segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Meio despertador


Os «ses» nunca mudam a história. Mas vamos imaginar, meramente, que o Tondela teria aproveitado uma das suas oportunidades nos minutos finais. Seria esta a composição do FC Porto num jogo em que estava obrigado a ganhar: um meio-campo com claro défice de criatividade; um lateral a jogar a extremo; e Marega sozinho no eixo do ataque. É muito pouco provável que, há dois meses atrás, fossem estas as armas idealizadas para o ataque ao título. 

Sérgio Conceição tem um leque de opções limitado, e é o último a ter culpa nelas, mas entrar em fase tão prematura da época sem um ponta-de-lança no banco e com Hernâni como sendo o mais próximo de um avançado que lá estava tem que servir de alerta. E sê-lo-á repetido contra Moreirense e Braga, enquanto o mercado está aberto, pois só a partir de então teremos que nos contentar em ir à luta «com o que temos». 

Em 2013-14 o excelente início de época (seis vitórias consecutivas - e a sétima só não aconteceu devido a uma das grandes penalidades mais ridículas da história do futebol português, a célebre mão de Otamendi fora da grande área) virou-se contra o plantel e o treinador no decorrer da época; não deixar isso acontecer novamente tem que estar no topo das prioridades. Já fomos campeões com recurso a talentos da formação, com o regresso de emprestados e transitando a base de uma época para a outra; mas campeões após um defeso sem reforços...




Laterais (+) - Ok, quantidade não é qualidade. Ricardo e Alex foram responsáveis por nada mais, nada menos do que 17 cruzamentos para a grande área - e de todos esses, só um resultou num remate à baliza, embora 4 tenham sido desaproveitados pelos colegas. Mas ao longo de todo o jogo, não só a dupla de laterais cumpriu defensivamente como não vacilou na função de garantir sempre a profundidade nos corredores, muitas vezes com os dois projetados em simultâneo. É necessário melhorar a precisão dos cruzamentos, mas ambos estão a cumprir com o que Sérgio Conceição idealiza para eles.

O desequilíbrio (+/-) - Jesús Corona fez, a espaços, um dos seus melhores jogos em muitas semanas no FC Porto. Corona esteve na origem do golo, sentou várias vezes a defesa do Tondela e fez estragos pela meia direita. No seu estilo habitual, Brahimi voltou a ser o principal desequilibrador (completou mais dribles do que o resto da equipa) e voltou a fazer parecer simples a forma como, em meio metro, consegue ganhar um de avanço a um defesa com uma finta curta. Mas houve sempre um problema para ambos: o momento da definição. Mais um toque, mais uma volta, mais uma hesitação, e com isso perderam-se vários lances em que Corona e Brahimi poderiam ter ido bem além do desequilíbrio e chegado ao golo, quer com o passe, quer com o remate. A magia está cá, mas precisa de resultados mais práticos.


Aboubakar (+/-) - Um golo à segunda oportunidade, uma bola ao poste e muito trabalho longe da grande área. Muito apagado na fase inicial da partida, cresceu com o jogo e a equipa cresceu com ele, embora poucas vezes tivesse sido bem servido na grande área. Quando o foi, conseguiu ser eficaz e assinou os três pontos.




Demasiado desacerto (-) - Desacerto no passe, desacerto nos cruzamentos, desacerto no remate. A equipa falhou uma quantidade de passes anormal (um a cada quatro), muitos desses erros por causa da precipitação e pressa em querer jogar rapidamente para a frente. A forma como a equipa, a determinada altura, procurava invariavelmente as costas do lateral foi abusiva e previsível, a ponto de o Tondela ter acabado por anular esses lances. Os remates também não foram particularmente felizes: em 16 tentativas, apenas 4 à baliza. Volta a revelar-se a impressão de que o FC Porto quer fazer as coisas tão depressa e tão bem que acaba por antecipar erros que seriam evitáveis com mais calma.

Que lógica? (-) - Rui Pedro é, opinião, superior a Marega. Sérgio Conceição tem o direito a não achar o mesmo e, depois do bis frente ao Estoril, é normal que Marega fosse a aposta natural para o lugar de Soares. Mas o que está em causa não foi quem estava no 11: foi quem esteve não esteve no banco. Rui Pedro não foi convocado para a equipa B para estar na bancada no jogo da equipa A? Se não havia planos para levar Rui Pedro para o banco, para quê levá-lo a passear só para estar na bancada? Em 4 jogos em que Rui Pedro poderia ter somado minutos importantes para o seu crescimento não jogou nenhum. Não fiquem à espera que cresça na bancada. 

Duas vitórias em dois jogos, o mesmo saldo da época passada. Pézinhos no chão e muito, muito trabalho pela frente. E não só para o plantel e o treinador. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ideias firmes


Minuto 31: Soares lesiona-se, olha-se para o banco e sobra uma única solução para o ataque - Marega. O que fazer? O mais natural - leia-se, o que a maioria dos treinadores possivelmente faria - talvez teria sido lançar Otávio, recuperar o plano B da pré-época e colocá-lo nas costas de Aboubakar. Que fez Sérgio Conceição? Deu a maior prova da existência de um coletivo e de uma ideia de jogos fortes.

Sérgio Conceição não rasgou os planos da equipa por causa de um jogador. Lesionou-se um avançado, lançou o único que restava. Desde o minuto em que Marega entrou em campo, não se cansou de berrar e de dar indicações sobre a função que tinha que fazer - jogar sobre a meia direita do ataque, o que Soares estava a fazer. O que estava em causa não era o jogador em campo: era a função do atleta naquela posição. 

A equipa manteve a identidade e os valores em que passou a acreditar durante a pré-época - e Sérgio Conceição fê-lo mesmo recorrendo a um jogador que, sejamos francos, só foi integrado nos trabalhos de pré-época perante a inexistência de reforços. Assim se demonstra que a equipa está criada: agora só falta saber quem são os jogadores. Não houve Soares, houve Marega. Houve FC Porto.





Serviço de bandeja (+) - Aboubakar rematou nove vezes. A história da eficácia não foi a melhor para contar, mas destaca-se isto: oito desses remates aconteceram na grande área. Que diz isto? Que as bolas chegam à grande área, onde até um ponta-de-lança como Aboubakar, que não é particularmente forte no jogo aéreo, encontra oportunidades para atirar à baliza. Aboubakar esteve mais tempo longe da grande área, mas perante o caudal ofensivo da equipa, Brahimi, Óliver e companhia tiveram sempre gente na grande área, pronta para rematar. O 3x0 é também um bom exemplo disso, em que até Marega conseguiu encontrar o seu espaço para fazer um bom golo. E mesmo com Sérgio Conceição a apostar em Soares/Marega para jogarem no lado direito, mais longe da grande área, nunca faltou presença na grande área. Jogando assim, há-de sempre haver uma bola que acaba lá dentro, seja como for. 

Brahimi (+) - Isto de ter Brahimi logo à primeira jornada parece mesmo ser boa ideia. Nem sempre bem sucedido no drible e nas incursões pelo meio, mas foi sempre o principal agitador do FC Porto, não deixando nunca de ser solicitado na construção da equipa - prova disso é que fez mais passes do que o próprio Danilo Pereira, que em 2016-17 era quase sempre o elemento com mais passes da equipa. Fez um golo, criou várias jogadas de perigo e mostrou que o seu talento não ter que ser refém de disciplina tática num esquema com dois avançados. Ele e Conceição.

Óliver Torres (+) - Depois de uma época em que Óliver esteve sempre longe de zonas de decisão, arranca com duas assistências e não se intimidou nesta nova função, que o deixa mais «exposto» no meio-campo. O jogo passa sempre por ele e com ele há sempre uma solução, como uma bússola que mete tudo a funcionar à sua volta. Está lançado para uma boa época.


Iván Marcano (+) - Não houve muito para fazer na defesa (ainda que Iker não deixasse de ter oportunidade para brilhar), mas o que houve Marcano resolveu sem problemas. Só perdeu um lance em toda a partida, sem consequências, e distinguiu-se naquele clássico que inquieta sempre os adeptos do FC Porto: a quantidade de vezes em que vemos o central bater diretamente para a frente. Neste caso, também foi bem sucedido neste capítulo, e ainda foi ao ataque marcar um golo que poderia ter tido o mesmo desfecho de tantos outros no passado - anulado injustamente. Ah. E não é nada pessoal, Iván, mas a braçadeira de capitão do FC Porto combina sempre bem com alguém que partiu ou rachou alguma coisa. À Porto.





A primeira meia hora (-) - O primeiro jogo da épooca é sempre sinónimo de ansiedade e decisões percepitadas. A equipa entrou a querer fazer tudo rápido e tudo bem, e isso traduziu-se em 30 minutos sem lances de perigo, para além de uma ou duas tentativas de Aboubakar (o golo de calcanhar seria de antologia...). Muitos passes errados, cruzamentos mal tirados e alguma confusão na movimentação dos colegas. Erros normais para uma 1.ª jornada, diga-se, mas que têm que ser trabalhados e corrigidos no curto prazo, pois nem todas as equipas serão tão amorfas como este Estoril e nem sempre poderemos contar com um Mano para ajudar. 

Um pequeno pormenor (-) - Por certo já viram muitas vezes um treinador mudar de ideias quanto a uma substituição após haver um golo. Neste caso, vimos Hugo Miguel expor-se ao ridículo de validar uma substituição no FC Porto e só depois recorrer ao VAR para validar o golo de Marcano. Imaginem que estava 0x0, Sérgio Conceição tirava um central para lançar um avançado, e logo a seguir concluía-se que afinal o FC Porto tinha acabado de fazer o 1x0? Absurdo.

Estreia a vencer, goleada, primeiro lugar e uma ideia clara de que temos equipa. Mas se ninguém quiser voltar a cometer os erros de 2013-14, cujo início de época quase justificava um apedrejamento a AVB por ter dispensado Licá da Académica, não custa nada lembrar: faltam reforços. E importa reafirmá-lo agora, pois a partir da 5ª jornada será inútil dizê-lo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Uma análise ao grupo de trabalho

Iker Casillas - A garantia da baliza entregue, pelo menos durante mais um ano, a um guarda-redes de classe mundial. Embora a importância de um guarda-redes nunca possa ser descurada, na Liga portuguesa por norma não é na baliza que se fazem os campeões. Mas Casillas conseguiu, várias vezes, ser a diferença entre três pontos ganhos ou dois perdidos. A sua experiência e a forma como se integrou em Portugal, quer como portista quer como portuense, fazem dele um trunfo indispensável no balneário e uma rara voz de experiência que sabe o que é lidar com alta pressão e com a exigência de títulos. Imprescindível.


José Sá & Vaná - Impossível falar de um sem falar do outro, pois a contratação de Vaná só terá um mínimo de lógica se José Sá for cedido para jogar com regularidade noutro clube. Nas últimas três temporadas, José Sá fez apenas 8 jogos na I Liga e não será no FC Porto que terá a oportunidade de ser opção de primeira linha. Uma questão já debatida aqui: dois guarda-redes que, até à data, mostraram muito pouco para poderem sonhar com mais do que um lugar no banco a olhar para Casillas. Para isso, basta um, e tendo em conta o ridículo que seria contratar Vaná para o ceder já a outro clube, mantendo José Sá sem rodagem competitiva, o empréstimo do guarda-redes português seria o mais adequado.

Andorinha - Um jovem talento que respira portismo e que encaixa na perfeição no papel de 3º guarda-redes: jovem da formação, com margem de progressão e possibilidade de ser o titular da equipa B ao longo do ano (importa esclarecer a situação de Gudiño, o guarda-redes mais caro da história do FC Porto e que não pode deixar de ser um projeto de futuro apesar de uma má experiência na Madeira), enquanto trabalha junto a Casillas no plantel principal. João Costa foi campeão em todos os escalões de formação do FC Porto e é um dos atletas com mais anos de clube. Guarda-redes também com faro para o golo (marcou pelos sub-17 e pela equipa B do FC Porto), faz todo o sentido mais uma época de maturação no FC Porto.

Maxi Pereira - Ricardo Pereira tornou-o num problema. É muito, muito difícil um lateral de 33 anos ser titular numa grande equipa, e Zanettis são difíceis de encontrar. Apesar de Maxi já ter demonstrado, na segunda metade de 2016-17, que as pernas começam a pesar (é mais de uma década sempre ao mais alto nível e sem sofrer lesões em Portugal), Maxi ainda teria todas as condições para jogar sem problemas durante mais uma temporada. E o seu elevado custo na folha salarial quase «obriga» a que um jogador do seu estatuto só possa ser pensado para a primeira equipa. Maxi nunca foi suplente, mas arrisca experimentar essa condição muitas mais vezes. Mantendo-se no grupo, é um elemento importante pela qualidade e experiência que acrescenta. Mas quando temos em Ricardo Pereira um dos 10 melhores laterais-direitos da última época na Europa...

Ricardo Pereira - Quem acredita em «males que vêm por bem» pode rejubilar com a polémica forma como o FC Porto despachou Carlos Eduardo para as Arábias, com isso obrigando a um acordo com o Nice que culminou na cedência de Ricardo Pereira. Numa altura em que os laterais-direitos estão mais caros do que nunca (vejam-se os custos recentes de Walker, Danilo, Nélson Semedo ou Conti), o FC Porto tem à sua disposição um talento que corre o risco de, no final da época, fazer clubes mais endinheirados colocarem-lo no topo da lista de compras. Isso é o menos importante: desportivamente, o que importa é que Ricardo tem tudo aquilo que Sérgio Conceição poderia idealizar num lateral-direito - e perante a ausência de uma alternativa a Jesús Corona, até pode ser forçado a dar uma perninha mais à frente. Há três anos O Tribunal do Dragão via-o como um projeto de sucessão ideal para Danilo. É caso para dizer: está pronto a servir. 


Bruno Martins Indi - Após uma época na Premier League, não conseguiu ganhar pontos nesta pré-temporada, pois a dupla Felipe-Marcano é para manter. Os problemas de Martins Indi prendem-se essencialmente com o jogo aéreo, setor em que se revelou muito frágil e que era disfarçado quando jogava no esquema de 3 centrais da Holanda. Está a um ano de terminar contrato e continua a ser um candidato a deixar o FC Porto antes do final do mês. Pelo que custou (é o central mais caro da história do FC Porto), qualquer possibilidade de recuperar o investimento seria bem vinda. É demasiado caro para se correr o risco de o perder daqui a um ano a «custo zero» e para o manter como mero suplente.

Diego Reyes - É de facto curioso que 3 dos 5 centrais mais caros da história do FC Porto entrem na época 2017-18 sem ter espaço na equipa titular (Boly é o outro elemento). Reyes jogou com regularidade na Liga espanhola e fez também uma boa Taça das Confederações. Tinha e tem caraterísticas para ser um bom central (menos agressivo e impetuoso, mas mais rápido, ágil e forte na antecipação e pelo ar), mas o facto de ser mesomorfo continua a fragilizá-lo imenso na tentativa de se afirmar. Isso não o impediu de ser opção na Liga espanhola, mas mantém as dúvidas quanto ao seu espaço no FC Porto. Diego Reyes foi comprado ainda em 2012 e cá estamos, quase 5 anos depois, ainda a tentar perceber se pode ou não ser opção no FC Porto. Se não for este ano, nunca mais o será. Em final de contrato e com o passe alienado, o FC Porto não se pode dar ao luxo de reforçar um investimento sem se saber se o jogador serve ou não. 

Iván Marcano - Com a melhor época da sua carreira, afirmou-se como o patrão da defesa do FC Porto e, de forma algo inesperada (na medida em que sempre teve o low profile que distinguia, por exemplo, Paulo Ferreira), chegou à braçadeira de capitão, tornando-se num imprescindível dentro e fora de campo. É um dos 3 trintões do plantel e, depois de ter feito parte da equipa com menos golos sofridos na Europa em 2014-15, formou com Felipe uma dupla de centrais que dá todas as garantias, muito acima da média e a melhor em Portugal. Tem apenas mais um ano de contrato, mas vai renovar e permanecer no FC Porto, com estatuto reforçado de indiscutível. 

Felipe - Um pouco abaixo do nível de Marcano, mas cumpriu uma boa época na estreia no FC Porto e na Europa, conseguindo driblar muitas das inseguranças que poderia trazer do futebol brasileiro. Complementa-se muito bem com Marcano, embora o seu estilo impetuoso e alguns maus cálculos no timing sobre a bola o levem a cometer muitos erros - a ponta final da última época foi particularmente insegura. Ainda assim, entra em 2017-18 como um titular indiscutível, em parceria com Marcano. Poderíamos dizer que fez os mínimos do que se esperaria de um dos centrais mais caros do FC Porto, mas tendo em conta as experiências do passado recente, Felipe superou as expetativas. 

Miguel Layún - De principal criador de oportunidades de golo na Europa a lateral suplente do FC Porto. Um suplente de luxo, diga-se, embora o FC Porto não possa ser o tipo de clube que se dá ao luxo de ter um polivalente de 6M€ no banco. Fez uma época muito abaixo da anterior, muito por causa da falta de continuidade na equipa titular, e tudo aponta para que 2017-18 seja novamente uma época que não lhe promete nada mais do que um papel secundário. Tendo Layún 29 anos e sendo um jogador caro, a sua continuidade pode muito bem ser repensada mediante uma boa oportunidade de mercado, embora nunca seja por ele que o FC Porto vá deixar de ganhar jogos. Pelo contrário: foi muitas mais vezes solução do que problema. 

Alex Telles - Uma época igualmente muito produtiva. Até chegar ao FC Porto, Alex Telles era um lateral com disponibilidade ofensiva, mas que conseguia poucas assistências por época. Em temporada de estreia, fez 10 e fez com que muitos achassem normal que Layún, talvez um dos 3 melhores jogadores da época anterior, passasse para o banco num defeso em que a sua compra custou 6M€. Mas a verdade é que Alex Telles teve mérito na conquista do lugar no 11 e, mantendo o nível na época 2017-18, não será uma surpresa que dentro de um ano esteja na lista de compras de alguns clubes mais endinheirados. Parte para 2017-18 com uma capacidade física notável e cada vez mais confiante no corredor.

Rafa - Se nada de anormal acontecer, será o dono da lateral-esquerda do FC Porto no futuro. Mas esse futuro, infelizmente, não se avizinha já para esta época. Com Alex Telles no plantel e Layún ainda com futuro indefinido, sobra muito pouco espaço para Rafa ter espaço competitivo esta época. Depois de uma boa temporada no Rio Ave, é importante continuar a jogar com regularidade e neste FC Porto terá poucas oportunidades para o fazer, embora já tenha qualidade mais do que suficiente para ser uma opção válida no 11. Ainda assim, com Alex Telles, o espaço é demasiado escasso, por isso será sem surpresa que possa ser cedido novamente. Dentro de um ano, se tudo correr bem - e isso talvez também implique uma boa venda de Alex Telles -, o lugar no 11 estará à espera dele. Afinal, estamos a falar de um projeto de jogador perfeito.

Diogo Dalot - «Não há memória do FC Porto ter, na sua formação, um lateral da sua idade e qualidade (...) É o protótipo de lateral-direito moderno. Rápido, forte, com grande disponibilidade para subir pelo corredor e com golo. João Pinto não consegue olhar para ele sem sorrir.» Assim descrevíamos Diogo Dalot há um ano, muito antes de ter levado Barcelona e Real Madrid a observá-lo pelas suas prestações nas seleções jovens. É, simplesmente e talvez com o exagero típico de quem olha para os talentos portistas da formação, o mais promissor lateral-direito de 18 anos a jogar na Europa. Ainda tem idade sub-19, mas o seu talento já está muito acima desse escalão. Tal como Rúben Neves, tinha e tem qualidades para «saltar» a etapa na equipa B. Com Ricardo e Maxi ainda no plantel, as oportunidades devem ser escassas em 2017-18, mas é um valor seguro de presente e futuro. 

Danilo Pereira - O Tribunal do Dragão considerava-o a melhor contratação do FC Porto em julho de 2015; dois anos volvidos, é com larga escala o jogador mais valioso do FC Porto - tendo em conta o que poderia valer numa transferência que a SAD e Sérgio Conceição não querem permitir. E bem, por muito que Antero Henrique e o PSG, por esta ordem, tivessem interesse que acontecesse. Danilo teve algumas dificuldades nesta pré-época, por ter começado mais tarde, mas é absolutamente imprescindível em campo e o exemplo perfeito de um líder e bom profissional fora dele. Pêndulo essencial no meio-campo, sobretudo com o FC Porto a apostar num esquema de 2 avançados, Danilo é um dos melhores médios-defensivos da Europa e seria um insulto um jogador deste calibre passar pelo FC Porto com o currículo em branco. Talvez só tenhamos mais uma época para mudar isso.

Mikel Agu - Já lá vão 8 anos desde que Jesualdo Ferreira aceitou que este menino nigeriano fosse trabalhar com o plantel principal, mesmo não podendo jogar pelos escalões de formação no FC Porto. Oito anos passaram, e ainda há quem considere que Mikel é um valor de grande futuro e um destinado a ser titular no FC Porto a médio prazo. Não sabendo quanto mais crédito é possível reunir por uma boa exibição num jogo em fim de época contra o Benfica B, não será uma surpresa se Mikel integrar a lista de dispensas de Sérgio Conceição, pois apesar da razoável época em Setúbal não tem o nível desejado para se afirmar no FC Porto. O facto de haver uma ameaça chamada PSG, nenhuma outra alternativa de «raiz» a Danilo e de, ainda assim, a sua saída para a Turquia estar a ser admitida diz tudo sobre os planos sobre ele. O melhor é mesmo procura outra RAMP(a). Pun intended. Vocês sabem do que estou a falar

Sérgio Oliveira - É sempre mais difícil entrar numa equipa como reforço de inverno do que numa pré-época. Ainda assim, com Sérgio Conceição no Nantes, Sérgio Oliveira não foi uma única vez titular e jogou pouco mais de 100 minutos na Liga francesa, numa equipa em que o melhor jogador era muito provavelmente um atleta que até na equipa B do FC Porto tinha dificuldades para se impor (Diego Carlos). Não teve espaço no Nantes, dificilmente o terá no FC Porto, uma vez mais. Aos 25 anos, 8 depois depois de sido notícia e se ter tornado um fenómeno a seguir basicamente por lhe terem metido uma cláusula de rescisão de 30 milhões de euros, é tempo de questionar até quando Sérgio Oliveira poderá ser considerado uma promessa no FC Porto. A saída não surpreenderá, pois infelizmente o futebol é muito mais do que bater livres e chutar à baliza.

André André - Recuperou a titularidade a determinada altura na época passada, mas continua a ser um jogador que não ultrapassa o campo da utilidade no FC Porto. Pode fazer 2 ou 3 bons jogos, ser importante como alternativa, mas nunca será o elemento diferenciador que permite ganhar títulos. A forma como muitas vezes desistia das jogadas na época passada, com uma condição física insuficiente (um problema que se arrasta desde a polémica chamada à seleção, diga-se), não combina com as descrições de jogador à Porto que tem tempos chegou a justificar. Parte para 2017-18 como alternativa. Válida, mas ganhar um lugar no 11 dificilmente será bom sinal do decorrer da temporada. 

Héctor Herrera - Atingiu o seu pico de valorização durante a primeira época com Lopetegui. Caiu, mas ainda assim em 2015-16 foi a tempo de ser um dos 3 melhores jogadores da segunda volta. Na última temporada, voltou novamente a cair em desgraça. Herrera é um jogador útil no plantel, sobretudo nas ideias de Sérgio Conceição para uma transição mais rápida, mas não vale hoje 15 milhões de euros. Nem 20. Nem os 30 que dizem ter rejeitado na época passada, uma das coisas mais inacreditáveis que já se ouviram no FC Porto. Se Herrera não pôde sair do FC Porto por 30 milhões, é altura de esclarecer que papel exatamente poderá ele ter e de quais os planos para o mexicano. Ficando no plantel, será sempre um elemento de utilidade, mas provavelmente também o primeiro que os adeptos responsabilizarão por qualquer percalço. Todos es culpa de Herrera, já se dizia. Mas possivelmente não é culpa sua que achem que por 30M€ seria mal vendido. 

Óliver Torres - Em grande forma na pré-época, abre a nova temporada com muitas expetativas sobre o seu futebol. Depois de NES se ter tornado, provavelmente, o único treinador possível a não ver lugar para Óliver Torres neste FC Porto, Sérgio Conceição tem reservado para ele um papel de enorme importância, mas também de imenso desgaste - serão poucas as vezes em que Óliver aguentará os 90 minutos com a missão que lhe é pedida em campo; e aí cria-se um problema, pois André André e Herrera não pensam o jogo como Óliver. Dono de um futebol elegante e incomum em Portugal, este pode ser o seu ano. Afinal, estamos só a falar do jogador mais caro da história do FC Porto. Sem pressão, Óli. Sem pressão.


João Teixeira - Todos os adeptos concordam: há futebol nos pés e na cabeça de João Teixeira. Basta tocar na bola e todos percebem isso. Mas por algum motivo, apesar de ser considerado o melhor jogador da formação do Liverpool, o espaço na equipa principal não aparecia; um pouco à imagem do que sucedeu no FC Porto. Sérgio Conceição aprecia o seu potencial, mas sejamos francos: há possibilidade de João Teixeira ter espaço competitivo em 2017-18? Muito dificilmente. Vai fazer 25 anos e ainda não fez uma época a titular numa primeira liga. Jogou apenas 167 minutos na última época, demasiado pouco. Sem espaço neste plantel, o melhor seria João Teixeira sair para jogar com regularidade. Sim, tem imenso potencial. Mas o potencial não serve de nada na bancada. Foi uma contratação de zero risco, por isso a cedência seria a melhor solução para todas as partes.

Otávio - Será, muito provavelmente, um jogador ao qual Sérgio Conceição recorrerá várias vezes como «trunfo» para as segundas partes. Alternativa natural a Brahimi do lado esquerdo, surge nesta época como uma boa alternativa no plantel. Vai ter várias oportunidades, algumas delas no 11, e pode ser abre-latas em vários jogos. Um ano para crescer.

Hernâni - Sérgio Conceição quer tentar aproveitar Hernâni, ou simplesmente não há nenhuma outra alternativa a Corona ao lado direito? Já conhecem a história: Hernâni é muito veloz, caraterística que pode ser útil em alguns jogos, mas não teve, e nunca revelou, estofo e qualidade para jogar no FC Porto. Ficando no plantel, será porque as alternativas não abundam; emprestá-lo novamente não faz qualquer espécie de sentido, pois são raros os extremos que saem do FC Porto cedidos para regressar à equipa principal (Tarik Sektioui foi uma boa, rara e surpreendente exceção). Não chega.

Jesús Corona - Prepara-te, Corona: vais levar muitas, muitas vezes nas orelhas do Sérgio Conceição. Vais levar tareias, vais ouvi-lo berrar bem alto junto à linha, vais aziar quando fores substituído, vais amuar quando fores para o banco. E sabes por que vai tudo isto acontecer? Pois o treinador sabe perfeitamente que tens um potencial enorme, mas que podes estar em risco de o deitar fora. Esta pode ser uma época que te define: ou como uma figura do FC Porto, ou como alguém destinado a ser um André Carrillo - 4 ou 5 épocas à espera que o potencial se torne em qualidade e consistência, quando talvez o próprio já nem esteja muito interessado nisso. Corona tem que emergir como figura do FC Porto este ano. Não só porque, à 3ª época, é tempo de o fazer, mas também porque o FC Porto bem necessita: não há uma alternativa ao seu lugar.

Marega - O facto de estarem a tentar a sua reabilitação diz tudo sobre a incapacidade/limitação de ir buscar reforços ao mercado. Dificilmente haverá maior desafio do que tentar imaginar alguma equipa na história do FC Porto em que Marega tivesse lugar. Claro, pode sempre existir o torrãozinho de relva que faz a bola saltar para a baliza, ou o tropeção que resulta numa ocasião de golo. Tudo é possível. Ver Marega com a camisola do FC Porto é a prova disso e uma inspiração para qualquer jogador: se ele consegue, qualquer um pode conseguir.

Brahimi - E pensar que começou a época passada encostado. As cláusulas opcionais do FC Porto para comprar mais percentagem do passe à Doyen já expiraram, por isso é tempo de pensar unicamente no que Brahimi pode oferecer desportivamente à equipa. E pode ser muito. Num ano sem CAN, Brahimi é o principal fantasista do plantel, com a vantagem de, nesta temporada, ter algo a seu favor: quando levantar a cabeça, vai ver dois avançados nas imediações da grande área, enquanto na época passada, quando o fazia, rapidamente chegava à conclusão que teria que ir para o lance individual. A dinâmica ofensiva, a pedir que entre em zonas interiores, favorece o seu futebol. Tem tudo para recuperar a melhor versão de 2014-15. 

Aboubakar - Matemática simples: pelo dinheiro que renderia pela sua saída, o FC Porto não encontraria melhor solução para o ataque. Então o que fazer? Recuperar Aboubakar, processo muito bem conseguido nesta pré-temporada. Aboubakar tinha razões válidas para não querer voltar ao FC Porto, desde a tentativa de o venderem ao futebol chinês à dispensa de um dia para o outro para que Depoitre fosse inscrito. Aboubakar percebeu, porém, o papel que pode ter esta época, sobretudo num esquema de 2 avançados, o mais adequado às suas caraterísticas. Tem que melhorar o seu jogo de costas para a baliza, mas as potencialidades de Aboubakar são imensas e pode finalmente confirmar-se como um digno sucessor da linhagem de nomes como Lisandro, Falcao ou Jackson. Falta só um pormenor: renovar. Começar uma época com um titular de 25 anos em final de contrato seria um péssimo sinal de gestão. E logo não havendo uma alternativa. 


Soares - O desafio é passar de um bom reforço de inverno para um papel mais importante, que, segundo as opções de Sérgio Conceição, passa por um lugar no 11 titular. Soares fez uma boa pré-temporada e não restam dúvidas de que, num esquema com 2 avançados, é muito mais forte. Isso já estava claro na última época, mas a sociedade com André Silva estava a render golos e vitórias, então NES decidiu metê-lo sozinho num 4x3x3. Génio. Soares está a evoluir, a trabalhar bem nas imediações da grande área, a distinguir-se pela capacidade física e é uma contratação a superar as expetativas. A dar continuidade.

Rui Pedro - Vai fazer o seu primeiro ano de sénior e, face às soluções (ou falta delas) existentes no plantel, é a alternativa natural a Aboubakar ou Soares, o que diz tudo da necessidade do FC Porto ter que se reforçar (não há alternativas de primeira linha para quarto posições chaves do plantel, do meio-campo para a frente, e se não houver reforços muitas das expetativas para esta época goram-se antes do natal). O potencial de Rui Pedro já dispensa apresentações e pode muito bem superar o legado de um tal de André Silva. Depois de ter jogado em três escalões na temporada passada, faz todo o sentido que trabalhe com a equipa principal e vá dando uma perninha na equipa B. Vão aparecer algumas oportunidades e alguns golos. Oxalá não haja é muita pressa em vendê-lo, pois já o tentaram na temporada passada. E ver os maiores talentos da formação saírem antes de meterem as unhas em troféus não combina com a história e mística do FC Porto.

Sérgio Conceição - Temos um treinador que prefere falar primeiro dos 15 minutos que correram mal do dos 75 que correram bem. Que prefere concentrar-se no que está mal e só depois aplaudir e elogiar o que está bem. É caso para dizer, mister: quem não aprecia O Tribunal do Dragão dificilmente simpatizará contigo. É bom sinal. Sérgio Conceição não teve um único reforço no plantel, teve que aproveitar a lista de dispensas da época passada, foi pescar à equipa B e preparou da melhor forma possível a equipa para iniciar a época 2017-18. Não se pode pedir mais: Sérgio Conceição está a fazer um trabalho notável com o que tem em mãos. Mas que não restem dúvidas: sem reforços, este plantel dificilmente aguenta até janeiro. E Sérgio Conceição tem muitas qualidades, mas nenhuma delas é fazer milagres. Mas as tarefas que realizou nesta pré-temporada e que já foram enumeradas não ficam muito longe disso. O melhor reforço, até ver, não é o grupo: é o grupo que Sérgio Conceição construiu.