quarta-feira, 14 de junho de 2017

Não é preciso mais nada

Como unha e carne. O ponto 3 do artigo 61º já desmantela a teoria de que possa haver Pedro Guerra sem Benfica. Não pode. O regulamento disciplinar da FPF é muito claro e refere-se a «dirigentes, representantes e colaboradores». Logo, quando o próprio Pedro Guerra se enuncia como um mero «colaborador» do Benfica, já está a dar reconhecimento suficiente para que o clube seja julgado pelas suas ações.


E face às últimas revelações no Porto Canal, vimos que Adão Mendes, vice-presidente da AF Braga - membro da APAF -, apelou ao administrador do Benfica Paulo Gonçalves para que a nota de Manuel Mota fosse «positiva», depois de um Marítimo-Vit. Guimarães. 

Porquê este interesse em que Manuel Mota tivesse nota positiva num Marítimo-Vit. Guimarães, um jogo que não interferia com os objetivos do Benfica? Porque no jogo seguinte que apitou na I Liga, Manuel Mota foi chamado precisamente a arbitrar o Benfica-Rio Ave

Ora, poderia ser difícil que Manuel Mota fosse chamado a arbitrar um jogo de um candidato ao título tendo nota negativa num Marítimo-Vit. Guimarães. Mas Manuel Mota lá foi nomeado para o Benfica-Rio Ave. Lembram-se do que aconteceu nesse jogo?

Podemos começar por lembrar que Roderick, ex-Benfica, não foi convocado para esse jogo, por alegados problemas físicos. Certo é que 3 dias depois foi chamado para jogar na Liga Europa e que agora foi transferido para o Wolves, uma das lavandarias, perdão, clubes geridos por Jorge Mendes. 

O Benfica venceu esse jogo por 1-0, golo de Talisca, aos 60 minutos. Golo esse que não deveria ter acontecido, pois foi precedido de uma falta por marcar de Maxi Pereira. E oito minutos depois, aconteceu isto:


Esmael Gonçalves acabou por introduzir a bola na baliza e fazer aquele que poderia ter sido o 1x1 final. Porquê tanto interesse em que Manuel Mota tivesse nota positiva? Pois assim a sua nomeação para o Benfica-Rio Ave não seria comprometia por uma má prestação numa jornada anterior. E todos constataram a imensa felicidade e circunstâncias que levaram o Benfica a esta vitória sobre o Rio Ave. 

Há também a assinalar o interesse em que Manuel Mota tivesse uma boa classificação. Afinal, não sendo Manuel Mota internacional, segundo os regulamentos só seria recomendável para arbitrar jogos de grande dificuldade se ficasse no top 12 da classificação dos árbitros. E ficou, numa posição confortável mas numa classificação particularmente renhida - bastava ter menos 0,035 pontos e Manuel Mota ficaria abaixo da classificação necessária. 

Perante estas circunstâncias e o pedido para que Manuel Mota tivesse nota positiva, vemos uma infração do ponto 1 do artigo 61º, que proíbe «comportamento ou decisão destinados a modificar ou falsear a veracidade e a autenticidade de documentos, procedimentos ou deliberações». Neste caso, a modificar a nota atribuída a um árbitro que estava na lista dos meninos queridos do Benfica.

Não é preciso mais nada para que o Benfica seja punido à luz destas normas. Apenas que os regulamentos e respetivas punições sejam aplicados. 

AGORA PARTILHEM TUDO. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

André Silva por 60 milhões de euros

«André Silva foi, afinal, alvo de duas ofertas milionárias durante o último defeso: uma antes da renovação e outra depois. A revelação foi realizada por Pinto da Costa durante a intervenção final na assembleia geral do clube efetuada na noite de quinta-feira, no Dragão. "O André Silva, que na altura valia 25 milhões de euros, neste momento vale 60, porque é a sua cláusula de rescisão, para a qual, se quiséssemos, já o teríamos vendido", esclareceu o presidente do FC Porto». Jornal O Jogo, 05-11-2016

Quando temos a palavra do presidente, não há muito mais a acrescentar. André Silva fez alguma coisa para que o seu passe desvalorizasse um terço? Duvidemos. A não ser que a parceria com Cristiano Ronaldo esteja a ser nociva ao seu crescimento, o que dificilmente será o caso. 

Assim sendo sobra a questão: quem diz que rejeita 60 milhões de euros por André Silva vai agora deixá-lo sair por 40? Com que lógica? O que poderá ter feito André Silva para desvalorizar 20 milhões de euros?

É bom realçar que isto não é um recado para o mercado, como a história do euro que metia para chegar aos 40 milhões de euros da cláusula de Ricardo Quaresma. Isto foi uma afirmação dita em Assembleia Geral, na cara dos associados do FC Porto.

Assim sendo, na iminência da saída de André Silva para o Milan (clube pelo qual já podia ter assinado quando tinha 15 anos, mas o próprio André Silva recusou), será particularmente interessante ouvir o que Pinto da Costa terá para dizer sobre este negócio, tanto quanto apurar se António Teixeira vai conseguir a proeza de encaixar cerca de 4 milhões de euros por um jogador que nem sequer agencia. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os lesados do NES

«Quem olhou para as contas da época passada, pode ver que as contas deram um prejuízo considerável. Assumidamente, não houve qualquer surpresa, porque ficou definido pela SAD que não haveria vendas, porque o treinador de então achou que os os jogadores não deveriam ser vendidos». Fernando Gomes, 07-06-2017

Três anos de trabalho
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Lembram-se dos tempos em que se dizia que, no FC Porto, o treinador treina, o jogador joga e a estrutura cuida de todo o resto? Entrámos, aparentemente, numa nova era: aquela em que o trabalho do treinador da equipa principal do FC Porto também passa por ser responsabilizado pelos prejuízos apresentados pela SAD. 

Fernando Gomes já habituou os adeptos do FC Porto às mais surreais intervenções, desde as camisolas sem patrocinador que ficam mais bonitas aos alertas para a necessidade de uma contenção que nunca chegou a pôr em prática.

Mas esta nova intervenção, de responsabilizar o treinador (no caso, o ex-treinador) pelo maior prejuízo da história da SAD, desafiam todos os limites da compreensão que se possa ter para decisões que, no cargo que ocupa, nunca são fáceis de tomar.

Aquando da operação Euroantas, o próprio Fernando Gomes admitiu que havia a necessidade de cumprir o fair-play financeiro. E na apresentação do maior prejuízo da história da SAD (em que ninguém se lembrou de dizer que era culpa do NES - como tem sido hábito, assim que um treinador deixa o FC Porto, leva com ele culpas que nunca lhe seriam imputadas enquanto estivesse no cargo), Fernando Gomes afirmou isto: «Nas nossas conversas estamos em sintonia relativamente ao que fazer: reduzir custos e não depender da venda de jogadores. Não temo sanções mais graves».

E agora, o que admitiu Fernando Gomes? «Se o FC Porto vai ter de vender jogadores? É evidente que sim.» Era capaz de ser mais fácil encontrar sintonia e segurança numa defesa composta por Kralj, Butorovic, Stepanov, Sonkaya e Benítez do que coerência nas palavras do administrador responsável pelas finanças do FC Porto. 

Esta falta de lógica não é nova. Basta recordar as palavras de Pinto da Costa em finais de novembro. «Havia dois caminhos. Era fácil apresentar resultados positivos: no último dia [de mercado], por exemplo, ofereceram-nos 30 milhões de euros por Herrera, 40 milhões por Danilo e quiseram pagar a cláusula de rescisão do André Silva que era de 25 milhões. Aí tínhamos feito 95 milhões e em vez de apresentarmos um resultado negativo íamos apresentar um resultado positivo de 40 e tal milhões. Mas a nossa opção foi aguentar porque tivemos prejuízo, mas os ativos continuaram cá, o André Silva renovou contrato».

Pinto da Costa afirmou, nesta entrevista à ESPN, que o FC Porto recusou as vendas (e fala no plural, não numa vontade expressa de NES - Danilo sempre foi imprescindível, mas Herrera foi opção intermitente e André Silva acabou secundado por Soares nas suas opções) devido a esta razão: «Não é só pelo dinheiro, é pelo prestígio porque o FC Porto, a par do Manchester United, é quem tem mais presenças na Champions e tínhamos a Roma para tentar eliminar logo a seguir. Se perdessemos esses três jogadores em cima da pré-eliminatória, as nossas possibilidades de eliminar o adversário iam diminuir muito. Foi uma opção e conseguimos o objetivo de ir para a Champions e esse prejuízo já está menor».

Ora então. O presidente do FC Porto afirmara que a SAD recusou propostas no último dia do mercado por Herrera, Danilo e André Silva, por causa do play-off com a Roma. Falta só realçar que o play-off com a Roma disputou-se a 17 e 23 de agosto. Ou seja, o FC Porto recusou a venda de jogadores porque queria estar na máxima força para um play-off que tinha sido disputado na semana anterior? 

Perante esta organização/coerência digna de um Phasianidae de cabeça cortada, o mais fácil acabou mesmo por ser isto, pelo menos na visão assumida por Fernando Gomes: coitados dos lesados do NES, neste caso, a SAD do FC Porto. 

Mas depois de tudo isto, a principal vítima tem um nome: Sérgio Conceição, que no dia seguinte à sua apresentação no FC Porto (uma excelente conferência de imprensa, a todos os níveis, com posições fortes e esclarecedoras em todas as vertentes) recebe a notícia de que ficará privado de 3 jogadores na Liga dos Campeões. 

O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions, devido à falta de jogadores formados no clube com mais de 21 anos, e agora viu a UEFA reduzir a lista de 25 para 22 jogadores, o que vai certamente limitar as opções do treinador. E não, a responsabilidade não é de Nuno Espírito Santo. Nunca será de mais renovar os votos de confiança e apoio no trabalho de Sérgio Conceição, que ainda não deu o primeiro treino e já ficou sem três jogadores. Bem vindo ao FC Porto, mister!

Este é, infelizmente, o resultado de uma das frases mais acertadas que Pinto da Costa alguma vez proferiu: «Nada tenho contra políticos que são políticos, mas quando os vejo no futebol deito logo as mãos à cabeça, cheira-me logo a esturro». Sem mais a acrescentar. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O árbitro vermelho

Adão Mendes é mais conhecido pelas funções que desempenhou na União de Sindicatos de Braga do que propriamente pela sua carreira como árbitro de futebol. No entanto, no meio tinha uma alcunha particularmente curiosa. Assim o recorda o Correio do Minho.

«No mundo da arbitragem era apelidado de 'árbitro vermelho' tendo em conta a sua filiação partidária», assim o recordam. Mas afinal, parece que a alcunha de «árbitro vermelho» se justificava por algo mais do que a sua filiação partidária.

O FC Porto não usou cartilhas, indiretas ou suspeitas: apresentou provas, factos, que atestam a forma como o Benfica controla a arbitragem. Este «esquema de corrupção para favorecer o Benfica» remonta à época 2013-14, precisamente a primeira do ciclo do tetra do Benfica e logo após o último título do FC Porto. Coincidência? Cabe ao Ministério Público apurar. 

É impossível ignorar, tanto quanto ver um golo marcado com a mão através do vídeo-árbitro. Os e-mails estão aqui como estiveram as escutas do Apito Dourado (processo de existência de corrupção no futebol português que apanhou, entre outros, Luís Filipe Vieira em escutas) no Youtube. O FC Porto foi julgado nas (in)devidas instâncias, mesmo pagando o preço de Portugal terminar em Leiria, e conseguiram associar uma imagem de 30 anos de corrupção ao FC Porto por culpa de dois jogos contra dois clubes simpáticos - Beira-Mar e Estrela de Amadora -, que já nem se encontram no mapa de futebol profissional em Portugal. E, diga-se, dois jogos dos quais o FC Porto nem precisava para ser campeão em 2003-04. Só conseguiram encontrar isso? A sério?

Agora, investiguem, enquanto se aplaude a posição do FC Porto, pela voz de Francisco J. Marques, de expor a teia de corrupção com factos e voz viva. Quando os interesses comungam na defesa do FC Porto e no combate aos adversários, não pode haver outra posição possível.

É de recordar, curiosamente, a posição do então diretor de comunicação do Benfica, João Gabriel, quando Marco Ferreira deu uma entrevista ao As em que falou da forma como Vítor Pereira protegia o clube da Luz. «Um frete do As ao amigo basco», chamou-lhe João Gabriel.

Então e agora? Será que esta também é um frete ao amigo basco? Não. É apenas a forma como o tetracampeonato do Benfica está a ser visto lá fora. Sujinho, sujinho, sujinho. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Para afixar e refletir

«Adoro o futebol realista, pragmático, com velocidade em direção à baliza adversária. Isso é o mais difícil no futebol (...) É por isso que adoro o Mónaco, a equipa mais completa, a melhor do campeonato. Mas tenho diferenças em relação a Jardim. Ele acha que é melhor ganhar 4-3, eu penso que é melhor ganhar 1-0 (...) A única coisa que garante pontos é não sofrer golos». Sérgio Conceição, 21-03-2017, Ouest France

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A luta de Sérgio

Estamos no defeso de 2014, marcado pela saída de Paulo Fonseca e pelo período de transição de Luís Castro. Os adeptos estavam fartos de um treinador que, no entender de muitos, não percebia «a mística». Queriam um «discurso à Porto». Queriam «garra». Queriam um treinador que parasse de confundir os nomes dos clubes e que batesse menos palmas no banco de suplentes.

Chegou Lopetegui. Época e meia depois, Lopetegui saía. E saía com os adeptos a suspirarem por alguém que representasse todos os lugares comuns: a mística, a garra, o ser Porto, o não jogar resguardado contra o Benfica.  

Depois José Peseiro chegou, viu e partiu. E adivinhem que conclusão deixou nos adeptos: que era necessário um treinador com mais garra, que não fosse mosquinha morta, que jogasse sempre para ganhar, que entendesse o ser Porto.

Chega então depois Nuno Espírito Santo, que muito apreciavam por ser um treinador «da casa», que entendia «a mística», que representava o ser Porto. NES revela-se então um treinador manso, de pouca determinação, pouca ambição e mais preocupado em ser politicamente correto do que em contra-atacar pelo FC Porto. A que conclusão chegaram muitos adeptos? Que falta garra, que falta mística, que falta o ser Porto. Que estão cansados de ver um treinador mansinho. 

Uma, duas, três vezes... E nasce o padrão. Os adeptos acabam sempre a pedir a mesma coisa. Nem todos: há quem entenda que a competência é mais importante do que a paixão, sendo certo que competência sem paixão dificilmente rima com sucesso. Mas podem ter a garantia de uma coisa: dentro de um ano, já ninguém andará a suspirar pela falta de mística ou pela falta de garra. Porque com Sérgio Conceição encontramos o expoente máximo disso mesmo: a garantia de garra, de ambição, de entendimento e conhecimento da mística. No final da época que se avizinha, só se poderá pedir uma de duas coisas: ou a sua continuidade, ou o fim da história da mística e da garra, passando a suspirar por competência. Não necessariamente apenas do treinador. 

Sérgio Conceição é então o escolhido para comandar o FC Porto, faltando todavia acertar a rescisão com o Nantes, processo naturalmente demorado e que tem muito que se lhe diga. Isto confirma, desde logo, que a SAD não tem planos de mudar e que se revela incapaz - ou desinteressada - em contratar um treinador habituado a ganhar. Podemos começar por recordar este excerto escrito a 1 de junho de 2016, dia da confirmação de NES como treinador do FC Porto. 
«No processo de escolha do treinador, é mais ou menos consensual que a escolha não seria... consensual. Nunca é, diga-se. Mas há perfis que correspondem mais às necessidades do presente do que outros.
Neste caso, a escolha de Pinto da Costa, Nuno Espírito Santo, mostra que o FC Porto não vai mudar. Vai continuar a apostar num treinador que vem para o FC Porto para tentar vencer pela primeira vez, em vez de procurar apostar num treinador já experimentado, com títulos, com experiência internacional (algo que é difícil conjugar com um bom conhecimento do campeonato nacional, diga-se), capaz de apostar em jovens enquanto faz evoluir jogadores e capaz de se ajustar a um plantel sob constantes alterações.
Não é que o FC Porto não seja capaz de os ir buscar. Claro que é, pois quem teria dinheiro para cobrir o contrato de Jorge Jesus com o Sporting, ou teve dinheiro para comprar Marega em janeiro, então tem dinheiro para um bom treinador. Não vai porque não quer, não é por não haver capacidade financeira. 
Mas Pinto da Costa insiste na sua fórmula de sempre. Como Mourinho, como Villas-Boas, como Paulo Fonseca, como Lopetegui: treinadores sem títulos a nível de clubes, com pouca experiência, que vêm para o FC Porto para tentar ganhar pela primeira vez. A questão é: o FC Porto é um clube que proporcione essas condições?»
Basta substituírem o nome de Nuno Espírito Santo pelo de Sérgio Conceição. Ou a SAD não quer, ou não consegue contratar um treinador de um perfil superior

O FC Porto não é, neste momento, um clube ganhador, que esteja a conquistar títulos e troféus. Não é um clube onde os treinadores chegam, veem e vencem. Vamos cumprir um período de pelo menos cinco anos sem títulos. Temos então o nome de Sérgio Conceição: é um treinador ganhador? Também não, ainda não conseguiu troféus na sua carreira de treinador.

Dirão que foi esse padrão que fez do FC Porto um clube vitorioso: treinadores jovens, sem títulos, que chegaram às Antas ou ao Dragão para ganhar pela primeira vez. Falta é reconhecerem que os tempos mudaram: nenhum treinador chegou ao FC Porto de Pinto da Costa após um período de seca de quatro anos sem títulos, com um Benfica tetracampeão e numa crise financeira grave na SAD. Sérgio Conceição não encontra o mesmo que José Mourinho ou André Villas-Boas encontraram: encontra um desafio muito, muito maior pela frente. 

Então. Clube que não está a ganhar + treinador que nunca ganhou... O que faz os adeptos acreditarem? Nada mais do que a mística e a vontade intrínseca de vencer. Pois se o clube não está, atualmente, numa fase vitoriosa, que exigências podem ser apresentadas a Sérgio Conceição para que ganhe no FC Porto pela primeira vez? E que condições terá ele para isso?

Não é o início de uma análise depreciativa. Pelo contrário. Para quem aprecia resultados, Sérgio Conceição deu goleada a Marco Silva, por muito boa imprensa que este último tenha tido. Quando Marco Silva chegou ao Hull, a equipa estava a três pontos da linha de água. Acabou a seis. Quando Sérgio Conceição chegou ao Nantes, a equipa estava na zona de despromoção. Deixou-a no 7º lugar, às portas da zona de qualificação europeia. Para quem privilegia os resultados como base de avaliação de um treinador, nem há discussão, pelo menos face à época 2016-17 (lógico que Marco Silva fez mais no Estoril do que Sérgio Conceição nos clubes portugueses que treinou). 

Mas a maior questão é: porquê Sérgio Conceição? É bom recordar o que disse Pinto da Costa nesta entrevista: «Quando tenho na equipa Hulk, James e Falcao, o treinador é indiferente. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores nem capacidade económica para substituí-los». 

Este comentário, além de desvalorizar imenso o bom trabalho que Villas-Boas e Vítor Pereira (sem coincidência, os últimos treinadores campeões pelo FC Porto) fizeram, antecipa a questão: Sérgio Conceição vai ter um Hulk, um James ou um Falcao? Se não, então será Sérgio Conceição aquele treinador que vai elevar a qualidade de um plantel razoável, ao invés de ter um plantel que eleva a qualidade do próprio treinador?

Se o contexto económico da SAD não é favorável, não havendo perspetivas de Hulks ou Falcoes, a SAD pedirá a Sérgio Conceição aquilo que ainda não conseguiu na sua carreira: vencer como treinador. E o que faz Sérgio Conceição? Corre em direção às balas.

Ao contrário de Nuno Espírito Santo, que não fez nada na sua carreira (quer como guarda-redes, quer como treinador) sem Jorge Mendes, Sérgio Conceição subiu a pulso e trata as dificuldades por tu. Até há bem pouco tempo, Sérgio Conceição era um treinador aclamado e adorado em Nantes. E não foi fácil encontrar isso na sua carreira.

Estamos a falar de um técnico que teve problemas por todos os clubes por onde passou, não só no balneário como com os dirigentes. No Nantes, pelos bons resultados que apresentou, tornou-se um nome indiscutível e aclamado. E que faz ele agora? Tenciona abdicar de tudo isso em prol de se juntar à luta pelo FC Porto, onde sabe que qualquer treinador corre o risco de se queimar.

A vitória de Sérgio Conceição começa aqui: larga zonas de confronto para enfrentar o risco. Quer ser ele o treinador a pôr fim ao maior jejum de troféus nos últimos 30 anos. Ninguém lhe vai prometer um Hulk, um Falcao ou um James. Ou então, num contexto mais atual, ninguém lhe vai prometer um Casillas, um Maxi, um Brahimi ou um André Silva. Que faz ele? Quer abraçar o desafio. Sem pensar duas vezes, quiçá sem saber muito bem o que vai encontrar no FC Porto. 

Nenhum adepto sabe ainda se Sérgio Conceição vai jogar em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Se vai jogar em posse, em transição rápida, se vai ser híbrido. Não é, até à data, um treinador que tenha diferenciado os clubes por onde passou com um estilo de jogo particularmente brilhante ou positivo. O Paços de Paulo Fonseca jogou melhor futebol que o Braga ou o Guimarães (apenas 8 vitórias em 2015-16) de Conceição, por exemplo. O que não é garantia de nada, mas que sugere uma coisa: o FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo

Está, isso sim, a contratar sede de vencer e um homem que vai ao encontro das dificuldades, trocando o conforto pelo risco. Sérgio Conceição não é, provavelmente, a melhor escolha para treinador. Mas como homem, já começou a vencer pelo FC Porto: está disposto a queimar-se a ele próprio para tentar a reerguer o clube que aprendeu a respeitar e a amar.

Sérgio Conceição, o homem e o treinador, terá todo o apoio ao longo da sua estadia no FC Porto, sempre que esteja envolvido no compromisso de crescer e vencer. Se Sérgio Conceição falhar, não é o falhanço nem do homem, nem do treinador, mas sim do modelo e da estrutura que gere o FC Porto. Não há, por isso, pressão para Sérgio Conceição. Mas não duvidem: não será homem para fugir dela.

Força, Sérgio!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Atual

«De qualquer forma, não vale a pena trocar de treinador só por trocar, que é o que muitos sugerem, com escolhas de nomes que não lembram ao Espírito Santo (pun intended).

No dia em que o FC Porto quiser escolher um novo treinador, terá que mudar de perfil. Chega de projetos de apostas de risco. Será necessário um treinador experiente. Habituado a lutar por títulos e a ter vedetas no balneário. Um treinador que saiba que tem que jogar quase sempre contra equipas fechadas, em maus relvados e a deparar-se contra o anti-jogo. Um treinador que saiba potenciar e evoluir jovens e ter que reconstruir a equipa ano após ano. E por fim, um treinador que saiba que vai ser mais criticado por uma derrota do que elogiado por 10 vitórias, um treinador que saiba que vai ter muita gente a não gostar dele - e não só clubes rivais. Quem achar que há alguém deste perfil livre, por aí, telefone ao presidente».

Um texto escrito n'O Tribunal do Dragão em 2015, ainda era Julen Lopetegui o treinador do FC Porto e já se prognosticava, à distância, uma eventual e indesejada chegada de Nuno Espírito Santo ao Dragão. 

Agora, mais do que nunca, é o momento do FC Porto, na palavra do seu presidente, responder à questão: vão assumir a mudança, privilegiando a aposta num treinador de créditos firmados (algo difícil de encontrar no mercado nacional, certo) ou continuar nas apostas de risco que não têm funcionado nos últimos anos? 

Vem isto a propósito da interessante manchete do jornal O Jogo, que escreve que o FC Porto quer investir numa equipa forte para convencer Marco Silva a rumar ao Dragão. O que sugere a repetição de erros do passado. Acabou a era dos campeonatos em piloto-automático: não precisamos de criar condições para fazer de um treinador campeão; precisamos sim de um treinador que potencie, ao máximo, as condições já existentes (não esquecendo que, até ao final do próximo mês, há inúmeros problemas para resolver quando ao orçamento da época e ao fair-play financeiro). 

A questão é: esse treinador existe? Quem apresentou Nuno Espírito Santo para a época que agora findou tem a oportunidade de se redimir. E quem sabe quantas mais haverá. 

É também a oportunidade de se recuperar esta célebre intervenção de Pinto da Costa: «Às vezes não é preciso um treinador como Lopetegui. Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar.» Certo. Então vamos só recordar que neste plantel não há Hulks, nem Falcoes, nem James. E desconhecem-se quantos destes craques nasceram com a visão de Marco Silva. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

«Mas uniu o grupo»

Percentagem de vitórias dos treinadores do FC Porto nos últimos 12 anos:
1. André Villas-Boas 84,48%
2. Vítor Pereira 69,89%
3. Julen Lopetegui 68,83%
4. Jesualdo Ferreira 67,20%
5. Co Adriaanse 64,44%
6. José Peseiro 59,09%
7. Paulo Fonseca 56,76%
8. Luís Castro 56,25%
9. Nuno Espírito Santo 55,10%

Sorri, Bruno!

Voltamos àquela velha discussão: o FC Porto não vai cumprir sempre os seus objetivos, mas tem que lutar sempre por eles até à última gota; de sangue, de suor, de orgulho. Por isso, o resultado em Moreira de Cónegos só pode orgulhar o adepto que anseia ver sempre o FC Porto lutar de forma aguerrida e determinada. 

Em Moreira de Cónegos, vimos total empenho do FC Porto na sua missão. Cada passo, cada passe, cada movimento. A partir do banco de suplentes, Nuno Espírito Santo também deu o seu melhor nesse sentido. Cada opção tomada aproximava o FC Porto do seu objetivo possível para a 34ª e última jornada do Campeonato. 

O Moreirense fez um, dois, três golos. O FC Porto esforçou-se, batalhou, ripostou, e empenhou-se até ao apito final de Fábio Veríssimo para um Campeonato que não pode surpreender ninguém pelo seu desfecho e ausência de taças. 

Ainda assim, o mérito e o esforço têm sempre que ser relevados. E aqui fica o reconhecimento: o FC Porto esteve excelente na sua missão para o jogo contra o Moreirense, desde o primeiro ao último minuto.

Infelizmente, no final o FC Porto falhou na luta que lhe sobrava. Mas acreditem: não foi por nada do que fizeram em Moreira de Cónegos, pois fizeram tanta borrada quanto possível. No entanto, lá teremos que levar com o Tondela mais um ano na Primeira Liga. É pena, pois o FC Porto dificilmente poderia ter feito pior para perder aquele jogo. Mas calma, nem tudo é mau: Bruno de Carvalho, do recém-aliado Sporting, já não correrá o risco de se cruzar com Carlos Pinho, presidente do Arouca, nos túneis na próxima época. 


Termina assim uma época em que se não se faz história e que passa à história. Uma época que nos distancia ainda mais da história recente que orgulhava todos os portistas. Segue-se a mudança de treinadores (a fatura mais fácil de cobrar e que mantém ilesos os verdadeiros culpados responsáveis pela quebra abrupta do FC Porto), promessas de um plantel à Porto, renovadas expetativas... Hmm, esperem. Onde é que já vimos isto?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Salazar estaria orgulhoso

Despedida do Estádio do Dragão da época 2016-17, com a garantia de que se completará um ciclo de, pelo menos, cinco anos sem que voltemos a festejar um título na nossa fortaleza. A mesma fortaleza em que o FC Porto não consentiu uma única derrota esta época, mas em que somou três empates que comprometeram seriamente a luta pelo título.

Mas ao contrário do que se possa fazer crer, este não é um título que se perde em casa - o FC Porto, na época 1999-2000, somou 49 pontos em 51 possíveis e mesmo assim não deu para chegar ao título. Este é um título que se perdeu por muitas vias: começando pela pré-época, com uma má escolha para o cargo de treinador e uma má abordagem na gestão/reforço/definição do plantel; perdeu-se com sucessivos erros arbitrais que impediram o FC Porto de ganhar pontos e confiança preciosas em algumas jornadas; perdeu-se com a falta de crescimento da equipa e de qualidade individual em alguns momentos; perdeu-se porque o FC Porto falhou em quase todos os momentos decisivos, enquanto o Benfica raramente tremeu quando o FC Porto pressionou - mesmo que tenha havido fatores externos a reforçarem-lhes as varetas na hora da pressão. Inegável, mas para a história fica sempre o mesmo: o FC Porto perdeu este título de campeão para o Benfica. Mais um. 

E agora? E agora há quem clame que o Benfica pode ser tetra pela primeira vez, mas que o FC Porto continua a ser o único penta. Quem diria, um portista cada vez mais agarrado ao passado para combater a realidade do presente. Talvez ignorem é que, dentro de um ano, o penta pode muito bem deixar de ser um exclusivo, sobretudo se não houver melhorias necessárias de forma gritante, desde a equipa técnica à postura da SAD em todas as posições do futebol profissional (desde o mercado aos órgãos de poder), bem como reajustes no plantel em todos os setores. E acima de tudo, não pensar que é com uma troca de treinadores que se resolvem todos os problemas, sobretudo quando conseguem escolher um pior do que o que já cá estava, sem quaisquer valias ou currículo que o recomende para o FC Porto.

Esta vitória sobre o Paços de Ferreira não será recordada nos livros de história, infelizmente, mas não deixa também de ser curioso a facilidade com que desta vez se apitaram duas grandes penalidades a favor do FC Porto. Ainda assim, a maior história do jogo não é essa. Já lá vamos.





Héctor Herrera (+) - Um golo atípico na sua carreira, de cabeça, e uma bela assistência para Diogo Jota. Sem Danilo de início e com André André a baixar muitas vezes no início de construção, aproveitou para se libertar e foi o jogador mais interventivo em campo, tendo não só chegado várias vezes a zonas de finalização como tido diversas ações defensivas (16 no total). Uma boa exibição, mas ainda assim não deve continuar a haver muitas pessoas que teriam recusado uma proposta de 30M€ por ele no último verão. Fica também uma palavra para mais uma exibição bastante razoável de Otávio no meio-campo. 

Diogo Jota (+) - Entrou, agitou o ataque, fez um golo, arrancou um penálti e confirmou um estatuto invulgar para um jogador emprestado no seu primeiro ano de equipa grande: é o jogador do FC Porto com maior influência direta em golos por minuto no Campeonato. Diogo Jota faz um golo ou assistência a cada 110 minutos, uma média excelente para um menino que completou apenas 20 anos em dezembro. E agora? Agora terá a palavra o FC Porto, o Atlético de Madrid e Jorge Mendes. Não necessariamente por esta ordem. 





Será que chega? (-) - Quando Soares chegou ao FC Porto e teve uma entrada a matar, não tardaram as comparações com grandes goleadores da história do FC Porto. Uns falaram em Derlei, outros chegaram a Jardel. Mas talvez a comparação mais ajustada seria esta: Adriano. Não necessariamente pela qualidade técnica dos jogadores, mas por terem tido o seguinte papel: excelentes como reforços de inverno, mas talvez não o suficiente para serem considerados titulares no FC Porto a longo prazo.

Soares superou claramente as expetativas no FC Porto - 12 golos em 16 jogos é sempre excelente, apesar de nos últimos 9 jogos ter apontado apenas 3. Mas será necessário ponderar seriamente se terá a capacidade de se assumir como um titular indiscutível e decisivo no FC Porto. Adriano (que curiosamente também foi determinante num clássico contra Sporting, este sim verdadeiramente decisivo e a valer o título) também chegou, foi determinante na luta pelo título, mas a longo prazo viu-se que não deu para mais. 

Soares, que teve uma exibição francamente má no seu último jogo no Dragão (nenhum remate, nenhuma jogada de perigo), pode e deve ter a oportunidade de fazer a pré-época com a equipa, quiçá com um treinador que saiba trabalhar avançados, e com isso talvez até consiga evoluir e afirmar-se como uma solução de créditos de médio prazo, em vez de ser apenas um reforço de inverno com impacto imediato. No entanto, o presente recomenda que ninguém entre na próxima época a pensar que o FC Porto será Soares e mais 10. 

A cuspidela de Nuno (-) - Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Sim. O mesmo Benfica que se aguentou na liderança ao som do apito, que tem ostracizado o FC Porto em todas as ocasiões, que vários portistas tentaram combater ao longo do último ano, com um revoltante sentimento de injustiça. Não, o FC Porto não jogou futebol de campeões em 2016-17, mas que ninguém diga que o Benfica jogou muito mais. Não foi um campeão incontestável. Nunca saberemos o que aconteceria em campos menos inclinados.

Mas o que faz NES? Cospe em toda a luta dos portistas ao longo da época, ao felicitar o Benfica. Percebe-se, de certa forma, que o faça. Afinal, os comentadores afetos ao Benfica em espaço televisivo têm feito questão de elogiar, e muito, NES desde o início da época. Por uma dupla razão: não só têm todo o interesse desportivo em manter NES no FC Porto como mantêm de pé o bom nome de um cliente de Jorge Mendes. E podem ter a certeza: não faltarão, nos próximos dias, benfiquistas a enaltecerem que fez um excelente trabalho e que merece continuar. Nem é preciso cartilha para o antecipar. Preocupante é que também haja portistas a partilharem dessa opinião, mas é um direito que lhes assiste. O problema é que as consequências, depois, tocarão a todos. 

O orgulho de Salazar (-) - Muitos portistas - e o próprio clube nas suas vias oficiais - decidiram chamar a este Campeonato a Liga Salazar. Mas muito possivelmente o que mais honra o legado de António Salazar não é o tetra do Benfica: foi o que se passou nas bancadas do Estádio do Dragão, com os Colectivo 95 a serem impedidos de fazer o que já se fez em tantas outras ocasiões - manifestarem o total e legítimo direito à crítica. À crítica. Não à ofensa, não à difamação, não ao insulto. À crítica. 

Os Colectivo não são a claque mais popular de Portugal, todos sabem isso. Mas são tudo aquilo que deve ser uma claque. Não priorizam merchandising ou proximidade com dirigentes/funcionários em detrimento da sua postura de adeptos independentes no Estádio do Dragão. Apoiam. Sofrem pela equipa. Viajam com a equipa. Estão lá nos maus momentos. Mas também têm algo fundamental: ter posição crítica. Essa mesma posição que, note-se, foi censurada por quem tem no seu cargo uma função que inclui a «ligação» entre adeptos. Os C95 esperaram pelo final da época para assumirem essa posição crítica. Ao longo da temporada, nunca faltou apoio à equipa. E agora, no final da temporada e numa fase em que se impõe a análise e o balanço, querem inibir o direito de opinião a quem sempre batalhou pelo FC Porto!?

O próprio presidente do FC Porto já tinha feito a distinção entre os verdadeiros portistas e os demais, entre os bons e os maus. Este episódio foi nesse sentido: bom portista, aparentemente, é aquele que fecha os olhos a tudo o que está mal, que come e cala, e que começa cada vez mais a invocar o passado em vez de se preocupar com presente e futuro. Não é uma conversa nova: já vem desde o milagre de Kelvin. São quatro - a caminho de cinco - anos a seco.

Nenhum, nenhum dos portistas que vibraram com o golo de Kelvin, há quatro anos, imaginaria que esta seria a realidade do presente: o Benfica se calhar está mais perto de ganhar o quinto Campeonato consecutivo do que o FC Porto o primeiro em cinco anos. 

Fica aqui uma total de manifestação de solidariedade para com os C95, como não poderia deixar de ser num espaço que também sempre fez uso da crítica legítima, sustentada e construtiva. Ainda assim, a tarja erguida não parece corresponder totalmente à verdade: o espírito de campeão já não parece viver em todos os portistas. 


Pró ano há mais. Do mesmo?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O futuro de Casillas

«Por mais vontade que [Casillas] tenha de continuar no clube, até pela forma como foi tratado desde o momento em que deixou o Real Madrid, Iker compreende que a SAD azul e branca possa ter outros planos para 2017/18. Por isso aguarda serenamente por uma indicação do clube, depois de mais uma época em que o título está próximo de lhe escapar». O Jogo, 10/05/2017

Iker Casillas, segundo esta notícia do jornal O Jogo, aguarda uma indicação do FC Porto para conhecer o seu futuro. Destaca-se esta frase: «Iker compreende que a SAD azul e branca possa ter outros planos para 2017/18».

É um tanto estranho que o futuro de Iker Casillas, a cerca de mês e meio do final do seu contrato, ainda esteja por resolver e/ou esclarecer. Afinal, houve uma posição bem diferente assumida pelo próprio presidente do FC Porto no dia 16 de março de 2016. 

«Eu e o senhor Antero Henrique, agora administrador da SAD, já conversámos e chegámos a acordo com o empresário que representa o jogador para, além do próximo ano, prorrogarmos o contrato por mais um ano. A bola está agora do lado dele, o acordo está feito, já lhes dissemos que assinaremos quando quiserem». Foram declarações prestadas ao próprio site oficial do FC Porto.

Se o próprio Pinto da Costa confirmou, nos meios oficiais do FC Porto, que chegou a um acordo com o empresário de Iker Casillas para renovar contrato, como é possível que, 14 meses depois, surja agora uma pseudo-novela em torno da continuidade do guarda-redes?

Uma renovação tratada há 14 meses
A renovação é, claramente, um tema sensível. O próprio Pinto da Costa afirmou que o FC Porto não pagava nem um terço do salário de Iker Casillas. O Real Madrid deixa, a partir de junho, de comparticipar no salário de Iker Casillas. Ou seja, o FC Porto passa a ter que pagar a totalidade do seu vencimento.

Mas o que significa isso? Que Casillas aceita reduzir drasticamente o seu salário? Ou que o próprio FC Porto aceitou igualar as condições que Iker auferia no Real Madrid? Muitas questões. Mas se Pinto da Costa chegou a acordo com o seu representante, há 14 meses, para a renovação do contrato de Casillas...

Não deixa também de ser curioso que Pinto da Costa afirmara que foi proposta a renovação a Iker Casillas quando existia uma cláusula de renovação que poderia ser accionada quando o guarda-redes cumprisse um determinado número de jogos. Ora, esse requisito já foi atingido há três meses, aquando do jogo frente ao Tondela.

Há 14 meses, Pinto da Costa disse haver acordo para renovar. Há três meses, foram atingidas as metas para a renovação automática. Há dois, Iker Casillas assumiu que queria continuar. E dentro de um mês e meio, como será?

O FC Porto tem a melhor média de golos sofridos das principais Ligas Europeias, com 0.47 golos (à frente dos 0.5 do Benfica). É a segunda vez em três anos que o consegue, pois já o tinha feito em 2014-15, era o contestado Fabiano o guarda-redes. 

O FC Porto sofreu apenas 13 golos nessa época, enquanto desta feita sofreu 15, a duas jornadas do final. Ou seja, a qualidade do guarda-redes não fica necessariamente patente nos golos sofridos, pois Fabiano sofreu menos, mas Iker Casillas tem qualidade infinitamente superior. A diferença?

Talvez Fabiano tenha beneficiado de ter à sua frente uma defesa de betão e uma equipa coesa e organizada. Fabiano nunca teve que brilhar mais do que a equipa. Com Iker Casillas, tem sido o contrário: tem sido uma figura determinante no balneário e dentro das quatro linhas. 

Neste momento, o FC Porto não tem jogadores com cultura/experiência de campeão. Só dois jogadores sabem o que é ganhar frequentemente: Maxi Pereira, que veio do rival Benfica, e Iker Casillas. Estará o FC Porto em condições de prescindir de um dos poucos que acrescentam experiência, maturidade, qualidade indiscutível e cultura de campeão ao clube? Ou talvez a questão não seja essa: estará o FC Porto em condições de sustentar um jogador assim?

Segundo a própria palavra de Pinto da Costa, sim. Esperemos que valha tanto quanto a qualidade de Iker Casillas. Dentro e fora do relvado.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um amargo superar de expetativas

A duas jornadas do final do Campeonato, aconteceu o que chegou, a determinada altura da época, a parecer improvável: o FC Porto assegura a qualificação direta para a Liga dos Campeões. Motivo para celebrar? Não, porque ainda está para nascer o dia em que o FC Porto celebre o primeiro dos últimos lugares - ainda que o passado recente obrigue a concordar que já esteve mais longe. Mas por incrível que possa parecer, a surpresa em ver este FC Porto ir diretamente à Liga dos Campeões não é menor do que desilusão de ver o Benfica a um passo de ser tetracampeão pela primeira vez.

Não há portista que não sonhe alto, nem que não queira mais. Mas desde o início da época a realidade era esta: não foi uma temporada preparada para fazer do FC Porto campeão. Desde a escolha do treinador a toda a gestão da pré-temporada. No meio de tudo isto, o mais admirável é que o FC Porto tenha mesmo conseguido (a diferença de golos em relação ao Sporting já o assegura), sob o comando de Nuno Espírito Santo, ir diretamente à Liga dos Campeões. 

Todos temos que concordar que as arbitragens foram más esta temporada. Muito más. Sonegaram vários lances que poderiam ter ajudado o FC Porto a desbloquear alguns jogos difíceis. Por vezes as equipas não crescem e se constroem apenas com boas exibições: é preciso ter aquela pontinha de sorte num mau jogo, trocar a ópera pelos pontos, sofrer para vencer. 

Mas a verdade é só uma: este FC Porto, versão 2016-17, joga demasiado pouco. Demasiado pouco para poder clamar que tinha estofo de campeão. Como já aqui foi dito, o mais frustrante é mesmo isso: mesmo numa época de mau futebol, o FC Porto tinha todas as condições para ser campeão. Não o foi por motivos diversos: falta de algumas soluções no plantel (e outras desaproveitadas a determinado momento, começando por Aboubakar, passando por Brahimi e acabando em Layún), a falta de qualidade de Nuno Espírito Santo, as más arbitragens, um Benfica bem mais feliz na hora de apitar. Podemos também falar da bola que vai ao poste, do jogador que falha de baliza aberta, de infelicidades próprias do jogo. Também acontece. Mas as quatro coisas anteriormente referidas eram possíveis de se antecipar, ao contrário das meras incidências de jogo.

Vários leitores criticaram O Tribunal do Dragão por ter defendido muitas mais vezes Lopetegui do que o vez em relação a Nuno Espírito Santo. Não só é uma crítica válida como é verdade: houve muitos mais momentos de defesa a Lopetegui do que a NES. Mas há uma grande diferença na hora de avaliar os dois treinadores.

Lopetegui era um absoluto tiro no escuro. Praticamente nenhum adepto o conhecia. Foi uma aposta de Pinto da Costa da qual não sabíamos o que esperar. Ninguém podia afirmar «não vai resultar», porque pouco ou nada sabíamos de Lopetegui.

No caso de NES, já estava aos olhos de todos aquilo que podíamos esperar no FC Porto. Letra por letra. NES não tem qualidade para ser treinador do FC Porto. Pode vir a ter? Não sabemos, pode um dia evoluir bastante. Mas à data de hoje, não tem. Como não tinha após ter concluído - ou deixado por concluir - os seus trabalhos no Rio Ave e no Valência. Não fossem as expulsões da Roma no play-off e possivelmente nem à fase de grupos da Champions o FC Porto teria chegado. Ter começado logo desde o início da época a usar essa vitória como um atestado de crescimento e qualidade foi das piores coisas que se poderiam fazer.

São já seis pontos a menos do que os da época 2014-15. Menos golos marcados, mais sofridos. O FC Porto de Lopetegui, a tal equipa que falhava em momentos decisivos, fez uma belíssima Champions, lutou pelo título (quase) até ao final, valorizou um punhado de jogadores e teve melhor futebol. Muito melhor, sobretudo na época celebrizada pelo colinho. Ainda assim, muitos adeptos vaticinaram logo que não dava. E agora, dá?





Otávio (+) - Esteve mal no passe, mas conseguiu cumprir na função que lhe cabia no último terço: o momento do desequilíbrio. Fez um golo, conseguiu ter alguma objetividade na primeira parte e ainda quis mostrar trabalho defensivo, com um total de 13 ações na defesa. Soube medir bem os momentos em que tinha que sair para o drible (algo que conseguiu fazer duas vezes, enquanto Brahimi tentou 15) e adaptou-se bem ao caos híbrido que é o FC Porto 2016-17.

Outros destaques (+) - Primeira parte bastante boa de Héctor Herrera, que esteve sempre bem nos apoios no jogo interior. Esteve por todo o lado e ofereceu sempre soluções ao portador da bola, na melhor fase do jogo do FC Porto. Quando a equipa recuou, jogando da forma pequena como NES a idealiza, perdeu-se Herrera e perdeu-se o FC Porto. Até lá, Fernando Fonseca (há dois anos alvo de uma análise d'O Tribunal do Dragão que o apontava como um valor seguro - quanto a laterais-direitos estamos perfeitamente servidos, desde Ricardo Pereira a Diogo Dalot) e Brahimi (embora pecando demasiado no lance individual - mas a sério, quem o condena perante o que se passa à sua volta?) também iam fazendo pela vida. 





Não aprender com os erros (-) - Isto é um problema que transcende o FC Porto e a forma como NES aborda as bolas paradas defensivas, mas que afetou uma vez mais equipa. A «velha escola» do futebol ensinava uma coisa que se aprendia desde a formação: nos pontapés de canto, é preciso meter um jogador a cobrir o poste. Isto poderia, por exemplo, ter evitado o golo de Lisandro no Dragão, no FC Porto x Benfica da primeira volta. E também teria evitado este golo do Marítimo.

É preciso notar que o FC Porto tem os 11 jogadores na grande área a defender neste pontapé de canto (com Brahimi na quina da grande área, a evitar o canto curto, e Otávio na meia lua). E no meio de tantos jogadores, ninguém se preocupou em cobrir o poste... e o próprio marcador do golo do Marítimo. Djoussé está completamente sozinho no momento em que o pontapé de canto é batido! E André André pareceu ser o único a aperceber-se disso - o jogador que estava na outra ponta da jogada e que começou a correr que nem um perdido na grande área, numa missão, em vão, de tentar evitar o cabeceamento. Bolas paradas defensivas é uma coisa que se trabalha nos treinos e que obriga a coisas básicas, como saber cobrir os postes e ter atenção a um tipo forte fisicamente e no jogo aéreo, como Djoussé. Esta jogada ignorou tudo isso.

Nada. Não jogam nada (-) - Sabem aquele bronco que aparece nos estádios todos e cujo vocabulário de análise tática não vai muito além de «estes gajos não jogam nada»? Não precisa de dizer mais nada: é uma análise adequada a este FC Porto. NES não sabe nada do que é jogar à Porto. Joga no FC Porto como tentou fazê-lo no Rio Ave e no Valência. Tem culpa disso? Não, está a fazer um trabalho idêntico ao que fez noutras paragens. Culpa - ou responsabilidade - tem quem apostou nisso mesmo. NES está a ser igual a si próprio desde o início da época. Que responsabilidades lhe podemos imputar por fazer um trabalho de acordo com as suas ideias e valia?

Não há ideias para nada neste FC Porto. Ou se procura Alex Telles na profundidade para cruzar para terra de ninguém, ou bombeia-se diretamente a bola para a frente. O FC Porto tem extremas dificuldades em encontrar espaço no jogo interior e decide muitíssimo mal no último terço (algo que também é da responsabilidade dos atletas). É penosa ver a hesitação dos jogadores sempre que chegam à entrada da grande área: não sabem se hão-de dar mais um ou dois toques, se devem jogar em apoio, se devem aguentar a posse, se devem dar mais uma fintinha. Rematar é que nada. O guarda-redes do Marítimo fez duas defesas em todo o jogo. Duas! Num jogo em que se não houvesse vitória servíamos de bandeja o primeiro tetra da história do Benfica. 

Isto não é o tempo do Eusébio. Podemos invocar todos os Salazariamos, mas à época havia uma verdade insossa: o Benfica era melhor do que o FC Porto. Por isso ganhava mais vezes, por isso estivemos tantos anos sem ser campeões. Nos últimos 30 anos, o FC Porto habituou o mundo a ser melhor do que o Benfica. Mas agora, ver o Benfica ser tetracampeão nesta era? Nestas circunstâncias? Uma equipa que não consegue fazer ponta na Europa, mas que se prepara para fazer um póquer de títulos entre colinhos e campos inclinados? Um Benfica que à 8ª jornada de 2015-16 estava morto e que esta época não mostrou melhor futebol? E ainda assim, vão ser tetracampeões? Chegámos a esta fase: a fase em que o Benfica nem precisa de fazer muito para ser campeão. Ou lhe fazem a papinha, ou o FC Porto não consegue também ele servir um prato à altura. 

Ser 2.º classificado esta época é um superar de expetativas, pelo menos face às análises feitas neste espaço no início da época. Mas ver o Benfica ser tetracampeão desta forma? Inaceitável.  E agora, pagam a fatura os lesados do NES? Não. Porque se há algo que Nuno Espírito Santo fez esta época, foi algo que tem faltado a muita gente no seio do FC Porto: não ficou abaixo das expetativas, pois não era, à partida, particularmente expectável ganhar algo sob o seu comando esta época. A não ser que anseiem pela repetição do ciclo «a culpa é do treinador». 

Pró ano é que é. 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Dois golpes pela metade

Um grande jogo? Não, de todo. Um jogo em que a vitória esteve em risco? Também não. Uma vitória que acabou por ser natural e justificada? Sim. Primeira parte deplorável, como muitas outras, segunda parte com qualidade revelada a espaços. Em dose suficiente para ganhar em Chaves, mas dificilmente suficiente para colmatar a falta de consistência que vale campeonatos.

Sobressaiu o facto de o FC Porto ter jogado com um meio-campo bem diferente daquele que seria, à partida, o preferencial no início da época (Danilo, Herrera e Óliver), e da vitória ter nascido precisamente através das unidades de meio-campo, com André André em particular destaque e a reviver o momento de forma que chegou a ter em outubro/novembro de 2015. 

Já não há grande margem para sonhar com o título, mas a luta mantém-se de pé até ao final.




André André x2 (+) - A vitória deve-se a dois momentos de André André no jogo. Primeiro, por ser capaz de se adiantar na linha de pressão sobre o portador da bola. Os momentos que antecedem o 2x0 são sugestivos: o FC Porto tem 6 jogadores nos últimos 20 metros! Isto é algo que tem faltado desde o início da época: soluções à entrada da grande área.

André André tem Soares a correr para a marca de penálti, mas tem também quatro soluções livres de marcação ao lado: tem Corona aberto na linha, Jota no eixo, Otávio a dois metros e ainda tem Rúben Neves na meia direita para entrar na grande área. Entre todas estas opções, optou pelo remate, ao qual a sua posição e enquadramento também convidavam. 

No lance do 2x0, um exemplo de como é questionável a forma como os avançados do FC Porto têm sido usados. Mas antes, um lance que também tem faltado esta época: um médio a aparecer em zonas de finalização servido por um outro elemento do meio-campo. Grande passe de Otávio, desmarcação inteligente de André André. Mas repare-se que Soares, logo antes do passe de Otávio, está completamente sozinho... encostado junto à linha. Não está a arrastar nenhum defesa, não está numa zona de perigo, não está na jogada. Os otimistas dirão que estava a abrir espaço na zona central para André André entrar. Como, se não tirou de lá nenhum defesa? Felizmente, a pintura de Otávio e André neste lance foi letal. Caso contrário, seria mais um exemplo de que nada vale ter um finalizador se ele não estiver em zonas de... finalização.


Rúben Neves (+) - É um clássico, uma repetição em todos os jogos em que Rúben joga no lugar de Danilo: Danilo tem coisas que Rúben não tem, mas Rúben dá outras coisas ao jogo. Maior capacidade de circulação, mais toques e passes na bola, maior amplitude no momento da saída e algumas tentativas de meia distância. É certo que Rúben não ganhou nenhum lance de cabeça, mas ainda assim teve 16 assinaláveis intervenções defensivas que ajudaram a manter a baliza de Casillas a seco. 




Um clássico de primeira (-) - Nos últimos 7 jogos, o FC Porto saiu para o intervalo a vencer em dois. Contra o Setúbal, com um belo golo de Corona aos 45+1' num momento de inspiração individual, e contra o Belenenses, por Danilo, numa bola parada. Dois golos específicos e que disfarçaram, na altura, primeiras partes em que o FC Porto revelou inúmeras dificuldades para criar lances de perigo, para jogar de forma organizada e orientada na procura do 1x0. Um futebol sem ideias, sem ambição, sem querer procurar a vitória desde o primeiro minuto. Algo que vai-se tornando numa imagem de marca desta equipa, incapaz de jogar bem em primeiras partes - e muitas vezes sem conseguir recuperar do prejuízo nas segundas.

Já agora fica o aviso: o jogo contra o Marítimo terá, à partida, 90 minutos. Jogar apenas 45 tem tudo para correr mal. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O melhor ataque dos últimos 20 anos

Trivia: qual era, à entrada para a 29ª jornada, o melhor ataque do FC Porto em casa dos últimos 20 anos? A resposta pode chocar: este. Este mesmo FC Porto, ontem incapaz de fazer um golo ao Feirense, mas que tinha, em igualdade com o FC Porto de Villas-Boas, o melhor aproveitamento de golos em jogos em casa (40). 

O mesmo FC Porto que acabou a seco em jogos contra Tondela, Setúbal, Belenenses, Paços de Ferreira e Feirense, que joga um futebol limitado desde as ideias que iam sendo trabalhadas na pré-época (por vezes disfarçado por bolas paradas e pelo talento individual dos jogadores, mas a base foi sempre inegável e nunca mostrou uma equipa com estofo de campeão), tinha o melhor ataque no Dragão. 

Em 30 jornadas, apenas uma derrota. A melhor defesa do Campeonato, que se mantém. E fora de casa, o segundo menor número de golos sofridos dos últimos 30 anos. Como é que uma equipa com estes predicados chega a esta fase a jogar tão sofrível futebol?

O mais frustrante é isto: este FC Porto joga pouco. Mas tinha, tem, condições para ser campeão nacional. É frustrante que numa época de tão pobre futebol, de tão pobres e inconsequentes ideias do seu treinador, de uma série de apostas falhadas (e outras ganhas, com mérito, essencialmente com reforços brasileiros), o título ter estado ali sempre ao virar da esquina, ao alcance.

Nos últimos 5 jogos, o FC Porto ganhou um. Desperdiçou 8 pontos. Esses 8 pontos já teriam arrumado a discussão da luta pelo título, e fariam do FC Porto um relativamente inesperado campeão em 2016-17. 

Este jogo contra o Feirense foi, novamente, um espelho da época. Uma equipa que não jogando particularmente bem não deixou de criar as suas oportunidades, de ter todas as condições para ganhar o jogo. Agora, não digam que estão a fazer tudo para serem campeões, pois quem serve oito pontos de bandeja em cinco jornadas, na decisiva reta final do campeonato, pode ter a ambição, mas não mostra estofo para tal.

Nuno Espírito Santo e os jogadores não têm, é claro, culpa de mais uma arbitragem prejudicial com dois lances de penalty, nem que Brahimi e Corona tenham estado ausentes quando havia (ou então devia haver!) planos para o regresso ao 4x3x3. Mas olhar para campo e ver uma equipa tão mal preparada, sem fio de jogo, com dificuldades contra qualquer equipa do campeonato português, com jogadores desviados das suas posições sem benefício para atletas e equipa...

Esta não foi uma época preparada para fazer do FC Porto campeão - basta recordar todas as incidências da pré-época, desde o atraso na chegada de reforços, as indefinições nas saídas, as lacunas que ficaram por colmatar e as ideias que NES ia demonstrando querer implementar -, mas no final das contas havia hipóteses de lá chegar. E provavelmente foram goradas nas últimas semanas.

Faltam quatro jornadas. E a maior incógnita não é saber se o Benfica vai perder pontos. É saber se o FC Porto não vai desperdiçar os que sobram. Lutar pelo título até ao fim sempre foi a ambição e, admita-se, algo que a determinada altura da época pareceu impossível. O problema é não notarmos que o fim talvez já aí esteja.



Movimentos de Maxi e Alex
Laterais (+) - O mapa ao lado é altamente ilustrativo: Maxi Pereira e Alex Telles passaram o jogo no meio-campo adversário, fizeram quilómetros e corresponderam na perfeição àquilo que NES sempre quis para os seus laterais (máxima profundidade). O problema é que sobem quase sempre numa missão solitária, sem os apoios apropriados no jogo interior, e assistiram a um festival de desperdício entre os 30 (!!) cruzamentos que conseguiram fazer para a grande área. Mas atenção: entre estes 30 cruzamentos, só um resultou num remate à baliza e outros quatro chegaram a zonas de perigo. O problema é que para um cruzamento ser perigoso, há que ter um avançado pronto para finalizar. Se André Silva e Soares andam ocupados a passear-se pelos flancos ou longe da grande área, nada feito. 

Que os adeptos não percebam as ideias de NES é uma coisa. Não é para os adeptos perceberem: é para a equipa perceber, render e ganhar jogos através delas. Que os adeptos não percebam, não há problema. Que os jogadores em campo não pareçam perceber, já é grave. Fica a grande nota de mérito para Maxi Pereira e Alex Telles: por eles, o resultado seria outro. 

Raio de ação de Danilo
Danilo Pereira (+) - O raio de ação de Danilo Pereira diz tudo: esteve em todo o lado, sempre à procura do primeiro momento de construção. Ganhou metros no terreno para empurrar a equipa para cima do Feirense, mas sempre em vão. Ganhou todos os lances pelo ar, tentou descomplicar, a determinada altura tentou ele subir no terreno, procurando um atalho que evitasse que a bola passasse por um miolo sem capacidade para encontrar espaço e servir os avançados. 

Mourinho chegou a dizer que com 11 Paulos Ferreiras ganha-se um campeonato. Com 11 Danilos talvez não fosse diferente. 



Tudo em redor de André Silva (-) - E, consequentemente, o próprio André Silva. Sim, não havia Corona e Brahimi, o que dificultou a tarefa para as alas. Mas uma vez mais, NES quer fazer dos avançados o que eles não são. Desta vez, André Silva até esteve mais vezes em zona interior (Soares caiu mais sobre a esquerda), mas nada, nada funcionou e a exibição de André Silva foi uma nulidade: tocou 2 vezes na bola na grande área, fez 7 passes, não ganhou nenhum lance pelo ar, fez dois dribles (na zona do meio-campo) e não fez um único remate (exceção ao golo anulado por fora de jogo). Alex Telles rematou mais, Casillas tocou mais vezes na bola e Karamanos, o ponta-de-lança do Feirense, fez mais passes e ganhou mais bolas divididas do que André Silva. 

Um dos mais promissores pontas-de-lança da Europa, que andou a carregar a equipa às costas na primeira metade da época, não está a render absolutamente nada nos últimos jogos. O que mudou? Não o jogador, mas a missão que agora lhe dão dentro de campo. Não há milagres, sobretudo recordando o quão felizes foram os avançados de Rio Ave e Valência no passado recente.

Cruzar, repetir! (-) - Ponto prévio: o FC Porto teve oportunidades, várias, para ganhar o jogo. E quando um jogador se exibe ao nível de Vaná, torna-se difícil. O FC Porto fez 14 remates na grande área, o recorde desta época. Mas isto não é um caso de «se uma bola tivesse entrado ninguém falava disso». Não. Foi dito o mesmo em jogos anteriores, onde a bola parada, André Silva, Brahimi ou Soares davam a pincelada que disfarçava muita coisa. 

Foi mais um desses jogos. O FC Porto teve oportunidades, mas os meios para os fins são sofríveis. André André e Óliver Torres poucas vezes encontraram os avançados, a equipa não se entendia no jogo interior, os avançados atropelavam-se no mesmo espaço e tudo acabou por resultar no mesmo: tentar meter a bola diretamente na grande área, usando e abusando da profundidade que Maxi e Alex Telles davam (e deram-la muito bem). 

Neste FC Porto não há ideias no espaço interior, há poucas desmarcações, poucas tabelas que abram o espaço, uma equipa que reagiu várias vezes mal ao momento da perda (algo que já fez bem esta temporada) e incapacidade para aproveitar todo o caudal que, com mais ou menos qualidade, foi levado à grande área. 

E no meio de tantas adversidades, o que mais revolta será sempre isto: o FC Porto tinha, tem, condições para chegar ao título em 2016-17. Não «graças a», mas «apesar de».

terça-feira, 18 de abril de 2017

Do 2 para o X2

É a principal consequência do empate em Braga: o Benfica já pode rever os seus planos para Alvalade. Se o FC Porto fizesse a sua parte, não haveria alternativa para o Benfica: teria que jogar para ganhar ao Sporting, riscando a estratégia defensiva e de contenção que Rui Vitória já abraçou em outros clássicos. Mas com a igualdade em Braga, tudo mudou: o Benfica pode agora jogar para dois resultados no clássico. Uma mudança no totobola que certamente vão apreciar. 

O título ainda é possível, mas não para a equipa que esteve em campo diante do SC Braga, sobretudo na primeira parte. As gírias são muitas vezes vazias e pouco sustentadas, mas neste caso assenta que nem uma luva: uma equipa que não joga nada. Bem sabemos que o talento individual dos jogadores - leia-se Brahimi - e as bolas paradas (ninguém marca mais do que o FC Porto desta forma no Campeonato) têm os seus limites para aguentar o barco, mas uma equipa que quer ser campeã, por mérito próprio, não joga desta forma. 

Isso, tal como na época 2014-15, não pode invalidar ou abafar o que se vai passando ao som do apito. Foi mau de mais. O Braga bateu o recorde de faltas cometidas em Portugal (32!) e, ainda assim, conseguiu a proeza de acabar o jogo com menos cartões do que o FC Porto e com 11 jogadores em campo. As arbitragens inclinaram nitidamente o campo em desfavor do FC Porto esta época. Isso é algo de que Nuno Espírito Santo e os jogadores não têm culpa. Mas o passado recente, nomeadamente há duas épocas, mostrou bem que os adeptos (a maioria) preferem vaticinar o demérito para a ausência de títulos do que culpabilizar as péssimas arbitragens. Tem que haver um equilíbrio, claro. 

Em 2014-15 fizemos 82 pontos, e não chegou para o título por um fenómeno chamado colinho. Neste momento, na melhor das hipóteses, o FC Porto pode chegar aos 83 pontos, sendo certo que já tem mais golos sofridos do que na totalidade da referida temporada, o que também vai deteriorando o mérito possível no futebol praticado esta época: o bom trabalho defensivo. 

Estar, neste momento, ainda na luta pelo título continua a ser um grande superar de expetativas, tendo em conta a forma como foi preparada a pré-época. Mas após meses e meses de adversidades que, de maneira mais ou menos ortodoxa, a equipa ia conseguindo superar, é desolador testemunhar a apatia, falta de ideias e o caos táticos que se passeou em Braga. Eram capazes de mais. Deviam ser capazes de mais. 

E agora? Resta torcer pelo Sporting, esperar que consigam vencer o Benfica. E caso esse milagre aconteça, nos restantes 5 jogos pode não ser necessário apenas vencer, mas sim também golear. E isso não se consegue a jogar como em Braga.




Brahimi (+) - Não poderemos contar com ele frente ao Feirense, por ter dito algo em francês que, rezam as crónicas, o quarto árbitro não percebeu. Ou então sim: se foi de facto isto que aconteceu, o FC Porto tem que se socorrer de todas as vias necessárias para anular a expulsão. É ridículo de mais para ser verdade. Sapunaru, um dos nossos, divertia-se a mandar os árbitros irem para as couves em romeno. Aparentemente, os árbitros percebiam o que ele dizia, pois se não percebessem, segundo o mesmo critério, teria sido mandado muitas vezes para a rua. Absurdo.


Futebolisticamente falando, é um oásis no futebol do FC Porto: à sua volta, só se vê um deserto, um deserto de ideias coletivas. Brahimi recebe invariavelmente a bola em zonas demasiado distantes da baliza. Consegue sempre deixar um ou dois para trás, mas depois não aparecem soluções em zonas mais interiores. Está a rematar mais (foi o mais rematador da equipa), mas sobretudo por não encontrar alternativas. Vai remando contra a maré com inconformismo, irreverência e uma revolta nítida de quem quer que as coisas saiam melhor. A ele e à equipa. 

Alex Telles (+/-) - Somou mais uma assistência para golo e foi o jogador que conseguiu forçar mais vezes a entrada na grande área adversária (mais do que Brahimi ou até Soares e André Silva, o que mostra bem o resultado de encostar André Silva ao flanco - já lá vamos). Só perdeu um lance de 1x1 e criou mais duas situações de golo, infelizmente desperdiçadas, e cometeu o erro num momento crítico: o cruzamento do qual saiu o 1x0. Ainda assim, soube reagir ao erro. 

O livre dos 85' (+/-) - Isto não nasce da inspiração do momento: é um tipo de lance que se trabalha nos treinos, e que tem que ser repetido muitas vezes até sair bem. E saiu (quase, quase...) bem. Minuto 85, livre em zona frontal, e o reflexo de qualquer equipa pode ser o de tentar o remate direto ou a bola bombeada para a grande área. Mas ali houve calma, cabeça e inteligência para surpreender o adversário e tentar um novo tipo de bola parada: bola curta no livre, cruzamento para a grande área e Danilo a aparecer na perfeição na zona de finalização. Mas não apenas Danilo: o próprio Felipe aparece solto de marcação mesmo ao lado, pronto para encostar. Infelizmente, Danilo falhou uma grande oportunidade, naquela que foi uma das melhores jogadas do FC Porto 2016-17 - e só foi preciso três toques para a criar. Tivesse a bola entrado e poderia ter sido uma jogada a marcar a época. Mas, pelo menos, viu-se trabalho de casa dos treinos. Não o suficiente para passar no exame, infelizmente. 




André Silva à direita (-) - Não há palavras simpáticas para o descrever: André Silva está a ser uma nulidade encostado à faixa direita. E isso não tem a ver com a qualidade do jogador, mas sim por não ter caraterísticas para jogar naquela posição, naquelas funções. Vale para André Silva como valeria para Soares: temos dois pontas-de-lanças feitos para jogar na grande área, não encostados na faixa para servir de apoio a um ataque que pouco produz. 

André Silva jogou várias vezes com grande amplitude e liberdade na primeira metade da época, mas sempre tendo o eixo como referência. Sabia que tinha que aparecer na grande área, os movimentos que tinha que fazer, quando devia descair nos flancos para dar apoio. E quando André Silva começou a jogar mais por dentro em Braga, fazia-o bastante distante da grande área. O resultado foi este: André Silva tocou duas vezes na bola na grande área, perdeu 16 vezes a posse e só conseguiu ganhar um lance de 1x1. Sofrível, o equivalente a se algum dia um treinador tivesse a ideia de colocar Fernando Gomes, Jardel ou Falcao no flanco. 

Não foi André Silva que desaprendeu. Simplesmente André Silva não pode desempenhar o papel que NES idealiza para aquela função. Nem ele nem Soares. Cabe a NES decidir: ou muda o sistema, ou então terá que rever os seus planos para aquela posição e quiçá jogar com apenas Soares ou André Silva. É certo que os dois juntos já revelaram sintonia e produtividade, mas com o puxão de André Silva para o flanco direito jogar com um ou dois não está a fazer diferença. 

O vazio de ideias (-) - Bola longa, bola longa, bola longa. Patada para a frente, patada para o flanco, quem quiser quem a apanhe. É sofrível chegar a esta fase da época e ver o FC Porto jogar assim, sem a capacidade de sair em apoio, encontrar soluções entre linhas, jogar no pé em vez de procurar sempre o espaço. Não há ideias: a partir do momento em que a equipa adversária fecha os flancos, o FC Porto não tem outra alternativa senão dar a bola a Brahimi ou atirá-la em profundidade, à procura do espaço que não existe.

Este é um dos Bragas mais caóticos dos últimos tempos, e mesmo assim o FC Porto foi incapaz de aproveitar as limitações de uma equipa que a cada dois passes falhava um. Sim, o SC Braga teve apenas 55% de passes certos na segunda parte. Ou seja, a cada 10 passos que fazia, praticamente falhava metade. Diz isto que o FC Porto é capaz de recuperar a bola ou perturbar a circulação do adversário. Isso sim. O problema vem depois: não sabe o que fazer com ela. E sem a bola parada ou a inspiração individual dos jogadores, nada feito. 

E no meio de todas estas limitações e dificuldades, o FC Porto chega à 30ª jornada ainda com esperanças na luta pelo título. O equivalente a percorrer uma maratona com cãibras, muitas vezes a mancar, uma técnica de corrida questionável, mas ainda sim ter a meta à vista e apenas um gajo à frente a correr, também ele a arrastar-se de bengala para chegar à meta. Há esperanças de que sofra uma rasteira e que fique caído. Mas com corridas como a de Braga não vamos lá. 


PS: Muitos leitores notaram e questionaram uma redução no número de publicações d'O Tribunal do Dragão nas últimas semanas, algo que chegaram a chamar de «silêncio». Não se trata de silêncio ou ausência de temas que merecem comentário, mas indisponibilidade profissional e pessoal para corresponder ao número de posts desejado. As crónicas de jogo serão sempre publicadas (mesmo com atrasos, como aconteceu neste caso), mas não tem havido o tempo desejado para explorar outros conteúdos.

Ainda assim, há o reconhecimento que deve ser dado ao trabalho que está a ser realizado no Porto Canal, em particular no programa Universo Porto. O Tribunal do Dragão escreveu, um dia, numa reação a uma pequena polémica que muitos recordarão, isto: «O Tribunal do Dragão faz o que gostaria que fosse o clube a fazer. O que provavelmente todos os leitores deste espaço gostariam que fosse o clube a fazer.» E é mesmo isso que o Porto Canal, em particular nas intervenções de Bernardino Barros e Franciso J. Marques, está a fazer: uma defesa sustentada do FC Porto nos bastidores e meandros do futebol português. Pertinente, incisiva, perspicaz. O Tribunal do Dragão terá sempre o seu cantinho na bluegosfera, mas é bom ver o FC Porto, finalmente, servir-se das suas vias oficiais para fazer o tipo de trabalho que os leitores se habituaram a apreciar neste espaço.