segunda-feira, 24 de abril de 2017

O melhor ataque dos últimos 20 anos

Trivia: qual era, à entrada para a 29ª jornada, o melhor ataque do FC Porto em casa dos últimos 20 anos? A resposta pode chocar: este. Este mesmo FC Porto, ontem incapaz de fazer um golo ao Feirense, mas que tinha, em igualdade com o FC Porto de Villas-Boas, o melhor aproveitamento de golos em jogos em casa (40). 

O mesmo FC Porto que acabou a seco em jogos contra Tondela, Setúbal, Belenenses, Paços de Ferreira e Feirense, que joga um futebol limitado desde as ideias que iam sendo trabalhadas na pré-época (por vezes disfarçado por bolas paradas e pelo talento individual dos jogadores, mas a base foi sempre inegável e nunca mostrou uma equipa com estofo de campeão), tinha o melhor ataque no Dragão. 

Em 30 jornadas, apenas uma derrota. A melhor defesa do Campeonato, que se mantém. E fora de casa, o segundo menor número de golos sofridos dos últimos 30 anos. Como é que uma equipa com estes predicados chega a esta fase a jogar tão sofrível futebol?

O mais frustrante é isto: este FC Porto joga pouco. Mas tinha, tem, condições para ser campeão nacional. É frustrante que numa época de tão pobre futebol, de tão pobres e inconsequentes ideias do seu treinador, de uma série de apostas falhadas (e outras ganhas, com mérito, essencialmente com reforços brasileiros), o título ter estado ali sempre ao virar da esquina, ao alcance.

Nos últimos 5 jogos, o FC Porto ganhou um. Desperdiçou 8 pontos. Esses 8 pontos já teriam arrumado a discussão da luta pelo título, e fariam do FC Porto um relativamente inesperado campeão em 2016-17. 

Este jogo contra o Feirense foi, novamente, um espelho da época. Uma equipa que não jogando particularmente bem não deixou de criar as suas oportunidades, de ter todas as condições para ganhar o jogo. Agora, não digam que estão a fazer tudo para serem campeões, pois quem serve oito pontos de bandeja em cinco jornadas, na decisiva reta final do campeonato, pode ter a ambição, mas não mostra estofo para tal.

Nuno Espírito Santo e os jogadores não têm, é claro, culpa de mais uma arbitragem prejudicial com dois lances de penalty, nem que Brahimi e Corona tenham estado ausentes quando havia (ou então devia haver!) planos para o regresso ao 4x3x3. Mas olhar para campo e ver uma equipa tão mal preparada, sem fio de jogo, com dificuldades contra qualquer equipa do campeonato português, com jogadores desviados das suas posições sem benefício para atletas e equipa...

Esta não foi uma época preparada para fazer do FC Porto campeão - basta recordar todas as incidências da pré-época, desde o atraso na chegada de reforços, as indefinições nas saídas, as lacunas que ficaram por colmatar e as ideias que NES ia demonstrando querer implementar -, mas no final das contas havia hipóteses de lá chegar. E provavelmente foram goradas nas últimas semanas.

Faltam quatro jornadas. E a maior incógnita não é saber se o Benfica vai perder pontos. É saber se o FC Porto não vai desperdiçar os que sobram. Lutar pelo título até ao fim sempre foi a ambição e, admita-se, algo que a determinada altura da época pareceu impossível. O problema é não notarmos que o fim talvez já aí esteja.



Movimentos de Maxi e Alex
Laterais (+) - O mapa ao lado é altamente ilustrativo: Maxi Pereira e Alex Telles passaram o jogo no meio-campo adversário, fizeram quilómetros e corresponderam na perfeição àquilo que NES sempre quis para os seus laterais (máxima profundidade). O problema é que sobem quase sempre numa missão solitária, sem os apoios apropriados no jogo interior, e assistiram a um festival de desperdício entre os 30 (!!) cruzamentos que conseguiram fazer para a grande área. Mas atenção: entre estes 30 cruzamentos, só um resultou num remate à baliza e outros quatro chegaram a zonas de perigo. O problema é que para um cruzamento ser perigoso, há que ter um avançado pronto para finalizar. Se André Silva e Soares andam ocupados a passear-se pelos flancos ou longe da grande área, nada feito. 

Que os adeptos não percebam as ideias de NES é uma coisa. Não é para os adeptos perceberem: é para a equipa perceber, render e ganhar jogos através delas. Que os adeptos não percebam, não há problema. Que os jogadores em campo não pareçam perceber, já é grave. Fica a grande nota de mérito para Maxi Pereira e Alex Telles: por eles, o resultado seria outro. 

Raio de ação de Danilo
Danilo Pereira (+) - O raio de ação de Danilo Pereira diz tudo: esteve em todo o lado, sempre à procura do primeiro momento de construção. Ganhou metros no terreno para empurrar a equipa para cima do Feirense, mas sempre em vão. Ganhou todos os lances pelo ar, tentou descomplicar, a determinada altura tentou ele subir no terreno, procurando um atalho que evitasse que a bola passasse por um miolo sem capacidade para encontrar espaço e servir os avançados. 

Mourinho chegou a dizer que com 11 Paulos Ferreiras ganha-se um campeonato. Com 11 Danilos talvez não fosse diferente. 



Tudo em redor de André Silva (-) - E, consequentemente, o próprio André Silva. Sim, não havia Corona e Brahimi, o que dificultou a tarefa para as alas. Mas uma vez mais, NES quer fazer dos avançados o que eles não são. Desta vez, André Silva até esteve mais vezes em zona interior (Soares caiu mais sobre a esquerda), mas nada, nada funcionou e a exibição de André Silva foi uma nulidade: tocou 2 vezes na bola na grande área, fez 7 passes, não ganhou nenhum lance pelo ar, fez dois dribles (na zona do meio-campo) e não fez um único remate (exceção ao golo anulado por fora de jogo). Alex Telles rematou mais, Casillas tocou mais vezes na bola e Karamanos, o ponta-de-lança do Feirense, fez mais passes e ganhou mais bolas divididas do que André Silva. 

Um dos mais promissores pontas-de-lança da Europa, que andou a carregar a equipa às costas na primeira metade da época, não está a render absolutamente nada nos últimos jogos. O que mudou? Não o jogador, mas a missão que agora lhe dão dentro de campo. Não há milagres, sobretudo recordando o quão felizes foram os avançados de Rio Ave e Valência no passado recente.

Cruzar, repetir! (-) - Ponto prévio: o FC Porto teve oportunidades, várias, para ganhar o jogo. E quando um jogador se exibe ao nível de Vaná, torna-se difícil. O FC Porto fez 14 remates na grande área, o recorde desta época. Mas isto não é um caso de «se uma bola tivesse entrado ninguém falava disso». Não. Foi dito o mesmo em jogos anteriores, onde a bola parada, André Silva, Brahimi ou Soares davam a pincelada que disfarçava muita coisa. 

Foi mais um desses jogos. O FC Porto teve oportunidades, mas os meios para os fins são sofríveis. André André e Óliver Torres poucas vezes encontraram os avançados, a equipa não se entendia no jogo interior, os avançados atropelavam-se no mesmo espaço e tudo acabou por resultar no mesmo: tentar meter a bola diretamente na grande área, usando e abusando da profundidade que Maxi e Alex Telles davam (e deram-la muito bem). 

Neste FC Porto não há ideias no espaço interior, há poucas desmarcações, poucas tabelas que abram o espaço, uma equipa que reagiu várias vezes mal ao momento da perda (algo que já fez bem esta temporada) e incapacidade para aproveitar todo o caudal que, com mais ou menos qualidade, foi levado à grande área. 

E no meio de tantas adversidades, o que mais revolta será sempre isto: o FC Porto tinha, tem, condições para chegar ao título em 2016-17. Não «graças a», mas «apesar de».

terça-feira, 18 de abril de 2017

Do 2 para o X2

É a principal consequência do empate em Braga: o Benfica já pode rever os seus planos para Alvalade. Se o FC Porto fizesse a sua parte, não haveria alternativa para o Benfica: teria que jogar para ganhar ao Sporting, riscando a estratégia defensiva e de contenção que Rui Vitória já abraçou em outros clássicos. Mas com a igualdade em Braga, tudo mudou: o Benfica pode agora jogar para dois resultados no clássico. Uma mudança no totobola que certamente vão apreciar. 

O título ainda é possível, mas não para a equipa que esteve em campo diante do SC Braga, sobretudo na primeira parte. As gírias são muitas vezes vazias e pouco sustentadas, mas neste caso assenta que nem uma luva: uma equipa que não joga nada. Bem sabemos que o talento individual dos jogadores - leia-se Brahimi - e as bolas paradas (ninguém marca mais do que o FC Porto desta forma no Campeonato) têm os seus limites para aguentar o barco, mas uma equipa que quer ser campeã, por mérito próprio, não joga desta forma. 

Isso, tal como na época 2014-15, não pode invalidar ou abafar o que se vai passando ao som do apito. Foi mau de mais. O Braga bateu o recorde de faltas cometidas em Portugal (32!) e, ainda assim, conseguiu a proeza de acabar o jogo com menos cartões do que o FC Porto e com 11 jogadores em campo. As arbitragens inclinaram nitidamente o campo em desfavor do FC Porto esta época. Isso é algo de que Nuno Espírito Santo e os jogadores não têm culpa. Mas o passado recente, nomeadamente há duas épocas, mostrou bem que os adeptos (a maioria) preferem vaticinar o demérito para a ausência de títulos do que culpabilizar as péssimas arbitragens. Tem que haver um equilíbrio, claro. 

Em 2014-15 fizemos 82 pontos, e não chegou para o título por um fenómeno chamado colinho. Neste momento, na melhor das hipóteses, o FC Porto pode chegar aos 83 pontos, sendo certo que já tem mais golos sofridos do que na totalidade da referida temporada, o que também vai deteriorando o mérito possível no futebol praticado esta época: o bom trabalho defensivo. 

Estar, neste momento, ainda na luta pelo título continua a ser um grande superar de expetativas, tendo em conta a forma como foi preparada a pré-época. Mas após meses e meses de adversidades que, de maneira mais ou menos ortodoxa, a equipa ia conseguindo superar, é desolador testemunhar a apatia, falta de ideias e o caos táticos que se passeou em Braga. Eram capazes de mais. Deviam ser capazes de mais. 

E agora? Resta torcer pelo Sporting, esperar que consigam vencer o Benfica. E caso esse milagre aconteça, nos restantes 5 jogos pode não ser necessário apenas vencer, mas sim também golear. E isso não se consegue a jogar como em Braga.




Brahimi (+) - Não poderemos contar com ele frente ao Feirense, por ter dito algo em francês que, rezam as crónicas, o quarto árbitro não percebeu. Ou então sim: se foi de facto isto que aconteceu, o FC Porto tem que se socorrer de todas as vias necessárias para anular a expulsão. É ridículo de mais para ser verdade. Sapunaru, um dos nossos, divertia-se a mandar os árbitros irem para as couves em romeno. Aparentemente, os árbitros percebiam o que ele dizia, pois se não percebessem, segundo o mesmo critério, teria sido mandado muitas vezes para a rua. Absurdo.


Futebolisticamente falando, é um oásis no futebol do FC Porto: à sua volta, só se vê um deserto, um deserto de ideias coletivas. Brahimi recebe invariavelmente a bola em zonas demasiado distantes da baliza. Consegue sempre deixar um ou dois para trás, mas depois não aparecem soluções em zonas mais interiores. Está a rematar mais (foi o mais rematador da equipa), mas sobretudo por não encontrar alternativas. Vai remando contra a maré com inconformismo, irreverência e uma revolta nítida de quem quer que as coisas saiam melhor. A ele e à equipa. 

Alex Telles (+/-) - Somou mais uma assistência para golo e foi o jogador que conseguiu forçar mais vezes a entrada na grande área adversária (mais do que Brahimi ou até Soares e André Silva, o que mostra bem o resultado de encostar André Silva ao flanco - já lá vamos). Só perdeu um lance de 1x1 e criou mais duas situações de golo, infelizmente desperdiçadas, e cometeu o erro num momento crítico: o cruzamento do qual saiu o 1x0. Ainda assim, soube reagir ao erro. 

O livre dos 85' (+/-) - Isto não nasce da inspiração do momento: é um tipo de lance que se trabalha nos treinos, e que tem que ser repetido muitas vezes até sair bem. E saiu (quase, quase...) bem. Minuto 85, livre em zona frontal, e o reflexo de qualquer equipa pode ser o de tentar o remate direto ou a bola bombeada para a grande área. Mas ali houve calma, cabeça e inteligência para surpreender o adversário e tentar um novo tipo de bola parada: bola curta no livre, cruzamento para a grande área e Danilo a aparecer na perfeição na zona de finalização. Mas não apenas Danilo: o próprio Felipe aparece solto de marcação mesmo ao lado, pronto para encostar. Infelizmente, Danilo falhou uma grande oportunidade, naquela que foi uma das melhores jogadas do FC Porto 2016-17 - e só foi preciso três toques para a criar. Tivesse a bola entrado e poderia ter sido uma jogada a marcar a época. Mas, pelo menos, viu-se trabalho de casa dos treinos. Não o suficiente para passar no exame, infelizmente. 




André Silva à direita (-) - Não há palavras simpáticas para o descrever: André Silva está a ser uma nulidade encostado à faixa direita. E isso não tem a ver com a qualidade do jogador, mas sim por não ter caraterísticas para jogar naquela posição, naquelas funções. Vale para André Silva como valeria para Soares: temos dois pontas-de-lanças feitos para jogar na grande área, não encostados na faixa para servir de apoio a um ataque que pouco produz. 

André Silva jogou várias vezes com grande amplitude e liberdade na primeira metade da época, mas sempre tendo o eixo como referência. Sabia que tinha que aparecer na grande área, os movimentos que tinha que fazer, quando devia descair nos flancos para dar apoio. E quando André Silva começou a jogar mais por dentro em Braga, fazia-o bastante distante da grande área. O resultado foi este: André Silva tocou duas vezes na bola na grande área, perdeu 16 vezes a posse e só conseguiu ganhar um lance de 1x1. Sofrível, o equivalente a se algum dia um treinador tivesse a ideia de colocar Fernando Gomes, Jardel ou Falcao no flanco. 

Não foi André Silva que desaprendeu. Simplesmente André Silva não pode desempenhar o papel que NES idealiza para aquela função. Nem ele nem Soares. Cabe a NES decidir: ou muda o sistema, ou então terá que rever os seus planos para aquela posição e quiçá jogar com apenas Soares ou André Silva. É certo que os dois juntos já revelaram sintonia e produtividade, mas com o puxão de André Silva para o flanco direito jogar com um ou dois não está a fazer diferença. 

O vazio de ideias (-) - Bola longa, bola longa, bola longa. Patada para a frente, patada para o flanco, quem quiser quem a apanhe. É sofrível chegar a esta fase da época e ver o FC Porto jogar assim, sem a capacidade de sair em apoio, encontrar soluções entre linhas, jogar no pé em vez de procurar sempre o espaço. Não há ideias: a partir do momento em que a equipa adversária fecha os flancos, o FC Porto não tem outra alternativa senão dar a bola a Brahimi ou atirá-la em profundidade, à procura do espaço que não existe.

Este é um dos Bragas mais caóticos dos últimos tempos, e mesmo assim o FC Porto foi incapaz de aproveitar as limitações de uma equipa que a cada dois passes falhava um. Sim, o SC Braga teve apenas 55% de passes certos na segunda parte. Ou seja, a cada 10 passos que fazia, praticamente falhava metade. Diz isto que o FC Porto é capaz de recuperar a bola ou perturbar a circulação do adversário. Isso sim. O problema vem depois: não sabe o que fazer com ela. E sem a bola parada ou a inspiração individual dos jogadores, nada feito. 

E no meio de todas estas limitações e dificuldades, o FC Porto chega à 30ª jornada ainda com esperanças na luta pelo título. O equivalente a percorrer uma maratona com cãibras, muitas vezes a mancar, uma técnica de corrida questionável, mas ainda sim ter a meta à vista e apenas um gajo à frente a correr, também ele a arrastar-se de bengala para chegar à meta. Há esperanças de que sofra uma rasteira e que fique caído. Mas com corridas como a de Braga não vamos lá. 


PS: Muitos leitores notaram e questionaram uma redução no número de publicações d'O Tribunal do Dragão nas últimas semanas, algo que chegaram a chamar de «silêncio». Não se trata de silêncio ou ausência de temas que merecem comentário, mas indisponibilidade profissional e pessoal para corresponder ao número de posts desejado. As crónicas de jogo serão sempre publicadas (mesmo com atrasos, como aconteceu neste caso), mas não tem havido o tempo desejado para explorar outros conteúdos.

Ainda assim, há o reconhecimento que deve ser dado ao trabalho que está a ser realizado no Porto Canal, em particular no programa Universo Porto. O Tribunal do Dragão escreveu, um dia, numa reação a uma pequena polémica que muitos recordarão, isto: «O Tribunal do Dragão faz o que gostaria que fosse o clube a fazer. O que provavelmente todos os leitores deste espaço gostariam que fosse o clube a fazer.» E é mesmo isso que o Porto Canal, em particular nas intervenções de Bernardino Barros e Franciso J. Marques, está a fazer: uma defesa sustentada do FC Porto nos bastidores e meandros do futebol português. Pertinente, incisiva, perspicaz. O Tribunal do Dragão terá sempre o seu cantinho na bluegosfera, mas é bom ver o FC Porto, finalmente, servir-se das suas vias oficiais para fazer o tipo de trabalho que os leitores se habituaram a apreciar neste espaço. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

À lei de Brahimi

Estava difícil. Depois de dois 0x0 altamente penalizadores contra o Belenenses, tudo fazia crer que a probabilidade de levar um murro de Samaris era bem mais alta do que o FC Porto acertar com a baliza dos do Restelo. Felizmente, e novamente com uma bola parada a desbloquear uma exibição imprópria para quem quer manter-se na luta até ao final, a vitória acabou por chegar e acontecer com naturalidade, mantendo o FC Porto nesta luta ingrata de ter que estar de ouvidos postos em campos adversários. 

Segue-se uma jornada em que o Benfica recebe um dos seus clientes favoritos na Luz, antes do FC Porto ter a sempre difícil deslocação a Braga. Se quisermos colocar as esperanças no Sporting, primeiro há que superar esta barreira. 




Secar o adversário (+) - Pensem nos golos sofridos pelo FC Porto ao longo da época e notem algo em comum: todos os golos são consentidos com remates já dentro da grande área. O FC Porto é uma equipa muito pouco exposta à meia distância dos adversários. E quando, além de não ceder grande espaço à entrada da grande área, ainda consegue controlar a profundidade nas costas da defesa, estamos perante um belo trabalho defensivo.

O Belenenses não é nenhum exemplo de equipa que ataque categoricamente (é na verdade das piores da Liga), mas limitar o adversário a dois únicos toques na grande área ao longo de 90 minutos, mantendo sempre o Belenenses longe dos últimos 20 metros, é sempre um fator de destaque. Um exemplo de como defender bem sem nunca ter que assumir uma estratégia defensiva.

Brahimi (+) - Se não tivesse sido reintroduzido na equipa, provavelmente a luta pelo título já seria uma questão apenas para 2017-18. Joga numa realidade à parte da equipa, o único capaz de inventar coisas sozinho com bola. Abriu e fechou a vitória através de bolas paradas, mas uma vez mais, foi o jogador com mais faltas arrancadas, dribles eficazes e duelos ganhos ao longo da partida. Está num grande momento e custa imaginar que um jogador com o seu virtuosismo possa terminar uma terceira época no FC Porto sem meter as mãos num troféu. Ainda vamos a tempo de mudar isso.


Outros destaques (+) - Danilo de volta à forma que nos habituou - em forma de parede à frente da defesa. Ganhou todos os lances pelo ar, só perdeu uma disputa de bola e ainda contribuiu com um golo. Maxi Pereira e Alex Telles, sobretudo na primeira parte, foram responsáveis pelos poucos momentos em que o FC Porto conseguiu criar o desequilíbrio através da manobra coletiva da equipa. Soares voltou aos golos e a forma como assentou no 4x3x3 reforça o que já se sabia: quando está firme no eixo do ataque, pronto a receber a bola em vez de tentar ser o que não é (não tentou nenhuma situação de 1x1 desta vez) e tentar desdobrar-se pelos flancos, pode fazer a diferença. Palavra ainda para a bela entrada de Corona, novamente com uma exibição que irrita: ora é titular para andar desaparecido, ora salta do banco para mudar por completo o jogo. Assim também se torna difícil para o treinador apostar nele: saber que é capaz de render mais em 10 ou 15 minutos saído do banco do que em 70 como titular. 




Demasiado recuados (-) - O FC Porto defendeu bem. O problema é outro: a forma como estava recuado não para defender, mas para atacar. Uma vez mais, André André e Óliver Torres tiveram como maior raio de ação o meio-campo do FC Porto do que o do adversário. Perceber-se-ia se apenas um dos médios viesse atrás dar apoio a Danilo na saída de bola. Mas quando todos os nossos médios vão atrás da linha de meio-campo para começar a construir, algo vai mal.

Mais, o próprio Brahimi foi vítima dessa dinâmica. Brahimi foi o melhor em campo, mas foi também o jogador com mais perdas de bola, de longe. Porque muitas vezes ia receber a bola ainda com 45 metros de corredor pela frente, muito longe da baliza. Isso provoca mais desgaste em Brahimi, as probabilidades de perder a bola aumentam, e permite que o Belenenses tenha sempre tempo e espaço para se reorganizar defensivamente. Sobretudo a jogar em casa, não se percebe o porquê do FC Porto recuar tanto no momento de construção. Quanto mais metros ganharmos no terreno, mais próximos estaremos da baliza e maior capacidade Brahimi terá para resolver. 

Nervosismo (-) - Um filme já muitas vezes visto esta época: a bola parada libertou a equipa de um claro nervosismo e falta de ideias para atacar. E mesmo após o regresso dos balneários, a equipa continuou lenta, sem imprevisibilidade, presa de movimentos e extremamente dependente das subidas de Alex e Maxi para criar o desequilíbrio. Sim, desde do início da época que o FC Porto aposta muito nas subidas dos laterais para dar profundidade e provocar o momento de superioridade numérica. Mas quando não aparenta haver ideias para mais nada, é preocupante. Unidades como Óliver e André Silva vão ter que render mais no que resta da época, onde há não há apenas a pressão de vencer: há a pressão de saber que basta um deslize para tudo desabar.  

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sobreviver ao jogo do título

Assim pensou o FC Porto na Luz. A equipa e o treinador sentiram que era melhor segurar o empate do que arriscar perder na procura pela vitória. Só os três pontos colocariam o FC Porto a depender de si próprio, mas no final a equipa sentiu mais confiança em esperar que outra equipa - porventura o Sporting - tire pontos ao Benfica, em vez de arriscar sair da Luz sem um ponto (dessa forma, o Benfica doravante teria que escorregar em duas jornadas, enquanto assim continua a bastar uma - que de nada valerá se o FC Porto não fizer o seu trabalho). Mais do que tentar ganhar, o FC Porto mostrou que o que importava era sair daquele jogo vivo. E saiu. 


Foi a primeira vez que o Benfica de Rui Vitória foi superior num clássico, algo que deve merecer claramente preocupação do FC Porto. Mas convém não esquecer este pormenor: o melhor Benfica dos clássicos não marca um golo de bola corrida. Só o consegue de penalty, ainda que para isso tenha voltado a valer San Iker. 

É um tricampeão de carne e osso que está do outro lado, que no clássico foi melhor do que o FC Porto, mas que não tem vindo a fazer um campeonato em nada superior. Mas merece a preocupação que o Benfica, a quem bastava o empate, tenha feito mais na procura pela vitória do que o FC Porto. Sem que lhe tenha valido de muito. 

Demos um passo atrás nas duas últimas jornadas (o FC Porto passa a ter menos um ponto, menos golos marcados e mais sofridos do que na última época em que esteve na luta pelo título até ao final), mas o Benfica também não deu nenhum em frente. Todos os portistas vão ter grandes expetativas de que o Sporting dê uma ajuda, mas para isso há que fazer a nossa parte - o V. Setúbal tem que servir de exemplo, e o resto do calendário vai oferecer jogos bem mais complicados. Sem margem para errar.




Iker Casillas (+) - Casillas é um dos raros históricos do Real Madrid que é relativamente respeitado pelos adeptos do Barcelona. Admirável, tamanha a rivalidade entre os dois clubes, até porque Casillas passou 16 anos no Real Madrid. No FC Porto, não está há sequer há dois anos... e já entende a rivalidade com o Benfica ao extremo. Não é elegante, mas é ilustrativo: aquele gesto mostrou bem o quão Casillas quer ganhar o Campeonato. Não só ganhar o Campeonato, mas também ganhar o Campeonato ao Benfica. E contribuiu tanto quanto pôde, com dois pares de defesas que aguentaram o pontinho. Quando se fala do bom balneário do FC Porto este ano, não é possível ignorar o papel de Casillas: um profissional que fala não pelo seu passado no Real Madrid, mas por entender aquilo que é o FC Porto. Ah, perdeu tempo? Perdeu. Certamente porque lhe disseram que tinha que segurar o empate. E segurou.


Maxi Pereira (+) - Não dá para disfarçar: os quase 33 anos de Maxi Pereira pesam cada vez mais nas pernas. É notório que lhe custa a recuperar cada vez mais no corredor, sobretudo num jogo em que Alex Telles, no flanco oposto, pouco conseguiu subir. Maxi Pereira não está no auge da sua frescura física, mas podem contar com uma coisa: vai continuar a lutar pelo FC Porto até cair para o lado. O que lhe faltou em pernas compensou com determinação, garra e inconformismo. Foi lá à frente, na raça, fazer o golo do empate e manter o FC Porto de pé na luta pelo título. E por ele, o FC Porto continuará de pé nessa luta. Pelo menos até que Maxi caia para o lado.

Yacine Brahimi (+) - Todos os defesas já sabem o que é que Brahimi vai fazer: vai rodar sobre a bola, tentar puxar para a linha de fundo, aproximar-se da pequena área e fazer o passe atrasado. E mesmo assim, caem sempre: poucos conseguem tirar a bola a Brahimi. Tem o dom de ser imprevisível sendo previsível. O ataque do FC Portos só existiu nos seus pés, na forma como arrastou e rasgou a defesa do Benfica, numa noite em que Corona, Soares e André Silva pouco conseguiram fazer em sentido prático. Falta uma coisa no seu futebol, que é a capacidade de rematar mais quando arranja espaço à entrada da grande área, mas nem isso desta vez o impediu de ser o mais rematador em campo. E uma vez mais vimos muito trabalho de Brahimi sem bola, com 16 duelos ganhos e 12 recuperações. Tem sido um símbolo de inconformismo neste plantel e um oásis numa equipa à qual falta rasgo individual. Com Brahimi, haverá sempre uma solução. Se dá para chegar ou não ao título, veremos. Mas com ele dá para acreditar. 

Uma palavra para um bom jogo de André André, o melhor do meio-campo.




Deixar o Benfica crescer (-) - A boa exibição do FC Porto frente ao Benfica, no Dragão, deveu-se sobretudo à forma como a equipa apertava logo o rival no início de construção. Não dava espaço, obrigava o Benfica a falhar na saída de bola, e depois sim apostava nas transições rápidas que NES tanto aprecia. Na primeira volta funcionou enquanto a equipa declarou essa estratégia. Na Luz, nada disso. O FC Porto entrou a medo, nervoso, com as linhas recuadas. Se é certo que ninguém pode entrar na Luz a oferecer espaço nas costas, o Benfica de Rui Vitória treme sobretudo quando se depara com um rival que assume o jogo e que é forte na pressão.

O FC Porto esteve perdido em campo durante os primeiros 20 minutos, altura em que Óliver fez o primeiro remate e a equipa começou a crescer e a ganhar confiança. Não foi o dia mais feliz para o muitos jogadores, desde Felipe a Corona, passando por Danilo, mas uma equipa que quer ser campeã não pode permitir que o Benfica assuma com tanta facilidade o jogo. Sobretudo quando ainda não o tinha conseguido fazer em clássicos com Rui Vitória.

Sozinh9s (-) - Percebe-se a intenção de NES em reforçar o meio-campo. E entre Soares e André Silva, a opção nunca seria totalmente consensual. Mas tanto um como outro passaram por enormes dificuldades frente ao Benfica: quase sempre longe da grande área, descaídos para o flanco sem sucesso (Brahimi, apesar da intenção de fazê-lo passar para a zona interior, acabava sempre por criar o desequilíbrio a partir do lado esquerdo), expostos a um trabalho que não devia ser o seu. O caso de Soares vem sendo discutido há algumas semanas: é sofrível a forma como é invariavelmente desarmado no 1x1. E não é culpa do jogador, pois não tem caraterísticas para aquela função. Soares faz a diferença na grande área, ou a atacar a profundidade (excelente a forma como sentou Nélson Semedo, porventura o único momento em que conseguiu tirar um defesa da jogada), não a servir de bengala do lado esquerdo para um ataque que, assim, fica sem referência no eixo e na grande área. André Silva também não entrou bem na partida, num clássico muito difícil para os pontas-de-lança do FC Porto, e que a dinâmica ofensiva da equipa não facilitou. Ou havia Brahimi, ou tinha que haver Yacine. Não houve outra solução para o FC Porto.

Meio-campo de rastos (-) - André André e Óliver lutaram, lutaram, lutaram tanto quanto puderam. Mas foi notório, sobretudo à entrada para os últimos 20 minutos, que o meio-campo do FC Porto estava completamente rebentado. Nuno tomou a opção de refrescar a linha da frente, sem mexer no trio do meio-campo, mas  o setor já mal dava resposta em campo. E se o FC Porto estava, declaradamente, à procura de segurar o resultado, ter bola era essencial. A opção passou por mudar as peças de um ataque que mal existia, ao invés de refrescar um meio-campo que não estava a conseguir segurar o Benfica. A exibição de Corona ia pedindo a saída, mas não ter reagido à perda do meio-campo podia ter custado muito caro - Pizzi jogou solto e fez 7 passes para zona de remate, mais do que toda a equipa do FC Porto junta. Deixar o playmaker do adversário com tanto espaço não é bom sinal em qualquer parte do mundo. 

Segue-se o regresso ao Dragão, frente a um Belenenses ao qual não fizemos golos nem na primeira volta nem na Taça da Liga. Serve de aviso. E até ao final da época, já sabemos que não há-de haver empate que nos valha. Pelo menos não no calendário do FC Porto.

segunda-feira, 20 de março de 2017

E nada mudou

Antes do Paços x Benfica, o FC Porto estava a um ponto da liderança. Quando acabou o jogo em Paços, passámos a estar a dois. Nada de positivo estava garantido com o empate do Benfica em Paços de Ferreira - pelo contrário, tinham aumentado a vantagem. A euforia precoce paga-se muitas vezes caro. Ou fazíamos o nosso trabalho diante do V. Setúbal, ou nem valia a pena pensar no resultado do Benfica. Não fizemos o nosso trabalho e, assim, fica tudo igual.


Antes desta jornada, o FC Porto sabia que tinha que ir ganhar à Luz para subir à liderança a sete jornadas do final do campeonato. Depois do empate frente ao V. Setúbal, mantém-se tudo igual: temos que ir ganhar à Luz. 

Até à época 2016-17, o FC Porto levava 27 vitórias consecutivas sobre o Vitória de Setúbal. 27. Esta época não ganhou nenhum dos dois jogos. E não é um acaso: este é o mesmo V. Setúbal, com o mesmo anti-jogo e o mesmo Bruno Varela, que ganhou ao Benfica no Bonfim e que foi empatar à Luz. Um jogo é acidente, dois talvez, quatro já formam um padrão: este V. Setúbal é uma equipa talhada para tirar pontos aos candidatos ao título. 

Os adeptos deram tudo à equipa esta semana, desde o apoio no aeroporto até à enchente no Estádio do Dragão. A oportunidade foi desperdiçada e assim se vê o que pode acontecer no espaço de 24 horas, tamanha que foi a inversão de motivação e disposição entre portistas e benfiquistas. Agora, o FC Porto vai ter 90 minutos para tentar mudar o campeonato. Uma oportunidade que pode ser a última e no jogo mais difícil da época, que pode muito bem acabar por ser o rosto da mesma. 




Alex Telles (+) - Subiu, subiu, subiu, cruzou, cruzou, cruzou, lutou, lutou, lutou. Se é certo que tentou invariavelmente o mesmo movimento, não pareceu haver indicações para tentar o contrário. Meteu 18 vezes a bola na grande área, não cometeu erros defensivamente, recuperou oito vezes a posse de bola e foi o jogador mais solicitado em todo o jogo (108 toques na bola, um recorde esta época). Não foi por ele que o FC Porto fez apenas um golo em 180 minutos frente ao V. Setúbal.

Óliver (+/-) - Após uma série de jogos em que o regresso a um esquema com três médios revelou o melhor Óliver da época, o FC Porto regressou ao 4x2x4 e ao limbo que deixa Óliver engolido no meio-campo. Foi demasiadas vezes forçado a recuar para pegar no jogo, faltaram-lhe soluções para a saída curta e, com isso, o FC Porto voltou à insistência em jogar com bola direta. Foi vítima de um esquema que não o favoreceu nem a ele, nem a equipa. Ainda assim, foi dos seus pés que saiu o cruzamento para o golo de Corona e, enquanto resistiu fisicamente, era o único a ter cabeçinha para não se deixar levar pela ansiedade causada pelo empate. 

Iván Marcano (+) - Ninguém gosta de perder no FC Porto, mas Marcano é, provavelmente, o jogador que pior lida com maus resultados neste plantel. É visível a sua expressão de frustração/raiva sempre que a equipa sofre um golo, sempre que uma bola não entra, sempre que a equipa de arbitragem não toma uma decisão justa ou que agrade. Isso, é à Porto. Marcano é o rosto da revolta desta equipa, não só face às circunstâncias que não podemos controlar, como ao que podemos fazer. Quanto ao jogo, Marcano teve um total de 28 ações defensivas em todo o jogo, tendo sido o jogador que recuperou mais vezes a posse de bola (11). E isso quer dizer uma coisa: os médios, desta vez, não foram tão eficazes no momento de recuperação, nem os avançados na pressão à saída do V. Setúbal. Valeu Marcano.




Porquê mudar? (+/-) - Dizer que este empate se deve à mudança de esquema tático de NES é injusto e não faz sentido. Se o FC Porto estivesse em 4x3x3, as bolas de Marcano e André Silva tinham entrado em vez de ir ao poste? João Pinheiro teria assinalado as grandes penalidades sobre André Silva? Felipe não teria escorregado no momento do golo do V. Setúbal? Não, não foi por isso que o FC Porto não ganhou.

Hoje não fez nem jogou menos do que em muitas outras vitórias esta época. A questão é: porquê mudar agora? O FC Porto tinha encontrado um momento de estabilidade, não só tática como emocional, no regresso a um esquema com três médios. As coisas funcionavam. NES poderá ter antecipado um V. Setúbal muito defensivo no Dragão, mas jogar com mais avançados não significa atacar mais nem melhor. 

Se na primeira parte o FC Porto esteve bem, na segunda Bruno Varela, contas feitas, só teve que fazer duas defesas. Apenas duas, num jogo em casa e que valia a subida ao primeiro lugar. O FC Porto não deixou de ter as suas ocasiões: rematou 23 vezes, criou 17 situações de finalização e foi 58 vezes à grande área adversária. Está dentro da média das últimas jornadas em casa. A questão é: porquê mudar agora, quando tudo estava a funcionar? Porquê agora?

Soares à esquerda (-) - O FC Porto tem um problema típico: só podem jogar 11. Mas a tentativa de fazer coexistir Óliver, Corona, Brahimi, André Silva e Soares na mesma equipa tem levado Soares a ser exposto a um trabalho ingrato nos últimos jogos, que não só prejudica o jogador como não beneficia a equipa. Soares tem feito a diferença na grande área, mas hoje esteve constantemente refém do flanco esquerdo, onde invariavelmente ou perdia a bola, ou falhava o passe, não tendo conseguido completar um único drible. Não é culpa do jogador, pois não está a jogar num lugar que favoreça as suas caraterísticas. Nem o FC Porto está a ser favorecido com esta insistência. Soares tem que estar na grande área pronto para receber, não recuado para ajudar a bola a chegar à grande área.

Pânico (-) - Aconteceu o que não podia ter acontecido: o FC Porto perdeu a calma, perdeu a paciência, deixou-se vencer pela ansiedade de ver os minutos passarem e o 1x1 resistir. Isso levou a que, na segunda parte, a equipa tenha jogado muito menos do que na primeira. Menos objetividade, menos critério, e uma ideia clara que o FC Porto não estava preparado para reagir à adversidade de ver o tempo passar.

O exemplo da utilização de Diogo Jota é sugestivo. Jota entrou para o lugar de Corona, para jogar na zona interior do lado direito, dar velocidade e objetividade ao ataque. Mas passados 14 minutos, foi mandado jogar a lateral-direito. E de repente, Depoitre, que não era opção desde 3 de janeiro, é lançado em desespero para tentar apanhar uma bola na grande área. Foram momentos em que o FC Porto perdeu a calma, perdeu a objetividade, perdeu a identidade e deixou-se levar pelo desespero de meter a bola na grande área e esperar que alguém lá chegasse. 

Uma jornada que não mudou o que estava previsto há uma semana atrás: é preciso tentar ir ganhar à Luz. Se deixou ou não marcas na equipa, o clássico será uma boa oportunidade para responder a isso.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Vamos à décima!

Há dias em que o futebol tem lógica, e ontem foi mais um deles. No atual contexto competitivo entre as duas equipas, a Juventus provavelmente venceria oito ou nove de 10 eliminatórias contra o FC Porto. E para vencerem esta muito contribuíram as duas expulsões, que deixaram o FC Porto em inferioridade numérica em quase duas horas durante a eliminatória. Se já era difícil, assim...

É irónico que tenha sido também muito graças a isso que o FC Porto chegou à Liga dos Campeões - se duas expulsões é mau, imaginem três, como aconteceu com a Roma. Foi algo que foi sendo sempre esquecido ao longo desta época, inclusive quando muitos evocavam Roma como um exemplo de que o FC Porto poderia ser feliz em Turim. Se de facto tivessem acontecido as mesmas circunstâncias - duas expulsões para a Juventus, tipo Dani Alves e Dybala -, sim, talvez tivesse sido possível. 

Há que ser realista. Para quem não se recorda, a última vez que o FC Porto venceu num estádio de um antigo campeão europeu ou candidato à conquista da Champions foi em 2003, em Marselha. E qual foi a última vez que o FC Porto ganhou num estádio de um adversário do calibre da Juventus, da nata do futebol europeu? Provavelmente só em 1996, nos 3-2 de Milão. 

É por isso que o objetivo possível e assumido é sempre chegar aos oitavos-de-final - na fase de grupos temos mais jogos em casa, uma ou duas equipas teoricamente mais acessíveis, e isso permite ao FC Porto manter-se competitivo na Europa do futebol. Quando as equipas portuguesas são confrontadas com o patamar superior, neste momento, não há hipóteses. Muito menos numa época que muitos assumem como sendo de reconstrução para o FC Porto.

No final, o FC Porto sai da Champions com os objetivos cumpridos e de cabeça levantada. É bom lembrar que bastava a Roma não ter sofrido todas as expulsões e talvez nem teria sido possível chegar à Champions - nunca se saberá, pois são circunstâncias do jogo, às quais os adversários são sempre alheios. Mas que não podem ser esquecidas no balanço final. 

No que toca ao futebol praticado, não foi uma boa Champions. A única vitória verdadeiramente categória aconteceu contra os suplentes de um já apurado Leicester, os 5-0 no Dragão. De resto, o FC Porto teve dificuldades em impor o seu futebol, sobretudo porque na primeira metade da época a equipa não estava ao nível que vem demonstrando e consolidando nas últimas semanas. Provavelmente, hoje faríamos melhores jogos contra Brugge ou Copenhaga.

Nos jogos fora houve sempre dificuldades, inclusive em Roma antes de Layún ter feito o 2x0. Derrota em Leicester, vitória em Brugge com um penalty no último minuto, empate em Copenhaga. Mesmo em casa, empate ante o Copenhaga e vitória sofrida frente ao Brugge, já depois de um empate contra a Roma na primeira mão do play-off, desperdiçando uma hora a jogar contra 10. A exceção foram mesmo os 5-0 ao Leicester, que foi ao Dragão longe da máxima força. 

Se houve época em que o FC Porto praticou bom futebol na Europa, 2016-17 não foi uma delas, e não é a luta possível que foi dada em Turim que muda isso. Se o FC Porto quer ter mais aspirações na Europa, terá que assumir uma mudança de política desportiva.

Parabéns à Juventus, sempre melhor na eliminatória e sem nunca perder o controlo da mesma. E parabéns aos adeptos que puxaram sempre pelo moral da equipa, quer durante, quer depois do jogo. Perdemos, mas sem nunca dar nada por perdido. 

É difícil compreender como pode alguém ter aversão à receção que foi feita no aeroporto. Ninguém está ali a festejar a derrota em Turim ou o adeus à Champions: estão sim a puxar pela equipa para as 9 finais que faltam disputar esta época. O que se ouve é «Eu quero o Porto campeão». Não é sorrisos pelo aconteceu em Itália, é puxar pela equipa já a pensar no V. Setúbal. 

810 minutos e 27 pontos é o que separa o FC Porto do regresso aos títulos ou da garantia de que ninguém volta a festejar nada antes de 2018. Não há tempo para curar mágoas ou desilusões: é preciso vencer o V. Setúbal.



segunda-feira, 13 de março de 2017

Vamos à décima

Sem espinhas. Nona jornada consecutiva a vencer, sem sofrer golos nas últimas cinco, e a confirmação/continuação do melhor momento da época, com o tónico perfeito para as últimas nove jornadas do campeonato. Faltam 27 pontos em disputa, e o FC Porto acaba de somar 27 em 27 possíveis, acrescentando eficácia ofensiva a uma equipa há já muito sólida defensivamente.


O Arouca não é nenhum exemplo de poderio (vem de 5 derrotas seguidas), mas estamos numa fase em que o mais pequeno deslize pode custar as esperanças na luta pelo campeonato até ao fim. A pressão é enorme, mas o grupo de trabalho tem sabido lidar com ela. 

No final da época, aconteça o que acontecer, ninguém poderá afirmar que faltou Porto a este grupo de jogadores. Ser Porto não é ganhar sempre, mas é lutar sempre para ganhar. Este grupo não tem lutado por outra coisa.




Brahimi (+) - O melhor FC Porto desta época teve sempre o melhor Brahimi. Regressou à dimensão que parece bem maior do que o campeonato português, com o altruísmo que tantas vezes lhe faltou. Prova disso é que não rematou nenhuma vez em Arouca (e devia!), mas criou seis situações de golo e fez da defesa do Arouca faca quente em manteiga, sobretudo na primeira parte. Está longe dos números da primeira época quer em golos, quer em assistências, mas carrega, mais do que nunca, as esperanças do FC Porto no seu virtuosismo.


Meio-campo (+) - O FC Porto continua a ganhar metros no terreno: é capaz de circular a bola mais à frente, o que não só empurra o adversário para trás como não obriga os avançados a jogarem tão longe da grande área. Danilo foi o pêndulo habitual, essencial na dimensão física do jogo e certinho na saída de bola, além de ter inaugurado o marcador. Óliver voltou a ridicularizar os momentos em que acharam que a sua presença no banco podia combinar com um melhor FC Porto: 92% de acerto no passe, excelente no controlo do ritmo de jogo e a fazer parecer tão simples jogar com a cabecinha levantada, como foi exemplo o passe para o 2x0. Sobre André André, já aqui foi muitas vezes descrito como sendo um jogador que dificilmente ultrapassará o campo da utilidade no FC Porto. É verdade. Mas que nos últimos jogos tem sido útil, tem, sem dever muito ao que foi o melhor rendimento de Herrera esta época. 

A presença de Soares (+) - Nove golos em seis jornadas, que renderam seis vitórias? Perfeito. É inegável que Soares não é um prodígio técnico - é sempre o jogador com mais perdas de bola em campo e raramente ganha um lance de 1x1. Mas tem revelado um talento não menos importante e muitas vezes difícil de encontrar: a capacidade de estar no sítio certo para finalizar. Ou Soares vai ter com a bola, ou a bola vai ter com Soares. Muito bem não só na presença na grande área como na sua capacidade para atacar o espaço. Falhou algumas boas ocasiões, mas lá está: estava sempre bem colocado para a criar. O futuro dirá se o seu momento é uma espécie de Pena v2.0; o presente diz que é um reforço que está a ser absolutamente determinante nas aspirações do FC Porto. Mérito a quem viu nele uma solução para o mercado de inverno, porque, para esse efeito, acertou em cheio.

Solidez defensiva (+) - Casillas voltou a ser um mero espectador, sem ter feito qualquer defesa durante o jogo. O Arouca raramente existiu em termos ofensivos e o FC Porto esteve sempre perfeitamente equilibrado, com Maxi e Marcano particularmente em destaque na defesa. Quando a equipa não dá abébidas na defesa e produz ocasiões em abundância no ataque, as vitórias apareceram com naturalidade. 

Amanhã, Turim. Não sabemos o que vai acontecer contra a Juventus, mas sabemos o que tem que acontecer no domingo: vencer o V. Setúbal. Independentemente do resultado em Turim, há que chegar a esse jogo com confiança, cabeça levantada e novamente determinados na luta pelo título.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Lanterna e poste de iluminação

Sim, isto aconteceu. «Quem não salta é lapião». É isto que está escrito na base de um dos castigos aplicados ao FC Porto no jogo frente ao Nacional, devido a cânticos de parte dos adeptos. 


«Quem não salta é lapião». Uma expressão muito curiosa no relatório à responsabilidade de António Soares e Álvaro Maia, os delegados escolhidos para o FC Porto x Nacional. Afinal de contas, o que significa «lapião»? Que palavra é essa tão grave que justifica uma menção no relatório?

Abrimos o dicionário... e nada. A palavra «lapião» não existe. No entanto, o FC Porto foi multado por parte dos seus adeptos, aparentemente, ter gritado que «e quem não salta é lapião».

Isto já é motivo suficiente para o FC Porto se recusar a aceitar este castigo, pois o Conselho de Disciplina nem sequer é competente o suficiente para citar uma palavra corretamente num relatório. Mas vá, admita-se que o que estava em causa era a expressão «e quem não salta é lampião».

Mas nesse caso, o que significa ao certo «lampião»?


Algo está aqui a faltar nos dicionários Porto Editora. Vejamos. «Quem não salta é uma lanterna», é ofensivo? «Quem não salta é um poste de iluminação pública», é pejorativo? Onde está exatamente a ofensa em «lampião»? Cabe a quem escreveu o relatório e quem atribuiu um castigo ao FC Porto com base nele o esclarecer.

Sim, nas trocas de bocas entre adeptos, os benfiquistas são tratados muitas vezes por lampiões, e os portistas por tripeiros. Nesse caso, se «lampião» é uma palavra que motiva um castigo, onde está o castigo aplicado ao Benfica quando os adeptos, em pleno jogo, decidiram cantar «tripeiro, cabrão»?


Relativamente à segunda expressão que é invocada, o «filhos da puta SLB». Por mais absurdo que seja os adeptos do FC Porto estarem a pensar no Benfica quando a sua equipa está a golear o Nacional (o tempo é sempre mais bem aplicado em apoio à equipa do que em ofensa ao adversário - sobretudo ao adversário que nem sequer está em campo), onde esteve a coerência do Conselho de Disciplina durante o último Benfica x FC Porto?


Antes de cada pontapé de baliza, os adeptos do Benfica gritaram «filho da puta» dirigido a Iker Casillas, guarda-redes do FC Porto. Houve menção disso no relatório de jogo? Houve castigo com base na mesma ofensa? Ou o tratamento é diferente entre os adeptos do FC Porto e do Benfica?

Antes de pagar qualquer tipo de multa, o FC Porto só tem que invocar estas questões e precedentes. E a Porto Editora tem que atualizar o seu dicionário. 

PS: Uma vez mais, o FC Porto volta a receber multas por culpa dos petardos nas bancadas. Ou a(s) claque(s) assume(m), de vez, o fim desta brincadeira que no final da época custa dezenas de milhares de euros ao clube, ou então talvez seja boa ideia o FC Porto começar a apresentar essas faturas aos responsáveis pelo lançamento de petardos. Não digam que não é possível organizar uma coreografia ou falanges de apoio expressivas e pujantes o suficiente sem petardos. Se não é, nesse caso, o FC Porto já sabe a quem tem que apresentar as próximas faturas pelo lançamento de material pirotécnico. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Sete a zero

Não é todos os dias que se vence por 7-0 no Campeonato - e prova disso é que o FC Porto não o fazia desde 1999. Mas não só: ter o melhor ataque, a melhor defesa e depender de si próprio na luta pelo título a 10 jornadas do final é excelente, sobretudo para quem se recorda do aperto que se sentia aos 90 minutos do jogo frente ao SC Braga, onde o FC Porto parecia incapaz de marcar um golo que fosse.

Contra o Nacional, foi um festim. Ressaltos, bola a bater nos defesas, no guarda-redes e a entrar de qualquer maneira. Desde esse jogo frente ao SC Braga, o FC Porto fez 37 pontos em 39 possíveis. Só falhou mesmo na visita ao Paços de Ferreira (0x0). E é curioso precisamente lembrar o que foi o caudal ofensivo da equipa nesse jogo.

Em Paços de Ferreira, o FC Porto rematou 23 vezes, criou 14 ocasiões, ganhou 14 cantos e foi 59 vezes à grande área adversária. Contra o Nacional, rematou 25 vezes, criou 18 ocasiões, ganhou 4 cantos e foi 39 vezes à grande área. A diferença? Não só a eficácia, mas também maior ambição e objetividade na procura da baliza adversária.

O minuto 66 foi o mais marcante de todo o jogo: o momento em que NES, já com o resultado feito, retira Danilo, lança Diogo Jota e dá um sinal claro à equipa de ir para cima do adversário e marcar mais golos. Bem diferente do FC Porto que se resguardava à vantagem mínima, mesmo em casa, mesmo contra 10. Não é bater em mortos: é ter ambição, é querer mais golos, é querer jogar melhor, é querer favorecer o espetáculo quando o resultado já está feito. 

É deixar-nos a querer mais do mesmo já na sexta-feira, em Arouca.




Óliver Torres (+) - Um perfeito exemplo do que acontece quando Óliver tem a possibilidade de passar mais tempo no meio-campo adversário do que nos primeiros 40 metros. 90% de acerto no passe, três ocasiões de golo criadas, um golo, 16 ações defensivas e uma incrível capacidade de jogar em toda a largura do terreno. Jogou e fez jogar, e fez dois jogos completos seguidos pela primeira vez desde outubro. No que resta desta luta, será essencial que faça muitos mais.

Na grande área (+) - O que têm em comum os golos de André Silva e Soares? Estão ambos na grande área enquanto um deles está a marcar. Apesar de André Silva ter jogado muitas vezes pela faixa direita, a dinâmica da equipa permitiu que os dois pontas-de-lança, no momento do último passe ou do cruzamento, estivessem ambos posicionados na grande área para finalizar. Quando assim é, a bola acaba por entrar, e prova disso foi o festival de ressaltos e desvios que acabou sempre com a bola na baliza. Além disso, apesar do FC Porto ter criado diversas situações de finalização, tendo sempre colocado muita gente na grande área, a equipa raramente foi apanhada em contrapé. O Nacional fez apenas um remate, que mal aqueceu as mãos de Casillas. Impecável.

Brahimi (+) - É verdade que foi o jogador com mais perdas de bola, mas isso também está relacionado com a insistência em forçar o 1x1 - ou até o 1x2. E ainda bem que o fez, pois foi responsável por metade dos dribles eficazes da equipa (10), foi constante sinónimo de perigo no lado esquerdo, arrastou marcações, abriu espaços, contribuiu com um golo e aparenta estar mais forte fisicamente, pela forma como consegue segurar a bola e ser agressivo na pressão. Se esta não é a melhor versão de Brahimi que o FC Porto já teve, anda lá perto. E se é certo que fez muita falta na primeira metade da época, pode fazer a diferença no que resta da temporada.



sexta-feira, 3 de março de 2017

O relatório e contas do primeiro semestre 2016/17

Depois da ausência de contas no primeiro trimestre, a SAD, seguindo a data limite imposta pela CMVM, deu a conhecer os primeiros detalhes do desenrolar da época financeira 2016-17. O R&C do primeiro semestre compreende todas as operações da SAD efetuadas entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2016 (exclui portanto o fim do pagamento do Estádio do Dragão e todas as operações do mercado de inverno). Passemos então à análise, tendo sempre presente aquilo que é previsto no orçamento desta época

A SAD chegou ao final dos seis primeiros meses da época com 29,58M€ de prejuízo. Está orçamentado um resultado positivo de 2,7M€ no final da temporada. O prejuízo é explicado por a SAD ainda não ter gerado qualquer mais-valia com transferências de jogadores no período em análise. 

É de recordar que a SAD, no orçamento, definiu a necessidade de «Proveitos com transações de passes de jogadores» no valor de 115,781 milhões de euros (para fazer face a custos de 47,2M€). Tendo em conta que a alínea das alienações de passes ficou em branco no primeiro trimestre, isso já deixa claro sobre o que será necessário até ao final de junho. Mas quem afirmou sem rodeios que recusou uma proposta de 30M€ por Héctor Herrera não há-de ter problema nenhum em fazer essas vendas antes do final de junho. Pois não?

Os proveitos operacionais atingiram os 58,76M€ nos primeiros seis meses. Todas as rubricas estão relativamente dentro do previsto - na Liga dos Campeões o FC Porto já atingiu os seus objetivos, e mesmo que seja afastado pela Juventus vai atingir os previstos 30M€ em receitas da UEFA. Há a assinalar que a SAD conseguiu, até ao momento, 42,9% das receitas de publicidade previstas, por isso a receita terá que aumentar significativamente no que resta da temporada.

Proveitos do primeiro semestre 2016-17
Em relação aos custos, destaque para o facto de o plantel desta época ser mais caro do que o da temporada passada, pelo menos nos primeiros 6 meses da temporada. Os custos com pessoal foram de 38,90M€ até ao final de dezembro, sensivelmente mais 2M€ do que na época passada. Os custos aumentaram nas seis alíneas especificadas no ponto 19, desde os órgãos sociais aos seguros. 

Este valor não vai propriamente ao encontro do que estava previsto no orçamento, que eram custos com pessoal de 69,51M€. Se os custos dobrassem no segundo semestre, isso resultaria em gastos de 77,8M€, muito acima do que estava orçamentado. Com os ajustes no mercado de inverno, veremos se esta rubrica será cumprida. Quanto aos restantes custos operacionais, tudo dentro da expetativa e do que estava orçamentado.

Custos operacionais do primeiro semestre 2016-17
Nos resultados operacionais sem transferências de jogadores, o prejuízo é de 4,96M€, bem inferior aos 19,64M€ do primeiro semestre de 2015-16. A diferença está essencialmente nas receitas da UEFA. 

Chegamos então ao capital próprio e a um dos focos mais negativos deste R&C: todos os efeitos gerados pela operação Euroantas, de incorporação do Estádio do Dragão na SAD, já se esfumaram. A SAD voltou a apresentar capitais próprios negativos, de 3,449M€. Há dois anos, depois da operação Euroantas, os capitais próprios eram de 56,6M€. E no final da temporada 2014-15, chegaram aos 83,1M€, um valor excelente. Neste momento, a SAD, com capitais próprios negativos, volta a pairar numa situação de falência técnica, o que infelizmente mostra que a operação Euroantas não foi mais do que aquilo que se temia na altura - um empurrar de problemas com a barriga. Uma situação que terá que ser retificada não só até ao final de junho, como nos exercícios seguintes. 

O ativo mantém-se praticamente inalterado face há um ano, no valor de 374M€. A principal alteração está nos ativos correntes, agora situados em 97,7M€. E chegamos a outro problema: à subida abrupta do passivo, que está a chegar a números preocupantes. 

O passivo estava, no final de dezembro, fixado em 377,5M€. No final da época 2012-13, a última em que o FC Porto foi campeão nacional, o passivo era de 220 milhões de euros. Ou seja, o passivo aumentou 71% desde a última conquista de um campeonato. Em 2010, por exemplo, o passivo era de apenas 160M€. Estamos a falar de um aumento de mais do dobro desde que se iniciou a dourada época de 2010-11, em que o FC Porto começou a gerar vendas milionárias como nunca, de Hulk a Falcao, de Mangala a James, etc. Resultado? Mais do dobro do passivo. 

O passivo, dirão alguns, não se paga, gere-se. Sim, até ao dia. O presidente Pinto da Costa afirmou, em 2013, que «quem vier a seguir basta não estragar». Desde essa afirmação o passivo da SAD aumentou mais de 150 milhões de euros. E desde esse ano, nem um título para amostra. 

Quanto às aquisições, o FC Porto gastou 47,47M€, com comissões de 4,2M€, em seis jogadores: Óliver, Alex Telles, Boly, Depoitre, Otávio e Govea. 

Óliver começa por ser uma surpresa. Primeiro, por os 20M€ corresponderem a apenas 85% do passe. Segundo, por a SAD já ter incluído a compra de Óliver nas contas do primeiro semestre, indicando que o seu passe foi comprado em setembro. Um tanto confuso, tendo em conta que só anunciaram a sua compra a 9 de fevereiro. Boly e Alex Telles custaram 6,5M€ cada por 100% do passe, enquanto Depoitre custou 6M€ por 90%, valores já esperados. 

O caso de Otávio também é uma surpresa, com a SAD a ter comprado mais 20% do seu passe por 2,257M€. A SAD já tinha a opção de comprar mais 20% à GE Assessoria Esportiva e 15% do pai de Otávio. A soma destes 35%, no acordo oficial, custariam mais 5M€ ao FC Porto. Para já, a SAD passa a ter 52,5% de Otávio. Destaque também para a compra de Govea, por 2M€ ao América, pela totalidade do passe. Uma compra que obriga a que Govea seja pelo menos incluído nos trabalhos de pré-temporada da equipa principal para 2017-18. Govea tem revelado valor acima da média na equipa B, apesar da má época que está a ser feita pela equipa na Segunda Liga. 

Uma vez mais, a SAD declara mais do que uma entidade por jogador (pelo menos entre os que são declarados neste R&C) na hora do pagamento de serviços de intermediação. Voltaremos a eles numa análise futura, mas assinale-se já a curiosidade de a Energy Soccer receber 244 mil euros de comissão pelo empréstimo de Aboubakar ao Besiktas. Uma vez mais, a Energy Soccer aparece como intermediária de um jogador que não representa. 

A SAD tem a receber pouco mais de 40M€ de outros clubes por venda de jogadores, dos quais apenas 8M€ do São Paulo (sem surpresa) não são uma verba corrente. É possível ver dívidas de 190 mil euros do Villarreal (por Adrián), 250 mil do Trabzonspor (por Suk) e 600 mil do Espanyol (por Reyes), mas mantém-se a curiosidade em torno da Doyen: mantém-se uma dívida de 2,788M€, pela alienação do passe de Brahimi. Por norma, a alienação de passes permite assegurar receitas para o curto prazo; neste caso, alienou-se o passe de Brahimi à Doyen para nada, pois a SAD não tinha tocado neste 2,788M€ até ao final de dezembro (importa no entanto lembrar que a dívida ao Granada, ex-clube de Brahimi, também se mantém nos 3,332M€ - o que não será de todo uma coincidência). 

Por outro lado, a SAD tem ainda a pagar mais de 75M€ a outros clubes/entidades por jogadores já presentes no plantel, dos quais 52M€ no prazo de um ano. É possível desde já constatar que a SAD terá a pagar 5M€ ao Atlético de Madrid até dezembro de 2017. Tendo em conta que, tecnicamente, o contrato de Óliver com a SAD só seria efetivado a partir de 1 de janeiro de 2018... Confuso. A situação dos restantes Fornecedores será merecedora de uma análise mais detalhada futuramente. 

Em relação à situação bancária, a SAD abriu cinco novos contratos de factoring entre outubro e dezembro, que superam os 35 milhões de euros e apenas um será liquidado ainda na corrente época - 6M€ ao já bem conhecido Bankhaus Bodensee. E o reembolso será, precisamente, a verba a receber da UEFA pela eliminatória contra a Juventus, uma prática já muito recorrente na gestão da SAD, de tentar antecipar o máximo de receitas possível - e com isso nunca tirar o máximo de proveito das mesmas, na medida em que há sempre juros a pagar. 

Mas além do Bankhaus, a SAD fechou um empréstimo de 6M€ com o Novo Banco e um de 18,578M€ com o Ectonian AG, este último com termo em 2019. E é aqui que entram as maiores preocupações. Em ambos os casos, a liquidação está prevista com o dinheiro dos direitos televisivos: a PPTV no caso do Novo Banco, dentro de seis meses, e o maior contrato de factoring já através da Altice, com o dinheiro de «épocas futuras», diz a SAD. 

E no que toca ao adiantamento de receitas, o maior destaque neste R&C é este:


O contrato com a Altice, pelos direitos televisivos e de exploração, só tem início a 1 de julho de 2018. Mas a SAD já dá conta de um adiantamento bastante significativo. Estamos a falar do recurso a 12,5% do valor total do contrato com a Altice um ano e meio antes do mesmo entrar em vigor. 

Fernando Gomes chegou a afirmar que o contrato com a Altice/PT ia permitir «gerir o FC Porto de maneira diferente». Pois. Diferente é a palavra, mas não para melhor. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Derby à moda do Porto

Estas sabem melhor do que qualquer recital que termine em goleada. Um derby no verdadeiro sentido da palavra. A raça, a garra e o crer a terem que se sobrepor à qualidade durante grande parte do jogo. A motivação e determinação que crescem à medida que o campo inclina, com o patrocínio do jovem árbitro a quem um dia chamámos «um wonderboy apropriado para Maxi Pereira» - e que agora ironicamente o expulsou.

Boavista, aquele Boavista de que tanto gostamos: sarrafeiros, sujos, a olharem para nós como se tivessemos canela até ao pescoço. Esta é a imagem de marca do Boavista nos derbys. E que gozo nos dá vencê-los após estas circunstâncias. Não imaginamos um Boavista de nenhuma outra forma. Ajudam a apimentar os derbys desta forma, diga-se. 

Este tipo de jogos só servem para enrijecer os jogadores. Não viram ninguém a encolher-se, a tirar o pé, a deixar-se afetar pela pressão. Pelo contrário: foi uma prova cabal do espírito deste grupo de trabalho, que teve como consequência uma boa vitória.




Óliver e o golo (+) - Tão simples, tão difícil, tão bom: toda a inteligência de Óliver neste lance, mas também um exemplo de como toda a equipa foi capaz de estar bem colocada nesta jogada. É Marcano, longe de grande área, que vai junto à linha obrigar a puxar o lateral-esquerdo. Com isso, abriu-se um enorme espaço na zona interior para Corona - que está sempre em posição regular pois Brahimi e Soares estão a empurrar a linha defensiva. O passe de Óliver é sublime, pois foi capaz de esperar pelo melhor momento para aproveitar a melhor solução. O seu passe deixa para trás 3 jogadores do Boavista e coloca Corona numa posição perfeita para cruzar. Nuno pode imaginar mil e uma formas para o FC Porto jogar, mas pode ter a certeza de uma coisa: Óliver e mais 10. E com Óliver em campo, quem está à sua volta jogará sempre melhor.

As zonas de ação de Óliver contra o Boavista
A partir daqui, o cruzamento de Corona foi perfeito, a fazer a bola cair entre o guarda-redes e o último defesa, para Soares aparecer. E este não é um golo em que era preciso encostar: Soares está sozinho na grande área. Corona só o tinha a ele para finalizar. A bola foi lá direitinha, mas Soares soube atacar o espaço certo - Brahimi já estava, também ele muito bem, pronto para a segunda bola nas costas. Um excelente golo, e com uma boa jogada ganhou-se o derby.


Iván Marcano (+) -  O Boavista teve quatro tentativas de remate à baliza: duas foram defendidas por Casillas... e as outras foram cortadas por Marcano. Continua numa forma irrepreensível: o seu sentido posicional é simplesmente perfeito. Tem estado sempre bem colocado, chega a todas as bolas, voltou a ganhar todos os lances pelo ar e ajudou a que Boly também fizesse um jogo positivo. Um percurso à Pedro Emanuel: chega ao FC Porto numa idade já avançada, sem que dêem muito por ele, começa de forma algo intermitente na equipa, agarra o lugar e torna-se indiscutível não só pela sua qualidade, mas pela forma como personifica tudo o que os adeptos querem ver num central. Se quiser bater um penaltyzinho decisivo, a malta também agradece. 

Brahimi (+) - Brahimi completou 10 dribles durante a partida - a equipa toda do Boavista teve 9 e os jogadores do meio-campo para a frente do FC Porto também 9. Isto mostra bem a influência e o que distingue Brahimi. Mas não são fintas inconsequentes, ou voltas de 360º: Brahimi vai para cima dos defesas com objetividade, a partir do lado esquerdo, descompõe toda a defesa adversária e tentou sempre servir os colegas - não rematou nenhuma vez, algo que também lhe faltou, pois andou sempre à procura de alguém na grande área. Como é que conseguimos chegar até meio da época sem tirar proveito do seu talento, e mantendo-se na luta pelo título, será sempre um mistério.

A corrida de NES (+) - O melhor momento de Nuno Espírito Santo ao serviço do FC Porto: a forma como se impôs, de imediato, na defesa a um dos seus. Corona foi anjinho, podia ter ali arranjado sarilhos dos grandes (Talocha devia ter sido expulso, mas Corona podia ter prejudicado toda a equipa por ter reagido a quente - e acabou por estar na origem da expulsão do treinador), mas foi muito bom ver NES a reagir, de pronto, na defesa a um dos seus jogadores. Treinador que esteja sempre na linha da frente na defesa ao seu plantel, independentemente de todas as limitações táticas, terá sempre apreço pela sua liderança. Um gesto que valeu mais do que 50 conferências de imprensa monocórdicas e politicamente corretas. NES foi mais Porto naquele sprint do que em 70 repetições de «Somos Porto» ou «o Dragão é a nossa fortaleza». Um gesto vale mais do que mil palavras. 




A rever (-) - Brahimi estava a ser forte nos movimentos interiores - e com isso, ia abrir-se espaço do lado esquerdo. Normalmente, essa lacuna é preenchida com a subida do lateral-esquerdo. Mas o que vimos foi que Soares passou a maior parte do jogo encostado ao lado esquerdo. Uma vez mais, isso é expor Soares a um trabalho que não deveria ser o seu. Esse desvio de posição fez dele o jogador com mais perdas de bola e com apenas um lance ganho em 1x1 entre os 14 que tentou disputar.

Soares está de pé quente, tem que ser aproveitado na grande área. A primeira e única bola que lhe deram deu em golo. Estar sucessivamente encostado ao flanco acaba por o prejudicar, embora seja nítido, desde o início da época, que NES vai sempre pedir isso ao seus avançados. Soares está a superar as expetativas neste seu arranque no FC Porto, mas se querem fazer dele o que não é, isso acabará por prejudicar o jogador. Entre os 14 golos de Soares na Liga, 13 foram marcados no enquadramento entre a marca de penalty e a baliza (a exceção foi o golo ao Tondela). Junto ao flanco, está a ser o jogador com mais perdas de bola. Quanto mais perto estiver da grande área, melhor. 

Ainda neste âmbito, o FC Porto perdeu muito na segunda parte com a saída de Corona. Pois Corona estava a conseguir dar muita largura do lado direito. Com a entrada de Jota, o FC Porto afunilou demasiado o seu jogo - forçou Maxi Pereira a subir mais vezes e a falta de pernas fez-se notar na segunda parte. É certo que o FC Porto não tem outro extremo direito no plantel, não com as caraterísticas de Corona, mas era necessário procurar dar maior largura naquela fase.

Além disso, houve pouca gente a chegar a zonas de finalização. Entre os médios do FC Porto, só houve um toque na grande área adversária, de Óliver. Os três médios passaram a maior parte do jogo atrás da linha de meio-campo (André André começou por pressionar muito à frente, mas adiantava-se apenas no momento defensivo, deixando sempre um vazio que só Brahimi preenchia com os movimentos interiores). Corona e Brahimi não remataram nenhuma vez, o que mostra que o FC Porto, apesar de ter tido boas oportunidades, meteu pouca gente em zonas de finalização e faltou mais gente a rematar.

O Boavista, aliás, foi mais vezes à grande área do FC Porto do que o contrário - ainda que tenha criado menos lances de perigo, mas Casillas revelou-se, uma vez mais, decisivo no pouco que teve que fazer. Num derby, sobretudo jogado da forma a que o Boavista obrigou, é sempre complicado e o que importa é vencer. Mas vêm aí jogos em que a raça, o crer e a determinação não vão chegar. Não é preciso muito: basta multiplicar aqueles 15 minutos iniciais.