terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Outro paralelismo


Tal como no post anterior, vamos começar com um paralelismo. Em Paços de Ferreira, no empate 0x0, o FC Porto rematou 23 vezes, 7 à baliza. Contra o Moreirense, rematou 22, 7 à baliza. Em Paços de Ferreira criou 14 ocasiões de perigo (5 na primeira parte). Contra o Moreirense, 16 (7 na primeira parte). Em Paços de Ferreira, o FC Porto entrou na grande área 59 vezes e ganhou 14 cantos. Contra o Moreirense, entrou 62 vezes e ganhou 11 pontapés de canto. 

Que quer isto dizer? No que diz respeito ao volume ofensivo, o FC Porto produziu praticamente o mesmo. A mesma equipa, a mesma produção, com a diferença do FC Porto ter jogado contra 10 na segunda parte (algo que acabou por não surtir efeito no resultado). Ainda assim, os mesmos adeptos que ficaram minimamente satisfeitos com a vitória frente ao Moreirense são os mesmos que ficaram insatisfeitos com o empate em Paços de Ferreira.

A diferença? A eficácia. É isto que tem diferenciado o FC Porto que faz os adeptos acreditar do FC Porto que não parece ter estofo para o título. A equipa joga sempre dentro da mesma linha, o que faz a diferença é a bola que bate no poste, a que sofre um ressalto e entra, a que o guarda-redes deixa escapar ou não.

A equipa é a mesma, o rendimento é o mesmo. Suficiente? Não, ainda não. Mas este não é um FC Porto de duas caras. Tem apenas uma. E essa cara só sorrirá no final da época se tiver eficácia a acompanhá-la. 




Héctor Herrera (+) - Um case study. Herrera foi o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a jornada (6). Fez 6 desarmes e 14 recuperações de bola, tendo só sido ultrapassado neste aspeto por Danilo na reta final do jogo. Do meio-campo para a frente, foi o mais eficaz no passe, com 86%. Preencheu toda a meia direita, foi à linha, fartou-se de apoiar Maxi Pereira quer no ataque quer na defesa, também ajudou no miolo e durante grande parte da partida foi o único jogador a preencher o buraco de 30 metros entre a linha média e os avançados do FC Porto. Fez tudo isto, mas ainda há-de haver quem acha que jogou mal. É obra.

Iván Marcano (+) - Quando o Tribunal do Dragão considerava Marcano o melhor central do FC Porto, muitos entendiam isso como uma crítica ao nível dos centrais no clube, essencialmente desde 2014-15. Hoje, já ninguém pode duvidar de que afirmar isso não é mais do que enaltecer a qualidade de Marcano. Um central que marca um golo e faz uma assistência será sempre motivo de destaque, mas uma vez mais, Marcano assume-se como o patrão de uma defesa que sofre poucos golos e que nunca será a causa para um FC Porto sem títulos. A renovação já não é tabu, e não será nunca uma má opção.

Óliver Torres (+) - Não sabe jogar mal - e o FC Porto não sabe, pelo menos da mesma maneira, jogar sem ele. Mas há de facto algo que falta ao futebol de Óliver: intervenção direta em golos. Se é verdade que mostrou isso com Lopetegui, com NES Óliver não ter tido tanta influência direta perto da grande área. As coisas começam a mudar: em dezembro fez a primeira assistência, agora contribuiu com um belo golo, num remate que pode parecer fácil mas que não está ao alcance de todos - a capacidade de perceber exatamente onde e como tem que colocar a bola, em vez de chutar com ansiedade. Não é que seja essencial Óliver marcar mais golos - por exemplo, Sergio Ramos tem mais golos na carreira do que Iniesta, que não deixa de ser dos melhores médios de sempre -, mas será sempre importante para que se afirme como um dos melhores médios da Europa. E porque não cansa insistir: Óliver tem que jogar na zona central. Não na esquerda, não a partir da esquerda: na zona central. É ali que está a virtude de Óliver - e, com ele, do FC Porto.

Avançados (+) - Diogo Jota foi sempre o jogador capaz de agitar o ataque e de acrescentar velocidade às transições. Tem grande mérito na jogada do 2º golo e foi o complemento perfeito a André Silva e à ausência de uma referência clara à esquerda - palavra para Alex Telles, que teve que fazer praticamente o corredor todo durante parte do jogo. Desequilibrou e voltou às boas exibições, depois de um período em que perdeu um pouco de fulgor. André Silva fez um golo à ponta-de-lança, perdeu oportunidades para bisar, mas o que mais há a destacar na sua exibição foi a forma como caiu nos flancos, segurou a bola, esperou apoios e deixou de apostar naqueles 1x1 que eram quase sempre inconsequentes. Ah, já agora: de todos os jogadores que passaram pelo FC Porto e estão no ativo, só dois tiveram melhor média de golos do que ele: uns tais de Falcao e Jackson Martínez. Tem 21 anos e um ano de equipa principal. Só mesmo para lembrar.




A pontaria (-) - Muitas vezes discute-se a mera eficácia ou ineficácia, mas há algo a ter em conta: a quantidade de remates que saem entre os postes. De nada vale haver queixas da eficácia se o que o FC Porto fez foi fazer pontaria à bancada, em vez de dar muito trabalho ao guarda-redes. Neste caso, em 45 minutos, a jogar contra 10, o FC Porto fez apenas 4 disparos entre os postes - dois deles de André Silva na mesma jogada. É muito pouco para uma equipa que se afirma candidata ao título, que joga em casa e que joga contra 10. A determinada altura, a bancada parece que tinha íman nos remates. É preciso afinar a pontaria. Só dão golo os remates que levarem a direção da baliza. Sim, uma descoberta tão chocante quanto ver que a bola é redonda, mas que tem sido algo em que o FC Porto tem falhado (contra o Paços de Ferreira, também apenas 4 remates à baliza na segunda parte).

Coxos contra 10 (-) - Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com 10 tenta fazer? Encurtar o campo. Reduzir os espaço, tentar que o jogo não alargue para não ficar desequilibrada. Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com mais um tem que fazer? Abrir o jogo, ganhar profundidade e largura, porque assim é impossível uma equipa com 10 permanecer equilibrada na altura de variar o flanco.

Mas aquilo que vimos, durante grande parte da segunda parte, foi o FC Porto jogar coxo do lado esquerdo, sem ninguém que assegurasse largura constante naquele flanco. Quando Alex Telles não subia, o FC Porto perdia um espaço de 10 a 15 metros na largura do campo que podiam ter ajudado a criar muitas mais ocasiões de golo. Não foi coincidência alguma que a melhor ocasião de golo da segunda parte tenha aparecido quando Diogo Jota - dividido entre a faixa e o apoio a André Silva - conseguiu romper por aquele lado e ir à linha cruzar. O FC Porto nunca preencheu declaradamente aquela zona, e com isso ajudou a que o Moreirense, apesar de jogar com 10, não tenha sofrido um único golo de bola corrida, e o único que o FC Porto tenha conseguido marcar contra 10 tenha sido na sequência de um canto. Contra 10, exigia-se outro tipo de clarividência e produtividade. 

Ficam os 3 importantes pontos, numa jornada em que o FC Porto ganhou em 3 campos. Na época passada, o FC Porto na segunda volta fez menos 7 pontos do que na primeira. A ambição tem que passar por, desta vez, melhorar. Venham já mais 3 no sábado. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

É importante ganhar ao Moreirense

Entremos numa realidade paralela. Se Rui Pedro não tivesse marcado ao SC Braga, diriam daquele jogo exatamente o que estão a dizer deste jogo com o Paços de Ferreira. Da mesma forma que se uma daquelas bolas tivesse entrado ontem, talvez diriam o que muitos disseram do jogo contra o SC Braga: que a equipa teve raça até ao fim, que nunca desistiu, que o Paços não merecia nada e alguns ainda iam conseguir descobrir sinais de crescimento na equipa. 

Mas a equipa é a mesma. Tivesse ou não Rui Pedro marcado ao SC Braga, tivesse ontem alguém conseguido meter uma bola na baliza do Paços de Ferreira. A valia da equipa é a mesma, a evolução - a falta dela - é a mesma, as limitações no plantel e no banco (não apenas nos sete suplentes que lá estão sentados) são as mesmas. Não é um único remate que muda isso, mas pode muito bem mudar a disposição de vir a público dar entrevistas e catalogar os adeptos.


Ontem não foi por culpa da arbitragem, foi por culpa própria. Culpa da ineficácia, mas não só: culpa da falta de ambição e de capacidade de resposta ao jogo. É a pior pontuação à 16ª jornada desde os tempos de Jesualdo Ferreira, e não é difícil imaginar que bastava André Silva não ter convertido aquele penalty nos descontos em Brugge para as coisas estarem muito, muito piores. Não só para o FC Porto. 

Face a tudo o que foi a preparação desta época, estar nesta altura num lugar de acesso à Champions é estar acima das expetativas. Já estar a 6 pontos do Benfica é consequência não só das arbitragens que temos tido razão em criticar, mas também por causa de exibições e da postura desportiva como a que foi apresentada em Paços de Ferreira.




Óliver Torres (+/-) - Quando falta um jogador crucial, a pior coisa que podem fazer é mexer numa segunda posição para corrigir a primeira. Assim, a equipa tem duas alterações na sua base, em vez de apenas uma. Mas face à falta de Brahimi, Nuno optou por desviar Óliver para o lado esquerdo. E com isso, Óliver falhou muitos mais passes do que é habitual, a sua zona de distribuição ficou reduzida e o FC Porto nunca teve capacidade individual para furar naquele flanco. Apesar disso, Óliver ainda conseguiu ser dos melhores do FC Porto: era o único que procurava soluções, que tentava orientar a equipa para o ataque e que conseguia ganhar bolas no meio-campo do Paços de Ferreira (12) e organizar o ataque. O problema é que o FC Porto está, no lado esquerdo, habituado a alguém que ofereça rasgo à equipa. Mas Óliver não é Brahimi. E com isso perdeu-se muito no miolo, pois ninguém mais é Óliver no FC Porto.

Herrera (+/-) - Esteve mais eficaz no passe do que Óliver, criou 4 situações de golo e, mesmo no seu estilo desengonçado, procurou tabelar e dar velocidade ao jogo, tendo acabado por ser o principal municiador do ataque. Mas tudo à sua volta era um corpo estranho: um flanco direito que era sinónimo de bola perdida, um flanco esquerdo onde ora aparecia Óliver (que guardava a bola à espera que lhe dessem apoio, quando Herrera tentava sempre lançar a tabela rápida), ora Jota (por alguns minutos), ora André Silva (alguém que explique esta alteração); Herrera não tinha nenhuma solução por perto que aproximasse a bola da baliza; e quando tinha que ser Herrera a assumir esse papel, aparecia a muralha de pernas do Paços.





NÃO SOFREMOS GOLOS! (+) - Um sinal mais num Machado? Sim, é possível. Pelo menos a avaliar pela primeira reação de Nuno Espírito Santo ao empate: «Hoje conseguimos recuperar o que é nosso, ou seja, tivemos uma boa coesão defensiva e não permitimos ocasiões de golo ao Paços de Ferreira». Depois de um empate que sabe a derrota, contra uma equipa nunca esteve interessada em mais do que defender ou sair com pouca gente para o ataque, a primeira coisa que se destaca é que o FC Porto não sofreu golos? Celebremos!

Sem ambição (-) - Ok, concordemos que os tempos em que a solução para tentar marcar nos últimos minutos era meter mais avançados, ou até mandar um central para o ataque. Isso já é passado. Mas se calhar não devia ser, pois era provável que desse mais argumentos ao FC Porto do que todas as opções ontem de NES. As 3 unidades mais criativas (do ponto de vista individual) do FC Porto são estas: Óliver, Jota e Corona. Todos foram substituídos, e em nenhuma das alterações NES deu sinais à equipa para subir. 

Trocou Óliver por João Carlos; trocou Jota por Rui Pedro; e trocou Corona por Varela. Tudo alterações de troca-por-troca, sem acrescentar volume ofensivo à equipa. Depoitre, que deixou meio mundo a vibrar com um golo de cabeça que aparentemente só um ponta-de-lança comprado por mais de 6M€ ao Gent conseguiria fazer, ficou a aquecer o banquinho. NES disse que o FC Porto quer «manter o seu plano de jogo, do primeiro ao último minuto». Mas o problema é exatamente esse: uma equipa que pensa em jogar no primeiro minuto, estando 0x0, da mesma forma que no minuto 90, continuando 0x0. Não houve capacidade de resposta através do banco. 

NES já mostrou ser capaz de preparar bem os jogos. Como foi exemplo o jogo com o Benfica. E o clássico da 10ª jornada. E a última visita do Benfica ao Dragão. E o jogo que fizemos a 6 de Novembro. São estes os exemplos de um grande FC Porto que tivemos esta época, personalizado, com uma entidade clara e dominante. O problema é que, na hora do treinador meter o seu dedo no jogo a partir da primeira alteração, a tendência do FC Porto é sempre para piorar. Neste caso, para não melhorar em nada e não procurar novas soluções para ganhar o jogo.

As asas (-) - Uma pequena questão: que está Varela exatamente a fazer no FC Porto? Em causa não está a valia do jogador, mas o seu contexto no plantel. Faltam Brahimi e Otávio, foram dispensados 3 jogadores (a dispensa de Sérgio Oliveira só peca por tardia, a de Adrián López compreende-se se tiver já colocação e o caso de Evandro é o mais/único lamentável, pois é um médio completo, experiente e inteligente que podia - e devia - entrar na equipa a qualquer altura), e mesmo assim Varela só é opção para uns minutos finais de desespero. São estes os planos para um dos jogadores mais bem pago do clube? Se é para isso, o melhor é repensar a sua posição no plantel. De certeza que não foi NES a achar que as alas estavam suficientemente fortes para atacar esta época, sobretudo com Brahimi na CAN. Também não esperem que NES sinta que Kelvin vai resolver os seus problemas.

Ainda no tema dos flancos, jogo verdadeiramente penoso de Corona, que continua a ter uma inconsistência gritante. Ora sai do banco para agitar o jogo, pedindo a titularidade no jogo seguinte, ora faz uma exibição como a de ontem, em que decide quase sempre mal quando toca na bola. Não havendo mais opções para as alas nesta fase, é natural que Corona seja aposta clara de NES; jogando assim, complica ainda mais a tarefa do treinador. Maxi Pereira também não esteve bem no apoio ao ataque, onde Jota e André Silva desperdiçaram as poucas (não foram assim tantas) oportunidades que tiveram. É o peso de confiar o ataque a uma dupla de avançados sub-21, que não tem culpa que o ponta-de-lança que devia ser mais experiente/maduro do que eles se chame Depoitre e não saia sequer do banco. Jota perdeu muito fulgor nas últimas semanas, mas a sua recorrente titularidade mostra que NES não tem outra solução em mente para a equipa neste momento e prefere insistir nesta fórmula até à exaustão. Não que tenha muitas mais alternativas por onde escolher.

K7 (-) - Pontapé de saída, bola no lateral, balão para o ataque. Pontapé de saída, bola no lateral, balão para o ataque. Pontapé de saída, bola no lateral, balão para o ataque. A época vai a meio e o FC Porto ainda não pensou que seria uma boa ideia ensaiar outro tipo de jogada. 

Bolas paradas (-) - 14 pontapés de canto, nenhum em que alguém ganhasse posição para um cabeceamento. Foi notória a incapacidade de aproveitar os lances de bola parada. Isso treina-se, e quem não tem jogadores altos o suficiente na grande área, pode procurar outro tipo de movimentações através do canto curto.  NES não tem culpa de não ter o melhor plantel, mas tem que tentar fazer o melhor possível com as armas que tem. Não se pedirá nunca mais do que isso ao treinador. 

Outra vez, o tema Depoitre (-) - Dos 22 remates que o FC Porto fez, 11 foram feitos na pequena área. Que quer isso dizer? Que o FC Porto, apesar de muitos cruzamentos mal tirados, estava a meter as bolas na pequena área. Nesse caso, se nesta circunstância um pinheiro (leia-se Depoitre) não é útil, nunca o será. Até Rui Pedro, mais baixo, foi lá cabecear duas vezes. Se NES queria Depoitre, as suas opções não o têm demonstrado. Nada. 

Terceiro jogo consecutivo sem ganhar e sinais muito preocupantes no rendimento fora de casa, com apenas 6 vitórias em 15 jogos, uma nos últimos sete jogos. A receção ao Moreirense, dentro de uma semana, aumenta de importância. E não é por o Benfica já estar a 6 pontos. É por Sporting e Braga estarem a 2.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Despenalização

«Em Inglaterra, quando um jogador é mal expulso é-lhe retirada a punição. No nosso jogo contra o Moreirense, foi mal expulso um jogador nosso e não lhe retiraram o cartão».

Nuno Espírito Santo, 06/01/2017

O texto de hoje do Dragões Diário, nomeadamente o primeiro parágrafo, foi tão pertinente e incisivo que dispensa que se lhe acrescente algo. Fosse, seja, sempre assim. Era preciso cultivar a ideia de que Danilo Pereira foi expulso por insultos ao árbitro. E se a FPF foi cúmplice nisso, o FC Porto só tem que agir para apurar consequências e responsabilidades. A Assembleia Geral da FPF tem mais de 80 delegados. Dêem-lhes que fazer. 

Nuno Espírito Santo notou, e bem, que Danilo Pereira não viu o seu cartão amarelo ser retirado, algo que provavelmente aconteceria em Inglaterra. Mas a verdade é que Portugal tem precedentes de despenalização de cartões.

Hoje como há 15 anos atrás, há coisas que não mudam. Vamos recordar o FC Porto x Benfica de 2001-02. Reviravolta, golos de Deco, Alenichev e Capucho (chapéu!), grande jogo. Se o Benfica ganhasse, passava à frente do FC Porto. Como perdeu, ficou a 3 pontos e mais perto do 5º lugar do que do 3º. Não era o tempo de ficarem sem o seu melhor jogador. Então o que acontece? O insuspeito Record traz o relato de então, com Simão Sabrosa a ser despenalizado de um cartão amarelo.


O precedente já tinha sido aberto antes, também a envolver o Benfica, e também a envolver o FC Porto. Neste caso, com Poborsky, que foi castigado com um cartão amarelo depois de ter simulado uma falta para penalty - Vítor Baía não lhe tocou, mas Nuno Gomes fez justiça ao falhar o penalty. Acontece que o CJ da FPF decidiu depois retirar o cartão amarelo a Poborsky.

Certo. Reformularam-se os organismos, mudaram as pessoas, mas o denominador em comum mantém-se. Não é que o FC Porto seja sempre o lesado. Por exemplo, Cabral viu vermelho direto num Braga x Benfica. Que aconteceu? O cartão vermelho foi-lhe retirado e na jornada seguinte já estava a jogar na Luz.

Os tempos até eram dourados para o FC Porto, que era pentacampeão, mas nem isso parecia ajudar o clube junto do CJ da FPF. Nem José Guilherme Aguiar, pois o FC Porto tentou uma despenalização de Jardel contra o mesmo SC Braga, por má amostragem de um cartão amarelo que resultou numa expulsão, mas o jogador não foi despenalizado. 

Também houve precedentes? Houve. Costinha e McCarthy já viram ser retirados cartões que tinham sido mostrados erradamente. Então, é caso para questionar: por que é que agora Danilo não teve o mesmo direito? Vamos supor que foi, como a FPF quis cultivar, por insultos ao árbitro. Então, vamos novamente calcular os precedentes.

Quando Rui Vitória, no Marítimo x Benfica, mandou Vasco Santos para o Ricardo Carvalho sem prenome e sem V (algo que as imagens televisivas mostraram, ao contrário de qualquer tipo de insulto por parte de Danilo), que aconteceu? Nada, só um calorzinho na orelha. 


Mas isto na Luz faz escola. Reparem na naturalidade com que Pizzi, porventura o melhor jogador do Benfica nesta fase, admitiu no 15º Encontro Nacional de Jovens Árbitros (uma vez mais, a proximidade entre clube e arbitragem sobressai) que insulta árbitros. «Já chamei nomes, já disse várias coisas que não se podem dizer aqui». Não deve haver nenhum jogador que nunca tenha soltado uma palavrinha para a mãe de um árbitro. O problema é a diferença de tratamento e os precedentes que só vão servindo o Benfica. 

Porque não foi Danilo despenalizado? Que responda a FPF. E se é tão claro que Danilo foi expulso por protestos, então qual o motivo para não o terem afirmado publicamente, protegendo assim o seu árbitro e evitando serem alvo de chacota em todo o mundo pela expulsão mais ridícula de sempre? Pois.

Numa jornada em que o Benfica vai a Guimarães, o FC Porto a Paços de Ferreira e ao primeiro deslize do rival podemos passar a depender de nós próprios na luta pelo título, todo o cuidado é pouco. 

PS: À saída do supermercado, ao fazer marcha atrás, não vi uma velhinha que estava sossegada na berma da estrada e passei-lhe por cima. Seguindo os ensinamentos da escola Luís Godinho, vou processar a malandra por se ter metido à frente - neste caso atrás - e agredido a minha viatura. A não ser que alguém se lembre de distribuir mails a denunciar que a velhota me insultou. É capaz de ajudar. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

23 dias e três jogos

«O FC Porto precisa que as arbitragens estejam à altura daquilo que desejamos para a verdade desportiva. Eu acho que ainda é muito cedo para fazer uma análise. Não se pode, ao fim de 10 jogos, analisar o trabalho de um conselho de arbitragem». Pinto da Costa, JN, 12-12-2016

«Sobre a terceira equipa [a de arbitragem] vai ser feita uma exposição à Comissão de Análise amanhã [terça-feira], porque todos vimos o que se passou, mas não podemos analisar. Estão a acontecer coisas estranhas. Já começa a ser demais e estamos a ficar fartos (...) Fomos postos fora da Taça pelo João Capela e ontem vi um jogo com o senhor João Capela a arbitrar. Estão perfeitamente à vontade e não compreendo como é que o Conselho de Arbitragem (CA) não toma medidas contra o que está a acontece». Pinto da Costa, 19-12-2016

«Definitivamente, não há vergonha no futebol português e quem menos vergonha tem é quem é responsável por este estado de coisas, com o Conselho de Arbitragem à cabeça, com nomeações sempre a piorar». Dragões Diário, 04-01-2017

Recapitulando. A 12 de Dezembro, o presidente do FC Porto considerava que era muito cedo para fazer avaliações sobre o Conselho de Arbitragem. De recordar que um mês antes o clube já tinha publicado um vídeo com 12 penaltys que ficaram por marcar esta época. Se 12 grandes penalidades não eram já motivo para avaliação, só faltava saber quantos lances seriam necessários para o presidente do FC Porto reconhecer que o clube estava a ser prejudicado sucessivamente.

Uma semana depois, essencialmente após a derrota em Chaves, Pinto da Costa já veio mudar o discurso e estranha que o Conselho de Arbitragem (que uma semana antes não merecia que julgassem o seu trabalho) não «tome medidas», apelando a uma intervenção

E agora, 23 dias depois de Pinto da Costa ter afirmado que o Conselho de Arbitragem não merecia que se fizesse uma análise sobre o seu desempenho? Passaram-se três jogos: o FC Porto venceu o Chaves (mesmo tendo um golo anulado e um penalty por marcar), empatou na receção ao Feirense (com 3 possíveis lances de penalty por marcar) e perdeu na visita ao Moreirense da forma que todos viram.

Então, 23 dias e três jogos depois, é caso para perguntar: ainda é cedo para fazer uma análise ao Conselho de Arbitragem?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O fracasso é mútuo

Começando pela parte desportiva. A posição d'O Tribunal do Dragão em relação à Taça da Liga já é conhecida: uma Taça que deve ser destinada à promoção dos talentos da equipa B e como espaço competitivo para os suplentes. Mas a partir do momento em que o próprio FC Porto assume o objetivo de vencer esta Taça, é óbvio que a avaliação sobre o desempenho nesta competição tem que obedecer a critérios mais exigentes - sobretudo quando o treinador não abdica de apostar numa base de jogadores habitualmente titulares ao longo da competição. 

Posto isto, a participação do FC Porto na Taça da Liga voltou a ser um fracasso. Três jogos (dois em casa), apenas dois pontos e dois golos marcados, exibições cinzentas e que só revelaram qualidade a espaços - e quando a qualidade ia sobressaindo, um apito fazia questão de a inibir (já lá vamos). 

Este é o 10º ano de Taça da Liga. Já foi uma competição desvalorizada pelo FC Porto (na verdade começou a sê-lo devido aos maus resultados), mas nos últimos anos tem sido sempre comentada como sendo um objetivo para o clube (não obviamente uma prioridade, mas uma competição para vencer). E a verdade é esta: o FC Porto nunca ganhou a Taça da Liga porque nunca foi suficientemente competente para o fazer. E era o troféu que mais hipóteses o FC Porto tinha de conquistar esta época, na medida em que a competição é curta e o formato altamente favorável para os grandes clubes. 

Ao longo destes 10 anos, o FC Porto ganhou menos de metade dos jogos que disputou na Taça da Liga. Tem uma média de golos marcados de 1,35/jogo (muito pobre, tendo em conta que joga contra adversários teoricamente inferiores), um golo sofrido por jogo, e nos últimos 7 jogos de Taça da Liga o FC Porto não ganhou nenhum e perdeu 5. Isto poderia ser relativizado se o FC Porto assumisse que a Taça da Liga serviria para colocar em cena as segundas linhas e a equipa B. Mas não, foi assumido que era para ganhar. E o desempenho nesta competição não está à altura dos pergaminhos do FC Porto. Isto transcende as prestações dos jogadores e de NES nos últimos três jogos. 

Em relação ao que se passou em Moreira de Cónegos, foi uma vez mais o produto dos internacionais de proveta. O Tribunal do Dragão, na sua modesta e pequena posição no Universo Porto, orgulha-se de ter sido um dos primeiros espaços (senão mesmo o primeiro) a denunciar que a promoção de jovens árbitros estava a ir contra os regulamentos da FIFA e que não augurava nada de bom ao FC Porto. Enquanto isto acontecia, os responsáveis do FC Porto andavam ocupados com temas bem mais importantes, certamente. Como por exemplo preocupar-se imenso com o que iam escrevendo os blogues.

A forma como Luís Godinho expulsa Danilo mostra que não há respeito pelo FC Porto, e que os árbitros se sentem impunes perante qualquer decisão que tomem em prejuízo do FC Porto. Danilo Pereira é um jogador à Porto, uma das referências do atual clube, e ainda assim Luís Godinho nem pestanejou na hora de puxar do cartão. Mas alguém acredita que há 20, 15, 10 anos atrás, um árbitro agiria da mesma maneira se se virasse e visse Jorge Costa, Aloísio ou João Pinto? Não se trata de intimidar. Trata-se de impor respeito. 

Era coisa para rir - tanto que Pinto da Costa riu mesmo - se não fosse um assunto tão sério. O FC Porto tem tomado posição através de algumas vozes críticas, mas nada muda na arbitragem nacional. A contagem dos 19 penaltys é por certo exagerada, mas todos os lances têm algo em comum: em caso de dúvida, assinala-se contra o FC Porto. Redes sociais não chegam. Note-se que até o jornal O Jogo escreve que Danilo foi expulso porque «reclamou atraso de bola» e «não conteve os protestos». Se fosse Fejsa, A Bola tinha capas para a semana inteira. 

Andamos há semanas a dizer que é tempo de dizer «basta». Dizer basta não muda nada, porque a voz do FC Porto não tem sido respeitada, ouvida e considerada nos últimos meses. NES, no final do jogo, tocou num tema importante: o de ter que convencer os jogadores de que o que eles vão fazer é mais importante do que a arbitragem. Pois isto derruba o moral de qualquer jogador, o de saber que estão em campo inclinado.

Há portistas que dizem que uma equipa à Porto supera qualquer erro de arbitragem. Não brinquem. Nenhuma, nenhuma equipa consegue jogar jogo após jogo sabendo que vai ter sempre decisões de arbitragem em seu prejuízo. É que não estamos a falar de um, dois ou três jogos. É semana após semana. E nada muda.


Qualquer discussão do ponto de vista tático soa a repetição (como sempre, bastou ganharem um pequeno ciclo de jogos - que era suposto o FC Porto ganhar! - para muitos se deixarem levar pela euforia, querendo ver crescimento e evolução no que eram serviços mínimos), por isso apenas nota para algo que NES tem que abandonar: o politicamente correto.

O que estas intervenções serenas, mansas e monocórdicas de NES vão demonstrando é uma preocupação de não querer associar em demasia a sua imagem à de uma defesa acérrima do FC Porto, sob pena de não encurtar as opções que possa ter para a sua carreira no futuro. Um treinador do FC Porto que esteja preocupado com a simpatia que vai ter da generalidade não tem sucesso, ponto. Se NES sente que os seus jogadores, o seu grupo de trabalho estão a ser lesados, tem que liderar o grito de revolta. A diferença na ousadia do discurso entre um guarda-redes em final de carreira e um treinador no início da mesma vão sendo demasiado grandes. Não esquecendo que não pode ser o treinador a tomar a posição que os dirigentes não tomam. Ninguém poderá terminar a época a afirmar «a culpa foi do NES». 

FC Porto novamente prejudicado, outra participação de péssima qualidade na Taça da Liga. Os maus resultados na Taça da Liga não podem beliscar o que vai acontecer no que resta do Campeonato, mas arbitragens como a de ontem - a começar pelo afastamento de Danilo de Paços de Ferreira - podem muito bem fazê-lo. Que vai o FC Porto fazer relativamente a isso, é a questão. 

Depois de 40 mil no Dragão, num jogo de Taça da Liga, e 28 mil adeptos num treino aberto, o FC Porto devia mais aos seus associados. Aqueles que precisam de algo mais do que memórias do passado, e que reconhecem que o amanhã do clube é mais importante do que o ontem.