segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sem espinhas

Seriedade, compromisso e empenho num jogo que convidava a algum relaxamento? Check.
Oportunidade para lançar uma equipa alternativa e alguns jovens? Check.
Golos bonitos e bom futebol? Check. 
Prémio Puskas para Hernâni? Não, porque esse já está reservado para Loures. 

Tudo o que se podia pedir neste contexto de Taça de Portugal foi cumprido com distinção, a poucos dias da deslocação à Alemanha, onde o Leipzig tem como mais recente cartão de visita uma vitória em Dortmund. Promete.

Aboubakar (+) - Os regulamentos que condicionaram a composição do 11 para a partida eram não só desconhecidos por grande parte dos adeptos como pela própria imprensa, mas Sérgio Conceição fez questão de os lembrar. Aboubakar teve que jogar, num jogo em que o FC Porto acabaria sempre por vencer, com menor ou menor dificuldade. Aboubakar, em dois minutos, assegurou que a equipa o faria com menor dificuldade, com duas boas finalizações, em particular o golpe de cabeça.

Diogo Dalot (+) - Este jogo não foi um teste à qualidade de Diogo Dalot, pois a verdade é que qualquer adversário do FC Porto B na Segunda Liga tem mais qualidade do que este Lusitano. Mas na sua estreia oficial pela equipa principal foi desinibido, entendeu-se bem com Brahimi do lado esquerdo (embora tenha feito toda a formação do lado direito) e arrancou um cruzamento perfeito para a cabeça de Aboubakar. Está, há muito, a um nível muito acima do da sua geração e o FC Porto pode ter aquilo um lateral para muitas épocas - embora a SAD não tenha historial de manter os talentos da formação no clube. 



O envolvimento da equipa (+) - Muitos destes jogadores estavam a jogar juntos pela primeira vez, mas foi visível a existência de rotinas e jogadas-padrão. Sérgio Conceição sabe que não tem um plantel vasto, mas não há elemento que não esteja totalmente integrado no colectivo da equipa, o que permite surpresas como ver Sérgio Oliveira saltar para a titularidade sem um minuto de jogo. E entre alguns rasgos de criatividade e minutos em que pareciam ausentes do jogo, Otávio e Hernâni acabaram por mostrar serviço e contribuir com dois bons golos. 

Segue-se a Champions. Entretanto a SAD já divulgou o Relatório e Contas da época passada. A análise habitual d'O Tribunal do Dragão será publicada dentro de alguns dias.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dois pontos perdidos?

O FC Porto queria sair líder de Alvalade: e saiu. O Sporting queria passar para o primeiro lugar: e falhou o seu objetivo. Basta isto para se concluir que o FC Porto saiu do clássico por cima do adversário. Com um sabor agridoce, pois foi a melhor equipa e fez, sobretudo na primeira parte, os melhores 45 minutos que o FC Porto fez em Alvalade desde o ano da última vitória, em 2008. Mas sair do estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal invicto, líder da I Liga, com mais soluções no plantel e a jogar bom futebol só pode ser encarado como muito positivo.

Não, Sérgio, não foram dois pontos perdidos (embora se entenda e subscreva a ambição): foi confiança ganha, soluções ganhas, equipa mais forte e coesa, e ao contrário do que aconteceu em 2014-15, época na qual o FC Porto perdeu a liderança logo após a ter recuperado, desta feita a equipa dominou o Sporting e agarrou-se ao primeiro lugar com todo o mérito. Vila do Conde, Braga e Alvalade já lá vão, três deslocações a casa de equipas dos seis primeiros lugares da tabela e com ambições europeias. Perfeito. 




A primeira parte (+) - Não fosse a eficácia e teriam sido 45 minutos perfeitos, nos quais o FC Porto reduziu o Sporting a um único lance de algum perigo, o cabeceamento de William Carvalho (e mesmo no segundo tempo, o lance de maior aflição foi um remate de Bruno Fernandes para as couves). O FC Porto ganhou o meio-campo, teve sempre profundidade, foi capaz de ser criativo (Brahimi e Aboubakar bem a criar, mas faltou pragmatismo e sentido prático na hora de rematar) e obrigou o Sporting a correr muito, muito mais. Taticamente, tudo saiu bem ao FC Porto, que controlou o jogo com e sem bola. Naquele que foi o primeiro clássico de Sérgio Conceição, meteu no bolso Jorge Jesus.

Outra vez, Brahimi (+) - E novidades? Perdeu gás na segunda parte (assim como toda a equipa), mas encheu o campo na primeira parte. Saíram dos seus pés as principais jogadas de perigo, assegurou que Piccini não dormiu bem na última noite e foi quem melhor soube aproveitar o espaço entre linhas. Tem que apostar mais no remate à entrada da grande área, pois quem ganha espaço e se enquadra com a baliza como Brahimi não pode estar sempre à espera que apareça mais um jogador para fintar. À margem desse pormenor, começa este mês como acabou o último: o melhor em campo.


Os três pilares (+) - Casillas só teve que fazer uma defesa em todo o jogo e o Sporting foi reduzido a cinco tentativas de remate. A equipa defendeu bem em bloco, mas há que realçar a importância de Marcano, Felipe e Danilo Pereira. Ganharam todos os lances aéreos nos últimos 25 metros, fizeram apenas 3 faltas e bloquearam 29 tentativas de ataque do Sporting no último terço, entre cortes e alívios. Defensivamente, tudo correu à equipa, também com um papel importante de Herrera e Sérgio Oliveira em manter o meio-campo composto. Casillas tocou na bola metade das vezes de Rui Patrício (22-44), o que diz tudo de uma noite que, num clássico, não costuma ser tão tranquila para os guarda-redes. 




Pormenores (-) - A hesitação que levou ora Brahimi, ora Aboubakar a perderem tempo e espaço para rematar nas melhores condições; a finalização de Marega na cara de Rui Patrício; o lance em que Herrera, tendo Layún solto na direita e Aboubakar a correr para o segundo poste, decide rematar; o lançamento de Alex Telles para uma zona proibida do campo, que forçou o erro de Danilo. Tudo isto são pormenores, mas foram todas jogadas candidatas a decidir um clássico. Não deram prejuízo, mas também não deram o lucro mais desejado. Já se sabe: os clássicos decidem-se nos pormenores, e estes merecem maior acerto nos momentos-chave.

A quebra física (-) - O FC Porto fez 60/65 minutos de elevada intensidade, e isso refletiu-se no rendimento da equipa durante a segunda parte. Era necessário mexer, mas Sérgio Conceição deparava-se com um problema: não havia músculo/pulmão no banco. A decisão era difícil, mas a entrada de Otávio, para a saída de Herrera, fragilizou naturalmente a equipa na dimensão física do meio-campo. Soares e Corona entram também já relativamente tarde, mas era dos pés de Aboubakar e Brahimi, desgastados, que poderia sair o caminho para a vitória em Alvalade. Sérgio Conceição está a fazer milagres, ao reinventar/resgatar jogadores como Marega, Sérgio Oliveira ou o próprio Herrera, mas não pode jogar o que não tem no baralho. 

Líderes à 8ª jornada, pela primeira vez desde 2013, e curiosamente, tal como na época com Paulo Fonseca, logo após um clássico com o Sporting, que permitiu passar a somar 22 pontos em 24 possíveis. Recomenda-se, por isso, que a calma que seja companheira da confiança ao longo da época. Mas quando um treinador sai de casa de um candidato ao título insatisfeito porque jogou muito melhor e manteve o primeiro lugar, isto diz tudo da mentalidade competitiva que habita no balneário do FC Porto. Não é só à Porto: é à Conceição. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Os Pentas: Setembro de 2017

Um mês irrepreensível no Campeonato, no qual o FC Porto continua líder invicto e 100% vitorioso, e do inferno ao céu na Champions, prova em que os dragões, depois de uma pálida e insuficiente imagem diante de um Besiktas muito superior, lavaram a cara e brilharam ao mais alto nível no Mónaco. Todos concordarão: o FC Porto termina este mês mais forte, mais confiante e com mais soluções do que há quatro semanas atrás. E para O Tribunal do Dragão, estes foram os cinco melhores de Setembro. 

5. Danilo Pereira

Após ter começado a época longe da melhor forma física e a cometer erros impróprios para um jogador do seu calibre, o rendimento de Danilo disparou nos últimos jogos. Contribuiu ativamente para a vitória em Vila do Conde, com o seu primeiro golo da época, e continua a destacar-se na simplicidade de processos - é o jogador com maior eficácia de passes no 11 (89,6%), mas isso não significa que esteja sempre a jogar curto e para o lado (o seu passe médio é de 20 metros, o que mostra que, apesar de ocupar uma posição específica no meio-campo, não deixa de oferecer amplitude à equipa). A palavra-chave: firme

4. Alex Telles

Repete o lugar no top 5, destacando-se uma vez mais na forma como consegue municiar o ataque. Continua a ser o jogador com mais passes para finalização no Campeonato, com 22 ofertas (uma estatística sempre influenciada por bater as bolas paradas, um pouco à imagem da primeira época de Layún no FC Porto), e dois dos golos marcados neste mês saíram de pontapés de canto batidos pelo brasileiro. Em nenhum dos laterais do FC Porto o seu ponto forte é defender, mas Alex Telles continua regular e fiável nesse aspecto, além de já ter igualado Óliver Torres como melhor assistente da equipa, com quatro passes para golo. Repete-se a palavra-chave: municiador.

3. Moussa Marega

Três golos, três assistências e lugar cativo no onze de Sérgio Conceição, que não prescinde um minuto que seja do maliano no ataque. Se é certo que Marega continua a ter a pior percentagem de passes no plantel (atrás de Casillas) e lidera a lista de perdas de bola e posse, também é verdade que conseguiu três assistências durante Setembro, acrescentando a isso três belíssimas finalizações nas últimas três jornadas, contornando com a palavra-chave deste mês as suas limitações técnicas: eficácia. Marega está a contribuir com um golo por jogo para a equipa, ora na finalização, ora a servir os colegas. Um bom mês para Marega, que mostrou que o futebol nem sempre se faz apenas de artistas. 

2. Vincent Aboubakar

Quatro golos no último mês e uma assistência, apesar de ter falhado a receção ao Besiktas. Aboubakar continua a pecar por vezes na finalização (e está a ser muito bem servido pelos colegas, pois 23 dos 29 remates que leva no Campeonato foram feitos dentro da grande área), mas está para já a cumprir a época mais goleadora da sua carreira e sua influência no ataque é notória, ora a jogar em profundidade, ora em aguentar a posse, ora em criar espaços. A sintonia com Marega e Brahimi acentuou-se no último mês e Aboubakar só não leva o «Penta» do mês para casa pois alguém decidiu roubar o palco nas últimas semanas, mas o percurso de Aboubakar vai-se descrevendo na palavra que os avançados mais gostam de ouvir: goleador

1. Yacine Brahimi

Esteve presente em todos os «Bonés» d'O Tribunal do Dragão em Setembro e foi eleito três vezes o MVP pelos leitores do blogue. E não é coincidência. Brahimi reencontrou-se com o nível que o coloca muito acima do Campeonato português, foi dos poucos a dar luta e a mostrar clarividência diante do Besiktas e partiu a loiça no Mónaco. A sua presença na lista de marcadores pode parecer curta (dois golos e uma assistência no último mês), mas todos sabem que Brahimi é muito mais do que isso.

É com larguíssima distância o melhor driblador da Liga (32 lances eficazes, mais do dobro de Gelson Martins), para já o 2º melhor da Champions (atrás de Neymar) e está a passar melhor a bola, sobretudo no passe longo - no Mónaco ficou na retina a bola para Marega no lance do 2x0, e no Campeonato Brahimi é o portista que menos tem errado nos passes longos. O perfil de individualista também é contrariado por, entre os atacantes dos candidatos ao título, ser aquele que mais passes completa no Campeonato, com 288 em sete jogos. O futebol não se faz apenas de artistas, mas Brahimi não só o é, artista, como reclama todo o palco para ele.


Ainda assim, há algo que continua a faltar nas fichas de Brahimi: aquela grande exibição num clássico (com ele na equipa, o FC Porto venceu apenas 4 de 11 jogos contra Benfica ou Sporting, sem qualquer golo ou ação decisiva do argelino). O arranque de Outubro é uma boa oportunidade para mudar a história e começar a definir os Pentas do próximo mês.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A outra grandeza

Vamos lá tentar resumir isto: o FC Porto venceu por 3x0 em casa do Mónaco, campeão francês e equipa-sensação na Europa na última época, com Sérgio Oliveira no meio-campo, Marega no ataque, 90 minutos de superioridade tática e num jogo em que Herrera travou mais remates do que Iker Casillas. Agora imaginemos que nos tinham contado esta há três meses. Quantos acreditariam?


Um homem tornou isto possível: Sérgio Conceição. Prometeu que ia mostrar à Europa a grandeza do FC Porto, mas fez algo mais: reafirmou a sua grandeza enquanto treinador. Num jogo em que teve uma opção que traz à memória as noites europeias em que os treinadores parecem imaginar o que não imaginaram em nenhum outro momento na época (vidé Pitbull na frente num 5x3x2 em Milão ou Nuno André Coelho a trinco em Londres), Conceição ganha em toda a linha. E com ele todos nós.




Marega (+) - No jogo frente ao Portimonense, O Tribunal do Dragão destacou este facto sobre Marega: «Apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi». E agora, o que aconteceu no Mónaco? O mesmo que tem acontecido em quase todos os jogos: Marega voltou a ser o jogador com mais perdas de bola e mais passes errados, inclusive acima de Casillas e Benaglio. Marega completou apenas 14 passes e perdeu 42% das bolas de que dispôs. E o que é que também fez? Duas grandes assistências, primeiro ao servir na perfeição Aboubakar, depois ao ter a calma num lance de enorme confusão para entregar o 3x0 a Layún.

Sim, é o jogador de campo com mais perdas de bola entre os que já completaram a 2ª jornada da Liga dos Campeões. E já é também um dos melhores assistentes, com dois passes a régua e esquadro para o golo. E entre todas as suas gritantes anomalias técnicas, em 9 jogos oficiais já teve colaboração direta em oito golos. E este FC Porto de Sérgio Conceição, que nos entusiasma, tem um denominador comum desde o primeiro golo da época 2017-18: Marega esteve sempre em campo, não falhando um minuto. Sérgio Conceição tem as suas razões para não prescindir dele. E o homem já mostrou que percebe qualquer coisa disto. Marega até pode falhar 15 passes em Alvalade e perder 25 bolas. Mas basta uma ou duas no sítio certo. 

Yacine Brahimi (+) - Um minuto de silêncio em memória dos rins de Lemar. Brahimi voltou a estar endiabrado e a mostrar que está num dos melhores momentos de forma desde que veste a camisola do FC Porto. Esteve na jogada do 2x0, foi responsável pela esmagadora maioria dos desequilíbrios individuais, correu, defendeu, pressionou, tabelou com os colegas e garantiu sempre o rasgo de criatividade que, com este 11, pode nem sempre abundar. Brahimi gosta das noites de Champions, mas nos clássicos do futebol português ficou sempre um pouco aquém das expetativas. Será desta que a história muda?



Aboubakar (+) - 15 jogos na Champions, 11 golos. Uma média que fala por si. Voltou a mostrar uma enorme atração por carambolas/recargas no lance do 1x0, mas finalizou com enorme precisão o segundo. Teve alguma dificuldade em distribuir a bola no último terço, mas apareceu no sítio certo, em dose dupla, para colocar o FC Porto na rota dos três pontos. O seu oportunismo fez crer que, com ele em campo, talvez a história da primeira jornada pudesse ter sido diferente. Ah, uma pequena nota: daqui a três meses pode assinar livremente, a custo zero, por outro clube. E jogadores que garantem golos na Champions não costumam passar despercebidos. 

Sérgio Conceição (+) - Esta vitória começa na derrota frente ao Besiktas. Na primeira jornada, Sérgio Conceição tinha duas hipóteses: ao mantinha o esquema que estava a dar resultado no campeonato, ou reforçava o meio-campo e aproximava-se do 4x3x3. Foi fiel às suas ideias na primeira jornada e o FC Porto revelou-se insuficiente não só frente ao Besiktas, mas deixando uma imagem clara de que faltava ali pedalada para a Champions.

O treinador reviu os erros e corrigiu tudo. Literalmente tudo. Todos os erros que o FC Porto cometeu frente ao Besiktas foram corrigidos frente ao Mónaco. Sim, foram só 90 minutos, mas foi um jogo, na sua totalidade, a roçar a perfeição. O FC Porto soube entregar a iniciativa de jogo ao Mónaco sem nunca perder o controlo, foi forte no contra-ataque e no momento de transição, esteve sempre impecavelmente organizado e soube anular os pontos forte do Mónaco, a ponto de Iker Casillas só ter sido chamado a intervir duas vezes, apesar de uma bola ter ido à trave. Em noites de Champions, em que os jogos fora de casa são sempre complicados, é impossível pedir mais. 

Uma das melhores exibições do último ano e da qual ainda ficaram de fora jogadores como Maxi, Óliver e Soares e na qual Sérgio Oliveira saltou do nada para o 11 pela primeira vez com Sérgio Conceição (nem no Nantes lhe tinha dado a titularidade). Sérgio Conceição voltou a admiti-lo no fim do jogo: o plantel tem poucas soluções. Mas que ninguém duvide: temos o homem certo para aproveitá-las ao máximo ainda que, convém lembrar, estamos apenas no final de Setembro. 

Segue-se o jogo mais difícil do calendário nacional, em Alvalade. Será muito pedir mais do mesmo?

domingo, 24 de setembro de 2017

A sétima

Sete jogos, sete vitórias e confiança renovada antes de um difícil ciclo de três jogos fora de casa, em que estarão em jogo a liderança do campeonato e, muito possivelmente, o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. 


A Champions representa outro tipo de exigência e Alvalade é o estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal, mas todo o percurso da equipa de Sérgio Conceição até ao momento só merece elogios e vai dando provas de superação. Pegar num plantel já sem cultura de campeão, numa lista de dispensas e sem ter direito a um único reforço e, ainda assim, ter um dos 3 melhores arranques da história do clube, o segundo melhor ataque em 60 anos e a segunda melhor defesa em duas décadas dispensa quaisquer tipo de elogios: é uma qualidade de trabalho que fala por si própria. 

Sérgio Conceição reergueu o espírito competitivo do FC Porto em dois meses de campeonato e leva-o a Alvalade invicto e na liderança isolada. Um percurso que não se idealizaria com este plantel e, provavelmente, com nenhum treinador no início da temporada. 

Quando chegou, Sérgio Conceição disse que, para ele, jogar bem era vencer. A equipa joga bem e vence. Que mais se pode pedir?




Yacine Brahimi (+) - Uma noite em cheio. Sorte no primeiro golo, mestria na condução e conclusão no segundo. Uma vez mais, voltou a ser o jogador que mais vezes recuperou a posse de bola, falhou apenas um drible e atirou 4 vezes à baliza, tendo sido bem mais incisivo e prático junto à grande área quando comparado com os últimos jogos. Falhou alguns passes, mas nas ações individuais tudo lhe correu de feição para o seu melhor jogo nesta temporada.


Miolo (+) - Certinhos, dinâmicos, rijos. Herrera e Danilo asseguraram uma eficácia de passe de 95% no meio-campo e, sem a criatividade e amplitude de Óliver na zona central, o mexicano compensou com velocidade, agressividade e um jogo mais direto que favoreceu a equipa. Herrera fartou-se de correr, interceptar e pressionar, e ainda assim ainda foi o jogador que mais ocasiões de golo criou (três). Abusou no número de faltas e não ficou bem no primeiro golo do Portimonense, mas libertou muitas vezes Danilo do trabalho defensivo - praticamente só teve que ganhar lances pelo ar e não falhou um único passe. Ninguém poderá questionar Sérgio se optar por manter este miolo, ainda que continue a ser difícil imaginar que o melhor FC Porto não tenha Óliver no 11.

Eficiência africana (+) - Um golo e uma assistência para Marega, um golo e uma (com a colaboração de Herrera) assistência para Aboubakar. O camaronês, uma vez mais, parece que tem mais facilidade em marcar carambolas ou recargas, enquanto Marega teve uma finalização perfeita após grande jogada de Corona (grande envolvência nos dois golos, mas com a forma intermitente que já lhe é caraterística). Isto atesta influência e eficiência mesmo sem necessariamente fazer grandes jogos no envolvimento coletivo da equipa. O que não continua, de todo, a ser o caso. 

Há a opinião e há os factos. Dizer que é bom ou mau é opinião. Isto são os factos: Marega voltou a ser o jogador que mais vezes perdeu a bola, só passou uma vez por um adversário e foi o que mais passes falhou - fez apenas dois passes para a frente em 90 minutos, de resto sempre a jogar para trás (Aboubakar similar, com apenas quatro jogadas para a frente). Isto não é teima ou desvalorização, é o que aconteceu em campo. O que aconteceu também em campo é que Marega não desperdiçou a oportunidade de matar o jogo e que, apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi. Isto foi o bom. O resto foi mau. E o bom sobrepôs-se ao mau, porque rendeu golos ao FC Porto. 11 golos em 7 jornadas, e seis delas tiveram golos da dupla africana reabilitada por Sérgio Conceição, pelos atletas e, também, pelos adeptos, que souberam puxar por jogadores outrora proscritos. 




Acorda, rapaz (-) - Nenhuma equipa desaprende a defender em três jogos. Mas como é claro, sofrer 6 golos em 3 jogos, em vésperas de 3 difíceis deslocações em que o FC Porto muito possivelmente atacará menos do que os adversários, é motivo de preocupação. E nesse epicentro está Felipe, de há umas semanas para cá uns furos abaixo dos colegas. Tem adornado demasiado na saída de bola, complica o que antes resolvia com um pontapé, está a perder vários lances no corpo a corpo e foi completamente comido no lance do 3x1, com um mau timing de entrada sobre o adversário e corte falhado - no lance do 5x2, reparte culpas com Marcano, pois o defesa do Portimonense finaliza entre os dois centrais. Felipe tem que subir de rendimento para os jogos que aí vêm, até porque vai ter muito mais trabalho do que o que vem tendo nos últimos jogos.

A concluir: o FC Porto regressa à liderança isolada do Campeonato, pela primeira vez desde dezembro de 2015. Na altura, depois da subida ao primeiro lugar, seguiu-se uma derrota em Alvalade, despediu-se o treinador e a equipa mergulhou numa declarada crise de confiança e resultados; serve também isto para lembrar que um percurso de 644 dias pode ser destruído no espaço de duas semanas. Cabe aos adeptos não permitirem que isso se repita, pois Sérgio Conceição e o plantel não merece outra coisa que não total compromisso e apoio.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Marega: 11 dados para compreender o camisola 11

É um nome incontornável neste arranque de época. Encabeçava qualquer lista de dispensas na pré-época, mas Sérgio Conceição, entre um misto de falta de alternativas e de vontade de recuperar um avançado que viu fazer golos em Guimarães, apostou em Marega. Os adeptos dividem-se: uns aprenderam a apreciar o que Marega pode oferecer à equipa e os golos que já marcou, outros preocupam-se que o ataque possa estar dependente de um jogador com notórias debilidades técnicas e que se impõe, basicamente, pela sua capacidade física. 

Isto é o que dizem os números, num levantamento d'O Tribunal do Dragão sobre as 6 jornadas já disputadas no Campeonato (Marega jogou 58 minutos na primeira jornada e não falhou um minuto desde então). 


Eficácia - Marega leva 4 golos nos jogos já disputados, à média de 6 remates por partida, o que lhe dá uma eficácia de 16,67% na hora de concretizar. Já acertou duas vezes na trave.

Enquadramento - Marega é o 3º mais rematador de todo o campeonato (24), apenas superado por Aboubakar (26) e Jonas (29). Entre todos os seus remates, 15 foram efetuados já dentro da grande área e 42% não foram à baliza. Um dado a melhorar. 

Para onde Marega remata (Squawka)
Ocasiões falhadas - Marega já desperdiçou 4 ocasiões de golo flagrantes no Campeonato. Tantas quanto Bas Dost e apenas superado por... Aboubakar, que falhou sete. Apesar de Aboubakar ter para já mais eficácia (19,2%), a eficácia dos dois africanos não apresenta grandes diferenças.

Faltas - A sua dimensão física obriga a que, muitas vezes, os adversários sejam obrigados a recorrer à falta para evitar a progressão de Marega. E neste caso, o maliano é o 2º jogador mais castigado do FC Porto, ao ter já sofrido 12 faltas. Pior só Brahimi (17).

Bolas perdidas - É o caso mais alarmante em Marega: a quantidade de vezes em que uma bola nos seus pés, na manobra ofensiva da equipa, é uma bola perdida. É de longe o jogador do FC Porto que mais vezes perde a posse de bola, entre passes falhados, receções falhadas, maus cruzamentos ou dribles incompletos. Nas 6 primeiras jornadas, foram mais de 80 as ocasiões em que Marega desperdiçou a posse de bola. Curiosamente, em dois jogos em que a sua exibição até foi apreciada por alguns adeptos (Chaves e Braga), perdeu 21 e 22 vezes a bola, respetivamente. Demasiado.

Passe - É o jogador que pior passa a bola, com exceção do guarda-redes (falham muitos passes entre pontapés de baliza e lançamento longo). Marega tem uma eficácia de apenas 69,5% no passe. O segundo pior, curiosamente, é outro avançado, Soares, com 74,1%. Este dado merece preocupação por Marega ser um dos jogadores que mais tenta o passe curto em detrimento do passe longo (média de 15 metros por passe - só fez uma variação de flanco no Campeonato), mas ainda assim ser o menos eficaz. 

Passes para ocasião - Apesar de ser o menos eficaz no capítulo do passe, Marega já criou 6 ocasiões de golo para os colegas no decorrer do Campeonato. Melhor só Brahimi, Maxi Pereira, Óliver, Ricardo e Alex Telles, este último com 3,3 por jogo. Isto também indica que as ocasiões de golo do FC Porto são quase sempre construídas pelo corredor e, tirando Óliver, ninguém o faz pelo eixo central. 

Papel na defesa - Em média, Marega tem uma ação defensiva eficaz por jogo. Quatro delas foram pontapés para fora das quatro linhas e duas cortes que permitiram ao FC Porto recuperar a posse de bola.

Duelos - Quando o assunto é o 1x1 contra um defesa ou uma disputa no jogo aéreo, Marega fica pouco acima do saldo positivo. Marega ganhou 54% dos duelos que disputou, e é no jogo aéreo que está a maior preocupação - perdeu 60% dos lances que disputou. No que toca ao drible, conseguiu passar 10 vezes pelos adversários ao longo das 6 jornadas já disputadas. Não é muito? Não, mas é o 2º melhor registo do FC Porto, pois só Brahimi tem mais. Isto revela também a incapacidade do FC Porto em ganhar lances de 1x1 do meio-campo para a frente e o défice de criatividade que há no ataque. Logo, não surpreende que, perante a falta de criatividade no plantel, Sérgio Conceição recorra à força de Marega. 

Fora-de-jogo - O FC Porto tem solicitado bastante Marega nas costas da defesa, mas o avançado tem dificuldades em ler o jogo. Prova disso é que é o 2º jogador que mais vezes foi apanhado em posição irregular no campeonato, com 7. Ainda assim, muito longe de Seferovic, com 13 foras-de-jogo. 

Cruzamentos - Apesar da quantidade de vezes em que Marega consegue ganhar metros pelo corredor direito, essas jogadas raramente se traduzem em algo com efeito prático. Entre os 508 minutos disputados na Liga, só conseguiu fazer um cruzamento (apesar de ter sofrido uma falta para grande penalidade numa jogada deste tipo que não foi assinalada). 

Isto é o que dizem a estatística e os factos. E os adeptos, que dizem?

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Realidade contrária e mais três pontos

Em quase todos os jogos do FC Porto na I Liga podemos contar com uma coisa: uma equipa a assumir o jogo, a circular mais a bola, a tentar construir com critério e a jogar de forma apoiada; e outra equipa a jogar de forma mais direta, a procurar saídas rápidas e tentando ganhar metros na profundidade. Em Vila do Conde, isso não foi exceção. Surpresa foram os papéis invertidos em campo.


O FC Porto levou três difíceis e saborosos pontos de um jogo em que o Rio Ave teve sempre mais bola e circulou-a melhor, mas só por uma vez a enquadrou com a baliza de Casillas - o primeiro golo da época foi sofrido na melhor altura possível (num jogo em que não causou prejuízo). Uma bola parada e uma boa jogada entre Brahimi e Marega desbloquearam um jogo que mostrou que não é um acaso o Rio Ave estar em 5º lugar mesmo já depois de ter defrontado dois dos candidatos ao título. Uma lufada de ar fresco ver uma equipa mais «pequena» procurar jogar desta forma. Os parabéns para o adversário por isso.

Para Sérgio Conceição e companhia segue a sexta vitória consecutiva, 18 pontos e a certeza que o clássico contra o Sporting, a 1 de outubro, terá em jogo a liderança do Campeonato. O treinador disse, no início da época, que para ele jogar bem era ganhar. E que bem sabe ganhar.




Danilo Pereira (+) - Ora bons olhos o vejam! Depois de alguma quebra na sua forma recente, voltou a encher o campo e a contribuir ativamente para o triunfo do FC Porto. Pressionou mais à frente do que é habitual, ganhou metros no terreno e foi o jogador que mais bolas recuperou, cortou e intercetou. Fez também a diferença na grande área adversária, ao marcar o golo que permitiu dar liberdade, espaço e confiança à equipa.

Brahimi e Marega (+/-) - Tiveram o golo nos pés na primeira parte, mas Brahimi falhou quando tinha Cássio pregado ao relvado e Marega acertou na trave. Regressaram dos balneários renovados e revelaram grande entendimento na jogada do 2x0 - Brahimi muito bem no passe atrasado e Marega excelente numa finalização que pode parecer a mais simples, mas por vezes é a mais complicada (uma bicada seca lá para dentro). 

Desta vez Brahimi teve menos oportunidades de tentar o 1x1, mas se muitas vezes há muita parra para pouca uva, desta feita foi objetivo e eficaz nos desequilíbrios que teve a oportunidade de fazer. Já Marega voltou a ter, na segunda parte, a missão de galgar metros no meio-campo adversário, tentando impor-se pela dimensão física. Nos últimos jogos foi sempre o elemento que mais bolas e jogadas perdeu, mas desta vez esteve melhor nesse capítulo e ajudou a manter a presença no ataque.


E não se pode falar disto sem elogiar Sérgio Conceição. Aquando da criticada contratação de Marega, O Tribunal do Dragão só encontrou dois elogios para este jogador: «É forte fisicamente, é rápido. E está descrito Marega». Resultado? Sérgio Conceição encontrou utilidade para essa dimensão física e velocidade. Quando um jogador que não sabe fazer uma receção orientada se torna uma arma para ganhar jogos, é a maior prova cabal de que temos um treinador que está a aproveitar ao máximo o que tem. 




Contacto com bola (-) - A postura do FC Porto ontem está diretamente relacionada com a ausência de Óliver Torres. Os jogadores em campo tiveram uma média de apenas 26 passes por jogador - menos de metade dos números habituais de Óliver. Com o espanhol, o FC Porto circula melhor a bola, tem maior capacidade de variação do flanco e tem mais soluções para as tabelas curtas.

Desta vez, também por estratégia, isso não existiu. A equipa esteve mal no passe - falhou quase uma centena - e teve dificuldades em jogar em toda a largura do campo, deixando que fosse o Rio Ave a assumir-se nesse capítulo. A posse de bola não ganha jogos mas ajuda a controlá-los, coisa que o FC Porto não conseguiu nesta partida. O FC Porto preferiu - e conseguiu, diga-se - controlar o jogo sem bola. Um risco. 

Além disso, a equipa ganhou menos bolas divididas do que o Rio Ave, foi desarmada o triplo das vezes em relação ao adversário e acabou por cometer o dobro das faltas. Felizmente, faltou sempre ao Rio Ave discernimento e maior critério no último terço, caso contrário os danos poderiam ter sido maiores. Mérito também para a equipa, que defendeu bem e resumiu o Rio Ave a um único remate à baliza de Casillas. Mas às vezes basta um para se perderem pontos. 

O princípio da pressão (-/+) - A intenção estava lá e era boa: pressionar alto. Mas faltaram resultados práticos. Por vezes a equipa estava bem posicionada para perturbar a saída de bola do Rio Ave, mas faltava o seu quê de ambição e vontade em querer ganhar a bola, em vez de simplesmente manter o adversário a trocar a bola na sua defesa. Resultado? Os defesas do Rio Ave fizeram, entre eles, 204 passes, quase tantos como os jogadores de campo do FC Porto. Mas foram poucas as vezes em que o FC Porto soube aproveitar o facto de o Rio Ave ter trocado tanto a bola à entrada da sua grande área. Era possível capitalizar isso de forma superior. 

E por falar nisso: Felipe, Otávio e Aboubakar ficam a dever-nos uma amostra melhor para sexta-feira, dia em que o FC Porto pode, pela 3ª vez na sua história, somar a 7ª vitória em 7 jornadas. Melhor era, literalmente, impossível.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Outra realidade

Mais do que uma derrota do FC Porto, foi uma vitória do Besiktas. Foram melhores, não por deslumbrarem, mas por taticamente terem dominado a partida durante largos minutos. A equipa foi exposta a novos desafios (um adversário a assumir mais o jogo, a marcar primeiro, a saber fechar as laterais e a ganhar o jogo interior), e com isso não houve resposta à altura de sair da estreia da Champions com um resultado positivo. Foram-se 3 pontos, há mais 15 em disputa, num grupo onde qualquer equipa é simultaneamente candidata a passar em 1º e a ficar em último lugar. 


Não é nenhum caso de I told you so, pois eles vão surgir com naturalidade ao longo da temporada. Não temos plantel que permita conciliar os esforços entre Champions e Campeonato. Ao fim de 45 minutos de Champions, na tentativa de encontrar uma solução para melhorar a equipa, Sérgio Conceição trocou Óliver por André André. Incompatível com melhorias na equipa. Ir também buscar ao banco Otávio e Hernâni, na tentativa de dar a volta a um resultado, tem as limitações que já se adivinhavam.

Soares passou 10 minutos a pedir a substituição, porque não aguentava, mas não havia alternativa. E via-se Marega lutar, lutar, lutar, mas uma vez mais a exibir-se penosamente em tudo o que não seja correr e ganhar metros em espaço livre. Culpados? Não. Sérgio Conceição reagiu bem no plano teórico, mas depois ficou entalado perante a falta de alternativas. Os jogadores? Alguns podem dar mais, mas isto não é plantel para estas andanças. Não é. 

Subitamente, discute-se que se calhar o FC Porto deve jogar com um meio-campo reforçado na Champions e nos jogos de maior dificuldade. Mas se Sérgio Conceição tivesse entrado assim na partida, abdicando do seu 4x4x2, talvez o acusassem de alterar a identidade da equipa. A verdade é que as opções são demasiado curtas para se exigir o quer que seja desta fase de grupos. 

Sofrer 3 golos no Dragão, numa noite de Champions, não acontecia desde aquela fatídica noite em que um tal de Artemedia (um clube tão mediático que já mudou 4 vezes de nome desde então) nos deu uma dor de barriga. E é também a primeira vez que uma equipa turca nos derrota. O Besiktas mereceu.

Agora as coisas vão aquecer, com quatro deslocações complicadíssimas (Vila do Conde, Mónaco, Alvalade e Leipzig) nos próximos cinco jogos, no típico ciclo de partidas que consolida ou destrói o moral clássico de um arranque de época com vitórias consecutivas. Confiantes e com vontade de vencer? Claro. Mas uma tangerina não dá um litro de sumo. 




Brahimi (+) - Vai-se tornando habitual: Brahimi pode ser o que mais dá nas vistas no ataque, mas também se destaca pelo seu trabalho defensivo. Voltou a ser o jogador que mais vezes recupera a posse de bola (11), esteve nos lances de maior perigo da equipa e só ele foi conseguindo, a espaços, ganhar situações de 1x1 diante do Besiktas. Imprescindível para a equipa neste momento.


Óliver Torres (+/-) - Não importa as voltas que tentem dar, mas a melhor versão possível deste FC Porto terá que ter sempre Óliver. Falhou alguns passes na primeira parte, mas tentou dar dinâmica e velocidade ao meio-campo, atirou uma bola ao poste e era dos poucos a tentar triangular e a «puxar» os laterais para a frente. Ficou a impressão de que, muitas vezes, tinha ideias que não eram capazes de ser executadas à sua volta. Sérgio optou por trocar o cérebro de Óliver por uma tentativa de ser mais direto e intenso com André André e Otávio no eixo. Não funcionou e, sem Óliver, este FC Porto perde muitos dos seus argumentos. 




Querem os oitavos? (-) - Ir aos oitavos-de-final não é meramente um objetivo do grupo de trabalho: é também uma meta declarada pela SAD. Com isto, olhar para as opções que estavam à disposição do treinador para este jogo é penoso. Não há milagres numa competição desta dimensão. Saca-se do banco André André, Otávio e Hernâni, que fizeram mais bons jogos no Vit. Guimarães do que no FC Porto. Podem ser úteis? Podem, claro. Mas são curtos para esta exigência.

Ver Soares, recuperado de lesão, em esforço a tentar manter-se em campo, há minutos a fazer sinal para o banco, sem que Sérgio Conceição pudesse aceder ao seu pedido, é deveras preocupante. Sérgio Conceição saltou do 4x4x2 para o 4x3x3, mas depois regressou ao plano inicial, sempre limitado pelas opções que tinha à disposição. E não foi preciso haver muitas baixas: bastou faltar Aboubakar no ataque. Não é uma onda de lesões, não é o desgaste de vários meses de temporada: foi um único jogador que não estava disponível para jogar do meio-campo para a frente.

Cobrar o quer que seja a Sérgio Conceição, com este grupo de trabalho, não é razoável. Não há memória de um treinador do FC Porto ter tão pouco em mãos: zero reforços, zero jogadores campeões no plantel (o estofo conta, e muito) e escassez de opções sequer em número. Querem milagres?

Falta talento (-) - Se um jogador como Danilo, Óliver ou Brahimi aparece em subrendimento, é normal que os adeptos lhes deem na cabeça: porque sabem que podem dar muito, muito mais. E é também essa a crítica feita à exibição de ontem de Danilo: desconcentrado, várias vezes mal posicionado e demasiado recuado no início de construção (passou mais tempo no eixo dos centrais do que no meio-campo do adversário). E Corona arrisca tornar-se aquele jogador que, lá para os 30 anos, ainda estão à espera da época de afirmação. 

Agora, criticar Marega? Não, isso não, porque está a fazer o máximo que se pode pedir: está a dar o melhor que tem. Tenta meter o corpo, tenta correr, tenta lutar. E quais são os resultados práticos disto? Metade das jogadas que vão parar aos seus pés são perdidas. Aliás, mais de metade, pois 57% das bolas nos seus pés perderam-se. Pior, em toda a 1ª jornada da Champions, só Forsberg, que vai ser adversário do FC Porto. 

Depois de ter perdido mais de 40 jogadas entre Braga e Chaves, Marega voltou a deixar ao claro as consequências de ter o ataque refém de uma tentativa de reabilitação de um jogador que não tinha lugar em qualquer equipa na história do FC Porto. É culpado? Pois claro que não. Está a ter a fazer algo que só pode merecer elogios: a dar o melhor de si próprio. Jesús Corona, por exemplo, não deu nem metade do que podia. 

Não é por isso uma crítica ao jogador, mas sim a quem compôs um plantel que faz com que os adeptos (e S. Conceição) tenham que aceitar que não há melhor do que Marega para o ataque e que é titular por mérito. É titular não por não haver melhor, mas porque simplesmente não há mais ninguém. É curto, demasiado curto, por muito que confiem em Sérgio Conceição, na garra e na mística (os lugares comuns que não podem ser substitutos da competência) para esticar o que há.

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domingo, 10 de setembro de 2017

Chave avançada

O FC Porto ainda não tinha chegado ao intervalo sem estar a vencer. Demorou 4 minutos a corrigir essa situação e, após uma primeira parte francamente má - o Chaves fechou bem os corredores e o espaço no jogo interior, limitando assim o FC Porto a pouco mais do que as diagonais de Brahimi -,  a equipa conseguiu a 16ª vitória em 16 receções frente ao Chaves, mantendo o percurso imaculado no Campeonato. 

Estamos perante um Campeonato que será extremamente competitivo e em que as equipas ditas pequenas vão, muitas vezes, tirar pontos aos candidatos ao título, ou então ficar a um minuto, uma falta, um penalty ou uma decisão do VAR de o fazerem. A visita a Alvalade ainda vai longe no calendário, mas restam apenas duas jornadas a separar o FC Porto da possibilidade de poder defrontar o Sporting invicto e a jogar diretamente para a liderança isolada. 


Para já segue-se a Champions, num grupo em que existe a responsabilidade de o FC Porto ter mais presenças na Liga milionária do que Besiktas, Mónaco e Leipzig juntos, mas sem esquecer que qualquer equipa pode ambicionar a qualificação direta neste lote e que Iker Casillas e Maxi Pereira, juntos, representam praticamente metade da experiência internacional deste plantel. 

Por enquanto, Sérgio Conceição e o plantel têm respondido a cada dificuldade com uma vitória. E embora não tenha sido pela defesa que o FC Porto falhou os últimos títulos, continuar sem sofrer golos é sempre um bónus que atesta um bom trabalho desenvolvido (não esquecer que a equipa, quase com a mesma defesa, acabou a última época a sofrer 9 golos em 10 jogos oficiais). 





Óliver Torres (+) - Já fez mais assistências do que em toda a última época, e fê-lo com um conhecimento perfeito de tempo e espaço: antes de Óliver cruzar, não havia ninguém na grande área; depois da bola sair do seu pé, rapidamente apareceram quatro jogadores na grande área, o último dos quais pronto a finalizar. Uma vez mais, o que mais se destacou em Óliver é a forma como está a apostar mais no passe longo - falhou apenas um em toda a partida, e quase nunca precisou de baixar para lá do meio-campo para pegar no jogo. Criou ainda duas ocasiões de golo e destacou-se na primeira linha defensiva, com 11 momentos de desarme/recuperação. Uma exibição completa. 

Marega (+/-) - O melhor jogo com a camisola do FC Porto, essencialmente pelo trabalho desempenhado na segunda parte. Se no primeiro tempo o seu melhor lance foi um em que tropeçou na bola, na segunda parte fartou-se de ganhar metros no terreno e de arrastar a equipa para a frente. A sua inabilidade técnica é clara (voltou a ser o jogador com mais perdas de posse - 21, depois das 22 em Braga - e só 3 jogadores do Chaves tiveram pior eficácia no passe em campo), mas o facto de ter atacado mais vezes o espaço livre, evitando o 1x1 e a zona central, permitiu-lhe galgar terreno e empurrar a equipa quando o Chaves concedeu mais espaço. O facto de se esperar tão pouco deste jogador até contribui para que se lhe reveja qualidade no que deviam ser requisitos básicos (a luta, a garra, o empenho), mas trabalhou muito para a equipa e fez por merecer o bom golo que marcou.


Yacine Brahimi (+/-) - A única luz na equipa durante a primeira parte, embora desta vez tenha sido particularmente ineficaz no drible (acertou apenas 3). Ainda assim, foi 2º o jogador em campo que mais tocou na bola, tentou arrastar a defesa e ainda surpreendeu por ter sido o jogador que mais bolas recuperou (11 no total). Esteve novamente muito bem no passe, mas objetivamente o seu futebol só rendeu uma ocasião de golo à equipa, o que o impediu de sair com uma nota mais elevada de uma partida em que, apesar de tudo, voltou a ser dos melhores.

A entrada de Soares (+) - Saiu Corona. Sérgio Conceição poderia lançar Hernâni, Otávio ou até Ricardo Pereira, mas optou por apostar logo em Soares. E foi uma escolha audaz - com isso, Marega foi puxado para o lado direito e o próprio Soares jogou sobretudo descaído para os flancos, mais longe da grande área. Isso implicava menor criatividade e capacidade de 1x1, mas deu mais presença à equipa no ataque e teve efeitos práticos - Soares fez o passe para o 1x0, ganhou o penalty (batido de forma denunciada mas felizmente corrigida) e foi o mais rematador da equipa, com 5 tentativas (embora duas tenham sido no penalty, nenhum outro jogador rematou mais do que duas vezes). 




Toda a primeira parte (-) - O Chaves teve mérito: soube anular a manobra ofensiva do FC Porto. Mas haverá cada vez mais equipas a posicionarem-se da mesma forma, por isso será necessário encontrar soluções além da capacidade individual de Brahimi. Em toda a primeira parte, o único lance de algum perigo saiu de um remate do argelino. De resto, equipa e jogadores em subrendimento, em relações variadas de causa/efeito. Aboubakar só tocou 3 vezes na bola do meio-campo para a frente, Layún não chegava ao último terço, Danilo sentiu muitas dificuldades a meio-campo, Corona voltou à forma intermitente que lhe é caraterística e houve apenas 3 bolas colocadas em posição de remate.

Dificuldades que a equipa ultrapassou na segunda parte, com um golo algo feliz de Aboubakar (mérito e qualidade no movimento, sorte no remate - mas diz-se que a sorte passou a ser um requisito para o prémio Puskas), mas Sérgio Conceição e os jogadores terão por certo muito para rever nestes 45 minutos. E em bom momento: é melhor aprender sobre os erros nas vitórias do que nas derrotas.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Como disse?

A imprensa é um eterno universo de preocupação para muitos adeptos. Não é surpresa para ninguém que determinados títulos têm maior proximidade com alguns clubes. Que existe compadrio - uma palavra provavelmente até elegante de mais para o caso - entre A Bola e o Benfica, não é novidade. E que o jornal O Jogo é, historicamente, o jornal que maior apreço recebe por parte do FC Porto, também não. Mas a notícia trazida hoje à capa é grave.

Cada adepto pode escolher o que lhe ocupa o topo das preocupações: ou o facto de Luís Filipe Vieira, o leitor, dar entrevistas à Bola que não o são; ou uma manchete d'O Jogo acusar basicamente a SAD de amadorismo. 

Em causa estão duas pequenas frases. 


«Última reunião foi na época passada» e «negociações com os jogadores em risco vão começar agora». É brincadeira, certo?

O FC Porto está em plena época 2017-18, em que para já tudo tem corrido bem. Teve dificuldades na venda e colocação de jogadores no último defeso, ficou com um caso bicudo por resolver (Bueno), e entre os excedentários/dispensáveis só Depoitre saiu por um valor acima do que seria expectável no mercado (quase 4M€). Ainda assim, há expectativa em ver se a folha salarial conseguirá descer um pouco (a previsão para a última época foi de 69,5M€ - um aumento de 28% em relação ao último campeonato conquistado).

E perante a ausência de reforços, transmitiu-se a ideia de que reforços eram os que ficavam. Mas então agora a SAD do FC Porto é acusada de ter iniciado a época sem antes ter assegurado a continuidade de ativos que estão em final de contrato?

Iván Marcano é um dos capitães do FC Porto e um jogador essencial no plantel. «Última reunião foi na época passada». A sério que o FC Porto começaria uma época sem assegurar, dentro do possível, que Iván Marcano era para continuar? Sem haver contactos diretos nesse sentido? E as negociações «com os jogadores em risco, vão começar agora»? Apenas agora, a menos de 4 meses de poderem assinar por outro clube a custo zero?

A SAD basicamente não comprou ninguém no último defeso. Houve muito menos trabalho para fazer a nível de mercado. E com isto, não houve tempo para encaminhar as renovações de contrato antes da época começar? 

É sabido que Iván Marcano quer ficar no FC Porto. E vai ficar, seguramente, porque estamos a falar de um capitão e de um profissional exemplar. Mas num mundo tão volátil como o futebol, em que as intenções e lealdade mudam ao ritmo do cifrão e de um dia para o outro, esta acusação de uma gestão de puro amadorismo é demasiado grave. 

Tomemos como exemplo a situação de Vincent Aboubakar. Fabrice Picot, o empresário do avançado, disse em julho que Aboubakar queria «jogar e ajudar» o FC Porto, mas que «a renovação não está nos planos». Por norma, um jogador que se recusa a renovar não volta a jogar. Neste caso, que alternativa poderá ter o FC Porto?

Não há alternativas no ataque. O FC Porto depende de Aboubakar pelo menos até janeiro. Tem que jogar, não há alternativa. E sabemos que o camaronês tem um empresário que não hesitou em afirmar que não havia planos para renovar. Quem garante que Aboubakar estará a ter o melhor tipo de aconselhamento nesta fase?

«Escuta, Vincent, já deu para ver que o FC Porto não pode prescindir de ti. O mercado está fechado e não podem jogar até janeiro só com Marega e Soares, por isso tens lugar quase sempre garantido. Fazemos assim: continua a jogar bem, a fazer golos, e depois em janeiro já podes assinar por outro clube a custo zero. E como não têm nada a pagar ao FC Porto, até pagam uma comissão e um prémio de assinatura bem mais altos». Claro, isto é meramente ficcional e extremamente pessimista. Mas estamos no futebol. 

O próprio Diego Reyes, único central suplente na equipa principal, está em final de contrato. Assim como Maxi Pereira, que dificilmente ficará para a próxima temporada. E na véspera, O Jogo trouxe-nos também à capa uma notícia de que Reyes mostrava serviço como alternativa a Danilo Pereira. 

Já não há uma alternativa de raiz a Danilo no plantel. Sugerem Reyes, que é então simultaneamente único central suplente e alternativa à posição 6. Está em final de contrato. 

Não passa pela cabeça de ninguém perder Iván Marcano e Aboubakar. Se tal acontecesse, Reyes entrava no 11, deixava de haver central suplente e a tal alternativa sugerida a Danilo; se Aboubakar deixasse de ser opção, Marega e Soares tinham que durar os 90 minutos semana após semana, ou então Sérgio Conceição teria que passar a jogar em 4x3x3. O pior que podia acontecer: o treinador ser forçado a mudar a sua tática por não ter opções suficientes no plantel. 

E já existem consequências disso. Perante a incerteza em torno de Corona, especula-se que Ricardo Pereira pode jogar a extremo. Tudo bem, tem qualidade para isso, e Maxi Pereira dá garantias de qualidade. Mas isso implica que, perante a ausência de um único jogador, Sérgio Conceição tem que mexer em dois setores; e mexe em dois setores apesar de ter Hernâni no plantel. Não é o maior atestado de confiança e de profundidade no plantel, diga-se.

Já que não foram capazes de dar um único reforço ao treinador, o mínimo que se pede é que Iván Marcano, Diego Reyes e Aboubakar tenham o seu futuro totalmente assegurado e comprometido com o FC Porto o quanto antes. Infelizmente, já temos variados exemplos de que no futebol a palavra não chega.

Ou então O Jogo está simplesmente mal informado e está tudo tratado, a tempo e horas. Isso. 

PS: Uma declaração de Petr Cech, guarda-redes do Arsenal, que vale a pena afixar. «Quando José Mourinho chegou ao Chelsea proveniente do FC Porto, ele trouxe com ele uma coisa essencial: veio de um clube onde não era aceitável para ele terminar o Campeonato em segundo lugar. Ele trouxe o mesmo espírito para o Chelsea». 

O Chelsea, um dos clubes mais poderosos do futebol atual, tomou como exemplo para crescer o FC Porto. Não é necessário acrescentar mais nada. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Os Pentas: Agosto de 2017

Uma nova rúbrica de análise n'O Tribunal do Dragão, à qual chamaremos «Os Pentas». Mensalmente, serão destacados os cinco melhores jogadores do último mês. Este tipo de comentários são, naturalmente, muito convidativos a diferentes interpretações e opiniões, por isso é natural que o top 5 mude de adepto para adepto. São sempre convidados a defender o contrário na caixa de comentários e em participar na sondagem, que inclui uma pré-seleção de 10 jogadores e dos quais poderão escolher cinco. 

5. Yacine Brahimi

Terminou o mês de agosto com apenas um golo, mas tem sido o denominador comum na hora de criar desequilíbrios, sobretudo pela forma como ataca a partir do lado esquerdo. Brahimi continua a destacar-se sobretudo no momento individual (é o principal driblador da Liga, com uma eficácia de 6 lances/jogo, mais do dobro de Gelson Martins), mas também já provou saber integrar-se na manobra coletiva da equipa, tanto que, por exemplo, na goleada ao Estoril fez mais passes do que Danilo Pereira, por norma o dominador neste capítulo. É o jogador com mais situações de 1x1 ganhas no campeonato, com um total de 36. A palavra-chave: desequilíbrio

4. Óliver Torres

Óliver é elegante e inteligente a jogar, mas na última época teve um problema: estava sempre demasiado longe de zonas de decisão, quer para o remate, quer para o último passe. Prova disso é que na temporada passada fez apenas três assistências para golo - tantas quanto já conseguiu fazer esta época. A estratégia de Sérgio Conceição exige um enorme desgaste de Óliver, mas acentua e explora todas as suas qualidades. Óliver dá amplitude ao jogo do FC Porto (é o 2º atleta da Liga que mais passes longos completa), e há um dado que explica porquê: na época passada, o passe médio de Óliver era de 18 metros; esta temporada, é de 22 metros. Isso também implica uma menor eficácia de passe (82%), mas Óliver tem sido fundamental na organização e dinâmica na equipa. A palavra-chave: maestro

3. Aboubakar

É o responsável direto por metade dos pontos já conquistados pelo FC Porto. Fez o golo da vitória em Tondela e um hat-trick na receção ao Moreirense. Não é o avançado mais eficaz que se pode ter (é o mais rematador da Liga, com 5,8 remates/jogo), mas enquadrou-se na perfeição na equipa, com um trabalho importante longe da grande área sem deixar nunca de ser referência no eixo - é o jogador com mais situações de remate na grande área no campeonato. Tem que melhorar o seu jogo de costas para a baliza e ser mais objetivo no 1x1, mas Aboubakar arrancou a época sendo decisivo. A palavra-chave: golos

2. Alex Telles

Correr, cruzar, correr, cruzar, correr, cruzar. Alex Telles tem desempenhado com grande distinção a missão que Sérgio Conceição tem para ele nesta equipa. Responsável por assegurar a profundidade no flanco, é o jogador que mais cruza no campeonato (4,3/jogo), o que mais situações de golo cria (3,3) e consegue isso mantendo uma notável eficácia de passe (90%). E apesar da preponderância ofensiva, defensivamente foi sempre capaz de ser eficaz, embora as ideias de Sérgio Conceição façam dele um jogador que vai alinhar sempre com a bandeja nos braços. A palavra-chave: municiador.

1. Iván Marcano

O FC Porto ainda não sofreu golos esta época, e muito o deve à forma como Marcano se reafirma como o patrão da defesa e um dos improváveis líderes de balneário. Marcou um golo no último mês, mas é naturalmente pelo que faz na defesa que se destaca. É o jogador que mais lances de cabeça ganha no Campeonato (na defesa ainda não perdeu nenhum, com eficácia de 100% em 14 situações), o que mais desarmes faz e sofreu o triplo das faltas que cometeu até ao momento (apenas duas). Não só o melhor central do Campeonato, é um elemento preponderante em toda a linha no FC Porto, com desempenhos irrepreensíveis na missão de não sofrer golos. A palavra-chave: líder


Os MVPs escolhidos pelos adeptos em agosto:

1.ª jornada (FC Porto x Estoril, 4x0): Óliver Torres, 64%
2.ª jornada (Tondela x FC Porto, 0x1): Jesús Corona, 41%
3.ª jornada (FC Porto x Moreirense, 3x0): Aboubakar, 92%
4.ª jornada (SC Braga x FC Porto, 0x1): Danilo Pereira, 44%

Os Pentas de Agosto/2017 segundo os leitores: 

1. Vincent Aboubakar, 77%
2. Óliver Torres, 72%
3. Iván Marcanio, 64%
4. Yacine Brahimi, 61%
5. Danilo Pereira, 42%

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A ausência de reforços (nunca) explicada

Começando por uma pequena nota de lamento pela ausência recente, que incluiu a apreciação sobre a bela vitória do FC Porto em Braga. O mercado fechou e, pela primeira vez em décadas de FC Porto, não houve nenhum reforço oriundo do mercado de transferências. Sobra a questão: não vieram reforços por SAD e/ou treinador acharem que não era necessário; ou porque não havia meios para os contratar? Tudo vai ao encontro da segunda opção.

Mas recuemos até ao dia da apresentação de Sérgio Conceição no FC Porto. Pinto da Costa deixou esta intervenção: «Os dois reforços que me pediu, não haverá possibilidade, porque me pediu o Messi e o Ronaldo. Não pode ser, embora lhe tenha custado a aceitar. Não estou preocupado com isso, porque foi por isso que escolhi o Sérgio, para poder, com os jogadores que tivermos, fazer uma equipa competitiva para ganhar».

Talvez nem o próprio Pinto da Costa imaginaria o quão sincero estava a ser. Sérgio Conceição teve que fazer precisamente isso: pegar no que tinha e fazer uma equipa competitiva. Soares lesionou-se e teve que pegar em Marega, um jogador que encabeçava qualquer lista de dispensas; passou o mês de agosto sem uma única alternativa ao eixo do ataque no banco; foi forçado a mexer na estrutura e tática da equipa quando não podia, simplesmente, mudar apenas um jogador. Sérgio Conceição fez o máximo que podia fazer com o que tinha. E fê-lo bem. 

Sérgio Conceição adora desafios, e este é o maior que pode ter. Certamente que não terá maior gozo do que se tornar no treinador a que menos investimento teve direito na história do FC Porto, mas ainda assim chegar ao título. Mas a revelação de Valentin Rongier, médio do Nantes que afirmou que Sérgio Conceição o convidou para ir para o FC Porto, levanta uma grande questão. Ou o jovem francês está a mentir, ou então de facto Sérgio Conceição queria uma adição ao seu plantel. Mas queria o quê? Especificamente Rongier? Ou queria um médio, e Rongier correspondia a esse perfil?

Ninguém acreditará que Sérgio Conceição não queria reforços. Não há treinador no mundo que não queira adições ao seu plantel, sobretudo numa equipa onde não há sequer o requisito mínimo de ter dois jogadores por posição. Sim, temos a equipa B, e há muito que os adeptos ansiavam em ver a equipa B complementar a equipa principal. Mas repare-se que, mesmo perante a ausência de avançados, Sérgio Conceição nem sequer considerou ir buscar alguém à equipa B para fazer número. O que deixa desde logo antever que, mesmo que falte alguém na equipa A, Sérgio Conceição não aparenta estar convencido de que haja alternativas à altura na equipa B. 

Enquanto a equipa ganha tudo está bem para as massas, é um clássico. Mas não há maior erro do que não aprender com os erros do passado. O FC Porto também abriu o pós-Vítor Pereira com chocolate, a ganhar uma Supertaça e a arrancar com seis vitórias consecutivas. Mas mais à frente, no decorrer da época, concluiu-se que se calhar Josué e Licá não eram os melhores substitutos para as saídas de Moutinho e James. Esperemos que, dentro de três meses, o otimismo não se deixe tomar por uma realidade em que André André, Hernâni ou Marega se calhar são curtos para recuperar de um mau resultado. 

Mas neste caso, o FC Porto não perdeu nenhum Moutinho ou James. Saiu André Silva, mas Aboubakar pode garantir sem problemas os mesmos números do agora jogador do AC Milan. Saiu Rúben Neves, que não era titular, logo também não se pode falar aqui de uma baixa no 11 base da época passada. Então, qual é o problema? Profundidade, alternativas de melhor qualidades aos elementos da equipa A, dar condições a Sérgio Conceição, dar algo mais do que uma lista de dispensas a um treinador que largou tudo para se vir meter no meio da fogueira. E há que considerar a mudança de sistema tático, que pede mais alternativas no ataque e um perfil mais específico no meio-campo. 

A SAD não prestou explicações depois da última época. Nenhuma palavra sobre a saída de Nuno Espírito Santo ou um balanço da última temporada. E depois do ponto mais baixo da história recente do FC Porto - não, bater no fundo não é perder com o Tondela, é ser o único clube a ser punido pela UEFA na última temporada por falhar o FPF -, seria importante explicar os constrangimentos que existiram no mercado esta época.

Por exemplo, para 2017-18, o FC Porto só pôde inscrever 22 jogadores na lista A da Liga dos Campeões, menos 3 do que o normal. Se é certo que o clube raramente preenche sequer uma das quatro vagas para jogadores da formação (o prolongamento do falhanço que já vem desde o V611), o plantel torna-se ainda mais curto. Por exemplo, para o primeiro jogo já está garantido de que não haverá ponta-de-lança suplente no banco, pois Aboubakar está castigado. Não há uma alternativa natural. Como arrisca não haver quando qualquer jogador do meio-campo para a frente não estiver disponível. 

Mas o que mais se destacou do comunicado da UEFA, e que não teve a atenção devida, foi este detalhe:


O FC Porto aceitou, segundo as restrições da UEFA, reduzir «significativamente» os seus gastos no mercado de transferências. Quão? Aparentemente, para valores bem próximos do zero. A SAD não investiu porque não podia, porque a gestão financeira falhou redondamente, uma vez mais, na última temporada. E agora? Agora esperam que Sérgio Conceição não se limite a fazer omeletes com os ovos que tem: ainda lhe vão pedir uns quantos bolos. 

Agora o clássico quando o ataque ao mercado parece curto: a história de que os reforços são os jogadores que se conseguiu segurar no plantel. Mas entre todos os ativos que estavam no clube, provavelmente só Danilo Pereira (Ricardo Pereira também, embora não estivesse no plantel na temporada passada) seria candidato a uma boa venda. E ainda assim, de todo o bolo numa eventual transferência, o FC Porto provavelmente só chegaria a gerar pouco mais de metade de mais-valia com a saída de Danilo. E o mesmo vale para Ricardo Pereira. 

Mas a concluir, um pormenor que também faz a diferença. Diz-se que «o FC Porto só gastou com Vaná». Não, o FC Porto não gastou só com Vaná. O FC Porto desperdiçou com Vaná. O que diz a compra de Vaná é que o FC Porto tinha um pouco de dinheiro para investir. Então e o que fez o FC Porto com o pouco que tinha? Comprou um jogador que não era necessário, nem sequer como suplente. Se é certo que era muito difícil encontrar um médio ou um avançado por um valor na casa do milhão de euros, no pouco que o FC Porto poderia gastar, gastou onde não era necessário. Que lógica tem isto?

E agora sobra a expetativa de ver que mérito poderá ter a SAD este ano que não tenha tido o ano passado, porque o plantel é quase o mesmo. Saídas? As únicas relevantes foram ambas tratadas por Jorge Mendes (Rúben Neves e André Silva). Reforços? Nada. A SAD praticamente não mexeu no plantel desta época, e ainda não renovou com 3 ativos em final de contrato (Reyes, Marcano e Aboubakar). Que mérito se poderá ter este ano que não se teve no ano passado? Provavelmente, dirão que «não se gastou dinheiro com Depoitres». A sério que o mérito que sobra é esse? O não errar? Pois, quem não tenta acertar, também não erra. 

A luta desta época é com Sérgio Conceição e com o grupo por si orientado. São eles que merecem o apoio dos adeptos nos meses que se seguem, e que não estarão dependentes do mês de maio para serem alvo de apreciação. Não se pode exigir nada a quem não teve nenhuma das suas exigências preenchidas. 

Sérgio Conceição não teve um único reforço por consequência da péssima gestão financeira que se apoderou da SAD nos últimos anos. E o que faz ele? Está a preparar a equipa para a 5ª vitória consecutiva e para se manter na liderança da Liga. Vontade de trabalhar e vencer nunca faltará. E esperemos que também não sobrem papas na língua no final da temporada.