dos 1/8 da Champions e podemos falar em objetivo cumprido e expetativas correspondidas. O FC Porto garantiu o apuramento, com os tais 11 pontos, apesar de ter voltado a perder em Inglaterra, não ter ganho na Dinamarca, ter passado por dificuldades na Bélgica (o penalty de André Silva, nos descontos, tudo mudou) e não ter ganho ao Copenhaga no Dragão (a única coisa anormal neste percurso). Foi difícil, mas a equipa cumpriu, deixando para o fim um recital que deixou todos os portistas satisfeitos. No final, são 11 pontos. Tantos quanto os de Benfica e Sporting juntos. 


Champions é Champions: encontrar APOELs, Artmedias e Áustrias de Viena não é garantia de goleadas. É certo que a equipa que ontem visitou o FC Porto nada tem a ver com a que ganhou a Liga Inglesa, mas isso não retira brilho a uma exibição competentíssima, de absoluto controlo do primeiro ao último minuto. Foram cinco, podiam ter sido mais, e nunca ninguém sentiu que o apuramento para os 1/8 estaria em risco. Anormal seria não passar este grupo, um dos mais fáceis que o FC Porto alguma vez encontrou, mas todos os jogos começam 0-0. E nas últimas semanas muitos não saíram daí.

No último jogo da fase de grupos, o FC Porto conseguiu fazer mais golos do que nos 5 anteriores. O Leicester jogou, conforme esperado, com uma equipa de suplentes, mas não levou cinco porque relaxou: simplesmente foi incapaz de parar uma noite em cheio do FC Porto. Foi uma noite em que, mais do que qualquer debilidade do adversário, o que sobressairia sempre seria a qualidade do FC Porto. E isto não tem a ver apenas com eficácia: tem a ver com volume ofensivo, com o não entregar a iniciativa de jogo ao adversário (a grande mudança em relação ao FC Porto de NES ontem), circular a bola, forçar a entrada na grande área e colocar os melhores atacantes a potenciar as suas caraterísticas.

Quanto à Champions os objetivos foram cumpridos (primeiro o playoff, depois os 1/8). A partir daqui, tudo dependerá do sorteio para redefinir expetativas. Quando à Champions, está feito o mínimo e o máximo exigível. Venha o Campeonato.


Postura e plano (+) - Aquele movimento típico do pontapé de saída faz confusão: ponta de saída, bola no Alex Telles, balão para a frente. Podia sugerir mais um jogo de chutão para a frente, mas felizmente não foi isso que aconteceu: o FC Porto controlou o jogo e soube ter bola. Esta equipa reage bem à perda, mas sente dificuldades quando encontra uma equipa que não quer ter bola. Ontem isso não aconteceu pois o FC Porto soube ter bola. Circulou-a a toda a largura do campo, projetou muito os seus laterais (assistências de Alex Telles e Maxi), apostou no jogo interior dos alas (Brahimi e Corona a finalizarem na grande área), conseguiu esmagadores 2/3 da posse de bola, forçou muitas vezes a entrada na grande área (37) e teve uma eficácia de passe muito acima da média, de 88%. Uma exibição completa e irrepreensível, desde o plano à execução.

Dinâmica dos corredores (+) - Um dos riscos neste esquema é o quão o corredor central pode ficar descoberto. Danilo recua, os laterais sobem, e então têm que ser Brahimi e Corona, apoiados pelo recuo de um dos avançados, a preencher essa zona no apoio a Óliver. Ontem não se sentiu esse perigo, pois a equipa esteve sempre equilibrada, e todos os intervenientes tiveram ação direta na goleada do FC Porto. Maxi Pereira, que já tinha sido dos melhores diante do Braga, voltou a fazer todo o corredor, sem que os 32 anos pesassem no momento da recuperação, e Alex Telles cruzou com melhor precisão e também fez uma assistência. A equipa nunca esteve descompensada no momento da perda, e os laterais foram responsáveis por 15 recuperações de bola. 

Brahimi e Corona (+) - Algo que tem falta ao FC Porto é o fator match winner. O momento em que o jogador recebe, encara o defesa, rasga e remata. Corona e Brahimi têm caraterísticas para serem esses jogadores, mas ontem não precisaram de o ser: fizeram um golo de toque único. Sem receção, apenas estar no sítio certo e finalizar ao primeiro toque. E fizeram-lo na grande área depois de cruzamentos dos laterais. Que significa isto? Que o FC Porto soube envolver várias unidades no ataque e povoar a grande área, com jogadas a explorar a profundidade nos corredores e sem o mero chutão para a frente. Não vimos uma grande área deserta por causa dos recuos que André Silva é forçado a fazer. Vimos muita gente na grande área, e com isso os golos surgiram com maior naturalidade. 

Do ponto de vista mais individual, grande jogo de Corona, sobretudo na primeira parte. Uma assistência, um golo, desta vez procurou mais o passe do que a finta. E de resto isto foi algo em comum nos dois extremos do FC Porto: mais passe, menos drible. A eficácia de passe esteve na média da equipa (88%), muito bom para avançados, e Corona fez apenas 3 dribles, metade dos de Brahimi (não perdeu nenhum lance). Ora, acontece que Brahimi e Corona não precisaram de sair tantas vezes no 1x1, pois tinham sempre uma solução de apoio por perto. E com o envolvimento de Maxi e Alex Telles no ataque, puderam estar em zona interior a fazer a diferença, em vez de estarem no flanco à procura de espaço para meter a bola numa grande área deserta. Ah. Brahimi foi ontem pela primeira vez titular na Champions esta época. Que não tenha sido a última, pois isto de colocar os melhores em campo é capaz de ser boa ideia. 

André Silva (+) - Dois golos e uma assistência para Diogo Jota, também ele autor de uma boa exibição. Marcou na sequência de um canto, tarefa que tão complicada tem sido nesta temporada, e foi novamente chamado à marcação das grandes penalidades. É certo que André Silva já falhou 3 penaltys este ano, mas continua a ser chamado à responsabilidade e a merecer a confiança. Não tremeu e revelou-se decisivo nesta fase de grupos, ao ter intervenção direta em 66% dos golos que o FC Porto marcou. Para época de estreia na Champions, nada mau, tendo em conta que só Lewandowski, Cavani e Messi marcaram mais. 

Uma palavra para a já aqui muito elogiada defesa do FC Porto, que nos últimos 10 jogos só sofreu um golo. A defesa não tem sido, de todo, um problema, e ontem o ataque revelou as melhores soluções da temporada. Agora, a possibilidade de ganhar pontos em 2 estádios na próxima jornada. Uma vez mais, uma que não podemos desperdiçar. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Terapia a seis toques



Não é nada pessoal, Marafona, mas a tua mãezinha vai ter que viver até aos 120 anos para ter tempo de fazer metade de tudo aquilo de que a acusámos ontem. Foste chato, foste muito chato. Falamos de um FC Porto que passou mais de 8 horas sem marcar um golo, que tentou de todas as maneiras e feitios, falhou um penalty, acertou nos ferros, teve golos anulados por fora de jogo à lupa e que ainda encontrou em ti uma mistela de Zenga, Vítor Baía, Kahn e Buffon. 

Por isso, aquele minuto 95 foi mais do que celebrar um golo contra um Braga que não fez porra nenhuma para pontuar no Dragão. Foi uma descarga de toda a frustração acumulada a cada remate, a cada cruzamento, a cada jogo sem marcar e vencer nas últimas semanas. Foi algo que só fizemos uma vez em 2016 (ganhar 3 pontos ao Benfica na mesma jornada). 

Não muda nada (bastava o jogo acabar aos 94 para a massa adepta manter - ou neste caso aumentar - o descrédito das últimas semanas), mas a carga psicológica de uma malapata ficou por terra. Agora que não haja a ilusão que houve após as vitórias contra a Roma, ou depois dos 3x0 ao Arouca, que levaram NES a chegar ao ponto de dizer que havia «euforia» nos adeptos. Euforia, ontem, sim, mas pelo minuto 95. Não pelos últimos 520. Euforia por aquele momento. Não pelo momento de forma do FC Porto. Coisas diferentes. 

Agora Leicester, equipa que tem sido pouco mais do que banal esta época, que já está apurada na Champions e que deve trazer habituais suplentes ao Dragão. Se der para sofrer menos um bocadinho, a malta agradece. E mãe do guarda-redes do Leicester também.






Luta transcendente (+) - Recordando o que foi escrito depois do empate em Copenhaga: «Na despedida do Dragão na época 2014-15, os Colectivo mostraram uma tarja que falava por si: «Vão de férias? Parecia que já estavam!». Há uma grande diferença entre jogar mal e jogar sem esforço, sem empenho, sem compromisso. Quem representa o FC Porto pode jogar mal - acontece a todos -, mas nunca pode deixar de jogar sem comer a relva e dar tudo em campo. Ora este FC Porto nunca veria aquela tarja. Esta equipa esforça-se, luta, quer ganhar. Mas não joga suficientemente bem.»

São palavras que se repetem. Este FC Porto não desiste. Pode jogar melhor ou pior, mas é uma equipa de jogadores que lutam até ao final. Ontem, com o acréscimo de de facto a equipa ter sido suficientemente produtiva. Foram imensas ocasiões de golo, muitas falhadas de forma lamentável, outras porque Marafona decidiu que era a noite dele. Ontem, sim, podíamos lamentar a eficácia - e não há treinador do mundo que tenha culpa que um jogador falhe um penalty e que se falhem 10 ocasiões de golo na cara do guarda-redes. Foi um jogo transcendente a todos os níveis.

O próprio golo é exemplo disso. Não é uma jogada ensaiada, não nasce de uma ideia de jogo, não nasce de um lance construído. Pontapé de baliza de Marafona, Danilo ganha de cabeça e a bola vai para Jota, que até estava a fazer um jogo pouco positivo. Jota, em três toques, consegue meter a bola para o único jogador que atacou a profundidade: Rui Pedro. A linha defensiva do Braga subiu para o pontapé de baliza, havia finalmente espaço, e o único a reagir à movimentação de Jota (grande passe!) foi o miúdo. Golo, festa, alívio.

Maxi Pereira (+) - O melhor jogo da época. Incrível e constante disponibilidade no corredor direito, do primeiro ao último minuto. Sem nada a fazer na defesa, atacou, cruzou, empurrou a equipa para a frente, fez movimentos interiores, apareceu na zona do ponta-de-lança e lutou por cada bola como se fosse a última. Este foi o Maxi que obrigou os adeptos do FC Porto a apreciá-lo após 8 anos noutras paragens. Que continue assim.

Danilo Pereira (+) - Confessem lá: de certeza que ao vosso lado ouviram qualquer coisa do género, «para quê o Danilo em campo, contra 10, se o Braga já não ataca!?» Por uma razão: equilíbrio e dimensão física no meio-campo. O Braga praticamente não entrou no meio-campo do FC Porto na segunda parte. E não foi por Marcano e Felipe (bom jogo, mais um) estarem imperiais em cima da linha de meio-campo, foi porque Danilo varreu tudo o que lhe apareceu à frente. Ganhou todos os lances pelo ar (inclusive o do 1x0), foi prático na distribuição e não deixou o Braga pensar nunca no contra-ataque. Danilo não ficou em campo para marcar: ficou para dar segurança a quem tinha a missão de marcar. Imprescindível.

Óliver Torres (+) - No momento da sua substituição, estava provavelmente a ser o melhor do FC Porto, ou pelo menos o mais inteligente. Por vezes hesita no momento em que tem que entregar a bola. Isso tem uma justificação: Óliver, por vezes, idealiza jogadas que os seus colegas não seguem. Se não respeitam a movimentação, aguenta e procura outra solução. Criou 3 ocasiões de golo, raramente falhou passes e esteve impecável na pressão: recuperou 10 vezes a bola, quase sempre no meio-campo do SC Braga. O Tribunal do Dragão já tinha comentado que Óliver está a ser pouco influente no ataque (um golo, zero assistências), e precisa de melhorar neste aspeto. Mas na missão de organizar o meio-campo e de colocar a bola nos homens da frente, não há melhor.

Fator Brahimi (+) - Otávio não esteve bem. Não rompeu, não cruzou, não fez diagonais. Saiu lesionado. Na segunda parte, vimos invariavelmente o mesmo: Corona encarava Djavan e perdia a bola. Ou cruzava logo, ou perdia a bola quando tentava ir à linha de fundo. Com Brahimi, as coisas mudam. Brahimi é egoísta, sim. Não tem o melhor remate do mundo, não. Poucas vezes integra a manobra coletiva - que nem sempre é clara - da equipa. Mas com Brahimi, o FC Porto ganha algo que tem faltado: imprevisibilidade e capacidade de rasgo individual.

Quando Brahimi encara o defesa a partir da ponta esquerda, o jogo pára. Há logo um defesa em cima de Brahimi e um segundo para a dobra. Só aqui, são 2 defesas em cima de Brahimi. Aqui já se arrastam marcações. Brahimi consegue avançar com a bola colada ao pé, sabe aguentá-la, tentou algumas vezes o golo e consegue empurrar a equipa para a grande área. São caraterísticas que o FC Porto não pode dispensar. Tirem Pizzi ao Benfica e Gelson ao Sporting: é a mesma coisa que não aproveitarem Brahimi no FC Porto. É retirar o jogador que pode conseguir aquele rasgo de imprevisibilidade que desfaz um 0-0. Ontem não marcou, mas não foi por falta de situações criadas. E sem uma aposta consistente no jogador - sem Otávio, tem que jogar contra o Leicester! -, não esperem que ele possa voltar a ser o jogador deslumbrante que vimos em 2014-15. Aproveita, Nuno, que não sabes se depois de janeiro terás melhor. 

Rui Pedro (+) - Quando um miúdo de 18 anos, na estreia na Liga, marca o golo da vitória aos 95 minutos, não precisa de mais nada para receber um Boné. Neste caso, todo o golo é de um mérito imenso: ainda Jota tem a bola e já Rui Pedro está a atacar as costas da defesa. Ou seja, não foi Jota a obrigar Rui Pedro a correr com o seu excelente passe: Rui Pedro já estava a fazer o movimento. Depois, a finalização é sublime. É extremamente difícil finalizar naquelas circunstâncias. Rui Pedro teve nervos de aços. Soube qual era a melhor forma de bater Marafona, em vez de rematar em desespero. Excelente golo.


Claro que isto levanta questões, desde Depoitre a Areias. Sim, porque conforme foi aqui opinado, é absurdo encostar Rui Pedro na equipa B para meter a jogar um jogador emprestado pelo V. Guimarães que não tem um décimo da sua qualidade e potencial (além de não ser jogador do FC Porto).  Tal como o risco de perder um talento que, conforme comentou BB na Rádio 5, não renovou enquanto «não assinou por quem eles queriam». Rui Pedro não nasceu ontem: mostrou apenas um pouco daquilo que vem prometendo desde que chegou ao FC Porto. Não vale a pena compará-los, mas Pepjin considerava que, entre Gonçalo, André e Rui, Rui Pedro era o melhor. Quanto a isso, não sabemos. Mas que é melhor do que Depoitre ou Areias, não restam dúvidas. Ah, já agora: Leandro Campos. Anotem, que daqui a um par de anos vamos estar a falar dele. A formação do FC porto está a produzis 9s como há muito não o fazia. Aproveitemos.





A rever (-) - O Braga nunca foi uma ameaça no Dragão. Nunca. Mas é verdade que o FC Porto só começou a carregar a partir do momento da expulsão e da entrada de Brahimi. Até então, poucas jogadas de perigo tinham sido criadas. Mas a forma como o FC Porto entrou em campo foi, uma vez mais, passiva e pouco esclarecedora até ao momento da expulsão. André Silva não está bem. Como é de esperar com qualquer jogador jovem, é natural ter um período menos bom durante a época, sobretudo se tem feito quase sempre os 90 minutos e tentando ser a referência numa equipa com pouca apetência para o golo. Era aqui que devia entrar o tal ponta-de-lança mais experiente que o FC Porto nunca chegou a contratar, e que alguém achou que seria Depoitre. Quanto a isto, estavam avisados desde o início da época: André Silva tem qualidade suficiente para ser titular, mas não tem o estofo suficiente, ainda, para ser titular toda a época. 

Corona precisa de aprender a jogar cansado. Invariavelmente, perdia a bola pelo corredor direito, na segunda parte, por não ter pernas para ultrapassar Djavan. Corona complica quando deve jogar simples. Tem que aprender a gerir melhor o esforço e melhorar urgentemente a sua objetividade no 1x1. Jota não esteve bem durante grande parte do jogo, mas acabou por inventar a assistência para o golo. Por fim, que ontem tenham falhado todos os golos que ainda havia para falhar. Usem os alemães do Bielsa, pinos, cones, nem que comecem com a baliza aberta, mas essa finalização tem que ser treinada. Senão, facilmente se encontra um miúdo de 18 anos que mostra como se faz.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O quadro de NES e o quadro de AVB


Este era o quadro de André Villas-Boas. Os portistas não souberam que ele existiu até à altura em que foi, orgulhosamente, exposto no Museu do clube. 

André Villas-Boas podia ter puxado deste quadro a qualquer altura da época. Depois dos 5x0 no Dragão, a festa bem regada e às escuras na Luz, a reviravolta na Taça de Portugal. Podia tê-lo feito quando o FC Porto se apurou para Dublin, quando de lá chegou, ou quando foi ao Jamor bater uma chapa 6. Nunca o fez.

Villas-Boas tinha o seu quadro. E só tinha interesse em mostrá-lo a um determinado grupo de pessoas: os seus jogadores. Eles é que tinham que perceber o seus objetivos. Villas-Boas não estava preocupado se os adeptos ou a imprensa percebiam o que ele idealizada. Preocupava-se com o essencial: os jogadores.

O quadro de Villas-Boas não vem saído de um manual de auto-ajuda, de um livro de teoria de futebol ou de uma palestra de Luís Campos. O quadro de Villas-Boas é algo que podia ter sido escrito por Pedroto. Objetivos traçados de forma simples e objetiva.

Uma frase do rival, neste caso de Coentrão, a provocar; lembrar a revolta das injustiças sofridas por Hulk e Sapunaru; «envergonhar quem nos fode todos os dias». Uma oportunidade histórica, ser campeão na Luz, bater recordes, e um compromisso mais forte do que nunca. Isto, meus senhores, é algo para ser exposto com orgulho, pois espelha o compromisso entre Villas-Boas e os jogadores nunca época dourada.

Depois temos o quadro de Nuno Espírito Santo. Villas-Boas nunca se sentiu inseguro. Nunca precisou de tentar explicar à imprensa o que ele queria. Não, pois a mensagem passava para os jogadores, e era o suficiente. Villas-Boas não se preocupou em debitar teorias, em inventar regras de três C's, em desenhar árvorezinhas. Foi cru. Em suma, vamos foder o Benfica. E fodemos.

Passámos de um quadro que lançava o mote para envergonhar o Benfica para um quadro que envergonha os adeptos do FC Porto. Nuno Espírito Santo ainda não percebeu o lugar que ocupa. Ao contrário de Villas-Boas, que manteve o seu quadro entre os jogadores e o treinador, NES mostra-o orgulhosamente. E parece mais preocupado em explicar teorias à imprensa e aos adeptos do que em meter a sua equipa a jogar futebol.

É verdadeiramente absurdo. NES não devia precisar do selo de aprovação da imprensa ou dos adeptos para aplicar os seus princípios. Um bom treinador, um verdadeiro líder, confia nas suas ideias, não sente necessidade de as explicar. Só precisa de as transmitir aos jogadores, e é o suficiente. Devia assumir que por alguma razão ele é que é o treinador do FC Porto, enquanto que outros são treinadores de bancada. A não ser que admita que chegou ao FC Porto pelas mesmas razões que chegou ao Rio Ave. Outros rosários.

Estas apresentações de NES revelam, acima de tudo, a insegurança do treinador no cargo que ocupa. NES sente-se incompreendido e inseguro. Daí que seja, provavelmente, o único treinador da atualidade que se espalha no ridículo de explicar, publicamente, os princípios táticos que quer implementar na sua equipa.

Benfica, Sporting e demais adversários podem poupar o trabalho de enviar olheiros: NES explica-vos tudo o que precisam de saber. Nuno Espírito Santo está a explicar aos adversários como é que o FC Porto joga, ou como é que pretende que jogue. Em parte nenhuma do planeta encontram um treinador que explica aos adversários como é que ele vai jogar. Ah, esperem, Sá Pinto fez isso uma vez. No Sporting. De Godinho Lopes. Que bem correu. 

NES parece estar mais preocupado em fazer prevalecer a sua imagem de tipo sereno, politicamente correto, afável e que reúna simpatia por parte de imprensa e adversários do que em efetivamente vencer pelo FC Porto. Uma dica: nunca nenhum treinador do FC Porto teve sucesso a ser simpático e politicamente correto. Nem com teorias acima da competência prática. Não serás o primeiro, Nuno.

Sábado, 20h30, Estádio do Dragão. Deixa o quadro no balneário e mete a prática no relvado. Sentes-te inseguro? Ganha ao Braga. A confiança ganha-se com vitórias e resultados, não com teorias ou com quadros. As únicas aulas que tens que dar não é à imprensa, nem aos adeptos, mas sim aos jogadores. Se de facto tiveres algo para lhes ensinar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

As contas do primeiro trimestre

Quem gosta de acompanhar as contas da SAD vai ter que esperar durante, pelo menos, mais três meses. O FC Porto não divulgou o R&C do primeiro trimestre de 2016-17, aproveitando a nova opção que permite que a SAD não tenha que prestar as informações trimestrais (directiva comunitária 2013/50 da União Europeia).

Contas só em fevereiro
Assim sendo, terminou o mês de novembro e o FC Porto não comunicou à CMVM as contas do primeiro trimestre, que basicamente incluíam todas as movimentações da SAD entre 1 de julho e 30 de setembro, com negócios curiosos como os de Boly ou Depoitre, entre muitos outros. 

Podia tê-lo feito, mas optou por não o fazer, tal como o Benfica. Já o Sporting decidiu apresentar as suas contas trimestrais. Convenhamos que tinha motivos mais sonantes para o fazer, pois tem um lucro de quase 63 milhões no primeiro trimestre. Mas a partir do momento em que uma SAD opta por divulgar as contas trimestrais, terá que o fazer durante os dois anos subsequentes. O FC Porto preferiu não divulgar nada perante o mercado e os seus sócios. 

Desta forma, a SAD do FC Porto terá até ao final de fevereiro para divulgar as contas do primeiro semestre, ou seja, os resultados do exercício até 31 de dezembro. O exercício será fechado antes da abertura do mercado de inverno, mas os resultados serão apresentados já depois do mercado de inverno fechar e da inevitabilidade do FC Porto vender jogadores em janeiro. 

Fica assim explicada a ausência de contas trimestrais da SAD para análise e debate neste espaço. Quem queria boas notícias, também não perdeu nada. 

Outras leituras:

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tão lógico quanto marcar golos

O FC Porto já disputou 3233 jogos oficiais. Marcou 7165 golos. Ganhou dezenas de títulos, cá dentro e lá fora. Ao longo dos seus 123 anos de existência, foram quase 300 mil minutos de futebol. Nunca esteve tanto tempo sem marcar um golo.

É histórico. Nunca o FC Porto tinha passado 430 minutos sem marcar um golo (ou sem que lhe validassem um). Estamos, à 11ª jornada, a 7 pontos do Benfica, a primeira vez que acontece desde que Pinto da Costa foi eleito presidente. Temos 22 pontos, a pior pontuação desde que a vitória passou a valer três pontos (1995). 19 golos em 11 jornadas, o pior ataque dos últimos 10 anos. E estamos fora do pódio, o que não acontecia desde 1975. Copo meio cheio: este é um FC Porto de recordes. 

O Tribunal do Dragão já tinha destacado o facto do FC Porto não sofrer golos. É bom. Mas para todos os efeitos pontuais, é melhor ganhar um jogo e perder um do que empatar dois; é melhor ganhar dois e perder três do que empatar cinco; e em momento algum podemos considerar que não sofrer golos contra equipas como Setúbal, Chaves, Copenhaga e Belenenses é algum tipo de proeza que mereça criar um constaste positivo.

Sim, não sofrer golos é positivo, mas se não marcamos entramos na lógica residente noutras bandas: não somos campeões, mas jogamos o melhor futebol; não ganhámos, mas fomos quem mais mereceu

Sente-se a contestação cada vez maior a cair sobre Nuno Espírito Santo. As críticas são expectáveis, aconteceria o mesmo a qualquer outro treinador. No FC Porto, ao fim de 2 ou 3 maus resultados, para a generalidade da massa adepta o funeral fica feito. Aconteceu com Paulo Fonseca, com Lopetegui, com Peseiro e muito provavelmente vai acontecer com o próximo que chegar. 

Mas há algo a saudar em relação a Nuno Espírito Santo, em defesa do técnico: tem contrariado algo que vinha sendo uma tendência cada vez maior no FC Porto - o não defraudar as expetativas. Nuno Espírito Santo não desilude, vai ao encontro das expetativas. O seu trabalho no FC Porto tem sido um espelho do desenvolvido no Rio Ave e no Valência: o futebol praticado, as escolhas para a equipa que muitos não conseguem entender, o discurso monocórdico e saído de um manual rasca de auto-ajuda. 

Nuno Espírito Santo não está a fazer nada abaixo do que já tivesse demonstrado. Admita-se, nem é o caso de Paulo Fonseca, que meteu o Paços de Ferreira a jogar à Porto e o Porto a jogar à Paços de Ferreira, mesmo não tendo tido condições de trabalho suficientemente boas para lutar pelo título. Nuno Espírito Santo meteu o Porto a jogar à... Nuno Espírito Santo. Jamais será cobrada uma fatura ao técnico por fazer o mesmo trabalho que fez nos seus outros clubes. Logo, este funeral perde um pouco a sua lógica. Vamos condenar quem está a ser o que sempre foi?

Se o FC Porto passou de Lopetegui para Peseiro e de Peseiro para Nuno Espírito Santo, nem vale a pena entrar por uma conversa de sucessão. Dá medo.

A competição de ontem, como saberão, não é valorizada neste espaço. A Taça da Liga deve ser utilizada única e exclusivamente para dar espaço competitivo a jogadores pouco utilizados e para lançar jovens da equipa B. As escolhas de NES para o jogo de ontem serviram minimamente para esse efeito, ainda que ninguém consiga ignorar que se tratou de um prolongamento de mais 90 minutos sem golos, ainda por cima jogando quase uma hora contra 10.  De qualquer forma, o maior problema não foi o jogo de ontem, mas sim os últimos jogos. 

Por isso, troquemos os Bonés e Machados por algumas considerações. Primeiro, Brahimi. Ontem descobrimos que Brahimi não serviu para jogar no Campeonato, na Liga dos Campeões e na Taça de Portugal. Mas serve para jogar na Taça da Liga.

Isto consegue ser pior do que ter o Taarabt a ganhar 193 mil euros por mês para ir ao Main. Porquê? Porque esse nunca viram fazer nada de jeito no Benfica e não faz falta à equipa principal. Brahimi sim. Viram-lo os adeptos, os adversários, a Champions do futebol. Há dois anos, era o jogador mais aplaudido pelos adeptos. Desaprendeu? Não. Ao longo de novembro, em que o FC Porto esteve em 4 competições, Brahimi ficou no banco no Campeonato, na Champions e na Taça para jogar apenas na prestigiada Taça da Liga. Gestão danosa, nada mais. 

Inácio fez a sua estreia na equipa principal. Ainda que envolvido no negócio Maicon, estamos a falar de um dos cinco laterais-esquerdos mais caros da história do FC Porto. Mas aqui temos um perfeito exemplo da diferença entre um jogador da formação e um jogador que vem de um negócio do Brasil. Não apenas do Brasil: de um negócio do Brasil.

Inácio fez apenas 4, 4 jogos na Segunda Liga e teve logo uma oportunidade na equipa principal. Não se discute o mérito de Inácio, mas sim o tratamento bem diferente que teve Rafa: esteve 3 épocas desportivas a jogar ativamente na equipa B, sem nunca ter tido uma oportunidade de jogar na equipa principal. Inácio chega e tem logo a sua chance. Deve ser tudo uma questão do critério dos treinadores. Sim, sim.

Rui Pedro estreou-se pela equipa principal e foi provavelmente o mais aclamado pelos adeptos. Neste âmbito, uma saudação para Bernardino Barros, que afirmou, preto no branco, durante os seus comentários no Sentimento (para fazer honra ao Edmundo), que Rui Pedro esteve encostado e em risco de sair enquanto não renovou contrato «com quem eles queriam» na SAD. André Silva esteve na mesma situação. É assim que se gerem os nossos talentos. 

Depoitre esteve uma hora em campo. A jogar contra 10, com o jogador a precisar de ganhar confiança e não havendo melhor oportunidade para isso, NES decidiu tirá-lo de campo e lançar o miúdo. Está tudo dito sobre Depoitre. Nuno nem pensou «vamos esperar, a ver se ele marca para ganhar confiança». Por norma, um treinador que quer muito um jogador não desiste dele em circunstâncias tão favoráveis. Talvez isto diga muito do quão queria NES Depoitre. 

João Carlos Teixeira jogou 15 minutos. O suficiente para ir ao encontro do comentário do TdD aquando da sua contratação: «É daqueles jogadores que conseguimos apreciar pelo simples facto de receberem a bola». Porque não joga mais? Não procurem a lógica. Procurar lógica neste FC Porto tornou-se uma coisa tão complicada quanto acertar na baliza adversária.

Sábado regressa o campeonato, com o FC Porto no 4º lugar, a sete pontos da liderança. Ninguém se recusa a deixar de olhar para o primeiro lugar. Mas o problema não é apenas os adversários terem que perder pontos. É o FC Porto ter que ganhá-los. Sem golos, nada feito. E com estes meios, não esperem fins agradáveis. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Objetivos e promessas

Há uma grande diferença entre falhar objetivos e falhar promessas. Falhar objetivos acontece todos os anos, desde não conquistar um título a não ganhar um jogo contra um adversário inferior. Pode acontecer pelos mais diversos motivos: adversário superior, uma bola no poste, arbitragem, um dia de manifesto azar...

Acontece. Todas as equipas têm que traçar objetivos, e já sabem que não os vão cumprir todos. Com as promessas, é totalmente diferente. O FC Porto não é um clube de promessas de resultados. O próprio Pinto da Costa o disse, vários vezes, que «nunca prometi títulos». É preciso ter um estofo/confiança enorme para conseguir fazer e cumprir promessas.

Um exemplo? José Mourinho. «Em condições normais vamos ser campeões. Em condições anormais... Também vamos ser campeões!» Muita audácia, mas algo fácil de proferir: ele sabia que era o melhor, que o FC Porto tinha o melhor plantel, que era superior à concorrência e que estava num contexto favorável. Mais difícil foi ter dito, quando chegou ao FC Porto, que em 2002-03 ia ser campeão. Inteligente: tal deu-lhe margem para reduzir a pressão para o que restava de 2001-02 e motivou as tropas para algo mais que uma época que já se encaminhava para um ano sem títulos.

Bem diferentes foram, por exemplos, as promessas de Paulo Fonseca ou Lopetegui. Ao contrário do que aconteceu com Mourinho, foi em momentos difíceis, já sob muita contestação (mas nenhum deles a 7 pontos do Benfica antes de dezembro), que deixaram afirmações que podiam ser vistas como destemidas e determinadas, mas que acabaram por soar a desespero. A confiança cega de que o FC Porto ia ser campeão e a garantia, sem qualquer dúvidas, que o FC Porto ia chegar ao título. Não funcionou e ambos saíram antes do fim da época.

Nuno Espírito Santo, ao mau momento da equipa, respondeu com a promessa de que o FC Porto ia ganhar ao Belenenses. Falhou. Uma coisa é gerir mal uma substituição, ter um mau resultado e estar completamente descolado da política (?) assumida pelo clube em relação à arbitragem. Outra é falhar uma promessa. Nuno podia ter dito que acreditava que os golos iam aparecer, que o objetivo era ganhar, que acreditava na evolução da equipa. Podia ter dito mil e uma coisas. Mas preferiu prometer que o FC Porto ia ganhar ao Belenenses. A equipa falhou, o treinador falhou.

Nuno Espírito Santo já é, à 11ª jornada, o pior treinador da era Pinto da Costa no que à distância em relação a Benfica e Sporting diz respeito. Ninguém tinha expetativas realistas de que o FC Porto fosse favorito/campeão com Nuno Espírito Santo - só se pode desiludir quem primeiro se iludiu -, pois nunca fez/mostrou nada que o recomendasse como resposta para o ciclo de 3 anos sem títulos, mas os resultados estão a ser um pouco piores do que o expetável. Não necessariamente por à 11ª jornada já ter perdido 11 pontos, mas por já estar a 7 de pontos de Benfica e 2 de Sporting, já depois de ter recebido o Benfica no Dragão.

Esta não é uma época para almejar ao título (quem contrata NES e gere a pré-época/plantel da forma que o FC Porto o fez desde julho, não pode pensar em ser campeão - ou então ainda não percebeu  que acabou a era dos campeonatos em piloto-automático), mas era ponto de honra estar na luta até ao fim, tentar pelo menos a entrada direta na Champions e reabilitar o espírito Porto. O que conseguimos, depois do empate em Belém, foi deixar Nuno Espírito Santo numa posição ainda mais fragilizada. Será ele o máximo responsável se o FC Porto terminar mais uma época sem títulos? Não, de todo. Mas só uma pessoa prometeu que o FC Porto ia ganhar ao Belenenses. Se bem que os adeptos portistas já mostraram ter grande tolerância e estômago para promessas falhadas nos últimos anos.




Iván Marcano e a defesa (+) - Não é pela defesa que o FC Porto tem comprometido nas últimas semanas. Muito simples: em 10 jogos, a equipa sofreu 2 golos. Não deve haver muitas equipas com uma média similar. Os adversários não deixam de ter as suas oportunidades (o Belenenses fez mais remates à baliza do que o FC Porto), mas o facto é que o FC Porto tem sofrido pouquíssimos golos. E quando assim é, basta meter uma bola naquele cada vez mais estranho rectângulo ao FC Porto para ganhar o jogo.

Neste excelente momento defensivo, Iván Marcano merece todo o destaque. Porquê? É o denominador comum entre este bom momento na proteção da baliza e a época 2014-15, na qual o FC Porto teve a melhor defesa de toda a Europa. Marcano conseguiu-o com um low profile de quem chega, faz o seu trabalho, cumpre, vai para casa e só voltam a aperceber-se da existência dele em campo. E nem com a braçadeira no braço destoa. Se calhar só é capitão porque não há melhor e só joga porque não há melhor. Certo é que ninguém tem feito melhor do que ele. Nem no FC Porto nem pela Europa fora: 10 jogos, 2 golos sofridos, apenas um cartão amarelo e uma média de apenas uma falta a cada dois jogos. Com Marcanos, se calhar, dirão que não se ganham jogos ou campeonatos. Ou então sim, se alguém lá na frente meter a bola na porra da baliza, pois lá atrás não tem havido problema. 





Piorar (-) - Sai Jota, entra Depoitre. Sai Óliver, entra André André. Sai Otávio, entra Varela. Três alterações, todas elas com algo em comum: o jogador que saiu é superior ao que entrou, e o que entrou não está num momento de forma que lhe permita ser o 12º jogador que vai desbloquear o jogo. O BES tinha o banco mau e o banco bom. NES só tem um banco mau.

O problema tem várias raízes. Aboubakar, Bueno, Gonçalo Paciência e Suk foram dispensados para que chegasse Depoitre, que, pasmem-se, custou mais do que estes 4 juntos e não vale um terço de qualquer um deles. O jogador não tem culpa, pois a qualidade e caraterísticas dele estavam à vista de qualquer um. Quando assim é, as dúvidas não devem recair no jogador, mas sim na vista de quem o observou. Mas é curioso que todos se recordam de ouvir José Mourinho dizer que queria muito McCarthy. Jesualdo confessou que queria Falcao. Vítor Pereira afirmou que era Jackson Martínez quem queria. Já NES parece hesitar muito em afirmar que foi ele quem queria Depoitre. Diz que era um jogador que conhecia, que podia ser útil, que estava referenciado, mas tarda em afirmar com a prontidão de Pinto da Costa de que Depoitre é que era «o» 9 mais desejado. Ele lá saberá porquê.

Falta Brahimi, que já nem conta para ir ao banco. Adrián foi titular em Leicester, há dois meses, e desde então nem foi ao banco. Com isto, o ataque do FC Porto fica resumido a todos os jogadores que entraram no Restelo: Varela, Corona, Jota, Depoitre e André Silva. É manifestamente muito curto. Já chamam por Rui Pedro, um passo natural. Mas continua o fascínio por chamar Musa Yahaya ao treinos da equipa principal, mesmo sem que ele tenha jogado um único minuto na equipa B. Não deve ter nada a ver com o facto de ter vindo do Portimonense, não senhor.

O que fazer com a bola? (-) - O FC Porto de Nuno Espírito Santo é alérgico à bola. O que esta equipa mais quer é que o adversário tenha bola, para tentar recuperá-la ainda no meio-campo adversário, com uma primeira linha de pressão alta, e depois meter logo a transição rápida. Não está a funcionar. Este FC Porto constrói zero em posse, zero em progressão, zero em futebol apoiado. É uma equipa que não assume o jogo, à imagem do que NES mostrou no Rio Ave e no Valência, diga-se. Joga no erro do adversário. Mas as equipas que jogam no erro do adversário têm que ter uma coisa: a capacidade de marcar um golo em meia oportunidade. O FC Porto não o está a fazer, de todo, e já lá vão 340 minutos sem golos. 

André Silva não dá para tudo. Teve intervenção direta em 43,3% dos golos que o FC Porto marcou esta época. Mas não se pode sobrecarregar um jogador jovem que, como qualquer outro, pode ter um mau momento de forma. E está a tê-lo. Daí que fosse essencial, no início da época, contratar uma alternativa a André Silva. Essa alternativa nunca chegou. Ah, era Depoitre? Sim, Depoitre é de facto alternativa a André Silva: ao André Silva da primeira metade da época 2015-16. Aquele que não jogava na equipa A, basicamente. 

O futebol do FC Porto é pobre, previsível, facilmente anulável. Uma equipa que não tem mostrado capacidade para mudar de velocidade no seu jogo. Os extremos não rompem, os avançados têm que apoiar mais do que são apoiados, os médios poucas vezes provocam desequilíbrios na frente, os laterais estão a perder preponderância ofensiva e o FC Porto raramente aproveita bolas paradas. Nada está a ser potenciado do meio-campo para a frente no FC Porto. Os ovos não são os melhores? Talvez não. Mas pedir uma omelete a quem não sabe partir a casca de um ovo é meio caminho andado para passar fome. Mais um ano.

Do próximos 7 jogos, 6 serão disputados no Dragão e um em Santa Maria da Feira. Não dá desculpas para não abrir um ciclo de sete vitórias consecutivas. E neste caso não é preciso promessas: apenas resultados. Perder um destes jogos em casa, diante do público do Dragão, pode ser a sentença que Paulo Fonseca, Lopetegui e José Peseiro conheceram bem recentemente: no FC Porto, qualquer treinador arrisca-se a pagar a fatura dos maus resultados. A sua e a dos outros.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Saia uma fatura para Leicester

Na despedida do Dragão na época 2014-15, os Colectivo mostraram uma tarja que falava por si: «Vão de férias? Parecia que já estavam!». Há uma grande diferença entre jogar mal e jogar sem esforço, sem empenho, sem compromisso. Quem representa o FC Porto pode jogar mal - acontece a todos -, mas nunca pode deixar de jogar sem comer a relva e dar tudo em campo. Ora este FC Porto nunca veria aquela tarja. Esta equipa esforça-se, luta, quer ganhar. Mas não joga suficientemente bem. 

Não há nada a apontar ao compromisso dos jogadores com a tentativa de vencer. Uma defesa de patinhos feitos que dá segurança. Um meio-campo de pesos-leves que se esfola a pressionar e a correr. Avançados jovens que se desgastam a si próprios e ao adversário ao máximo. Estes jogadores empenham-se, quiseram ganhar em Copenhaga, quiseram garantir já o apuramento.


Por isso, quando vemos que os jogadores se empenham, lutam, transpiram espírito coletivo, e que ainda assim a equipa não consegue ganhar e/ou jogar suficientemente bem, então há algo que está a faltar. Quiçá alguém dentro das quatro linhas, ou alguém fora delas. 

O apuramento para os 1/8 continua perfeitamente ao alcance do FC Porto, desde que meta na cabeça que o Leicester é uma equipa inferior e não é nenhum bicho papão. Alguém se lembra de temer um supremo Boavista em 2001-02? Não, porque sabiam que aquele título tinha sido episódico, coisa de uma vez na vida. Mas há que ter em atenção que esforço, luta e empenho não estão a chegar.






Felipe e Marcano (+) - Quando as vitórias não apareceram, há coisas boas que ficam ofuscadas. Esta não pode ser uma delas: estamos com uma senhora dupla de centrais. Para os mais esquecidos, nos últimos 570 minutos (6 jogos), o FC Porto só sofreu um golo, e todos se recordarão de qual - e como - foi. E nos últimos 9 jogos, o FC Porto sofreu apenas mais um golo, em Brugge. Os centrais têm que ser destacados por esta eficácia defensiva.

Marcano e Felipe não são uma das melhores duplas de centrais da história do FC Porto, e provavelmente nunca serão mencionados para um top 10. Mas são eficazes. Não inventam, jogam simples, mostram sintonia, controlam muito bem a profundidade, poucas vezes perdem lances pelo ar e têm sido impecáveis na marcação. Também cometem erros (Felipe falhou ontem 16 passes, uma quantidade anormal de falhas na saída de bola), mas naquilo que é a sua função principal - defender e não sofrer golos -, era difícil pedir mais. Claramente que o facto de a equipa não sofrer golos tem que ser destacado por todos os protagonistas da defesa, desde Casillas até Danilo, mas Felipe e Marcano merecem este destaque. 

Outros destaques (+) - Não foi capaz de manter a consistência, mas objetivamente foi dos mais perigosos e trabalhadores em campo. Otávio criou, sozinho, mais situações de finalização do que todos os colegas e voltou a estar em evidência nas ações defensivas, ao recuperar 5 bolas e fazer 6 desarmes. Além disso, para um jogador da sua baixa estatura, ganhar 3 lances de cabeça é sempre assinalável.

Óliver não esteve tão bem no passe, mas não se cansa de procurar soluções à sua volta, procurando manter sempre a equipa a rodar e a circular a bola. Procura sempre dar largura à equipa e impor critério na distribuição de bola, embora não esteja a ser influente no último terço (um golo e nenhuma assistência em 14 jogos).


Por fim, Corona em bom nível na segunda parte: procurou o desequilíbrio, fez dois pares de bons cruzamentos, procurou movimentos de ruptura e só lhe faltou ter capacidade de remate (apenas uma tentativa). Tem que ter mais golo. 






Uma parte de avanço (-) - Chega o intervalo e o FC Porto não fez um único remate à baliza. Nem um. Isto diz tudo sobre a qualidade da exibição na primeira parte. Antes do jogo em Belém, talvez fosse boa ideia Nuno Espírito Santo dizer duas coisas aos jogadores: antes do jogo, o que disse antes do jogo com o Benfica; ao intervalo, o que disse antes desta segunda parte em Copenhaga. A equipa revelou caras diferentes, melhorou na segunda parte, mas quem faz 45 minutos deploráveis como estes não pode dizer que entrou em campo com o objetivo de marcar cedo e sufocar o Copenhaga. Ou então não passou do plano à prática. 

Zero no ataque (-) - A improdutividade do FC Porto no ataque começa fora de campo. Nos últimos 5 jogos, apenas 2 golos. Mau, muito mau. Para começar, o principal criativo do FC Porto (não na perspetiva da equipa, mas do lance individual), Brahimi, não conta. Depois, Depoitre, um disparate de contratação (na medida em que pouco joga - pior do que vermos um jogador caro a jogar mal, é nem sequer vê-lo jogar) quando o FC Porto necessitava, aos olhos de todos, de uma alternativa/complemento a André Silva, não conta para um jogo onde o FC Porto conseguiu fazer 28 cruzamentos. E atenção, pois as contas trimestrais vão ser apresentadas antes do final do mês e então poderá ser possível confirmar se o 2º ponta-de-lança mais caro da história do FC Porto só serve para jogar uns minutos contra Gafanha e Chaves. 

Brahimi, que devia ser um match-winner, nem ao banco vai. E Depoitre, que tinha que ser o ponta-de-lança que resolveria os jogos quando faltasse André Silva, não saiu do banco em 9 dos últimos 11 jogos. Quem decide que Brahimi não joga neste FC Porto e que Depoitre era o ponta-de-lança ideal para ser contratado esta época deve ter muito em que pensar. 

Dentro de campo, por maior que fosse o esforço de André Silva e Diogo Jota, faltou novamente o killer instinct . Faltou presença na grande área, numa noite de muita desinspiração. André Silva foi o mais rematador (5 vezes), mas sempre sem eficácia. Diogo Jota terá feito a sua pior exibição no FC Porto: perdeu 11 lances e foram poucas as vezes em que criou perigo. Carregar tudo sobre os ombros de uma dupla de avançados sub-21, sobretudo num nível de exigência de Champions, é demasiado. Um abre-latas e um ponta-de-lança mais forte fisicamente poderiam ter dado outros argumentos para resolver o jogo na segunda parte. Pois...

Nota negativa para a exibição de Maxi Pereira, longe da melhor forma depois da lesão. Se em boas condições já seria difícil justificar a titularidade em detrimento de Layún (que, apesar de ser mais forte à esquerda, mostrou qualidade também à direita), assim muito menos. 

Ah. E desta vez, não ficou a sensação de que ficámos a perder alguma coisa por culpa do árbitro. Não senhor, nem foi por causa da qualidade do Copenhaga, que na segunda parte não fez um único remate à baliza. Não ganhámos por culpa própria. O Leicester vai ao Dragão relaxado, já com o primeiro lugar garantido, quiçá até com suplentes (defronta o City 3 dias depois), enquanto o FC Porto precisa de vencer para se apurar (livrem-se de meter um ouvido que seja em Brugge). Não há desculpas. Fazer 2 pontos em 6 contra o Copenhaga já foi mau o suficiente. Têm mais uma oportunidade. E será a última.