segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primeiro Alvalade, depois o Vit. Setúbal

O clássico continua na próxima segunda-feira, às 20.00, no Estádio do Dragão, frente ao Vitória de Setúbal. Porque nada do que se conquistou ontem à noite na Luz terá valor se o FC Porto não der continuidade a esse resultado já na próxima ronda, frente a um adversário que na temporada passada empatou na Invicta. 

A margem de erro é diminuta e o FC Porto sabe que, vencendo o Vitória de Setúbal e o Marítimo, pode muito bem sentenciar o título na 33ª ronda. Para já, no entanto, nada é mais fulcral e difícil do que bater o Vitória de Setúbal. Isto no que ao Campeonato diz respeito, pois já na quarta-feira há uma final duríssima em Alvalade, frente ao Sporting, contra um adversário que vai ter que atacar desde o primeiro minuto e que, desde novembro, venceu todos os jogos das provas nacionais em casa e sempre sem sofrer golos.

Foi de uma justiça poética que Herrera, a quem foi anulado o legítimo golo da vitória na primeira volta, tenha sido autor do golo que decidiu agora o jogo na Luz. Mas foi difícil, muito difícil. Benfica melhor na primeira parte, FC Porto muito melhor na segunda. Jogo decidido num detalhe, na terceira vez na história do FC Porto em que o golo da vitória frente ao Benfica apareceu ao 90 minutos ou na compensação. Também foi assim com Bruno Moraes e Kelvin, em épocas em que o FC Porto foi campeão por um ponto. Por um ponto se ganha, por um se perde. Daí que nada importe mais, neste momento, do que o Vit. Setúbal.





Ricardo Pereira (+) - Entrou algo nervoso, o que o levou a cometer alguns lapsos defensivos, mas rapidamente se desinibiu e partiu para uma exibição que fez dele o melhor em campo ao longo dos 90 minutos. Cansou só de o ver correr por todo o campo, ora junto ao corredor, ora nos movimentos interiores. Foi responsável por quatro das cinco ocasiões de golo que o FC Porto criou na Luz, duas delas nas quais serviu de bandeja Marega na grande área, além de ter estado perto do golo num remate desviado pelo maliano. 

Foi o jogador em campo com mais ações com bola, 91 no total (o segundo melhor do FC Porto, Alex Telles, teve apenas 62), tendo-se ainda destacado na forma prática como defendeu (10 alívios, 10 bloqueios de passes/cruzamentos/remates). Uma exibição completa, na qual foi ainda o atleta com mais duelos ganhos (14). Fernando Santos estava a ver e só resta mesmo perguntar: como é que este rapaz nunca fez um jogo oficial (não particular, oficial) por Portugal?

Centrais (+) - Não foi o melhor jogo da dupla Marcano-Felipe, mas na visita ao melhor ataque da Liga dificilmente se poderia pedir mais. Marcano e Felipe secaram por completo Raúl Jiménez, estiveram quase sempre bem posicionados defensivamente e, contra uma equipa especialista em arrancar faltas, cada um deles cometeu apenas uma falta em 90 minutos. Jogaram muito mais adiantados no terreno do que, por exemplo, a dupla do Benfica, algo que contribuiu e muito para a subida de rendimento na segunda parte.

Iker Casillas (+) - Se Pizzi aproveitasse aquela oportunidade, quiçá estaríamos, neste momento, preocupados com o Sporting e com o 3º lugar. Iker Casillas apareceu quando foi necessário, com uma intervenção decisiva, e continua sem saber o que é perder com o Benfica ao serviço do FC Porto. Talismã.

Héctor Herrera (+) - Porquê sempre ele? Por exibições assim. Num meio-campo no qual as fivelinhas Otávio e Sérgio Oliveira, sobretudo na primeira parte, sentiram muitas dificuldades, Herrera teve que trabalhar por dois. E não havia Danilo. Foi uma exibição de trabalho do mexicano, que foi quem mais faltas sofreu (6), quem mais passes completou (38), teve 13 ações defensivas e foi o médio com mais duelos ganhos (10). E olhem, resolveu um clássico que inverteu a classificação do Campeonato no minuto 90, a jogar em casa do maior rival. Sérgio Conceição admitiu, um dia, a dúvida: «Um mexicano a capitão do FC Porto?». E não, um mexicano não: mas um jogador à Porto sim. Como Héctor. E obrigadinho por dar uma folga ao TdD por, segundo tantos, defender em demasia Herrera. Hoje lhe têm a agradecer a liderança e um travão ao penta do Benfica.






Primeira parte (-) - Divididos entre o receio e números de circo, foram 45 minutos de fazer arrancar os cabelos. Otávio incapaz de apertar Fejsa e de receber no miolo. Brahimi sempre a pegar na bola demasiado longe e a querer fintar em zona proibida. Soares com mais faltas cometidas do que remates ou jogadas de perigo. Marega novamente a aparecer no sítio certo, mas para falhar as melhores oportunidades. Sérgio Oliveira bem a ganhar no primeiro metro, mas depois a deixar-se entalar entre os jogadores adversários. E gritos, muitos gritos de Sérgio Conceição, que sabia que a coisa não estava a funcionar.

A primeira parte revelou uma vez mais uma equipa com muitas dificuldades em construir. O pouco que a equipa fez nasceu das investidas de Ricardo. Jogadores demasiado distantes uns dos outros, dificuldades em segurar a bola no ataque, bolas em profundidade que não resultavam em nada e imensas dificuldades em progredir em apoio. A segunda parte mudou e, embora o golo de Herrera tenha nascido de um ressalto e se desvie de toda a lógica de um plano tático, há dois detalhes que não se podem desvalorizar: é Óliver quem ganha metros com bola e «puxa» Brahimi, que vai finalmente recolher a bola no espaço interior e, rapidamente, tenta a tabela com Marega. A sorte também se procura, e esta acabou por ser merecida.


Já dissemos que é preciso ganhar ao Vit. Setúbal? Pronto. Mas primeiro vem aí mais um clássico. Duas festas em quatro dias na Luz e em Alvalade seria inédito na história do FC Porto e deixaria a equipa com uma mão na Taça de Portugal. Há semanas piores.  

Um pormenor: Herrera preferiu mostrar o símbolo na frente do que o nome nas costas

domingo, 15 de abril de 2018

Mais do que 90 minutos

Continhas rápidas: uma vitória deixa o FC Porto na frente, com vantagem no confronto direto e em posição favorável na luta pelo título a quatro jornadas do final; um empate mantém tudo em aberto, mas levará o FC Porto a depositar quase todas as esperanças no que o Sporting possa fazer; e uma derrota pode deixar o FC Porto mais perto do 3.º lugar do que da liderança no fecho da 30ª jornada. 

É um jogo vital. São mais do que 90 minutos. São 90 minutos que podem resumir e simbolizar toda a luta não só desta época, mas também dos últimos quatro anos. 

Quando olhamos para o adversário, o que vemos? Um líder justo e meritório? Não. Vemos o Benfica dos zero pontos europeus. O Benfica que não sabe o que é ganhar um jogo de Champions ou um clássico esta época, que foi arrumado das Taças por equipas inferiores, que só não saiu do Dragão praticamente arredado da luta pelo título graças à eucaristia

Significa que está no papo? Claro que não. Porque isto só torna este clássico mais alarmante e importante: perder um título de campeão nacional, no qual chegámos a ter uma vantagem muito favorável, para o Benfica dos zero pontos europeus? No ano em que o Benfica foi ridicularizado pela Europa do futebol, vai conseguir igualar o FC Porto no feito único de ser pentacampeão nacional? 

É muito mais do que uma questão de orgulho. No post anterior, O Tribunal do Dragão aprofundou esta questão já comentada no início da época: esta não foi uma temporada preparada para fazer do FC Porto campeão. Mas a equipa superou-se, manteve-se de pé e chega à 30ª jornada da Liga a depender de si própria para acabar com o jejum de troféus. Graças a Sérgio Conceição, graças aos jogadores, graças ao balneário. Foram eles quem trouxeram o FC Porto até aqui. E são eles quem merecem esta oportunidade.

90 minutos. Mas são 90 minutos que vão muito para além disso. Está muita coisa em jogo. O mais importante, o regresso do FC Porto aos títulos. Não só na tentativa de recuperar o estatuto e o lugar que já foi seu, mas na defesa do seu legado, o de único pentacampeão nacional. Temos um grupo de jogadores que não sabe o que é ganhar no FC Porto. E esse é o maior desafio que podem ter: 90 minutos em que podem mudar a história. Entrar para a história, ou passar à história. 

Esta não é só a época do Benfica dos zero pontos europeus. Esta é a época dos e-mails, dos padres, das missas. Não vale a pena ter ilusões: por mais processos que corram, o Benfica não vai perder os títulos que já conquistou e não vai ter penalizações desportivas. Esqueçam. O máximo que poderíamos espremer disto é que todo o modus operandi do Benfica, ao longo do seu ciclo de tetracampeão, foi exposto. E isso deveria limitar o Benfica em toda a sua estratégia fora de campo. Então, na época em que se dão a conhecer os padres e as missas... o Benfica tornar-se pentacampeão? Não. Impensável. É mais do que uma questão de orgulho. É uma questão de justiça.

Temos 90 minutos para colocar um travão a isso. O Rúben Dias e o Fejsa vão dar porrada. O Pizzi vai passar o jogo a mandar vir e a semear perdigotos. O Rafa e o Cervi vão fartar-se de correr e de tentar ganhar em velocidade e em diagonais. O Jonas vai ser matreiro, vai ganhar faltas, vai saber provocar. Felipe, Brahimi e Soares vão ser particularmente picados durante o jogo. E do outro lado está o treinador que disse, na antevisão à partida, que não gostava de usar a palavra «guerra», mas que ironicamente publicou um livro chamado «A Arte da Guerra». Coerente. 

São mais do que 90 minutos. São a honra e o orgulho de 124 anos de história. 

domingo, 8 de abril de 2018

A mesma luta

Depois do jogo em Paços de Ferreira, O Tribunal do Dragão escrevia: «FC Porto, Benfica e Sporting vão muito provavelmente voltar a perder pontos nas próximas jornadas, mesmo à margem dos clássicos que faltam disputar.» Seguiu-se a vitória q.b. sobre o Boavista, com o mesmo alerta para a «extremamente difícil visita ao Belenenses, num jogo que pode ser tão traiçoeiro quanto as visitas a Moreirense, Aves ou Paços de Ferreira». E assim foi, pois o FC Porto deixou no Restelo pontos e a liderança no Campeonato. 

Faltam seis jornadas para o fim da época, e não vale a pena fazer contas: é preciso vencer. Tal como o é desde a primeira jornada. Mas mais do que uma retrospectiva aos 90 minutos no Restelo, importa é recuar 10 meses atrás e recordar o post «A luta de Sérgio», aproveitando para relacionador alguns trechos publicados na altura com a realidade atual da equipa:

«O FC Porto não é, neste momento, um clube ganhador, que esteja a conquistar títulos e troféus. Não é um clube onde os treinadores chegam, veem e vencem. Vamos cumprir um período de pelo menos cinco anos sem títulos. Temos então o nome de Sérgio Conceição: é um treinador ganhador? Também não, ainda não conseguiu troféus na sua carreira de treinador. 
Então. Clube que não está a ganhar + treinador que nunca ganhou... O que faz os adeptos acreditarem? Nada mais do que a mística e a vontade intrínseca de vencer. Pois se o clube não está, atualmente, numa fase vitoriosa, que exigências podem ser apresentadas a Sérgio Conceição para que ganhe no FC Porto pela primeira vez? E que condições terá ele para isso?»

A seis jornadas do final da época, as circunstâncias são as mesmas. Depois da derrota por 5x0 com o Liverpool, o TdD escrevia que Sérgio Conceição e o plantel tinham, efetivamente, culpas: o milagre que tem sido esta época é tão vasto que faz os adeptos acreditarem que estávamos em piloto automático rumo ao título. Que podíamos arrumar o Liverpool, que se calhar íamos à Luz carimbar já o título e que a segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal será pouco mais do que uma formalidade. Pura ilusão. 

Esta não foi uma época preparada para o título. Nunca foi. Foi uma época atípica, em que o FC Porto não pôde reconstruir o plantel, fruto da má gestão da SAD que terminou no incumprimento do fair-play financeiro. Sérgio Conceição pegou no que tinha. Combinou os jogadores que ficavam, os que a SAD não conseguiu vender por propostas razoáveis e outros que seriam dispensados na maioria dos plantéis dos últimos 12 anos.

E o que foi fazendo o FC Porto jornada após jornada? Foi apresentando números no ataque, na defesa e na tabela classificativa do melhor que já se viu na história do clube. Isto são factos, é o que fica para a história. Mas isto nunca passou a ser uma época de condições favoráveis. Nunca. O plantel não passou de curto a vasto, e as últimas semanas foram a maior prova disso. 

Sérgio Conceição foi espremendo este plantel até ao máximo. Terminámos o mês de fevereiro a marcar em abundância, a jogar um futebol de grande qualidade e a vitória sobre o Sporting, no Dragão, elevou os índices de confiança ao máximo. Mas seguiu-se um banho de realidade: a equipa estourou. 

Nenhum plantel resiste eternamente a uma onda de lesões que priva o treinador das suas melhores opções. E quando falta qualidade à equipa, também falta qualidade às individualidades. Brahimi, o melhor jogador da primeira metade da época, perdeu gás. Aboubakar, que em dezembro era, a par de Cavani, o melhor marcador de toda a Europa, só pôde contribuir com um golo nos últimos três meses. Soares e Marega também sofreram lesões numa altura em que iam garantindo golos no Campeonato. 

Durante toda a ausência de Alex Telles, o FC Porto deixou de fazer golos de bola parada. Sérgio Oliveira, tal como aconteceu com José Peseiro, fez aqueles dois pares de jogos de boa qualidade, mas é um jogador para quem olhamos e sabemos que, mais tarde ou mais cedo, vai cair da equipa por falta de consistência. Corona, Óliver ou Otávio são nomes que poderiam ter emergido e sido importantíssimos nas últimas semanas, mas não conseguem agarrar-se à equipa. E, infelizmente, os reforços de inverno não estão a ter o impacto mais desejado. 

No Restelo, mais um exemplo de Lei de Murphy. Osorio fez a sua estreia no FC Porto, depois de Iván Marcano ter sido suspenso. E no momento em que estreamos um jogador, acaba por ser o colega do lado, Felipe, a borrar a pintura no Restelo: primeiro, no lance do 1x0, ao sair da sua posição para ir meter-se entre Osorio e Nathan, quando o venezuelano tinha o lance controlado; no 2x0, primeiro faz a falta, desnecessária, que dá origem ao livre, e em seguida há uma repartição de culpas. Maurides é o jogador mais forte a jogar de cabeça da Liga portuguesa. Então por que raio era Osorio, o estreante e um central frágil no jogo aéreo (ganhou apenas 55% dos lances que disputou na Liga - um central do FC Porto tem sempre que ter aproveitamento na casa dos 80-85%), que fez a perseguição direta a Maurides, enquanto Felipe ficou a marcar à zona, no mesmo sítio? Pequenos pormenores, mas que no fim fazem a diferença.


Tudo isto, mais tarde ou mais cedo, acaba por se fazer sentir. Esta equipa tem lutado muito, jornada após jornada. Teve momentos de qualidade, de superação, e não teve o aparo para se manter de pé quando tropeçou. Sim, não nos podemos esquecer que o Benfica deveria ter saído do Dragão a oito pontos. Isto não desculpa uma exibição pálida no Restelo, em que os jogadores podiam e deviam ter feito muito melhor, mas tudo conta no final. 

Recordamos mais uma passagem do referido post do mês de junho:

«Nenhum adepto sabe ainda se Sérgio Conceição vai jogar em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Se vai jogar em posse, em transição rápida, se vai ser híbrido. Não é, até à data, um treinador que tenha diferenciado os clubes por onde passou com um estilo de jogo particularmente brilhante ou positivo. O Paços de Paulo Fonseca jogou melhor futebol que o Braga ou o Guimarães (apenas 8 vitórias em 2015-16) de Conceição, por exemplo. O que não é garantia de nada, mas que sugere uma coisa: o FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo.»

O FC Porto, efetivamente, não contratou uma ideia de jogo com Sérgio Conceição. Foi o próprio treinador a moldar-se e a procurar a melhor fórmula para a equipa. A determinada altura, tudo estava a funcionar, numa estratégia que explorava acima de tudo os flancos e a profundidade dos avançados. Mas semana após semana, ia ficando a nota nos Machados: este era um modelo com limitações e que, mais tarde ou mais cedo, se tornaria excessivamente previsível. Assim foi.

Não existe jogo interior neste FC Porto. Zero. A equipa tornou-se excessivamente previsível e, no Restelo, só ensaiava dois movimentos: procurar que os laterais fossem projetados nas costas dos extremos para irem à linha, enquanto Brahimi/Ricardo atacariam o espaço interior; como isso não funcionou, os laterais acabavam quase sempre a cruzar a 3/4 do meio-campo, despejando bolas na grande área com pouco ou nenhum critério. Jogo interior, estratégia entre linhas? Zero. É a seis jornadas do final da época que vamos descobrir uma fórmula para meter o FC Porto a saber jogar por dentro? É agora que vamos recuperar o meio-campo a três e tentar meter alguém a pensar o jogo por dentro? 

Seja como for, isto vai de encontro às expetativas sobre o modelo tático de Sérgio Conceição:

«FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo. Está, isso sim, a contratar sede de vencer e um homem que vai ao encontro das dificuldades, trocando o conforto pelo risco. Sérgio Conceição não é, provavelmente, a melhor escolha para treinador. Mas como homem, já começou a vencer pelo FC Porto: está disposto a queimar-se a ele próprio para tentar a reerguer o clube que aprendeu a respeitar e a amar».

E após tudo isto... o FC Porto continua a depender de si próprio para ser campeão. Mesmo sem ter conseguido ser, nas últimas semanas, uma equipa evoluída taticamente, a equipa continua de pé. Para trás já ficaram 28 jornadas com uma belíssima média de golos, um bom registo defensivo, goleadas, penáltis por marcar, minutos por dar, anti-jogo ao extremo de adversários e afins. Lesões, muitas lesões. A obrigatoriedade de mudar a equipa quase todas as semanas. 

E, depois de tudo isto, onde estamos? Com os objetivos na Liga dos Campeões cumpridos, em vantagem nas meias-finais da Taça de Portugal e na luta pelo título de campeão, numa época em que não foram reunidas, de base, condições para estarmos nesta luta. A SAD, na preparação para 2017-18, não fez nada. Zero. Engoliu o resultado da sua própria incompetência, foi dando a ilusão de luta/revolta meramente graças aos e-mails que fizeram chegar ao diretor de comunicação para ler (não fosse isto e provavelmente seria uma época a fio sem pestanejar perante o domínio do polvo, como foram exemplo predominante os últimos 4 anos) e ficou à espera que Sérgio Conceição fizesse milagres. E tem feito.

As derrotas em Paços de Ferreira e no Restelo foram um duríssimo golpe, mas a equipa continua de pé. A seis jornadas do final, depende de si própria. Ganhando ao Aves fica com a oportunidade de voltar para a liderança do Campeonato dentro de uma semana. Felipe, Brahimi ou Aboubakar já estiveram no melhor e no pior, e Sérgio Conceição por certo também já cometeu erros. Mas após todos estes meses de trabalho, entusiasmo, evolução, limitações e desilusão... a equipa continua de pé. 

Recordando uma frase do treinador na apresentação no FC Porto: «Não me apetece falar do passado. Quero olhar para o presente e para o futuro e nisso já estamos a trabalhar. O passado não me interessa». Pois bem. As últimas 28 jornadas, as derrotas em Paços de Ferreira e no Restelo, são passado. O presente e o futuro passam por vencer já hoje o Desportivo das Aves.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Dérbi q.b.

Não há momento algum da época em que os adeptos prefiram a exibição ao resultado - mas muito menos nesta altura. Foi uma performance q.b. do FC Porto, mas o suficiente para vencer um dérbi que prometia e que foi difícil. A pausa para as seleções é relativamente bem vinda, desde que ninguém regresse dos seus compromissos internacionais direto ao boletim clínico. 


Danilo Pereira e Alex Telles já deverão estar 100% recuperados dentro de duas semanas, tal como Soares, para a extremamente difícil visita ao Belenenses, num jogo que pode ser tão traiçoeiro quanto as visitas a Moreirense, Aves ou Paços de Ferreira. Também não há boas alturas para perder pontos, mas ninguém pode subestimar a importância de não voltar a escorregar antes da visita ao Benfica. 




Felipe (+) - Abriu o marcador com um belo cabeceamento (e um excelente cruzamento de Sérgio Oliveira) e cedo deu tranquilidade à equipa. Ao contrário do que é habitual, desta vez o brasileiro esteve melhor a distribuir do que Marcano e foi o melhor passador da equipa, com 86% de acerto no passe e 4/7 nos passes longos. Só perdeu um duelo em todo o jogo e não cometeu nenhuma falta. Esteve ainda perto de bisar, num jogo em que nenhum dos avançados do FC Porto fez um remate enquadrado com a baliza. Felipe bem tentou mostrar, lá à frente, como se faz.


Héctor Herrera (+) - Algo amarrado na primeira parte, um pouco à imagem da equipa, libertou-se no segundo tempo e melhorou imenso com a entrada de Óliver. Foi responsável por 3 dos 5 remates do FC Porto à baliza de Vágner e aproveitou uma oferta do guarda-redes para fazer o 2x0. Não esteve tão forte nos duelos individuais (ganhou 5 em 13), mas compensou com bom posicionamento e grande disponibilidade a preencher o meio-campo.

A entrada de Óliver (+) - Corona terminou a primeira parte a aquecer, continuou os exercícios durante o intervalo, mas três minutos depois do reatar da partida Sérgio Conceição decidiu lançar Óliver. Só o treinador saberá o que o fez mudar de opinião em tão curto espaço de tempo, mas a entrada de Óliver em campo reorganizou o FC Porto, que ganhou o meio-campo e conseguiu finalmente circular a bola. Óliver contribuiu com 85% de acerto, 5 em 6 passes longos corretos e ainda criou 2 situações de finalização - foi um dos jogos mais pobres da época do FC Porto neste capítulo, pois só Maxi (1), Ricardo (1) e Sérgio Oliveira (2) conseguiram passes para finalização. Tudo melhorou com o espanhol em campo.




Definição (-) - Mister, está na hora de tentar algo diferente quando a equipa chega perto da grande área. Este filme repetiu-se várias vezes: o portador da bola chega às imediações da grande área; faz um passe curto para trás e desmarca-se para as costas da defesa; o colega que recebe a bola tenta «picá-la» por cima do defesa, tentando isolar o colega; a defesa adversária corta o lance. Foi um movimento repetido vezes sem conta e que se tornou demasiado previsível, além de não ter funcionado. Não houve ousadia para o remate à entrada da grande área, o último passe não funcionou e a produtividade ofensiva foi perto de inexistente - Brahimi e Otávio nem remataram nem criaram situações de finalização, enquanto Aboubakar teve dois remates, ambos ao lado.

Nos últimos jogos, Sérgio Conceição tentou duas soluções diferentes para replicar o papel de Marega: um jogador rápido sobre a meia direita, a cair nas costas da defesa. Waris passou do 11 para a bancada, e Ricardo Pereira passou da lateral-direita para o ataque. Repare-se que, quando Danilo se lesionou, Sérgio Conceição não tentou encontrar um novo 6 - mudou a disposição do meio-campo e reposicionou Sérgio Oliveira e Herrera. Mas neste caso, apesar da lesão de Marega, Sérgio Conceição tentou encontrar em Ricardo a solução para o ataque. O português é ágil, rápido e mais habilidoso em ganhar a linha e cruzar do que Marega, mas não tem a dimensão física para «arrastar» a defesa e comer metros no terreno como o maliano.

Por outro lado, será mesmo essencial, numa equipa como o FC Porto, líder do Campeonato e com um dos melhores desempenhos (em termos pontuais e de finalização) dos últimos 30 anos, depender tanto de um jogador a cair nas costas da defesa? Não devia. Se não há espaço, tem que haver alternativa. Os adversários do FC Porto na I Liga jogam quase todos com linhas baixas. Chegámos ao ponto em que, a 3 metros da grande área, a equipa continuava a tentar procurar o espaço nas costas da defesa com bolas pelo ar. Não funciona. É necessário ter uma alternativa. Ter mais bola, saber criar o espaço através da circulação e não depender tanto do bicão para o lado direito. A equipa tem qualidade e soluções para isso. Por muito que o lado direito seja um problema, já todos sabem como é que o FC Porto vai jogar por aquele corredor. Há que surpreender para não ser... surpreendido.

terça-feira, 13 de março de 2018

O preço de Iker Casillas

«Só conseguimos equilibrar as coisas verdadeiramente quando os contratos terminarem. Por exemplo, o contrato com o Casillas termina no final deste ano. É um contrato muito elevado. Vamos pagar até ao fim religiosamente, não temos alternativa. Quando o contrato terminar, vamos logo ter uma folga de alguns milhões de euros anuais», Francisco Marques, citado pela Revista Sábado, 02/03/2018

«Quem não gostaria de continuar com Casillas? Estou muito feliz por o termos. Está a demonstrar que é realmente uma mais-valia para qualquer clube. Ficar? Gostaria que sim. Se é possível? Quando é possível ter mar em Bragança é tudo possível», Pinto da Costa, 06/03/2018

Iker Casillas está a caminho do 37ª aniversário. É raro, senão inédito, vermos um guardião com essa idade defender as balizas do FC Porto. O guardião espanhol já não está no seu auge, mas continua a ser uma garantia de qualidade, com um rendimento que o aproxima - mas que não supera, diga-se - os dois últimos guardiões indiscutíveis no FC Porto.

O FC Porto venceu 64,2% dos jogos que disputou com Casillas na baliza. Com Vítor Baía (67,3%) e Helton (68,5%) venceu um pouco mais. A média de golos sofridos também apresenta algumas diferenças, mas residuais: 0,72 para Iker Casillas, 0,7 para Hélton e 0,65 para Vítor Baía.

A maior diferença, claro está, reside no palmarés. Helton e Vítor Baía são duas referências pelos títulos que conquistaram. Já Iker Casillas continua com o currículo em branco na sua passagem por Portugal. Portanto, neste momento, a maior preocupação é mudar isso: ver o FC Porto regressar aos títulos, algo que leva até a que os adeptos «aceitem» que haja diversos jogadores já elegíveis para assinar por outros clubes a custo zero e outros que estão a nove meses de o poder fazer. 

Ainda assim, tendo em conta as duas declarações acima citadas, importa recordar uma questão em torno de Iker Casillas. Todos defendem que o espanhol é caro. Muito caro para a dimensão do campeonato português. E nesse caso sobra a pergunta: quando, exatamente, é que Iker Casillas passou a ser caro? 

Oportunidade para recordar estas declarações de Pinto da Costa, em julho de 2015, ao jornal O Jogo, aquando da chegada do guarda-redes. «Para nós, foi altamente competitivo em termos de preço. Ele, que foi considerado várias vezes o melhor do mundo, tem o melhor currículo, e com 34 anos pode jogar mais três ou quatro anos em grande nível, como aliás o Helton prova; ganha tanto como o Fabiano e o Andrés Fernández juntos. E eu pergunto o que qualquer clube do mundo preferirá: ter o Fabiano e o André Fernández ou ter o Casillas?». 

Ora, tendo em conta que Andrés Fernández já saiu e que Fabiano está, neste momento, meramente a fazer número no plantel, o que faltará para Iker Casillas renovar contrato? Apenas que Fabiano saia?

Podemos ainda acrescentar o factor Vaná, com um pouco de mistério à mistura. O FC Porto apresentou Vaná a 15 de julho, mas o R&C da SAD do primeiro semestre diz que o guarda-redes foi comprado ao Feirense apenas em agosto - um milhão de euros por 80% do passe. Vaná andou 15 dias - ou mais - a treinar-se com o FC Porto antes de ser comprado ao Feirense? Para quê tanta pressa por um jogador que nem nas Taças nacionais calçou? 


Lá está. O FC Porto não tinha muita disponibilidade para investir no mercado no verão. Mas no pouco que investiu, investiu onde não era prioritário ou sequer necessário.

No final da época, e pegando nas palavras anteriores de Pinto da Costa, talvez possa ser colocada a mesma questão: o que é mais caro? Ter Iker Casillas na baliza? Ou ter Fabiano e Vaná meramente a treinar no Olival? Um tema que pode esperar dois meses. Para já, mais importante, é ter Iker Casillas campeão em maio. Aliás, o FC Porto campeão. 

segunda-feira, 12 de março de 2018

Após as toupeiras, o problema foram os castores

À 26ª jornada, a primeira derrota. Só por cinco vezes na sua história o FC Porto tinha chegado a esta ronda ainda sem perder no Campeonato, pelo que sofrer uma derrota num ciclo de 26 jogos é mais do que normal, embora custe sempre a digerir. Bastava um deslize para deixar o Benfica a depender de si próprio na luta pelo título, e aí está ele, novamente contra uma equipa que lutava para sair da zona de despromoção.

Dos 11 pontos que o FC Porto desperdiçou neste Campeonato, sete foram consentidos frente a equipas que jogavam para fugir à zona de descida (e os restantes quatro em clássicos). E isso era algo que se prognosticava para esta fase da época: as equipas aflitas a tirarem pontos à parte superior da tabela. Lembremos que nas visitas a Moreirense e Aves ficaram lances de grande penalidade por assinalar, mas esta deslocação à Mata Real mostrou que ter um penálti não é uma garantia de golo, muito menos neste plantel. 


Condições de jogo adversas, ausências de peso (estamos há semanas a jogar sem vários titulares - os milagres não duram sempre), apostas que não resultaram e, globalmente, uma exibição de muito pouca clarividência e qualidade. É apenas mais um exemplo de que bastam 90 minutos para inverter a disposição e a forma como se olha para esta luta pelo título: os mesmos que agora atribuem total descrédito a esta equipa talvez sejam os mesmos que já esfregavam as mãos com vista aos Aliados depois das últimas vitórias. Não, e diga-se mais: FC Porto, Benfica e Sporting vão muito provavelmente voltar a perder pontos nas próximas jornadas, mesmo à margem dos clássicos que faltam disputar.

E embora o plantel seja imune ao que se vai passando fora dos relvados, é sempre bom recordar que o FC Porto terá que ganhar e lutar por cada jogo dentro das quatro linhas. Numa semana em que tanto se rejubilou com toupeiras, muitos pareceram esquecer-se de que o maior problema iriam ser os castores. Nenhuma das práticas ilícitas do Benfica vai dar pontos ao FC Porto neste Campeonato. Teremos que ir atrás de cada um dos 24 pontos que faltam disputar. A começar pelo Boavista. 




Fórmula Waris (-) - Bola na direita, corre Waris. Abertura para a direita, corre Waris. Bola em profundidade para a direita, corre Waris. O FC Porto insistiu sempre na mesma fórmula na primeira parte, Sérgio Conceição esperou mais uns minutos na segunda e por fim chegou à conclusão: não ganhámos um único lance assim.

Este é um movimento que o FC Porto faz muito, mas normalmente com Marega no papel de Waris. E ainda que também sejam raras as vezes em que Marega ganha a linha ou consegue um cruzamento, Waris foi ainda pior, não tendo conseguido acertar um único lance enquanto esteve em campo. Já se sabia do risco que era trazer, para o papel de reforço de inverno, um jogador que não trazia ritmo, mas Waris revelou-se totalmente inadaptado às dinâmicas da equipa e aos colegas. Assim será difícil ser solução. 

Estratégia e resposta (-) - É muito difícil jogar nestas condições. Há que compreender isso. Como não deu para alagar o relvado no Olival antes de viajar para Paços de Ferreira, a equipa viu-se forçada a jogar num contexto para o qual não treinou, e logo privada de quatro jogadores que poderiam ter sido muitíssimo importantes hoje: Danilo, Herrera, Soares e Marega. Embora todos gostemos de recordar o dilúvio de Coimbra e a habilidade de Belluschi, neste tipo de piso os jogos ganham-se sobretudo com presença física e acerto no passe longo. E o FC Porto não a teve. 

Aboubakar foi o único a conseguir ganhar alguns lances de corpo a corpo, mas nunca com efeitos práticos na grande área. Entre 15 pontapés de canto, 36 cruzamentos e 61 bolas colocadas na grande área, contaram-se pelos dedos as vezes em que vimos os jogadores do FC Porto criar perigo na sequência deste tipo de lances. Uma boa ocasião de Aboubakar logo após o 1x0, outra de Gonçalo Paciência na segunda parte e pouco mais.

A ineficácia esteve presente, claro. Mas quando olhamos para o banco, naturalmente, viu-se que não havia muito mais a espremer. A aposta em Waris correu mal e ver André André ser titular nesta fase da época é penoso (sobretudo tendo Óliver disponível), pelo que talvez teria sido mais útil entrar logo com Gonçalo de início. Totobola à segunda-feira é fácil, mas entrar neste campo com André André a segurar (?) o meio-campo, a depender da velocidade de Waris pela direita e com a presença na grande área limitada a Aboubakar... E quando a última cartada possível se chama Hernâni... Tinha tudo para correr mal. E correu.

Já a grande penalidade... É sempre um tema difícil de debater. Por que é que bateu Brahimi? Talvez porque durante a semana, nos treinos, foi o que bateu melhor. Se o argelino falhasse as grandes penalidades nos treinos, certamente que não as marcaria nos jogos. De qualquer forma, este foi o sexto penálti batido por Brahimi no FC Porto - marcou três e falhou três. E curiosamente, dos três que marcou, dois foram batidos para o meio da baliza e um passou por debaixo do corpo de... Mário Felgueiras. O mesmo guarda-redes, mas na época passada. Brahimi voltou a atirar para o mesmo lado, Mário Felgueiras voltou a lançar-se para o mesmo lado. Desta vez o FC Porto já não teve a mesma sorte.

E agora? Agora o FC Porto continua na liderança, a depender de si próprio e a obrigar o Benfica a vencer os seus jogos para se manter na luta. Mas a margem de erro, essa, acabou. Por culpa própria, diga-se. Mas liderar este Campeonato à 26ª jornada continua a ser uma prova de superação e, se nos oferecessem esta condição no início da época, não haveria ninguém que não assinaria por baixo.  Nos últimos 20 anos, mais pontos só com Mourinho e Villas-Boas, e no pós-Viena mais golos só com Bobby Robson. Se este é um ponto baixo na época, não deixa de ser melhor do que os pontos altos das últimas temporadas. 

Venha o Boavista.

sábado, 10 de março de 2018

Anfield e o balanço da Champions

Pela primeira vez na sua história, o FC Porto terminou um jogo em Inglaterra sem sofrer golos. Mesmo na anunciada despedida da Liga dos Campeões 2017-18, é um facto assinalável, tendo em conta que foram precisas 19 viagens a terras inglesas para tal acontecer nas provas europeias. É isso que se guarda da visita a Liverpool, num jogo do qual não há muito mais para contar e que certamente não perdurará nos livros de história. 


Tempo de uma apreciação à participação na prova. O FC Porto atingiu o máximo que podia atingir nesta Champions, cumprindo o difícil objetivo de alcançar os oitavos-de-final e que convida a uma reflexão para o médio prazo. O fosso competitivo entre os grandes clubes europeus e as equipas portuguesas promete aumentar e será cada vez mais difícil jogar declaradamente para os 1/8 da Champions. 

Primeiro, porque já só uma equipa terá garantido, via campeonato, um lugar na fase de grupos 2018-19. Depois, porque há que manter em retrospetiva o desempenho dos últimos anos. Por exemplo, com Jesualdo Ferreira, o FC Porto foi sempre aos oitavos-de-final da Champions, em quatro épocas consecutivas, mas nos últimos oito anos já só conseguiu essa meta por quatro vezes. Época após época, estar na elite europeia será cada vez mais complicado. 

E o FC Porto sentiu, precisamente, muitas dessas dificuldades já neste ano. Na Liga portuguesa, o FC Porto tem passeado superioridade jornada após jornada. Boas exibições, goleadas, um dos melhores ataques da história do clube e uma liderança bem vincada após 25 jornadas. Mas na Champions não houve capacidade para revelar a mesma força, com o FC Porto a mostrar, ao longo dos seus oito jogos europeus, muitas dificuldades quer a defender, quer a atacar

Na altura muitos estranharam esta apreciação na fase de grupos, mas o desfecho na prova mostra que não foi acaso. Nos primeiros cinco jogos, o FC Porto marcou 10 golos. Uma boa média num contexto europeu. Mas entre esses 10 golos, 7 foram de bola parada, um de contra-ataque, um numa bola em profundidade e outro numa jogada de insistência e ressaltos na grande área. Não vimos a diversidade ofensiva que o FC Porto apresenta na I Liga. Seguiu-se a goleada ao Mónaco, por 5-2, aí sim já com mais soluções ofensivas, mas frente a um adversário que jogava com suplentes e já arredado da prova. Contra o Liverpool, em 180 minutos, não deu para chegar ao golo. 

Entre lesões, castigos e outros condicionamentos Sérgio Conceição teve sempre as suas opções na Champions limitadas, mas há vários fatores que ajudam a explicar esta dicotomia. Primeiro, tivemos mais defesas do que avançados a marcar na Champions. Repare-se: Alex Telles, Felipe, Marcano, Layún e Maxi Pereira, contra Soares, Aboubakar e Brahimi. Marcaram ainda Danilo e Herrera. E entre todos estes jogadores, apenas Aboubakar marcou por mais do que uma vez (5 golos e 2 assistências, tendo tido influência em 50% dos golos do FC Porto na prova). 

Outro aspecto que mostra a diferença de contexto competitivo é Marega. Na Liga portuguesa, tirando os jogos de maior exigência, é um jogador capaz de garantir golos neste FC Porto, tendo já 20 no Campeonato. Mas na Champions, com exceção das duas assistências que conseguiu fazer no Mónaco, foi quase sempre o elo mais fraco jogo após jogo. As razões são óbvias: na Champions a qualidade das equipas é superior. Quer a defender, quer a atacar. E o facto de, na Liga portuguesa, o FC Porto estar habituado a jogar sempre em meio-campo adversário, contra equipas a jogar com o relógio e para o pontinho, não ajuda a criar o estímulo competitivo necessário para quando toca o hino da Champions. 

Mesmo na dimensão defensiva, houve dificuldades acrescidas. O FC Porto sofreu 15 golos em 8 jogos na UEFA - na Liga portuguesa tem apenas 13 golos consentidos em 25 jornadas. Uma vez mais, as razões são óbvias: os adversários europeus atacam mais, melhor e têm melhores atacantes do que as modestas equipas da I Liga. Mas o estilo de jogo do FC Porto implicava demasiada alergia à bola para poder conviver com a mais alta ambição europeia. Recordando, na fase de grupos: o FC Porto foi a equipa qualificada que menos tempo teve a bola em seu poder (23 minutos de tempo útil) e a 2ª pior percentagem de acerto no passe (77%). Isto prometia problemas que o Liverpool tratou de confirmar. 

Portanto, o FC Porto cumpriu os seus objetivos na Liga dos Campeões 2017-18, mesmo sem jogar um grande futebol e tendo tido diversos problemas/limitações no processo ofensivo e na dimensão defensiva. E há que ter a sensibilidade para compreender que era a primeira época de Sérgio Conceição na Champions, que a equipa mudou de sistema ao longo da prova e que, apesar de tudo, conseguiu apresentar os resultados que eram exigíveis. Os adeptos recordam e saúdam muito mais facilmente a vitória com um golo às três tabelas do que a derrota com uma grande exibição. 

E é precisamente por aqui que temos que terminar: a exigência da SAD em que a equipa marque presença nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Toda esta questão em torno do Estoril x FC Porto revelou um detalhe deveras importante. O FC Porto precisou da bilheteira do jogo com o Liverpool, no Dragão, para pagar dívidas antigas, por jogadores que já nem estão nos quadros do clube, e impedir que o clube chegasse ao final de março sujeito a nova punição por parte da UEFA. Isto já depois de a SAD ter tornado o FC Porto no único clube a ser punido por violar o fair-play financeiro na época passada.

É um tanto irónico. Sérgio Conceição a precisar de reforços e, por exemplo, Iván Marcano em final de contrato. Mas o desempenho desportivo destes profissionais a nível europeu, que permitiu mais um bom encaixe para a SAD, não servia para premiar/reforçar este plantel, mas sim para pagar por atletas que já não estão no clube. Não estamos a falar do prémio pela qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, de seis milhões de euros. Estamos a falar da receita de bilheteira, que tem sempre um peso altamente reduzido nos proveitos operacionais da SAD, sobretudo estando a falar de apenas um jogo.

O risco mantém-se época após época, mas há muito que O Tribunal do Dragão o defende: as épocas deveriam ser orçamentadas não contando com receitas da UEFA que a SAD não sabe se vai ter, sobretudo a partir desta época. Entre Benfica, Sporting ou FC Porto, dois deles não vão ter receitas da entrada na Liga dos Campeões no próximo exercício (sendo que um ainda poderá apurar-se, via pré-eliminatória e play-off). Entrar na Champions é cada vez mais difícil, quanto mais lutar por um lugar nos 1/8.

É compreensível que o FC Porto não quer perder competitividade e que o risco é a gestão da SAD há muitas épocas, mas tendo em conta que (ainda) estamos a atravessar o maior jejum de troféus das últimas décadas, sobrecarregar o plantel não é o caminho sustentável. Até porque todos concordam: desportivamente, o maior objetivo é ser campeão nacional. Mas o que dá dinheiro não é ganhar a I Liga, é a qualificação e o desempenho para as provas da UEFA. 

A necessidade financeira não pode ser maior do que a ambição desportiva.