sábado, 23 de dezembro de 2017

Novas armas

Custou, mas o Dragão viu o que não via há três anos: o FC Porto ganhar um jogo na Taça da Liga. E fê-lo porque encarou estes 90 minutos como se não fossem... a Taça da Liga, pelo menos a avaliar pelo historial recente. Mais uma exibição séria, eficaz, sólida defensivamente e com a equipa novamente a mostrar a sua nova face no ataque - uma equipa que deixou de recorrer ao passe longo de 40 metros para tentar meter a bola nos avançados e que aprendeu a descobrir o espaço e as diagonais dos seus avançados. 


O FC Porto melhor imenso nas últimas semanas e está a apenas quatro remates certeiros de chegar aos 100 golos esta época - e 2017 ainda nem terminou, sendo que nos últimos 50 anos só Pedroto e Artur Jorge chegaram tão rápido a esta marca de golos. Sérgio Conceição bateu taticamente um dos treinadores mais interessantes e uma das equipas mais organizadas desta Liga e o FC Porto volta a ter perspetivas de apuramento na Taça da Liga, uma prova que - não há dúvidas - Sérgio Conceição quer vencer. E continua a haver muito de contagiante nessa sede de ganhar.




Estratégia e pragmatismo (+) - O Rio Ave é uma equipa diferente das demais no Campeonato. É, aliás, a equipa com maior percentagem de bola na Liga, à frente de FC Porto e Benfica, e insiste em tentar sair a jogar de forma organizada, sem chutão para a frente. Sérgio Conceição aproveitou isso e usou-o contra o adversário, com uma pressão fortíssima na saída do Rio Ave. Prova disso é que, no lance do 1x0, o FC Porto consegue ter 6 jogadores a atacar o início de construção do Rio Ave, que tinha apenas 4 unidades naquela zona. Ou o Rio Ave recorria ao chutão, algo que não gosta de fazer, ou ia perder a bola naquele momento. Ganhou o FC Porto.

Novamente, o espaço interior (+) - É uma repetição dos elogios nas últimas semanas, mas merece continuar a ser realçado: o fim do pontapé longo para a frente. O FC Porto lê cada vez melhor o espaço interior, como voltou a ser exemplo a assistência de Brahimi para Marega. O argelino tira um adversário do caminho, também após um bom trabalho de pressão da equipa, e rapidamente encontra uma via rápida para Marega entrar nas costas da defesa. Este tipo de movimento tem sido executado cada vez melhor e é mais uma arma a juntar à equipa que mais golos de bola parada faz na Europa neste momento.


Tudo à volta de Herrera (+) - Mais um par de boas exibições de Alex Telles e Ricardo, em constante profundidade no flanco e fiáveis a defender; Danilo sólido na retaguarda; Brahimi a desequilibrar por dentro; Soares e Marega a apareceram várias vezes em zonas de finalização e a libertarem-se dos centrais. Tudo funcionou no FC Porto, apesar do apagão na segunda parte, e isso teve um denominador comum: a organização à volta de Herrera. É preciso uma assistência de calcanhar? Herrera faz. É preciso ir aos flancos tabelar? Herrera vai. É preciso pressionar o portador da bola? Herrera corre. É preciso dar soluções a Danilo na saída de bola? Herrera aparece. É preciso transportar a bola? Herrera leva-a com ele. É preciso um capitão? Herrera diz presente. 




Cabeça. É preciso cabeça (-) - Não é propriamente um Machado, mas antes um lembrete para o que aí vem. O Benfica tem duas meras preocupações até ao final da época: o Campeonato e os e-mails. Em ambos os casos, trata-se de uma luta fora de campo. E não é coincidência que Felipe e Danilo tenham sido visados com acusações de «Vale tudo» nas últimas semanas. E coincidência ou não, primeiro vemos Felipe ser expulso de fora desnecessária na Champions, de cabeça perdida, a coroar uma série de exibições menos conseguidas; e agora Danilo, num jogo que estava completamente controlado e sem motivos para nervos, habilitou-se à expulsão com a chapada na bandeirola de canto. É uma expulsão ridícula, evitável, mas que está prevista nas leis de jogo. Mais do que nunca, é portanto preciso cabeça, muita cabeça.

O Tribunal do Dragão deseja a todos os leitores um Bom Natal a uma feliz época festiva, com renovações do desejo de que o melhor presente só seja desembrulhado em Maio.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um desajeitado com jeito para o golo

O FC Porto vai terminar 2017 na liderança da I Liga, com o melhor ataque, a melhor defesa, o apuramento para os 1/8 da Champions no bolso e a dois passos do Jamor. Não interessa como começa - ou como vai a meio -, mas sim como acaba, já o diz o treinador. Mas não poderia estar a correr melhor. 


A equipa sofreu uma nova transformação nas últimas semanas e encontrou o equilíbrio entre controlar o jogo com bola enquanto produz volume ofensivo suficiente para marcar um, dois, três golos. E fá-lo com apenas dois médios declarados, algo que parecia impossível de se atingir no início da época, enquanto reabilita jogadores/ativos que vão desde Reyes a Herrera, de Marega a Aboubakar. Um prova de superação de Sérgio Conceição e dos seus jogadores.




Marega (+) - O título desta crónica descreve o maliano: um desajeitado com jeito para o golo. Porque é isso que Marega está a garantir: golos. Não chega para uma dimensão europeia, mas tem sobrado e feito a diferença em contexto nacional. Dois golos de pé esquerdo - até aqui só tinha feito um dessa forma - que dispensaram técnica, colocação e a tentativa de defesa do guarda-redes. Em 14 jornadas, Marega soma intervenção direta em 15 golos, 12 dos quais da sua própria autoria, desta vez com o mérito de saber ler na perfeição a desmarcação de Brahimi - algo que demonstra, inclusive, a melhoria de Marega na leitura de jogo, pois no início da época estava sempre a cair em fora-de-jogo e agora é raro fazê-lo. Continuam a faltar-lhe muitas coisas, coisas que Marega talvez nunca terá, mas não lhe falta o mais importante: golos. Marega e golos na mesma frase. Estranho, mas já não é uma surpresa.


Alex Telles (+) - Chegou às 10 assistências nesta temporada, novamente de bola parada, mas voltou sobretudo a destacar-se na forma como ataca o corredor e municia a grande área. Só falhou um passe em meio-campo adversário, fez 7 passes para finalização, meteu 17 bolas na grande área e permitiu que Brahimi se dedicasse sobretudo à zona interior, pois o corredor era todo do brasileiro. Alex, brasileiro e lateral-esquerdo tem sido um perfil bem satisfatório no FC Porto. 

Brahimi, por dentro (+) - Visão perfeita do espaço e da desmarcação de Marega para os dois golos do avançado, com dois passes a rasgar a defesa do Marítimo. E é também um exemplo de que, para meter os avançados nas costas da defesa, não é preciso meter Marcano ou Felipe a fazerem passes de 50 metros. Brahimi progrediu, leu o espaço e fez o passe com força e colocação suficientes para enquadrar Marega com a baliza. Duas belas assistências e um exemplo de que os atalhos para a baliza não precisam de ser bicadas para o ataque. 

Outros destaques (+) - Estreia de Reyes a marcar com a camisola do FC Porto e a dar boas indicações nas primeiras aparições ao lado de Marcano. Sérgio Conceição aguentou Felipe no 11 tanto quanto possível, mas o brasileiro estava a cometer demasiados erros e as suas exibições já «pediam» banco. Faltava saber se Reyes estava preparado, mas para já não tem destoado. Aposta inteligente de Conceição - quando chegarmos a fevereiro, talvez Reyes não vá jogar contra o Liverpool por Felipe estar castigado, mas sim pelo mexicano já ser o dono do lugar. Por muito questionável que seja ter uma dupla de centrais em final de contrato e a poder assinar por qualquer outro clube dentro de duas semanas. Palavra para Marcano, que ganhou 10 dos 11 lances pelo ar que disputou. 

Ricardo Pereira voltou a dar boas indicações à frente de Maxi Pereira e Héctor Herrera encheu novamente o campo, tendo melhorado particularmente na forma como controla o ritmo do meio-campo - teve um total de 116 ações com bola. E como tem sido hábito, mais um jogo quase irrepreensível de Danilo, impecável no jogo aéreo e na cobertura do meio-campo, ainda que tenha falhado algumas saídas de bola.




Apostar mais pelo meio (-) - O FC Porto criou 15 ocasiões de golo durante a partida. Doze delas surgiram a partir dos flancos. Três em zona interior - e dessas três, duas deram golo. Além dos dois passes de Brahimi para os golos de Marega, só Marcano fez um passe em zona interior para uma zona de finalização. Tendo em conta o quão perigosas foram as poucas incursões do FC Porto pelo meio, a exibição só peca por não ter sido mais bem aproveitada neste capítulo.

Agora resta esperar que o Pai Natal seja generoso com Sérgio Conceição. Isso ou tentar esticar os milagres até maio. Convém não arriscar.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Aboubashow contra ventos e Coentrões

As circunstâncias prometiam dificuldades que os primeiros 25 minutos confirmaram, desde às condições climatéricas aos efeitos (físicos ou mentais) pós-Champions. Mas isto de trocar o chutão para a frente e as bolas em profundidades nos avançados pela circulação, posse e por uma maior elaboração das jogadas é mesmo coisa para dar tranquilidade, soluções e qualidade à equipa. Um jogo que se podia ter tornado um grande problema resultou numa das melhores exibições das últimas semanas e revelou uma equipa que anda de pontaria afinada, com 10 golos em 4 dias, antes de três jogos consecutivos para três competições diferentes no Dragão no espaço de oito dias. Não há margem para vacilar, mas a jogar assim fica mais fácil. 





Aboubakar (+) - O Professor Bambo e o Mestre Guirrasy podem estar descansados: se depender de Fábio Coentrão, ninguém lhes tira o emprego. Um bom golo de cabeça, um penalty batido de forma defensável mas que matou o jogo (o sexto em seis tentativas na carreira - nunca falhou uma grande penalidade) e uma finalização à ponta-de-lança, antes de voltar a fazer uma assistência de grande qualidade. No espaço de quatro dias, Aboubakar marcou cinco golos e assistiu dois.

É altura de uma pequena retrospetiva. Na época passada, André Silva marcou 21 golos e fez oito assistências, em 44 jogos. Aboubakar, em 22 jogos, já marcou por 20 vezes e fez cinco passes para golo. Ou seja, ainda dezembro não vai a meio e Aboubakar já praticamente pulverizou o registo do seu antecessor (ou deveríamos compará-lo a Depoitre?), tendo desde já batido a sua melhor marca de golos na carreira. 

No Bonfim, curiosamente, não foi feliz nas suas tentativas de 1x1 (exceção ao lance do penálti), mas destacou-se a ir buscar jogo atrás, a tabelar e a abrir espaço para os colegas. E quando chegou aos últimos 20 metros, foi para ser letal: tocou oito vezes na bola na grande área - seis delas foram remates e noutra ganhou um penálti. A melhor maneira de se servirem de Aboubakar é... servindo-o. Já agora, é bom dizê-lo: ainda bem que renovou e que a SAD conseguiu a totalidade do passe antes de janeiro. 


Marega (+) - Deixar de despejar bolas no flanco direito, à espera que Marega apanhe alguma, não só favoreceu a equipa como o próprio jogador. Se no primeiro golo teve a sorte que lhe faltou contra o Benfica, no segundo conseguiu uma finalização perfeita, já depois de ter descoberto sozinho o espaço para assistir Aboubakar para o 4x0 (num lance ao seu estilo, em que quase parece enterrar a bota no relvado antes de conseguir fazer o passe). Marega vai sendo isto, capaz do mau e da utilidade, de falhar com a baliza escancarada e depois fazer um chapéu perfeito ao guarda-redes. Após mês e meio sem intervenção direta em golos da equipa, voltou a colaborar em três e já chegou aos 15 (10 golos, 5 assistências) nesta temporada, números que superam o maior dos otimistas.

Adaptação (+) - Maxi no flanco, Ricardo novamente adiantado, Diego Reyes ao lado de Marcano. Três alterações em diferentes setores, mas tudo funcionou na equipa, curiosamente melhor do lado direito do que do lado esquerdo. Apesar dos calafrios provocados pelo Vitória nos primeiros minutos, a equipa rumou a uma exibição que prova que é possível criar várias ocasiões de golo e chegar com facilidade à grande área sem que isso implique procurar atalhos que não existem no relvado - leia-se, usar e abusar do passe longo. A equipa circulou melhor a bola, Herrera e Danilo seguraram o meio-campo e as oportunidades do Vitória foram escassas. Uma noite descansada.




Que eficiência no VAR? (-) - Aboubakar tentou uma roleta na grande área, sofreu falta, Tiago Martins viu - depois de não ter visto Aboubakar ser agarrado no lance do primeiro golo. Penálti, sem margem para dúvidas. De repente, entra a comunicação do VAR e nasce a confusão. Que indicação recebeu Tiago Martins? De que era penálti? Se era, então porque necessitava Tiago Martins de ir confirmar as imagens, já que a sua decisão inicial era validada pelo VAR? Então o que se passou? Terá Tiago Martins recebido indicações do VAR de que o lance... não era esclarecedor? Ou que não era penálti? Se assim foi, será que o VAR, com recursos a imagens televisivas, conseguiu ver menos do que Tiago Martins no relvado? É verdade, se houve dúvidas, o árbitro foi tirá-las a limpo junto das imagens. Mas se assim é, abre-se o precedente de, doravante, os árbitros irem ver as imagens para confirmarem todas as decisões que tomam? Uma vez mais, o VAR, por cada dúvida que tira, lança outra.

Líder, a depender de si próprio, com o melhor ataque e a melhor defesa da Liga - o FC Porto já não marcava tanto nem sofrida tão pouco, à 14ª jornada, desde a época 1995/96. A duas semanas do natal, isto é rendimento que valha duas ou três prendinhas no sapatinho de Sérgio Conceição. Bem merece.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quinze curiosidades e números a reter

Alguns dados colocam o FC Porto no top europeu, outros têm que ser melhorados no ataque aos oitavos-de-final. O Tribunal do Dragão compilou algumas curiosidades e estatísticas que marcaram o rendimento do FC Porto na fase de grupos da Champions. 




- Danilo Pereira foi o 2º jogador com mais assistências para golo nesta fase de grupos, pertencendo ao grupo de oito jogadores que conseguiram três passes para golo. Só James Milner, do Liverpool, fez mais (5). Marega, Ricardo e Aboubakar fizeram duas assistências cada. 

- Danilo não só foi quem mais assistiu, mas também quem mais correu no FC Porto, com um total de 54,3 quilómetros. Alex Telles (53,04) e Iván Marcano (51,21) ficaram um pouco atrás, tendo sido os únicos totalistas do FC Porto. 

- Alex Telles e Ricardo Pereira são os 2 laterais que mais passes para finalização conseguiram na fase de grupos. O brasileiro, com 13, é o 9º em termos absolutos (e também o melhor defesa), mas os 12 passes para finalização de Ricardo Pereira ganham particular relevância por, ao contrário de Alex Telles, não bater as bolas paradas. 

- Com 58 dribles, Yacine Brahimi foi o 2º jogador que mais situações de 1x1 tentou na Champions, só atrás de Neymar (68). No entanto, o argelino conseguiu ter melhor percentagem de aproveito nestas situações, com 56,9% de eficácia.

- Aboubakar fez um golo a cada 2,8 remates na Champions e teve intervenção direta em 47% dos golos, algo que faz dele um dos 6 jogadores mais influentes em prova.

- O FC Porto é a equipa com mais tackles por jogo: 22 no total. Além disso, é a 3ª equipa qualificada que mais jogadas adversárias interceta (15 por partida). 

- Não raras vezes vimos o FC Porto limitado a bolas em profundidade, à procura de Marega ou Aboubakar. No entanto, os avançados do FC Porto são os que melhor sabem fugir ao fora-de-jogo: foram assinalados apenas seis na fase de grupos, os números mais baixos da Champions. 

- Os guarda-redes do FC Porto estão entre os que menos trabalho tiveram na fase de grupos. Casillas e José Sá, juntos, fizeram 14 defesas, a 3ª marca mais baixa entre as equipas qualificadas (menos só Juventus e Basileia). No entanto, há que ter em conta que o FC Porto sofreu 10 golos, ou seja, as equipas adversárias quase conseguem marcar um golo a cada dois remates ao alvo. 

- Felipe foi o 2º jogador com mais ações defensivas da fase de grupos: 60, apenas menos uma do que Tosic. 

- Um dado atípico: o FC Porto tem o jogador com mais receções falhadas e perdas de bola (Marega), mas ainda assim consegue ser a 3ª equipa que menos receções de bola falha (74), tantas quanto Liverpool e só atrás de Bayern e Real Madrid. 

- Por outro lado, o FC Porto foi a equipa da fase de grupos que mais vezes foi desarmada pelos adversários: 86, mais uma do que o Sporting e duas do que o Mónaco. 

- O FC Porto é a equipa apurada para os 1/8 que mais lances disputa no jogo aéreo: 195, dos quais ganhou 95. Besiktas, Liverpool e Man. United ganharam mais, mas o FC Porto foi a equipa que mais golos marcou no seguimento de lances de bola parada (oito). 

- Nem tudo foi positivo: Marega terminou a fase de grupos da Champions como o jogador de campo com mais perdas de posse (48,1%) e o FC Porto foi a equipa qualificada que menos tempo teve a bola em seu poder (23 minutos de tempo útil) e a 2ª pior percentagem de acerto no passe (77%). Algo a rever para quem quer sonhar nos 1/8. 

- Embora o FC Porto tenha tido uma relação difícil com a bola, isso não impediu a equipa de ser a 2ª mais eficaz da Champions, com eficácia de 25,9% em remates à baliza. Melhor só o PSG, com 28,7%. Como termos de comparação, veja-se a eficácia de clubes como Real Madrid (19,5%), Man. United (17,1%), Barcelona (14,8%), Juventus (11,5)... ou Benfica (1,7%). 

- Na sua época de estreia na Liga dos Campeões, Sérgio Conceição chega aos oitavos-de-final: tantas vezes quanto Jorge Jesus em toda a carreira. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

E assim se fez a omelete (im)possível

Uma qualificação notável. O FC Porto reforçou o estatuto de mais forte equipa portuguesa no panorama europeu, ao garantir a qualificação para os 1/8 da Liga dos Campeões, com mais pontos e golos marcados do que Benfica e Sporting juntos. Era um objetivo declarado, mesmo sem que alguma vez tenham dado ao treinador as melhores condições para o cumprir, e o FC Porto conseguiu-o com mérito e a pulso, num grupo que era verdadeiramente traiçoeiro.


Na antevisão a esta Champions, foi comentado que neste grupo qualquer equipa era simultâneamente candidata à qualificação e ao último lugar. Ironicamente, o Besiktas, teoricamente a equipa mais frágil, venceu o grupo invicto, enquanto o Mónaco, para muitos a equipa mais forte, sai da Champions sem uma única vitória. Ilustrativo. 

O FC Porto foi inferior ao Besiktas neste agrupamento, foi do 8 ao 80 contra o Leipzig e carimbou a qualificação com duas excelentes exibições frente ao Mónaco. É certo que na última jornada as circunstâncias voltaram a ser favoráveis - à imagem da última época, quando o Leicester se apresentou no Dragão com uma equipa alternativa e também levou cinco -, e não deixa de ser atípico que até este jogo o FC Porto tenha construído a sua pontuação basicamente às custas de bolas paradas e com inconsistência defensiva (só o Sevilha se apurou com mais golos sofridos), mas nas contas finais os objetivos foram cumpridos e merecidos.

A Champions está feita no que às metas financeiras e desportivas dizem respeito. O sorteio dos oitavos-de-final não vai oferecer nenhum adversário simpático, nem diante do qual se possa reclamar favoritismo, mas a pressão já lá vai. Agora é tempo de centrar atenções no Campeonato, no qual até fevereiro muita coisa poderá mudar. Ou então a Champions continua, mas no Bonfim. 




Aboubakar (+) - Importa começar por recordar que o FC Porto não pôde contar com ele na primeira jornada, e que o camaronês terá ferido muitas suscetibilidades por ter ido ao balneário do Besiktas. Mas o que se seguiu foi isto: 5 golos e duas assistências em 5 jogos, com intervenção direta num golo a cada 60 minutos. No que a este aspeto diz respeito, estamos a falar do jogador mais produtivo da história do FC Porto na Champions, superando Rabah Madjer. 

No primeiro golo foi oportuno, no segundo determinado e inteligente a procurar o espaço para a finalização. Mas o melhor veio depois, com um passe absolutamente fantástico para Brahimi matar o jogo. Muito bem a aguentar a bola no eixo central, a vir dar apoio atrás e a distribuir o jogo, num dos seus melhores jogos da temporada. Levou o FC Porto às costas nesta fase de grupos. É caso para afirmar: ainda bem que não há CAN em 2018.


Yacine Brahimi (+) - O segundo melhor driblador da fase de grupos da Liga dos Campeões (só atrás de Neymar), a fechar a fase de grupos com chave de ouro, com mais uma assistência e a estreia a marcar. Foi o jogo em que teve maior influência direta na lista de marcadores, ainda que ao longo da fase de grupos tenha sido o denominador comum na criatividade da equipa. Conseguiu completar mais dribles do que todos os colegas juntos nesta fase de grupos. A prova de uma dimensão à parte e a repetição de um alívio: ainda bem que não há CAN em 2018.

Laterais (+) - Com Danilo e Alex Sandro, o FC Porto tinha uma dupla de laterais de classe europeia. Hoje, só resta dizer que ninguém sente a sua falta, graças a Alex Telles e Ricardo Pereira. Juntos, foram responsáveis por 25 das ocasiões de golo criadas pelo FC Porto nesta fase de grupos e voltaram a ter interferência direta. Alex Telles fez um bonito e merecido golo e Ricardo assistiu Soares com precisão para o 5x2 final. Eficazes a defender, desequilibradores a atacar.

Danilo Pereira (+) - Um daqueles jogos em que a sua presença pode não ter sido muito notada, mas foi decisiva. Fez os passes para os golos de Aboubakar (o segundo) e Alex Telles e empurrou várias vezes a equipa para o meio-campo adversário na saída de bola, tendo falhado apenas um passe no seu meio-campo. Não teve que ter muitas ações defensivas (apenas um tackle, nenhuma bola de cabeça ganha e nenhuma interceção, algo atípico no seu rendimento), mas assegurou sempre o equilíbrio da equipa no momento da perda.

Héctor Herrera (+) - Encheu o meio-campo e fez talvez a sua melhor exibição nesta fase de grupos. Teve um total de 103 ações com bola, mais do que os médios-centro do Mónaco juntos, com 91% de eficácia de passe, criou duas ocasiões de golo e acertou os dois cruzamentos que tentou, além de ter recuperado 15 vezes a posse de bola. E não menos importante, desta vez soube temporizar mais a velocidade do meio-campo, jogar curto e não querer que cada posse de bola fosse uma tentativa de a meter o mais depressa possível na frente. Resultado? O FC Porto teve 65% de posse de bola e esteve quase sempre no controlo do jogo, mesmo com uma unidade a menos no meio-campo. A prova de que não é preciso pressas para golear, mesmo tendo sido sonegadas duas grandes penalidades favoráveis ao FC Porto que, com VAR, seriam certamente assinaladas. Pois, ou então não. 





Deitar o crédito a perder (-) - Não é caso para dizer que Felipe teve meramente um descuido, que cometeu apenas um erro e que tem estado bem nos últimos jogos. Não tem. Podemos recuperar o Machado do jogo com o Aves: «Felipe bem pode agradecer que a dupla com Marcano traga crédito da época passada, e que Reyes não tenha o estofo necessário para entrar no 11, caso contrário já tinha sentado. Começam a ser demasiados erros. O problema não são os passes longos - Marcano e Felipe usam e abusam dos passos longos porque têm instruções para isso. O problema são as constantes hesitações, os maus timings sobre a bola, a falta de sentido prático a cortar os lances.»

Não podemos confundir o que é ter raça e vontade com o cair na ratoeira/tentativa de entrar numa picardia com um adversário e sujeitar-se à expulsão. Felipe não tinha nada que meter as mãos ao adversário ou responder a provocações, sobretudo sabendo que tinha a oportunidade de mostrar serviço para ir à seleção do Brasil. O FC Porto estava a vencer por 2x0, tinha o jogo controlado, mas as circunstâncias da expulsão poderiam ter sido bem mais penalizadoras. Quem não se lembra de outra expulsão disparatada no Dragão, de Herrera, frente ao Zenit, que custou bem mais caro?

Felipe conquistou o seu lugar no 11 com mérito, mesmo nunca estando ao nível de Marcano, mas de há várias semanas para cá tem sido das unidades de menor rendimento na equipa principal, com vários erros de concentração, posicionamento e de abordagem aos lances. O jogo nem estava a correr mal a Felipe, apesar de já ter falhado 5 passes longos, mas um jogador que estivesse concentrado e com a cabeça no sítio não cometeria o erro que Felipe cometeu. Já se penitenciou por isso, mas para já temos a garantia de que teremos que mexer na dupla de centrais e que Diego Reyes provavelmente terá que entrar no 11 nos oitavos-de-final. E será pela expulsão que Sérgio Conceição terá que mexer na dupla de centrais, mas se fosse pelas últimas exibições de Felipe também não poderia deixar ninguém escandalizado.

Acertar os passes longos (-) - Numa retrospetiva a esta fase de grupos, sobra a questão: quantos golos conseguiu o FC Porto através de bolas longas despejadas pelos centrais na frente? Sobretudo durante os primeiros 10 minutos, o FC Porto repetiu a fórmula de meter bolas longas na frente, à espera que Aboubakar ou Marega apanhassem alguma coisa nas costas da defesa. As melhoras jogadas nasceram de circulação de bola, do meio para os flancos, e da procura do espaço para colocar os jogadores em situação de finalização, em vez de bater logo a bola longa na frente. O melhor FC Porto desta época, exceção feita à visita ao Mónaco, foi sempre aquele que quis ter bola e assumir o jogo, em vez de trocar a elaboração da construção de jogo por passes longos de Felipe ou Marcano. Algo a reter para o que aí vem.

Palavra, logicamente, para Sérgio Conceição, que na sua época de estreia na Champions garante o apuramento para os 1/8, sem um único reforço e estando longe de ser consensual em muitas das opções que foi tomando. A verdade é que não falhou na hora H e o FC Porto revelou/reabilitou vários ativos na montra europeia. Não foi a época em que o FC Porto melhor jogou na fase de grupos, mas foi um dos apuramentos obtidos com menos recursos. Uma omelete difícil de cozinhar, mas os ovos foram aproveitados da melhor forma.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Depender de Marega

Segundo clássico da época, segunda vez em que o FC Porto é muito superior ao rival. Mas se contra o Sporting o FC Porto saiu de Alvalade como queria - líder -, desta vez o empate frente ao Benfica custou a liderança isolada e o terceiro jogo consecutivo sem ganhar. Falta de oportunidades? Não. Falta de eficácia? Talvez. Mas os maiores falhanços não foram de Marega, mas sim da equipa de arbitragem liderada por Jorge Sousa, que nem com o apoio do VAR conseguiu descortinar um penalty claro de Luisão, passível de consequente expulsão, e conseguiu ver um fora-de-jogo que nem poderia ser considerado duvidoso num lance que daria golo. Dois erros absolutamente grosseiros, que com o apoio do vídeo-árbitro deveriam deixar de existir.


E agora? Agora o FC Porto continua líder, com o melhor ataque e a melhor defesa, a depender de si próprio para ser campeão e sabendo que, na primeira volta, já defrontou todas as equipas do top 4. Não vacilar nos próximos desafios tem importância redobrada, e volta a ter a palavra a SAD, cujo presidente, nos últimos dias, dedicou mais do seu latim a mandar uma farpa a um ex-treinador do que a reagir à injustiça de que o FC Porto foi alvo frente ao Benfica

Sérgio Conceição precisa de mais opções e não precisa de ser mais um dos treinadores do FC Porto cujo estado de graça começa por terminar com erros de arbitragem. A equipa precisa de reforços e não precisa que cheguem apenas no final de janeiro: é da responsabilidade da SAD que no início de janeiro, no treino aberto aos adeptos, Sérgio Conceição possa desde logo ter novas opções para atacar esta missão impossível. Ou então continuem a confiar em milagres, até porque o Sporting recuperou 4 pontos em duas jornadas.






Marega a lutar (+) - A estratégia do FC Porto para ganhar ao Benfica passava por Marega. Pausa para visualizar bem isto. Em toda a primeira parte, o FC Porto só teve basicamente uma ideia para atacar o Benfica: bola em profundidade pela direita, para Marega ganhar metros e tentar fazer algo - basicamente só ganhou um canto, mas já lá vamos. Na segunda parte, Marega deixa de ser referência para correr pelo lado direito e passa a ser referência na grande área. E o que fez Marega entre todas as suas limitações? Lutou. Tentou correr, tentou meter o corpo, tentou ganhar cada bola. Tentou ser ele a impensável estratégia para o FC Porto ganhar o clássico. Se jogadores como Iturbe, Kelvin ou Quintero, que têm mais talento no dedo mindinho do que Marega no corpo todo, tivessem esta atitude e vontade, teriam tido uma estadia mais feliz no FC Porto. Marega deu tudo o que tinha. Não tem muito para dar, mas deu tudo o que tem. Não é possível cobrar mais. 

Alex Telles (+) - Muito sólido a defender, não deixando Salvio criar uma única jogada de perigo, Alex Telles fez uma exibição consistente e destacou-se no ataque, ao acertar 4 de 5 cruzamentos de bola corrida, além de ter criado 2 ocasiões de golo. Cumpriu com tudo o que lhe era pedido, desde dar profundidade ao flanco a bombear a bola para a grande área, perante a falta de ideias do FC Porto para o jogo interior. 

Brahimi (+) - Aconteceu o que se temia: a estratégia do FC Porto para este jogo obrigou Brahimi a estar demasiado longe do último terço. Isso limitou-o imenso na hora de fazer a diferença, tanto que só teve a oportunidade de fazer um remate, para defesa difícil do guarda-redes adversário. Ainda assim, foi o jogador que mais ocasiões de golo criou (4), destacando-se a forma como meteu Marega na cara do golo com um passe de 30 metros a fugir ao último defesa, e era o único a procurar momentos de desequilíbrio no espaço interior. Palavra também para Danilo, Herrera e José Sá, com exibições positivas num jogo de máxima exigência.







Depender de Marega (-) - A estratégia do FC Porto para ganhar ao Benfica passava por Marega. Onde é que já lemos isto? Pois. Mas se já foi elogiado o esforço de Marega, há que questionar como pode o FC Porto ambicionar o título quando a sua estratégia para vencer o clássico passa tanto por um jogador com as mais gritantes debilidades técnicas que há memória de ver no clube. Sim, Marega lutou muito pelo corredor direito. Mas todo esse esforço só resultou num pontapé de canto. Marega falhou as suas três tentativas de cruzamento, as três ocasiões de golo que teve, falhou 5 dos 7 dribles que tentou e só completou 8 passes em 90 minutos. Sim, Marega luta muito, corre muito, mas espremido o sumo, a única coisa que sobra é esforço, pois no sentido prático Marega não foi capaz de produzir nada. Esteve no sítio certo para ter três grandes ocasiões de golo, mas de pouco valeu. Será este plantel tão limitado a ponto de Sérgio Conceição preferir depositar o grosso da estratégia para um clássico num jogador? Ou acreditará assim tanto que ninguém pode dar mais do que Marega neste momento? 

Que futebol? (-) - O FC Porto do início da época parece uma realidade distante. Neste momento, o futebol que tem sido praticado pela equipa não espelha nenhuma melhoria em relação à última época, algo que se tem vindo a revelar nos últimos jogos. Demasiada pressa em procurar a profundidade nos corredores, algo que não tem significado maior rapidez e mais ocasiões de golo. Pelo contrário, a pressa em chegar à baliza adversário aproximou o FC Porto de uma equipa de chutão para a frente, que tenta chegar à frente de forma tão rápida e direta que isso não mostra mais do que uma equipa sem fio de jogo, de pouca circulação, de pouco envolvimento coletivo.

Mas a verdade é que, no 11 utilizado no clássico, não havia ninguém para pensar o jogo, exceção feita a Brahimi quando ia para a zona interior. De resto, o FC Porto depende da bola em profundidade para atacar, não tendo nunca conseguido aproveitar o muito espaço que o Benfica deixava entre linhas. No que toca ao meio-campo, o FC Porto tem um único jogador capaz de pensar o jogo: Óliver Torres. Deixou de ser opção, e o mês de janeiro talvez explicará se deixou de jogar por Sérgio Conceição não querer, ou porque já estava alinhava uma saída antes da sua transferência ao Atlético começar a ser paga. 

Faltando Óliver, o FC Porto não tem um médio organizador, pensador, o que forçosamente obriga Sérgio Conceição a procurar outras soluções. Se não podemos jogar de forma organizada e apoiada, não restam muitas soluções a não ser a velocidade e a dimensão física. Não é o tipo de futebol que costume ser imagem de marca de equipas campeãs, mas é o que se tem neste momento. E se não forem apresentadas alternativas, provavelmente não chegará. 

Estar na liderança da I Liga e na luta pelos 1/8 da Champions, neste momento, é absolutamente notável. Mas não é por acaso que 70% dos golos na Champions saíram de bolas paradas e que só se tenha sido conseguido um golo - que, diga-se, poderiam ser 2 ou 3 se o apito o tivesse deixado - em 270 minutos de futebol contra o top 4 da Liga, apesar de ter sido sempre superior. Falta cabeça, falta organização. Por muito boa vontade que se possa ter, ninguém é campeão a depender de bolas em profundidade num jogador que era o dispensável número um na pré-época.

Segue-se o Mónaco, que vai ao Dragão cumprir calendário com uma equipa alternativa. Escusado será dizer que falhar os 1/8 da Champions nestas circunstâncias seria algo difícil de digerir.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Os Pentas: Novembro de 2017

Novembro não foi um mês fácil para o FC Porto. Houve uma quebra de rendimento a nível exibicional, algo que se acentuou nos últimos três jogos, mas a equipa chega ao início de dezembro na liderança da I Liga, em prova na Taça de Portugal e a depender de si própria para seguir para os 1/8 da Liga dos Campeões. 

A pausa para as seleções limitou o calendário a cinco jogos, que despertaram diferentes sensações: uma boa vitória frente ao Leipzig (3x1); uma performance q.b. frente ao Belenenses (2x0); um pé e meio fora da Taça de Portugal, mas a tempo de dar a volta ao Portimonense (3x2); um empate sofrido na visita ao Besiktas (1x1); e a primeira má jornada da época na I Liga, na visita ao Desportivo das Aves (1x1). Não era o ciclo de jogos mais difícil da temporada, sobretudo se tivermos em conta que dezembro começa com receções a Benfica e Mónaco, mas os resultados acabaram por ser melhores do que as exibições. E delas destacaram-se os seguintes nomes. 

5. José Sá

Uma estreia no top 5, curiosamente graças a dois jogos em que o FC Porto não conseguiu vencer. Na visita ao Besiktas, foi decisivo com três intervenções de elevado grau de dificuldade, que ajudaram a manter a igualdade no marcador. Já no último jogo, na visita ao Desp. Aves, acabou por ser novamente o jogador mais votado pelos leitores d'O Tribunal do Dragão para o prémio MVP, num jogo em que fez apenas duas - mas difíceis - defesas. Sérgio Conceição fez dele o novo dono da baliza do FC Porto, uma escolha que continua longe de ser consensual mas que não justifica nenhum dos últimos maus resultados que o FC Porto tenha tido. Iker Casillas tem sido um jogador decisivo nos clássicos contra o Benfica; estará José Sá à altura dessa responsabilidade já amanhã?

4. Yacine Brahimi

O melhor jogador dos meses de setembro e outubro esteve uns furos abaixo nos últimos jogos, mas isso não é suficiente para deixar de notar a sua influência na equipa. Contra Leizpig e Besiktas reforçou o estatuto de 2º melhor driblador da Champions (só atrás de Neymar - e tem mais lances de 1x1 ganhos do que todo o plantel do FC Porto junto), um oásis numa equipa que tem dependido das bolas paradas para chegar aos golos. A nível interno, foi na Taça de Portugal que resolveu, frente ao Portimonense, entre exibições mais discretas diante de Belenenses e Aves, mas sem nunca deixar de ser o jogador que mais desequilíbrios cria do ponto de vista individual. Mesmo sem estar ao seu melhor nível, Brahimi continua num nível à parte.

3. Danilo Pereira

Voltou a roçar o seu melhor nível exibicional no último mês, começando desde logo na receção ao Leipzig - fez um golo e esteve na jogada de outro, numa exibição em que esteve quase irrepreensível defensivamente. Falhou a receção ao Belenenses, mas voltou a marcar logo de seguida na Taça de Portugal, ante o Portimonense, tendo sido o melhor médio em campo. Na visita ao Besiktas sentiu, à imagem da equipa, dificuldades para lidar com o meio-campo turco, tendo estado longe do seu melhor nível, mas na visita ao Aves foi dos poucos a ter clarividência e rumo na procura, em vão, pela vitória. Está melhor fisicamente e, apesar de o 4x4x2 não ser o esquema que melhor revela Danilo, o médio-defensivo continua a ser uma garantia de segurança e organização na retaguarda.

2. Alex Telles

Foi do seu pé esquerdo que começaram por nascer as três vitórias do FC Porto no último mês. Contra o Leipzig, assistiu Danilo para o 2x1 e esteve na génese do golo de Herrera; na ronda seguinte, ante o Belenenses, esteve novamente na origem de um golo do mexicano, fazendo uso da apetência para as bolas paradas; contra o Portimonense, voltou a assistir na marcação de um pontapé de canto, mas foi no delicioso passe para Aboubakar, já para lá do minuto 90, que mais brilhou. As exibições contra Besiktas e Aves foram mais discretas, mas Alex Telles somou mais três assistências no último mês e esteve em mais duas jogadas de golo, continuando a destacar-se mais pelo que oferece do que pelo que tem para fazer na defesa. Continua a ser presença regular e justificada no top 5.

1. Héctor Herrera

Eleito o MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão em dois dos quatro prémios atribuídos neste mês, agarrou-se desde logo ao primeiro lugar nas receções a Leipzig e Belenenses. Depois de um golo e uma exibição completa na Champions, brilhou com um golo e uma assistência na 11ª jornada. Descansou na Taça e não esteve ao mesmo nível frente a Besiktas e Aves, mas quem leva dois de quatro prémios MVP (Alex Telles e José Sá foram eleitos nos dois restantes), tendo sido o melhor em campo em duas de três vitórias, justifica a eleição para «Penta» do mês de novembro, tendo ele curiosamente sido alvo de uma análise mais detalhada que explica o papel desempenhado por Herrera nos últimos jogos. E seria de uma crueldade poética amanhã, em dia de clássico, Herrera, jogador tão polémico nas apreciações entre adeptos, não começar o mês de dezembro a justificar os elogios de novembro.


Cinco dos próximos seis jogos vão ser disputados no Estádio do Dragão. Há a liderança da I Liga, a passagem aos 1/8 da Champions, Taça de Portugal e Taça da Liga (seja lá o que signifique/importe esta prova) para disputar, e basta um mau resultado para qualquer um destes objetivos ficar por terra. A pressão é máxima e a margem de erro mínima. Como a malta gosta. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Porquê sempre Herrera?

Héctor Herrera começou o mês de novembro em grande forma, ao ser eleito o MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão nos dois primeiros jogos (Leipzig e Belenenses), algo que o colocou desde logo na pole para vencer «Os Pentas» deste mês. Mas como vem sendo hábito no percurso de Herrera no FC Porto, após um par de boas exibições vem uma quebra de rendimento e, com ela, as eternas questões sobre a sua utilização na equipa principal.

O comentário mais comum entre os adeptos do FC Porto é o de que Héctor Herrera «falha muitos passes». Hoje vamos ver se isso é, de facto, verdade, e chegar desde logo a uma conclusão: Herrera não só não falha «muitos passes» como é o jogador do FC Porto com maior eficácia de passe em todo o Campeonato.

Entre os atletas que disputaram pelo menos 400 minutos na I Liga até ao momento, Herrera é o 4º jogador com maior eficácia de todo o Campeonato, com acerto de 88% no passe. À sua frente só Fejsa (89,6%), William Carvalho (88,8%) e Mathieu (88,4%). É fácil perceber o porquê de estes jogadores dos rivais estarem à sua frente: tratam-se de dois médios defensivos e um central, que têm como missão distribuição curta e não pisar terrenos muito adiantados. Como curiosidade, no FC Porto seguem-se Danilo (87,6%), Corona (84,2%) e Alex Telles (83,2%).

Não, Herrera não falha muitos passes - falha menos até do que os colegas. Mas isso leva seguramente a outra crítica da massa adepta: «Só passa para trás e para o lado». Vamos ver se é verdade.

Mapa de desempenho de Herrera (dados Squawka)

Até ao momento, 63,1% dos passes de Herrera foram efetuados para a frente (267 passes). Quer isto dizer que 36,9% (156 no total) foram feitos para trás ou para o lado, sem progressão no meio-campo. Será esta percentagem boa ou má? Neste caso, há que comparar com outros jogadores do Campeonato.

Pizzi, do Benfica, foi um dos melhores jogadores da época passada e o melhor passador do Campeonato. Como estará a ser o seu desempenho esta temporada? A estatística diz que 66,2% dos passes de Pizzi foram efetuados para frente. Ou seja, a cada 100 passes, faz apenas mais 3 do que Herrera para a frente. E a sua eficácia de passe, de 84%, é inferior à de Herrera.

No Sporting temos Battaglia, com 85% de acerto no passe, e do qual 61,9% dos passes saem para a frente. Ou seja, praticamente a mesma percentagem de Herrera.

Quer isto dizer que não, Herrera não passa «só para trás ou para o lado». Está na mesma linha de desempenho dos médios dos candidatos ao título em Portugal. Já falámos da eficácia de passe, já falámos da progressão em campo... Mas falta falar da distância.

O passe médio de Herrera no Campeonato é de 17 metros. A mesma distância de Battaglia, mas inferior a Pizzi (20m). Mas aqui o maior termo de comparação deve ser com Óliver Torres, o 2º melhor médio do plantel (atrás de Danilo) mas que deixou de ser opção após Conceição ter apostado no esquema que «recuperou» Herrera - algo que não é justificação única, pois Sérgio Oliveira tem sido preferência para os grandes jogos.

Óliver, no Campeonato, tem 83% de eficácia no passe, mas 69% dos seus passes são efetuados para a frente. Ou seja, Herrera acerta mais passes do que Óliver, mas apesar de Herrera estar associado a um esquema de maior velocidade/verticalidade, e Óliver a um modelo de circulação, a verdade é que Óliver joga mais para a frente do que o mexicano. E há um detalhe muito importante: o passe médio de Óliver é de 22 metros. Ou seja, com Óliver em campo, o FC Porto ganha muito mais amplitude de jogo, enquanto com Herrera, embora a eficácia de passe seja maior, o raio de ação é mais curto. A isso também se deve o facto de Herrera correr mais com bola, ou seja, vai comendo metros no meio-campo, enquanto Óliver privilegia desde logo a distribuição. 

Mas não basta passar para a frente: é preciso saber se esse passe leva a alguma coisa. E aqui os dados saem novamente em defesa de Héctor Herrera, que cria 1,8 ocasiões de remate por jogo. Só Alex Telles, com 2,8, consegue melhor, mas há algo que justifica a vantagem do brasileiro: Alex Telles bate as bolas paradas e cria muitas situações dessa forma. Ou seja, em bola corrida, Herrera é o jogador do FC Porto que mais ocasiões de finalização cria no Campeonato. Sim, inclusive à frente de Brahimi (1,4). O segundo melhor é... Óliver Torres, com 1,5.

O que diz então a estatística? Que Herrera é o jogador com maior eficácia de passe no FC Porto; que não joga mais para trás do que os rivais; que é o principal criador de oportunidades do plantel em bola corrida. Por que é que joga com Sérgio Conceição? Porque oferece estas coisas à equipa.

Esta discussão deveria ter terminado a partir do momento em que o presidente do FC Porto disse ter recusado 30 milhões de euros por Herrera - e que tinha provas dessa recusa. Porque Herrera pode ser mais ou menos adorado pelos adeptos, mas numa coisa todos concordarão: não vale esse dinheiro. Se pensarmos nos grandes médios que o FC Porto teve nos últimos anos, desde Maniche a Lucho, de Raúl Meireles a João Moutinho, talvez não valha nem metade. E não é culpa dele que tenham recusado isso. Herrera é capitão porque é um profissional exemplar e respeitado por todos os colegas, mas a discussão sobre a sua valia para o 11 do FC Porto terminou no dia dessa recusa. 

Mas não joga por ser bom tipo e bom profissional. Joga pelos factos descritos nesta análise estatística, que não é o que os adeptos querem ou julgam ver: é o que se passa no relvado. O Tribunal do Dragão sempre opinou que o melhor FC Porto tinha que ter Óliver Torres no 11. Não tem tido, mas Herrera não tem sido, de todo, mais problema do que solução, bem pelo contrário. Talvez seja um post de defesa a Héctor Herrera, talvez seja meramente um aglomerado de factos. Mas vem aí um FC Porto x Benfica, e no último clássico aquele pontapé de canto de Herrera ficou atravessado na garganta de todos os adeptos. Héctor, eis uma boa oportunidade para a redenção.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O penalty mudaria o resultado, não a exibição

À 12ª jornada, o FC Porto teve o seu primeiro mau resultado na I Liga. Consequências? A equipa continua no primeiro lugar e terá, já na sexta-feira, a oportunidade de manter esse lugar e de deixar o tetracampeão em título a 6 pontos de distância. Se pensarmos naquilo que foi toda a preparação desta época, dificilmente se poderia pedir contexto mais favorável após cumprido um terço de Campeonato. Melhor ataque, melhor defesa e mais 7 pontos do que aqueles que somava por esta altura há um ano. Como pode o crédito do que foi construído até agora ser deitado abaixo após o primeiro - o primeiro! - mau resultado nesta Liga?

Não há descrédito. Há uma oportunidade de lavar a cara já no clássico. Mas como é claro, não há coisas simpáticas para dizer sobre os 90 minutos que o FC Porto fez na visita ao Aves. Não foi só a pior exibição da época: foi dos piores jogos que vimos o FC Porto fazer nos últimos anos. Pobreza tática, previsibilidade, baratas tontas a defender, sem ideias a atacar. Quim tem 42 anos, duas décadas de Campeonato, e este terá sido um dos jogos em que menos trabalho teve na sua carreira. Quim não fez uma defesa. Nem uma, porque o FC Porto não lhe deu essa possibilidade. 

Sérgio Conceição sabe que a equipa não esteve bem. Sabe que ele próprio não esteve bem. Mas também sabe que não há melhor tónico de recuperação emocional e exibicional do que vencer o Benfica. Será difícil? Com certeza. Como tem sido até agora.

Claramente que o penalty não assinalado sobre Danilo, ao cair do pano, foi um erro gritante que tirou ao FC Porto a derradeira oportunidade de chegar ao 2x1 e de manter as distâncias antes do clássico. Foi um erro que não se pode deixar de denunciar e condenar. Mas esse penalty só mudaria o resultado, não a exibição. E a exibição foi muito pior do que o resultado, pois é perfeitamente aceitável somar um mau resultado em 12 jornadas no Campeonato, mas não jogar tão, tão mal e com tão pouca clarividência e ideias. 




Ricardo Pereira (+) - Fez o que mais nenhum colega conseguiu fazer: fazer um remate enquadrado com a baliza. E deu golo, após um magnífico passe de Soares. Foi o ponto alto de uma exibição positiva, na qual ainda se destacou uma ocasião de golo criada e 13 ações defensivas. Melhorou imenso no timing de desarme e é, neste momento, o jogador do Campeonato com mais tackles eficazes (25), embora não tenha tido uma única oportunidade para cruzar - algo que se tem acentuado nos últimos jogos. Mais culpa da dinâmica da equipa do que do próprio.

Danilo Pereira (+) - Cometeu alguns erros, falhou alguns passes, perdeu algumas bolas. Mas se há jogador a quem não se possa apontar falta de empenho é Danilo. Parecia ser o único a perceber que era preciso circular e passar mais a bola, a comandar a subida das linhas, a apelar à garra e a uma pressão mais constante e aguerrida. Danilo deu tudo num jogo em que o meio-campo do FC Porto quase não existiu, e tentou ele próprio assumir protagonismo na frente - rematou 3 vezes, criou uma ocasião de golo e conseguiu fazer mais dribles do que os 4 pontas-de-lança que o FC Porto teve em campo.




Bola atrás, bola à frente (-) - Pontapé de saída, bola longa para o lado direito do ataque. Repete-se a jogada. Bola em Felipe, bola longa para a frente. Bola em Marcano, bola longa para a frente. Repetir invariavelmente a mesma coisa esperando resultados diferentes. É algo que já tinha sido aqui comentado nos últimos jogos: o FC Porto está a tornar-se em demasia uma equipa de chutão para a frente. Há momentos em que isso vai funcionar, em que vai haver espaço, em que Ricardo, Alex, Marega ou Aboubakar vão apanhar uma bola nas costas dos defesas. Mas neste momento não está a funcionar, pois todas as equipas já sabem que o FC Porto vai fazer isso. Podem já anotar: no pontapé de saída para o FC Porto x Benfica, o jogador que estiver do lado direito do ataque (seja Marega ou eventualmente Aboubakar a cair naquela zona) vai estar com 2 homens em cima, pois já sabem que vai cair ali uma bola longa.

A determinada altura parecia que não havia meio-campo. A bola passava da defesa diretamente para a linha avançada. Não houve jogo interior, Brahimi ou Corona a caírem no meio para compensar a inferioridade numérica no miolo, tabelas entre linhas, soluções de passe e progressão. É claro que jogar num 4x4x2 com Herrera não é o mesmo que jogar num 4x3x3 - ou mesmo noutro esquema qualquer - com Óliver, o que obriga a menos controlo e mais vertigem. Mas não está a funcionar. É preciso alternativa. É preciso saber controlar a bola, fazê-la circular, procurar o espaço de forma mais apoiada em vez de continuar a insistir no jogo direto para as costas dos laterais. 

Zero no ataque (-) - O FC Porto teve 16 tentativas de remate ao longo da partida. Só uma vez conseguiu rematar à baliza, por Ricardo. Conforme já foi afirmado, estamos a falar de um jogo em que Quim não teve que fazer uma única defesa, a não ser sair a algumas bolas em cruzamentos. Foi provavelmente um dos jogos mais tranquilos de Quim frente a um grande na sua carreira. Foi um jogo em que o FC Porto foi praticamente inexistente no ataque. Aboubakar e Corona simplesmente não existiram em campo. Brahimi foi muito mais inconsequente do que o habitual. Herrera foi quem mais ocasiões de golo criou e quem mais acerto teve no passe, mas faltou ligação ao ataque. Os cruzamentos foram simplesmente maus: Alex Telles fez 10 dos 12 na partida, e apenas um teve seguimento. Pouco, muito pouco.

A bola queima (-) - Felipe bem pode agradecer que a dupla com Marcano traga crédito da época passada, e que Reyes não tenha o estofo necessário para entrar no 11, caso contrário já tinha sentado. Começam a ser demasiados erros. O problema não são os passes longos - Marcano e Felipe usam e abusam dos passos longos porque têm instruções para isso. O problema são as constantes hesitações, os maus timings sobre a bola, a falta de sentido prático a cortar os lances. Mas não é só isso, a quantidade de vezes em que o FC Porto deitou a bola a perder, durante a cobertura face à pressão do adversário, foi preocupante. O próprio Danilo, Herrera, Corona, foram vários os casos em que a bola parecia queimar.

Herrera, apesar de tudo, ainda foi dos que maior acerto conseguiu ter. Se repararem no mapa de passes errados vs. ocasiões de  remate criadas pelo FC Porto, praticamente saíram todas desde a meia esquerda, onde estava Herrera e também Brahimi. De resto, do lado direito do ataque do FC Porto não saiu um único lance de perigo, a não ser a entrada de Ricardo para o lance do 1x0. O FC Porto poucas vezes conseguiu fazer a bola circular no último terço e procurar o espaço certo para atacar. Admita-se, acabar o jogo com 10 e com um avançado que no início do ano estava na Sanjoanense não é fácil. Mas estávamos na visita a uma equipa que luta para não descer antes de um clássico.

A vermelho os passes errados, a laranja os passes para ocasião de perigo
O Aves não ganhou a Champions... (-) - Não, não ganhou. Mas o Aves nunca tinha conseguido pontuar frente ao FC Porto. Só tinha feito 2 golos ao FC Porto em toda a sua história. Tinha, tem, um dos piores ataques e defesas da Liga. Luta para o pontinho, para não descer. E ainda assim, conseguiu tirar pontos ao FC Porto. Se isto não é motivo para o Aves festejar, o que seria? No que ao contexto de um Desportivo das Aves diz respeito, sim, ganharam a Champions deles, pois foram superiores ao FC Porto durante 90 minutos. E isto merece mais preocupação do que saber de que forma festejaram ou deixaram de festejar. 

E agora? Agora o FC Porto é líder, tem o melhor ataque, tem a melhor defesa, e nos próximos dois jogos pode consolidar a liderança, deixar o Benfica a 6 pontos do primeiro lugar e apurar-se para os 1/8 de final da Liga dos Campeões. Mas é preciso aprender com o que (não) se fez neste jogo. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Defeito e feitio com vista para os oitavos

Sérgio Conceição resumiu tudo, sem falsas modéstias ou arrogância: «Nem o mais otimista» esperaria que o FC Porto chegasse à última jornada da fase de grupos a depender de si próprio para seguir para os 1/8 da Champions, enquanto lidera a I Liga de forma imaculada e responde com soluções a cada problema provocado por não terem dado um único reforço ao treinador. Mérito inabalável de Sérgio Conceição e do grupo por si liderado, sobretudo quando temos em conta o quão difícil tem sido para o FC Porto jogar esta Champions. 


Se era impensável que o FC Porto chegasse a esta fase com notórias hipóteses de se qualificar, também é difícil imaginar que o FC Porto tenha tanta dificuldade em tratar a bola na Champions, sendo a 2ª equipa que mais passes falha, só atrás do APOEL, e praticamente só as bolas paradas permitem à equipa estar no 2º lugar (7 dos 10 golos nesta fase de grupos foram obtidos desta forma, e os restantes divididos entre um lance de contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada com vários ressaltos). 

O FC Porto de Conceição não nega as suas limitações, convive com elas, e está a apenas uma vitória de cumprir um difícil objetivo de época. O que é muito diferente de já se poder cantar vitória, pois a receção ao Zenit de 2011-12 deve ser sempre mantida como exemplo.




A equipa a defender (+) - Este FC Porto convive mal com a bola, mas isso não retira à equipa o mérito de saber controlar o espaço e a profundidade. O Besiktas teve momentos de grande superioridade, mas o FC Porto limitou o adversário a três únicas entradas perigosas na grande área, duas por Quaresma e uma por Pepe, - além, claro, do golo, um lance que deixou Felipe mal na fotografia (a única falha numa exibição de sentido prático quase irrepreensível) e no qual Sérgio Oliveira (o melhor do meio-campo) pareceu ter parado para coçar as jóias da família em vez de fazer o acompanhamento a Tosun quando este correu para o flanco. Não tivesse ocorrido esta falha e o FC Porto teria feito um jogo perfeito defensivamente, ainda que também José Sá, na sua melhor exibição desde que chegou ao clube, tenha feito 3 defesas de elevado grau de dificuldade.

Brahimi (+) - À imagem da equipa, teve dificuldades em criar perigo objetivo para a baliza adversária (além do golo, só ficaram na retina um remate de Aboubakar e a tentativa de trivela de Ricardo), mas sempre que recebia a bola parecia que o jogo parava. Brahimi arrastava a bola, descobria zonas novas, permitia à equipa subir, partia as linhas do Besiktas que iam aparecendo e foi sempre o único escape de criatividade da equipa. Foi o elemento com maior facilidade em manter e passar a bola, mesmo jogando em zonas mais recuadas e sempre com 2 jogadores do Besiktas em cima dele.




Demasiada alergia à bola (-) - Pode ser mais feitio do que defeito, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O FC Porto divide-se demasiado entre a pressa de querer atacar rapidamente e jogadas perdulárias por querer acelerar demasiado o jogo. Sérgio Conceição pode querer isso, e a forma como monta a equipa, por exemplo jogando com Herrera em vez de Óliver, é um exemplo desse modelo, mas o FC Porto deita demasiadas vezes a perder a posse de bola gratuitamente. Estamos entre as equipas que menos controlam os jogos na Champions, ficando sempre à mercê da eficácia adversária e ficando demasiado limitados aos lances de bola parada. Apesar de o FC Porto gostar de acelerar o jogo, só fez dois golos de bola corrida dessa forma na Champions, o 0x2 no Mónaco e o 3x1 ao Leipzig. De resto, valem as bolas paradas, que são um trunfo, mas não podem significar 70% dos golos que o FC Porto marca.

Atacar as linhas (-) - Ok, o FC Porto é forte nas bolas paradas. E sai de Istambul sem um único pontapé de canto? Faltou forçar a ida à linha, obrigar o Besiktas a cortar para onde estivesse virado. O FC Porto foi forçado a 38 jogadas em que os defesas tiveram que, simplesmente, dar uma bicada ou cortar para a linha, enquanto o Besiktas esteve apenas exposto a 8 dessas situações. Alex Telles não teve a oportunidade de ir nenhuma vez à linha fazer um cruzamento, e o FC Porto conseguiu apenas cruzar 2 vezes com perigo, ambas por Ricardo. E não é por acaso que 2 das 3 jogadas de maior perigo do FC Porto nasceram por intermédio de cruzamentos de Ricardo. O Besiktas ganhou o meio-campo, mas poderia ter sido bem mais explorado pelos corredores. 

Verborreia (-) - «Às vezes não necessito de um treinador como Lopetegui. Quando tenho na equipa Hulk, Falcao e James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores, nem capacidade económica para os substituir, e o trabalho é diferente. (...) No primeiro ano esteve bem, mas no próximo [esta época] vai ser melhor. Não ganhou nada, mas estou satisfeito. Na Liga, um estudo demonstrou que o Benfica foi favorecido com sete pontos. E na Liga dos Campeões foi o Bayern de Munique que nos eliminou nos quartos de final». Pinto da Costa, julho de 2015

Ontem ficámos a descobrir que o FC Porto não foi campeão nos últimos anos não por causa do colinho, do polvo e de tudo aquilo que vem sendo denunciado e combatido no Porto Canal. Descobrimos que o FC Porto não foi campeão porque Pinto da Costa decidiu ir buscar Lopetegui em 2014, um treinador com o qual afinal não era para ganhar. Dirão alguns portistas que Pinto da Costa lembrou-se só agora de vir falar, nas vitórias. Nada mais errado, pois o FC Porto ainda não ganhou nada. E se ganhar não será por certo por enxurradas de disparates, falta de coerência e fugas à responsabilidade como estas. Deprimente. Sérgio Conceição disse recentemente que não queria o diretor de comunicação a falar em nome da equipa. O melhor mesmo é limitar essa faculdade ao treinador.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Salvos pelo gongo

Um daqueles jogos em que os instantes finais podem mudar a forma como se olha para os restantes 90 minutos. Até à entrada para o início de compensação o FC Porto era uma equipa desinteressada, que se pôs a jeito, com alguns jogadores a revelarem-se insuficientes mesmo para uma segunda linha e que só se poderia queixar de si própria por sair novamente de forma precoce da Taça; depois, no momento em que Brahimi faz o 3x2 final, o FC Porto passa a ser uma equipa lutadora, que teve garra, que acreditou até ao fim e que voltou a mostrar que tem um grupo unido e determinado. 


Para trás fica uma exibição muito pouco conseguida e o mais importante: a continuidade na Taça de Portugal, em vésperas de Champions e depois de duas semanas de difícil preparação, quer pelos trabalhos das seleções, quer pelas lesões. Tivemos a sorte que faltou noutros anos e que poderá faltar noutras situações, sobretudo se a equipa voltar aos níveis de relaxamento exibidos na primeira parte.




Alex Telles (+) - Bateu o canto que deu origem ao 1x0, com alguma felicidade à mistura (é incomum vermos a bola pingar naquela zona num jogo entre primodivisionários), mas foi ele quem descobriu o caminho para a permanência na Taça, com um excelente passe a desmarcar Aboubakar para o 2x2. Voltou a fazer a diferença no último terço, sem nunca comprometer defensivamente, e a compensar a falta de criatividade e ideias no ataque.

Danilo Pereira (+) - O melhor do meio-campo. Abriu o marcador e foi a constante referência da equipa no eixo, não só na primeira fase de construção como nos avanços que ele próprio assumiu pelo corredor. Falhou qualquer coisa na cobertura a Pedro Sá no 2x1 do Portimonense, mas Danilo Pereira foi sempre uma garantia de força, empenho e clarividência num jogo difícil. 

As pequenas coisas (+) - Um daqueles pormenores que podem passar despercebidos, mas que têm grande valia e que revelam inteligência e espírito competitivos. No momento em que Aboubakar atira para o 2x2, não celebrou: foi buscar a bola ao fundo da baliza, correu para o meio-campo e quis que o jogo fosse rapidamente reatado, de modo a tentar chegar ao 3x2 e evitar o prolongamento. Era o momento: o Portimonense estava atordoado, a jogar com 10 e não havia interesse nenhum em jogar mais 30 minutos antes da Champions. O esforço foi compensado pouco depois, com o golo de Brahimi. 




E janeiro está aí à porta (-) - Hernâni foi a jogo em seis dos últimos sete jogos do FC Porto, tendo sido titular em quatro. Fez um bonito golo de escorpião na Taça, mas de resto pouco ou nada consegue acrescentar à equipa. Constantemente alheado do jogo, inconsequente, improdutivo no 1x1 e por vezes a fazer parecer que tem medo de aleijar a bola na hora de rematar. Com o mercado de inverno aí à porta, cada exibição de Hernâni tem parecido um atalho para a saída em janeiro. Ficou no plantel e joga perante a falta de alternativas, mas nem isso o parece espevitar. No mesmo âmbito, André André continua em campo neutro (não compromete, mas também não acrescenta nada de substancial ao meio-campo), e embora se saúde a estreia e o empenho de André Pereira, sejamos francos: neste momento provavelmente não jogava em nenhuma equipa da Primeira Liga. Não é novidade, mas este plantel precisa de mais soluções, sobretudo se continuar em todas as frentes para lá do natal. E oxalá a visita a Istambul ajude nesse sentido, quer financeira, quer desportivamente. 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O orçamento da época 2017-18

A SAD já deu a conhecer a proposta de orçamento que será submetida a aprovação na Assembleia Geral de 27 de novembro. Depois de meses em que as (poucas) intervenções dos dirigentes da SAD apontavam para um caminho de contenção de custos, redução da despesa e de dar passos rumo à auto-sustentabilidade, este orçamento era, é, a oportunidade de conferir se há realmente planos para isso ou se eram meras palavras. E como é hábito, resta deixar os números falarem por si - e também deixarem claro que, se queremos razões para festejar esta época, só podemos mesmo contar com Sérgio Conceição e os jogadores.


Há um ano, a SAD apontava para custos operacionais (sem despesas com passes de jogadores) de 116,5 milhões de euros - o valor final acabou por atingir os 121,8 milhões. Desta vez, a SAD prevê gastar mais do que o que havia sido orçamentado há um ano: 118,5 milhões de euros

Isto indica desde logo uma coisa: a folha salarial praticamente não baixa, apesar de ter havido um desinvestimento no plantel para esta época. A SAD prevê custos com pessoal de 69,4 milhões de euros esta época. Aliás, há uma pequena redução face ao orçamento da época passada, mas não chega aos 100 mil euros. Já em relação aos resultados finais da temporada passada, que atingiram os 73,26 milhões de euros, a redução aproxima-se dos quatro milhões de euros.

Portanto, a partir deste orçamento, concluímos que a SAD propõe uma redução dos custos com pessoal de 74 mil euros em relação ao orçamento de 2016/17 e de 3,822 milhões de euros face ao Relatório e Contas final da temporada passada. Isto leva-nos desde logo a questionar de onde saíram estas previsões particularmente animadoras. 


Além deste relato do jornal O Jogo, o site oficial do FC Porto cita Fernando Gomes: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». De custos com plantel para salários, de 3,822 milhões de euros para 20,8 milhões, há aqui um triângulo das Bermudas qualquer, entre semântica e matemática, que faz as coisas não baterem certo. Onde está a poupança com 26 jogadores? Oportunidade para se explicar dia 27. A não ser que estejam à espera do mercado de inverno para emagrecer a folha salarial, quiçá com ativos bem remunerados que não estão a ser opção inicial para Sérgio Conceição. Especulação, nada mais. 

Os proveitos operacionais previstos também aparecem dentro da mesma linha. Na época passada, a previsão era de 98,4 milhões de euros, e ficou meio milhão acima da metade traçada. Agora, a SAD aponta para 98,8 milhões de euros. A maior fatia volta a ser esperada na UEFA, em que a SAD conta com a qualificação para os 1/8 de final da Liga dos Campeões. Mesmo havendo restrições nas opções de Sérgio Conceição e que não lhe tenham dado um único reforço para a Champions. 

Tudo isto resulta num prejuízo operacional de 19,737 milhões de euros, resultado que acaba por ser superior às previsões da época passada (18,1M€).

O resultado final esperado é então de um prejuízo de 17,277 milhões de euros (o prejuízo de 2016-17 transitará para este exercício), após serem considerados/esperados proveitos de 55 milhões de euros com transações de jogadores na próxima época. Posto isto, torna-se difícil de encontrar algo nesta proposta de orçamento que aponte para uma mudança de rumo, de redução de custos ou de aproximação da auto-sustentabilidade. Mas calma: Fernando Gomes por certo explicará, dia 27, que este é apenas o «ano zero» e que a verdadeira recuperação começará já em 2018-19. 

Coisa que nos leva a imaginar qual seria a disposição dos adeptos se um treinador do FC Porto que, estando há três anos e meio no cargo e que tenha estado envolvido nos piores resultados da história do clube, se desse ao luxo de prometer «calma que isto vai melhorar, estamos no caminho certo e a partir do próximo ano vamos começar a jogar futebol a sério». Tem tudo para correr bem.