quinta-feira, 31 de março de 2016

Pérolas da Nigéria

A notícia da renovação do contrato de Chidozie até 2020 deu, desde logo, uma novidade: o facto de Chidozie já ser efetivamente jogador dos quadros do FC Porto, e não emprestado por outro clube. Uma renovação que se saúda, embora desconhecendo os moldes da mesma e a repartição do passe do atleta na SAD.

Chido até 2020
Chidozie fez uma época algo banal no seu primeiro ano nos sub-19, onde não revelou nenhum potencial por aí além a jogar a médio-defensivo, mas após ter sido adaptado a central as coisas começaram a mudar. Fez algumas boas exibições na equipa B, ganhou a confiança de José Peseiro e foi lançado às feras na equipa A - é certo que só jogou por não haver mais ninguém, mas Peseiro teria sempre outras possíveis soluções em vista, como adaptações. Ainda assim não deixou de confiar em Chidozie.

Chidozie cometeu os erros próprios da sua idade e inexperiência, mas mostrou que tem caraterísticas interessantes para ser um bom central. O contrato até 2020 vai permitir-lhe, se necessário, ter uma época de rodagem noutro clube e dá tempo e condições para trabalhar o seu potencial. Sem dúvida um jogador a merecer um pequeno investimento. Quanto? Boa questão.

Chidozie vem do El-Kanemi, um clube pouco conhecido. Segundo o Transfermarkt, este clube nunca fez dinheiro com transferências - o seu negócio mais mediático foi a venda de Samson Siasia ao Lokeren, isto em 1987. Num clube que nunca fez grandes negócios, vender agora Chidozie por 1 ou 2M€ seria um autêntico jackpot. Pelo que só podemos admitir que o FC Porto conseguiu Chidozie por uma autêntica pechincha. 

Haverá sempre a questão sobre se Chidozie foi contratado diretamente ao El-Kanemi ou se o seu passe foi adquirido já junto de um grupo de investidores/empresários, mas isto será certamente esclarecido a seu tempo pela SAD, tal como a eventualidade de Chidozie ter sido descoberto pelo mesmo grupo de scouting que trouxe Mikel ou Atsu.

É fundamental, para o futuro do FC Porto, que a SAD fique com 100% do passe dos jovens que recruta. Estamos a falar de jogadores muito jovens, que são contratados por quantias baixas. Não há necessidade absolutamente nenhuma de avançar para alienações de passes quanto estamos a falar de transferências tão baixas.

Um terço de talento
Tomemos o exemplo de Chidera Ezeh, outro nigeriano do FC Porto, que está no clube desde 2013 mas teve que esperar pelo 18º aniversário para começar a surgir nos Sub-19, com contrato profissional assinado. Foi uma das revelações do Mundial de Sub-17 e chegou ao FC Porto proveniente do River Lane, da Nigéria.

Em relação a esta operação, o FC Porto informou apenas ter uma dívida de 375 mil euros ao River Lane, que foi paga na época 2014-15. É fácil prever que este pagamento deveu-se a Chidera, mas não é claro que a totalidade do seu passe tenha custado 375 mil euros, pois a SAD pode ter pago algum valor no momento da contratação.

Mas neste momento a SAD já só tem 35% de Chidera Ezeh, pois cedeu 65% à For Gool, entidade ligada a Teodoro Fonseca. Desconhece-se que valor rendeu essa alienação. Mas recuperar 30% do passe custa 600 mil euros (opção até ao fim de 2016-17). Há uma opção de comprar mais 25% enquanto Chidera for jogador do FC Porto, mas essa já custa 1M€. Ou os 100% de Chidera custaram bem mais do que os 375 mil euros que estavam na rúbrica fornecedores, ou o passe do jogador já saiu altamente desvalorizado nesta alienação (feita muito antes de Chidera poder jogar nos Sub-19), com a opção de recuperar 55% a custar 1,6M€

Outro exemplo é Mikel, que está ligado ao FC Porto desde 2009, mas só pôde começar a jogar dois anos depois. Um miúdo que sempre se destacou pela sua capacidade de trabalho - rezam as crónicas que ninguém se aplicava mais do que ele nos treinos, motivo pelo qual todos os treinadores desde Jesualdo o chamavam para treinar na equipa A, mesmo que nunca o convocassem.

Ndubisi Mikel Agu
Mikel, a revelação
Mas Mikel, entrando no campo da opinião, nunca revelou qualidades para ser jogador da equipa A. Curiosamente, passou pelo menos processo que Chidozie: após tantas exibições sofríveis a médio-defensivo, Luís Castro meteu-o o central. Melhorou, embora no FC Porto B seja bem mais fácil jogar a central do que a médio-defensivo (a diferença entre só ter que destruir e ter que construir). Mas Mikel nunca mostrou grande evolução, embora tenha tido o azar de partir a perna logo no primeiro treino com Lopetegui (para quem gosta de alimentar mitos, Rúben Neves estava nesse treino, ou seja, Lopetegui não chamou Rúben Neves só porque Mikel se lesionou).

Mikel foi emprestado ao Club Brugge e tem sido... «uma revelação». Quem o disse foi o jornal A Bola, a 3 de fevereiro: «Grande revelação do campeonato belga», escreveram. O problema é que vamos ver os números de Mikel no Club Brugge e chegamos a uma simples conclusão: ainda só fez 2 jogos pelo clube, ambos em janeiro e contra duas das equipas mais fracas do campeonato. Estamos habituados a que o jornal A Bola considere que um jogador seja uma «grande revelação» ao fim de 2 jogos, mas foi a primeira vez que vimos A Bola fazer isso com um jogador do FC Porto. Simpatia galática

Mikel tem contrato até 2017 e pouco ou nada recomenda a sua renovação - até porque Mikel já chegou a renovar contrato duas vezes na mesma época desportiva, mas não tem mostrado grande evolução. Não fará sentido renovar mais uma vez para o emprestar em 2016-17. Vai fazer 23 anos, não é caso perdido, mas está desde 2009 a treinar perto da equipa A, fez duas épocas na equipa B (três com a da lesão), já renovou várias vezes contrato e vai para o 5º ano de sénior. Se os jovens da formação do FC Porto (isto é, os que começam nas escolinhas, nos iniciados ou nos juvenis) tiverem um terço da paciência e oportunidades que Mikel teve, de certeza que não se desperdiçará um único talento da formação do FC Porto.

Em 2012, a SAD alienou 10% do passe de Mikel, ao SIF, por 101,875 mil euros (a mesma operação que Edu Silva, do Penafiel). Neste momento a SAD terá 55% do seu passe, pois no início de 2014 foram cedidos mais 10% à SIF. Entretanto a Sans Souci ficou com 25% da receita líquida de uma futura venda, à luz de um protocolo, e o clube «Megapp» ficou com 10%. O caso de mais um jovem nigeriano contratado em tenra idade com o seu passe alienado.

A não repetir
Mas em relação a Chidozie, o maior termo de comparação (não em relação à qualidade), não sendo da mesma nacionalidade, será Abdoulaye. O FC Porto também foi buscá-lo a África em tenra idade e está desde 2008 ligado ao FC Porto. Ou seja, quase uma década, e poucos lhe reconhecem capacidade para vir a ser um central de equipa grande (já tem 25 anos e não aproveitou os empréstimos ao Rayo e ao Fenerbahçe para mostrar qualidade). 

Não se sabe quando expira o contrato de Abdoulaye - tinha contrato até 2016, mas por norma o FC Porto não deixa jogadores emprestados ficarem em fim de contrato, pelo que não se sabe se Abdoulaye renovou antes de sair. Se não renovou, também não valerá a pena fazê-lo agora, de todo. Por outro lado, dizia Abdoulaye, em 2012, que o seu empresário lhe tinha comunicado que havia o interesse de Benfica, Liverpool e Dortmund na sua contratação. Assim sendo, não haverá problema em recuperar o investimento no seu passe.

Embora tenha sido contratado enquanto júnior do Senegal, 60% do passe de Abdoulaye eram propriedade da Unifoot, de José Caldeira, segundo o R&C da SAD de 2010-11. Mas no R&C de 2012/13, o FC Porto informou que comprou 60% à Pearl Design, com um custo total de 1,1M€. Estávamos a falar de um júnior oriundo do Senegal. Votos de que seja uma situação bem diferente da de um júnior oriundo da Nigéria. 

Pergunta(s): Que futuro para Abdoulaye, Chidozie, Mikel e Ezeh no FC Porto?

quarta-feira, 30 de março de 2016

Onde há fumo há fogão

Energy Soccer, empresa de agenciamento de Alexandre Pinto da Costa, fundada em 2012

--- ROLANDO--- 
100 mil euros de comissão pelo empréstimo ao Nápoles
Comissão acrescida de IVA: 123 mil euros
Comissão de 60 mil euros pelo empréstimo ao Inter (que por sua vez pagou 75 mil à ES)

Valor pago pelo FC Porto acrescido de IVA: 73,8 mil euros
10% do valor a receber pela venda de Rolando ao Marselha (150 mil euros de 1,5M€)

--- CHRISTIAN ATSU ---

150 mil euros de comissão pela venda ao Chelsea

Valor acrescido de IVA: 184,5 mil euros

--- RICARDO QUARESMA ---

Pagamento de 500 mil euros de comissão na transferência a «custo zero»

Garantia de receita de 10% do valor pago pelo Besiktas em variáveis
Pagamento de 156 mil euros de comissão pela venda ao Besiktas

--- ÁLVARO PEREIRA --- 


Pagamento (pela IG Teams & Players) de comissão + IVA pela venda de Álvaro Pereira

--- CARLOS EDUARDO ---
100 mil euros de comissão pela compra ao Estoril
Pagamento por parte do Estoril, de 180 mil euros

Pagamento do FC Porto acrescido de IVA: 123 mil euros

Mais-valia de 10% atribuída pelo Estoril

--- FEDERICO VARELA (EQUIPA B) ---

Pagamento de 70 mil euros por um jogador «livre». SAD só tem 50% do passe

--- EXTRA TRANSFERÊNCIAS: AÇÕES DA FC PORTO, SAD ---



À margem das transferências: a Investiantas SGPS (que chegou a deter 12% do capital da SAD), aqui representada por Pinto da Costa e Adelino Caldeira, transferiu todas as suas ações da SAD do FC Porto para a Energy Soccer, de Alexandre Pinto da Costa, em dezembro de 2014, por 1,254 euros (60 cêntimos por ação).

--- CASEMIRO ---

Resumo do Record: o Football Leaks entretanto já publicou todos os documentos
O Football Leaks acusou o FC Porto de colaborar num «esquema para financiar Alexandre Pinto da Costa». Num clube tão preocupado - ou com gente tão preocupada - com blogues anónimos, só podemos esperar que amanhã o FC Porto esteja a título oficial a reagir e desmentir esta acusação do Football Leaks, que é gravíssima.

Em relação ao negócio Casemiro, o Football Leaks diz haver uma celebração de contratos pré-datados. Os contratos começaram a ser discutidos em setembro, foram assinados em dezembro/janeiro de 2015 e ficaram com datas anteriores à sua celebração, de modo a mostrar que eram algo já pensado e planeado e não uma justificação montada para a transferência de dinheiro. Uma acusação gravíssima do Football Leaks, portanto.

Ou seja, segundo o Football Leaks, o facto de o Real Madrid ter acionado a cláusula de retorno de Casemiro não tem nada a ver com os contratos de scouting (a tal moda que já tinha sido comentada) que o FC Porto fez com a Vela, que por sua vez transferiu o dinheiro para a Energy Soccer e para a Pesarp SGPS. É fácil também identificar esta segunda entidade:

Energy Soccer, informação legal disponível
Casemiro já era jogador do FC Porto e já começava finalmente, após muita insistência de Lopetegui e muito desespero dos adeptos, a render a um nível aceitável. Finalmente percebia-se que estava ali a surgir um jogador capaz de jogar numa equipa grande. E aí sim terão sido celebrados estes contratos de scouting. Mal podemos esperar para ver todos os craques que a Vela, leia-se Doyen, vão apresentar ao FC Porto por 300 mil euros em despesas de observação. Não é preciso José Peseiro ou os olheiros do FC Porto se preocuparem mais: a Vela faz a papinha toda.

De recordar que o FC Porto informou, no R&C de 2014-15, que os «custos com serviços de prospecção de mercado» enquadravam-se na secção «Trabalhos especializados», nos Fornecimentos e Serviços Externos. Ora em 2010-11, ano de conquista da Liga Europa e de uma época memorável, esses «Trabalhos especializados» custaram 3,595M€. Em 2014-15, os «Trabalhos especializados» tiveram custos de 11,813M€.

Se O Tribunal do Dragão já teve honras de repreensão oficial, então o Football Leaks, que acusa o FC Porto de atos gravíssimos que não se enquadrariam em nenhum tipo de gestão legítima, está tramado: o FC Porto vai certamente desmentir todo e qualquer tipo de irregularidade, reivindicar a legitimativamente de todas estas operações e agir judicialmente contra o atentado ao bom nome da SAD do FC Porto. A não ser, claro, que O Tribunal do Dragão seja o culpado de tudo isto. Nunca se sabe.

Recordando a palavra do presidente, há dois meses: «O meu filho não é pelo facto de ser meu filho que não pode ter a profissão que entender. Entrou numa sociedade de agenciamento de jogadores. Se tiver jogadores que interessem ao FC Porto a todos os níveis, não é por ele ser o agente que eu vou deixar de os contratar. Mas digo-lhe francamente, creio que não há nenhum jogador do FC Porto, tirando um miúdo dos juniores - que eu sei que foram eles que o trouxeram, esse sei porque foi tratado comigo porque era um jogador que nos interessava e que ainda hoje é júnior -, creio que não há nenhum jogador do FC Porto no nosso plantel de que ele seja agente ou empresário, como queira considerar».

De facto, Pinto da Costa disse a verdade: Alexandre Pinto da Costa não é empresário de nenhum dos jogadores da equipa A. Mas a Energy Soccer, que foi fundada apenas em 2012 (após pai e filho se terem reaproximado e feito as pazes) e tem um capital social de 10 mil euros, já recebeu, diretamente ou indiretamente, da SAD do FC Porto cerca de 2M€, excluindo eventuais futuras receitas por variáveis e verbas pagas por outros clubes/entidades a envolver jogadores do FC Porto. E fê-lo intermediando transferências de jogadores que inicialmente não eram, sequer, agenciamentos pela Energy Soccer, embora esta tivesse sido delegada para os efeitos de intermediação dos contratos, ou através deste negócio Casemiro.

Aqui fica o aplauso a Alexandre Pinto da Costa, um empresário de sucesso (embora se desconheça que alguma vez tenha feito um negócio relevante sem envolver o FC Porto, até porque a Energy Soccer oculta a sua lista de jogadores). Bernardino Meireles passou toda a sua vida enganado: o futebol é que é. De facto, há os que querem dividir o clube, e há os que enriquecem às custas do clube, ao mesmo tempo em que este não conquista títulos, assume prejuízos recorde e distancia-se da sua identidade, dentro e fora de campo. Ou isto é tudo uma grande invenção do Football Leaks para desestabilizar o FC Porto. Está tudo bem. Pelo menos na rua Rua António Nicolau de Almeida, está tudo bem. 

terça-feira, 29 de março de 2016

Que futuro para Quintero?

FC Porto continua a investir
Não há um único portista que alguma vez tenha duvidado do talento de Quintero. Vimo-lo no Mundial de Sub-20, naquela entrada no Bonfim na primeira jornada de 2013-14, na forma como se abriam mil possibilidades quando a bola encontrava o seu pé esquerdo. Todos sabem que Quintero é um jogador de enorme potencial. Só há um grande problema: é exatamente o mesmo jogador que o FC Porto contratou há quase três anos. Ou seja, muito potencial, muitas expetativas, mas nenhuma evolução ou rendimento e não mais do que um protótipo de jogador.

As notícias que o apontam ao Internacional não fazem o menor sentido na perspetiva de reintegrar Quintero no plantel principal do FC Porto. Quantos jogadores é que o FC Porto recuperou depois de os emprestar a clubes brasileiros? Pois.

Mas a partir do momento em que Quintero, em janeiro, renovou com o FC Porto até 2021 (ou seja, renovou por mais quatro anos), só se poderia admitir que o clube tencionasse reintegrá-lo no plantel principal no curto prazo. Ir para o Brasil, seja por dois meses ou um ano, não vai ajudar Quintero a evoluir no sentido de ganhar estofo para jogar no FC Porto.

Argel ainda não aparenta ter grande experiência na evolução de jogadores, até porque a sua carreira tem sido marcada por enorme instabilidade: desde o início da carreira de treinador, em 2008, já passou por 19 clubes. O futebol praticado pela sua equipa no Campeonato Gaúcho não impressiona. Teoricamente também não parece haver grande espaço para encaixar Quintero no Internacional, entre jogadores como Anderson, Rodrigo Dourado, Sasha ou Alex. Havia vaga após a saída de D'Alessandro, mas o Inter já contratou outros três jogadores para o miolo.

Além disso, as inscrições para o Campeonato Gaúcho já fecharam. Ou seja, se Quintero for para o Internacional, nem sequer poderá jogar no curto prazo e vai ficar parado à espera que possa ser inscrito na CBF.

O Globoesporte diz que a ideia é ficar com Quintero até dezembro. Ou seja, nem sequer se abriria a hipótese de Quintero ser chamado à pré-época de 2016-17. Mas se Quintero renovou em janeiro, teria que ser tendo como referência planos bem melhores do que o empréstimo a um clube brasileiro. Além disso, diz o Globoesporte que o empréstimo será feito por 200 mil euros. Tendo como referência que ter Quintero durante uma época desportiva completa custa 200 mil euros, também todo e qualquer tipo de sanidade impedirá a crença de que renovar com Quintero tenha custado cerca de meio milhão para o agente Riccardo Calleri. O R&C do FC Porto poderá certamente comprová-lo. 

Dirão que o FC Porto tem que proteger o ativo e defender o seu investimento. Mas há algo que importa ter em conta: Quintero já está pago. A SAD acabou de pagar Quintero, no primeiro semestre de 2015-16. E a SAD tem 100% do passe de Quintero.

Ou seja, não há o problema de a SAD ainda estar presa à obrigatoriedade de ter que pagar mais dinheiro por um jogador para o qual não há planos de médio prazo; e a SAD tem 100% do passe de Quintero, ou seja, não há parcelas de fundos que possam condicionar uma hipotética venda. Quintero é 100% do FC Porto. 

Mas sobra o maior problema de todos eles: o próprio Quintero. Quintero é o principal responsável pelo seu insucesso no FC Porto e na Europa. E estas recentes bocas de Quintero a atacar o treinador do Rennes são mais um exemplo da quase crónica falta de sintonia com os treinadores com quem tem trabalhado.

Quintero no Rennes: os números
Quintero tem muito talento, mas está sempre chateado com o mundo. Não se empenha, não tem a humildade devida, não sabe aproveitar os ensinamentos dos mais experientes e não responde bem aos treinos e aos treinadores.

Os treinadores do FC Porto raramente se enganam nestes aspetos. Se um jogador, por mais talentoso que possa parecer, não está a ter mais tempo de jogo, então há uma forte razão por trás disso. Por exemplo, era muito fácil bater em Paulo Fonseca por não dar mais tempo de jogo a nomes como Quintero, Ghilas ou Iturbe - que bem que lhes tem corrido a carreira fora do FC Porto, não é?

Quintero não jogava mais com Paulo Fonseca porque não trabalhava para isso; não ficou com Lopetegui pois não trabalhava para isso; e agora no Rennes volta a ter problemas com um treinador que queria apostar nele. E note-se que apesar de nada garantir que José Peseiro fique no FC Porto para 2016-17, quando se pensa no regresso de algum médio, Josué ou Otávio estão muito à frente de Quintero.

O culpado é o jogador, que não trabalha o necessário. Mas a gestão da sua situação no FC Porto também levanta questões. Por exemplo, em dezembro de 2014 a SAD comprou o resto do passe por 4,5M€ - depois dessa operação, Quintero deixou de ser opção para Lopetegui, apesar de ainda ter feito uma boa sequência de jogos na primeira fase da época.

Em janeiro, Quintero renovou por mais quatro anos. Desde então, deixou de jogar pelo Rennes. Quintero joga 20 minutos e já não aguenta. Fica rebentado ao fim de 6 sprints. Quintero pode ter nascido com um pé esquerdo dotado, mas a condição física trabalha-se. Quintero não sabe jogar futebol se não tiver a bolinha no pé esquerdo. E isso também se trabalha.

Apesar de Quintero ter evoluído zero desde que foi contratado, o FC Porto redobrou a aposta nele quando comprou o resto do seu passe. Quintero já tinha sido um jogador imensamente caro - os 100% do passe acabaram por ficar por 9,5M€. De notar que o Pescara só fez uma venda mais cara em toda a sua história (Verratti, ao PSG, por 12M€). E a terceira maior venda custou metade de Quintero (De Sanctis). Tendo em conta que Quintero nem era titular do Pescara e nenhum clube italiano quis contratá-lo em 2013, o FC Porto começou muito cedo a pagar por potencial e talento, mas não mais que isso: apenas potencial e talento que continuam a não ser aproveitados. Sobretudo pelo jogador.

Quintero é o maior responsável pela sua falta de evolução. Mas... não foi ele quem decidiu comprar mais 50% do seu passe por 4,5M€, nem renovar o seu contrato por mais 4 anos, nem encaminhar o seu empréstimo para um clube brasileiro. Ora, se o FC Porto aumentou a sua aposta em Quintero, então o talento do jogador terá que ser muito melhor aproveitado. Há essa responsabilidade. Isso implicava não só puxar por um melhor comportamento, profissionalismo e rendimento do jogador, mas também encontrar o meio onde acham que ele vai evoluir. Dificilmente será no Internacional.

Falta um médio-ofensivo no plantel principal do FC Porto; compra-se o resto de Quintero e renova-se com o jogador; e agora empresta-se o jogador a um clube brasileiro, nem sequer havendo espaço para surgir na pré-época? Não bate certo. Poderíamos dizer que Quintero é um caso quase perdido, de um jogador que não sabe aproveitar o talento que tem, mas depois das operações de investimento no atleta só podemos esperar que venha a ser o craque que prometia ser em 2013. E se em janeiro de 2016 renovou-se com Quintero quando faltavam (e continuam a faltar) jogadores a José Peseiro, então tem que haver futuro para Quintero no FC Porto.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Segunda exceção

«Uma exceção

O Dragões Diário segue todo o universo FC Porto, oficial e não oficial. E, naturalmente, segue O Tribunal do Dragão, atraído pela versão dr. Jekyll do blogue, que faz a defesa do FC Porto, e procura desvalorizar a versão mr. Hyde, mais próxima de outras páginas nossas adversárias. Infelizmente, o blogue tomou o Dragões Diário como alvo, sem ter percebido o objetivo desta newsletter, que é fundamentalmente fazer um resumo da atividade do nosso clube, à imagem do que acontece com outras newsletters de clubes, como a do Real Madrid, por exemplo. Os 21.740 subscritores ativos comprovam o sucesso da iniciativa e, se há muita coisa escrita no blogue que não se pode comprovar, podemos garantir que é falsa a informação de que “são cada vez mais os que cancelam a subscrição”, o que é escrito com leviandade, sem fonte, provavelmente um “wishful thinking”, vá lá saber-se porquê. Há uma grande diferença entre este Diário e O Tribunal do Dragão, aqui nada é escrito sem ter um autor de carne e osso, ninguém está escondido atrás de um teclado. O Tribunal do Dragão é anónimo, o que é sempre um grande obstáculo à credibilidade. Ainda assim, desejamos para o Tribunal do Dragão o mesmo que a toda a blogosfera do FC Porto, respeitando a opinião de cada um: que faça a defesa do FC Porto e que possa celebrar muitas vitórias, que é afinal o que todos mais queremos. E assim encerramos esta exceção.»

Dragões Diário, 24-03-2016

Esta já não será a primeira exceção, será a segunda. A primeira, estarão recordados, motivou o post «O Tribunal dos factos», a propósito de um comentário do oficial de ligação aos adeptos nas redes sociais. Sim, pois era isso o que estava em causa. O que o adepto Fernando Saúl pudesse dizer teria a mesma importância e consideração que qualquer outro adepto comum do FC Porto. Mas o que o «oficial de ligação aos adeptos» pudesse dizer, aí sim, já era importante. Se é um membro representativo da massa adepta, então importava claramente esclarecer qual o objetivo.

Na mesma linha, a segunda exceção. O Dragões Diário dedicou hoje um parágrafo ao Tribunal do Dragão e diz ter sido tomado como «alvo»,  pois «o objetivo desta newsletter é fundamentalmente fazer um resumo da atividade do nosso clube».

Podemos começar por aqui, certamente. Na base desta reação do Dragões Diário estão os comentários no post anterior a propósito das críticas a Vítor Baía. E aí questionamos: que tem a ver o que diz Vítor Baía com «a atividade do nosso clube?». Não é dirigente, não está ligado a nenhum cargo do clube, não é um assalariado do clube. É um dos muitos comentadores em espaço televisivo, tais como Pedro Guerra, Rui Gomes da Silva ou tantos outros. De notar que esses não cometem gralhas: cometem ataques. Mas no dia em que o Benfica completou o ciclo de um ano desde a última vez em que viu ser marcado um penalty contra si, criticar Vítor Baía era mais importante, aparentemente. Aliás, importa lembrar que O Tribunal do Dragão nunca elogiou a intervenção de Vítor Baía ao dizer que «varria a estrutura toda» - pelo contrário, criticou-a, pela leviandade com que fez tal afirmação e por não a ter sustentado. Logo, este nem sequer é um dos espaços que rejubilaram com as críticas de Vítor Baía.

Mas o Dragões Diário desta vez não dedicou uma única palavra a Vítor Baía. Segundo é possível ler, na base desta reação está isto: «Podemos garantir que é falsa a informação de que “são cada vez mais os que cancelam a subscrição”, o que é escrito com leviandade, sem fonte, provavelmente um “wishful thinking”, vá lá saber-se porquê».

Claramente, O Tribunal do Dragão fez essa afirmação com demasiada leviandade. Por isso vamos fazer uma coisa: vamos à maior comunidade de adeptos do FC Porto na internet, o conhecido Portal dos Dragões. Depois, carregamos na página «Tópico destinado ao Dragões Diário» e vemos os posts colocados por diversos portistas desde o tal comentário em relação a Vítor Baía. Viewer discretion is advised, pois há muitos comentários pouco simpáticos em relação ao Dragões Diário, além dos vários adeptos que dizem ter cancelado a subscrição.

Portanto, aí está a «fonte» d'O Tribunal do Dragão, a maior e mais antiga comunidade de adeptos do FC Porto na internet. Os 21.740 subscritores são sem dúvida um motivo de orgulho para o Dragões Diário. Mas cá fica uma dica: quando quiserem desmentir categoricamente uma informação, podem fazer algo tão simples quanto informar quantos subscritores tinham antes de 21-03-2016 e quantos têm agora. Por que não fizeram o «antes» e «depois»? Aí sim, poderiam ter desmentido indubitavelmente a informação e conseguido que O Tribunal do Dragão tivesse escrito algo errado. O mea culpa seria prontamente assumido, pois teria sido prestada uma mentira aos leitores deste espaço. A não ser que todos os portistas que dizem ter cancelado a subscrição sejam mentirosos, o que não parece ser o caso.

Prosseguindo, «Há uma grande diferença entre este Diário e O Tribunal do Dragão». Há uma grande diferença, claramente. A diferença é que O Tribunal do Dragão, desde o primeiro dia, nunca alterou o seu registo, assumindo-se sempre como um «espaço de defesa, crítica e análise ao FC Porto». Já o Dragões Diário, que assume ser um órgão independente do FC Porto, ao mesmo tempo em que é a newsletter oficial, depois explica-se aos leitores dizendo que escreve o que os superiores mandam. É confuso.

Também há uma diferença entre ser um blogue de adeptos e ser um jornal que dá a palavra oficial ao FC Porto. E uma coisa é gerir um blogue em tempo livre, outra é fazendo-o como atividade profissional e serviço remunerado do FC Porto (face a alguns comentários, sempre anónimos, que têm surgido, não se preocupem, ninguém vai trocar de lugar). E há que assumir a desilusão: O Dragões Diário comparar-se ao Tribunal do Dragão, um blogue com modestos e apenas 6.000 likes no Facebook e 3,3 milhões de pageviews, mostra uma pequenez na qual o FC Porto não se pode nunca rever.

Há que reconhecer porém a importância de, entre tantos blogues que já escreveram teor crítico ao Dragões Diário (inclusive ontem), O Tribunal do Dragão ter sido o escolhido para a crítica. Mas diga-se, fizeram-lo com pertinência: O Tribunal do Dragão tinha de facto que sustentar a afirmação de que havia pessoas a cancelar a subscrição Dragões Diário, o que acabou por fazê-lo. 

Depois, à falta de melhor, o Dragões Diário, sem procurar qualquer informação contrária ou sequer tentar contactar alguém que fosse do blogue (ou será que fê-lo?), escreve que este espaço «é anónimo, o que é sempre um grande obstáculo à credibilidade». A questão do anonimato é sempre interessante, sobretudo pelo interesse subjacente que arrasta. Não basta saber se é o Miguel que escreve: é preciso saber onde vive, onde trabalha, o seu percurso profissional, conhecer a sua família, qual o seu signo, de que cor é a roupa interior, se prefere carne ou peixe ou se deixa o som da televisão em números pares ou ímpares. Ninguém está a acusar o Dragões Diário de o fazer, mas é interessante que tenham questionado o «anonimato» numa tentativa de retirar a credibilidade a este espaço.

E aí podemos falar da questão da credibilidade. De facto, é grave questionar o FC Porto, que é o que acabam por fazer. Se O Tribunal do Dragão, nas suas análises, recorre aos R&C e a documentos oficiais do FC Porto para escrever alguns dos seus posts, e se os mesmos não são considerados credíveis, então na verdade estão a dizer que o FC Porto não é credível. Coisa que nunca foi feita neste espaço, pois os R&C do FC Porto são tratados e analisados com a minuciosidade que se implica.

Mas segundo essa filosofia, se este post (apenas para dar um exemplo) fosse assinado pelo Manuel Joaquim, toda esta informação já teria um significado completamente diferente. Os números são exatamente os mesmos, mas sabe-se lá porquê a assinatura no final do texto dar-lhes-ia um complementar e novo significado.

Como O Tribunal do Dragão nunca teve desejos de protagonismo (o máximo que fez para se promover foi criar uma página no Facebook), está aqui no seu cantinho na bluegosfera. Não fez acordos publicitários com ninguém e, desde o primeiro dia, cria e alimenta os mais diversos conteúdos de defesa em relação ao FC Porto. Se isto não tivesse interesse, provavelmente o blogue tinha fechado logo no seu início. Mas há o reconhecimento de que são muitos os leitores que gostam de ler este espaço, desde o primeiro dia, e é um gosto fazê-lo, inclusive quando as opiniões divergem.

O Tribunal do Dragão conclui com desejos do mesmo que o Dragões Diário: «Que faça a defesa do FC Porto e que possa celebrar muitas vitórias, que é afinal o que todos mais queremos.» Mas realçando uma pequena diferença: há dezenas de blogues do FC Porto na internet, onde qualquer adepto pode criar um; já newsletters oficiais do FC Porto só temos uma. Quem não gostar de ler O Tribunal do Dragão pode e deve ler outros blogues do FC Porto. Mas quem não gostar de ler o Dragões Diário não tem outra escolha relativamente a uma newsletter oficial do clube. Pois, ou então lêem blogues.

O Tribunal do Dragão não se atreverá a dizer, desta vez, que hoje houve ainda mais pessoas a cancelarem a subscrição do Dragões Diário. É o que vários portistas estão a escrever no referido portal, mas soaria a déjà vu, e este espaço não tem uma importância assim tão grande para ser tema de Dragões Diário dois dias consecutivos.

Concluindo, mas não sem antes questionar o que seria mais interessante na perspetiva do FC Porto: criticar O Tribunal do Dragão ou dar eco a coisas como isto. E assim encerramos esta exceção.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Um salto ao México

É muito difícil encontrar jogadores mexicanos que se afirmem em grandes clubes europeus. Há sempre algum fogo de vista, com exemplos que vão de Chicharito a Giovani dos Santos, mas são poucos os jogadores mexicanos na Europa que têm conseguido manter um nível alto ano após ano.

No FC Porto, Héctor Herrera tem sido por vezes um exemplo de alguma inconsistência, apesar de na época 2014-15 ter sido dos melhores jogadores da equipa e de estar agora, em 2016, a recuperar a boa forma e a influência na equipa. Diego Reyes não se conseguiu afirmar no FC Porto nas duas primeiras épocas. Agora está na Real Sociedad, onde recuperou a titularidade perdida no final de 2015. Jesús Corona está a ter as dificuldades de adaptação típicas de um primeiro ano no FC Porto, com troca de treinadores e modelo de jogo pelo meio. Já Layún tem sido provavelmente o jogador mexicano em melhor forma na Europa em 2015-16, talvez a par de Chicharito.

É difícil o jogador mexicano brilhar ao mais alto nível na Europa, mas o FC Porto acredita muito no seu potencial. E isso está refletido nos investimentos que foram feitos nos últimos anos. E após terem sido leakados mais pormenores do contrato de Reyes (que não eram novidade, antes confirmação) e das suspeitas (independentemente de alheias ao FC Porto) lançadas no México, oportunidade para (re)ver as condições contratuais que trouxeram os últimos mexicanos para o FC Porto.

Herrera e Reyes foram contratados no exercício de 2012-13, apesar de só terem sido reforços para 2013-14. Herrera, por 80% do passe, custou 8M€, mais 1M€ de encargos; Reyes, por 95% do passe, custou 7M€, mais 2,092M€ de encargos; a SAD procedeu de imediato à alienação de 47,5% do passe por 3,5M€ à Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi (que ganhou 6,2M€ com a compra e revenda de 35% do passe de James Rodríguez em 2013 - inicialmente o FC Porto tinha gastado 5,1M€ em 70% do passe e a GFL tinha comprado 35% por 2,55M€).

Isto é, por Reyes e Herrera existiram encargos de 3,092M€. Estes encargos podem incluir diversas coisas, como prémio de assinatura, direitos de imagem ou comissões. As quantias não são discriminadas, mas a SAD, no R&C de 2013-14, acrescentou esta informação:


Com a divulgação dos contratos de Reyes e Herrera, há vários pormenores que constituem novidade. 

O negócio Herrera
Em 2013-14, Herrera fez o número de jogos suficiente para que a SAD fosse obrigada a comprar mais 10% do seu passe ao Pachuca por 1,5M€; a SAD continuou a ter 80% de Herrera. Em 2014-15, Herrera fez o número de jogos suficiente para a SAD fosse obrigada a comprar mais 10% por mais 1,5M€. Ou seja, a totalidade do passe de Herrera ficaria por 11M€. Mas a SAD continua a declarar deter 80%.

Numa carta complementar ao negócio com o Pachuca, as partes acordaram que «20M€ seria um excelente preço para considerar uma venda futura», sendo que a cláusula de rescisão de Herrera era de 30M€. E aqui já é referido que a compra dos restantes 20% em relação ao Pachuca não eram obrigatórios, mas sim uma opção. O acordo terá mudado, com uma condição: se o FC Porto rejeitasse mais de 20M€ por Herrera, o FC Porto teria que pagar o valor proporcional pelos restantes 20%. Neste caso, esta mudança foi vantajosa para o FC Porto.

As comissões para a transferência de Herrera terão sido surpreendentemente baixas. Há apenas referência a um pagamento de 300 mil euros (a 4 prestações) a Nicholas Blair, tendo como referência 10% da remuneração anual de Herrera. A FIFA passou ter como referência 3% da remuneração líquida como comissão, mas nenhum clube está a seguir esta prática - que tecnicamente seria uma regra, não uma recomendação, mas a FIFA parece ter criado a regra para a meter na gaveta. 

Em outubro último, aí sim, grandes novidades sobre Herrera, com o pedido de empréstimo de 5M€ à For Gool, uma empresa de Teodoro Fonseca (que controla o Portimonense e detém o passe de Gleison, que convenientemente já está a ser chamado de novo Hulk antes de o FC Porto comprar o seu passe - já tinham feito o mesmo com Ismael Díaz, e no site oficial do FC Porto está escrito que Marega «tem caraterísticas físicas e técnicas que fazem lembrar Hulk»; padrão interessante para valorizar os jogadores).

O acordo era complexo. Se Herrera, o que acabou por acontecer, ficasse no clube, a taxa de reembolso era de 5%. Bem aceitável. Se Herrera fosse vendido à margem da For Gool, subia para 9%; e se fosse a For Gool a tratar da saída, a percentagem seria de 10% da venda. Ou seja, na eventualidade de Herrera sair por 30M€ (o valor da procuração para vender o jogador), a For Goal recebia 3M€ - 60% do valor que emprestou ao FC Porto. Ter uma proposta de 30M€ por Herrera seria de facto muito bom, certamente. Jorge Mendes também cobra comissões de 10% como referência. Mas isto não é uma mera comissão: é uma taxa de empréstimo. E seria de 60%. Tendo em conta que o FC Porto paga uma taxa de juro média anual de 5,02%...

Um negócio em dupla
Depois de Herrera, Reyes, que esteve em destaque nos últimos dias por causa das ligações que foram feitas a um cartel mexicano. É um assunto que pode não ser afeto diretamente ao FC Porto, mas Matías Bunge, representante do Grupo Comercializador Cónclave (ligado ao cartel de Juárez), já se identificou na imprensa com sendo empresário de Diego Reyes, Héctor Herrera e Jesús Corona. Confirmando-se quaisquer tipo de irregularidades, o FC Porto não pode voltar a negociar com este agente, nem com quaisquer parceiros afetos ao tema. Um clube só é tão transparente quanto os parceiros que escolhe para negociar. À mulher de César não basta ser...

No caso de Corona, já tinha sido noticiado que custou 1,25M€ em comissões: 500 mil euros para a Northfields Sports (ligada a Marcelo Simonian) e 750 mil euros, a três tranches, para a «Cantera Latina». O que é a Cantera Latina? Precisamente uma empresa de Matías Bunge, em Barcelona, registada junto da Federação Espanhola. 

No caso de Reyes, a imprensa pegou nas informações do Football Leaks e falou numa comissão de 700 mil euros a Matías Bunge, ou seja, os 10% dos 7M€ por 95% do passe. Mas é bom lembrar que o FC Porto alienou 47,5% do passe. Entretanto Matías Bunge pode ganhar mais 200 mil euros, em caso de renovação de contrato, e mais 300 mil pela transferência para outro clube. Dá 1,2M€ no total.

Mas curiosamente, no documento de 12 de dezembro de 2012 que tinha sido divulgado, estas condições já estavam todas pré-definidas, mas estava ainda prevista uma mais-valia de 10% para o agente. Não se sabe se a mesma continua aplicável ou se terá sido rejeitada. 

O mais curioso é que o Football Leaks tenha divulgado agora os pormenores relacionados com a Conclave, quando em 2015 já o tinha feito, na altura mostrando ainda um contrato com o empresário Ricardo Rivera (em representação da Northfields Sports) que carecia de assinaturas. O mesmo previa uma comissão de 500 mil euros e uma mais-valia de 10% acima dos 8M€. 

Curiosamente, 500 mil euros já tinha sido quanto a Northfields Sports lucrou por Corona. E é difícil crer que a SAD se tenha disponibilizado a pagar duas comissões aos mesmos protagonistas por dois jogadores diferentes. Os tempos em que só se pagava comissões no momento da venda já vão distantes, mas pagar comissões a dobrar num só ato de compra (uma no contrato do jogador, outra no contrato entre os clubes) é um ato de audaz modernismo.

Com as suspeitas a envolver os mencionados intervenientes num esquema de lavagem de dinheiro no México, nada mais é de esperar que o FC Porto apure toda a transparência dos envolvidos. Sobretudo quando o presidente do FC Porto afirmou, em outubro, que quer continuar a apostar no mercado mexicano. E de preferência, reservar as comissões altas para o momento em que os empresários oferecem boas propostas de venda ao FC Porto, não no momento da compra, na qual qualquer sujeito pode surgir no papel de intermediário; já para arranjar propostas para vender jogadores por 30M€ ou mais, não é qualquer um que o faz. Prova disso é que ainda não vimos nenhuma boa proposta trazida por estes agentes, mas para a intermediação no momento da compra receberam confiança redobrada. É caso para dizer: têm que ser mesmo bons empresários, que vão dar muito dinheiro ao FC Porto.


PS: O Dragões Diário, o órgão independente do FC Porto que só escreve o que os superiores do FC Porto mandam (foram os próprios a admiti-lo, por mais confuso que possa parecer), deu-nos a conhecer que Vítor Baía errou numa das suas análises, ao dizer que Bruno Alves e Meireles tinham saído após Dublin. É a segunda gafe de Vítor Baía, um dos muitos comentadores em espaço televisivo, e o Dragões Diário, entre todas as Guerras que poderia comprar, escolheu Vítor Baía. Ao segundo erro, não perdoaram, mais parecendo que Vítor Baía era tratado não como alguém que cometeu uma gralha, mas sim como um inimigo.

O rigor e os factos são importantes, e Vítor Baía errou. Que tem isso a ver com o FC Porto? Nada. Está no seu programa a título pessoal, e de certeza que não está no topo daqueles que mais disparates sobre o FC Porto dizem. Mas ao errar no espaço de um ano (Bruno Alves e Meireles saíram em 2010, não em 2011), Vítor Baía teve honras de críticas oficiais do FC Porto. É caso para dizer: cuidado, José Peseiro, que ao próximo erro estás completamente tramado. Peseiro disse que Herrera, capitão do FC Porto, está «há ano e meio no clube». Na verdade está há dois e meio, quase três. E como para o Dragões Diário não é admissível falhar num espaço temporal de um ano, à próxima falha Peseiro pode muito bem ser o próximo visado.

Felizmente, a maioria dos portistas já não se está está a rever neste registo, e são cada vez mais os que cancelam a subscrição do Dragões Diário, o que devia ser um alerta para reverem o serviço que prestam. Vai aparentando que há mais pessoas a precisar do Dragões Diário do que o FC Porto. O Dragões Diário já cometeu imensas gralhas, muito mais graves do que as de Vítor Baía; a diferença é que Baía faz o que quer a título pessoal, não está em representação oficial do FC Porto. Provavelmente nunca exercerá um cargo de grande importância no FC Porto, pois, opinião, nunca aparentou ter o perfil para isso (se quiser que prove o contrário). Mas é isso que mais surpreende: se um Vítor Baía (por mais ou menos gralhas que cometa, por melhor ou pior gestor que seja, ninguém duvida que só quer o melhor para o FC Porto e que o clube retome o rumo das vitórias) já causa tanta comichão, então há demasiada inquietação e falta de confiança no FC Porto.

PS2: A propósito dos jogadores mexicanos e da desejada compra de Layún, refira-se que o FC Porto tem até 30 de junho para comprar Layún, pagando 3M€ no momento em que exerce a opção de compra e mais 3M€ a 31 de julho. Se deixar passar estes prazos, terá que negociar a compra com o Watford, leia-se, com Giampaolo Pozzo. O FC Porto pagou 500 mil euros pelo empréstimo de um ano. 

domingo, 20 de março de 2016

Póquer entre o sofrimento

A grande vitória de José Peseiro é esta: em quatro jogos abaixo do Mondego, quatro vitórias. Todas elas com muita dificuldade à mistura, e com a felicidade que faltou em tantos outros jogos, mas para a história ficam os resultados. Quatro jogos, quatro vitórias. Não é fácil, tendo em conta que o FC Porto, nos últimos 2 anos, chegou a estar 13 jogos sem ganhar a sul do Mondego. Fica o mérito registado.

Mas ganhar no Bonfim não era o maior obstáculo. O FC Porto vence consecutivamente há 19 anos neste estádio, e nos últimos 28 jogos contra o Vitória de Setúbal ganhou todas as partidas. E este recorde de vitórias esteve em sério risco de cair no tempo de compensação.

Mais uma vitória pela margem mínima, com muito sofrimento à mistura, sendo também uma consequência da incapacidade de resolver os jogos mais cedo. Dificilmente será diferente até ao final do campeonato. Restam 7 finais para tentar o (im)possível para chegar diretamente à Liga dos Campeões. Nesta altura, já não vale a pena pedir mais do que tentar ganhar cada jogo, com ou sem sofrimento, pois para ganhar a maioria dos jogos que faltam não deveria ser necessário o melhor futebol da época. 





Asa direita (+) - Um grande jogo de Maxi Pereira e Corona. Na primeira parte o FC Porto fez 14 ataques por este flanco, o dobro dos que fez pelo lado esquerdo, onde normalmente mora a lei da Layúndependência. Maxi meteu quatro bolas na grande área para situação de finalização, inclusive o lance do golo, e ainda ajudou a evitar o 1x1 perto do fim. Corona fez enfim um bom jogo: menos fantasista, mais objetivo, melhor no jogo interior e combinou bem com Maxi. Um par de bons cruzamentos e intervenção no lance do golo.

Danilo Pereira (+) - Comparativamente aos últimos jogos, o FC Porto esteve bem melhor no equilíbrio defensivo, muito graças a Danilo. Poucas vezes ultrapassou a linha da bola, esteve mais posicional, e com isso a equipa teve sempre uma referência na saída de bola e simultaneamente um tampão no momento de transição defensiva.

Héctor Herrera (+) - Novamente um dos melhores em campo. Pressiona, constrói, é referência para a variação de flancos e nunca abdicou de oferecer uma linha de passe. Por vezes é lento a libertar a bola - mas essa lentidão também oferece ao FC Porto a hipótese de pausar e pensar o jogo e (re)organizar a equipa. De há um mês ou mais para cá tem sido o melhor do FC Porto, sendo o mais importante jogador nos dois momentos do jogo.


Outros destaques (+) - Sérgio Oliveira dá ao meio-campo do FC Porto o que muitas vezes falta: capacidade de meia distância. Herrera já fez alguns golos de fora da grande área, mas arrisca pouco. André André, Rúben Neves ou Danilo Pereira não têm uma boa meia distância. Assim surge Sérgio Oliveira, sem pedir licença para rematar. Ainda lhe falta muito para poder ser titular do FC Porto - só jogou face à ausência de outras opções -, mas o que tem acrescentou bastante ao FC Porto ontem. Bom jogo de Martins Indi na defesa, quase sempre certinho; Brahimi não surge num «boné» destacado porque falhou quase sempre no momento de definição: falhou poucos passes,  levou quase sempre a melhor nos dribles e ajudou a descoordenar a defesa do Vitória de Setúbal, mas depois ora dava a bola ao guarda-redes no cruzamento, ora rematava mal. Fez tudo bem até ao que importava: assistir ou marcar.






Pouca agressividade (-) - O de sempre. Num jogo pesado devido à chuva, o FC Porto foi muitas vezes macio a jogar, o que levou a que o Vit. Setúbal ganhasse a maioria das bolas divididas e os lances de jogo aéreo. Apenas 10 faltas num jogo destas circunstâncias não mostra uma equipa que é limpa no desarme, mas sim que peca na ausência de agressividade.

Pouco acerto (-) - O FC Porto teve as suas oportunidades de golo, mas não tantas quanto se possa pensar. O único golo nasce de uma bola perdida na grande área. E em 18 situações de remate criadas pela equipa, apenas cinco se traduziram em remates à baliza, o que é pouco contra uma equipa que jogou sempre em bloco baixo. O FC Porto falhou mais passes do que o habitual (79% de acerto) e poucos cruzamentos saíram bem, sobretudo a Brahimi e Layún. Com isto, mais um jogo em que Aboubakar falhou as (poucas) oportunidades que teve e em que quase não teve presença na grande área. Diríamos que se entenderia melhor num 4x4x2, mas já o vimos render e resolver no 4x3x3. Já agora: Aboubakar tem uma média de golos/jogo melhor do que Lisandro, Derlei ou Domingos. É melhor do que qualquer um destes? Não, de todo. Mas se isto não serve para o jogador ganhar confiança e continuarmos a acreditar no seu valor, nada servirá. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

O valor da palavra

Jornal de Notícias
Pode muito bem ser entendido como uma crítica a Vítor Baía, que foi a única personalidade ligada ao FC Porto a admitir publicamente uma futura candidatura à presidência do clube, mas que se ficou pela afirmação de que «varria tudo». Ou quiçá seria mesmo uma vontade do presidente. Pinto da Costa disse que «se tivesse entrado uma candidatura credível, não seria candidato». Por mais nobres ou provocatórias (na medida em que ninguém acabou por avançar com uma candidatura) que fossem as intenções de Pinto da Costa por trás desta frase, não são as palavras mais motivadoras para avançar para o 14º mandato.

Por outras palavras, os associados do FC Porto podem votar em Pinto da Costa por acreditarem que é a melhor hipótese; mas Pinto da Costa só se apresenta a votos por não haver outra hipótese (melhor). Os sócios confiam mais em Pinto da Costa do que o próprio Pinto da Costa?

Para responder a estes últimos 3 anos de péssima memória, é preciso um excelente programa para o 14º mandato. Assim sendo, se Pinto da Costa não decidisse avançar, ia deixar de lado o seu programa para o 14º mandato? Ou não há ainda sequer programa? Pinto da Costa, aliás, disse que só na terça-feira deu luz verde a Fernando Cerqueira para avançar. 

Em 2011-12 Pinto da Costa disse ao L'Équipe que ia deixar o FC Porto num prazo máximo de 5 anos. Esse quinto ano seria a época que se avizinha. Mas como é óbvio, nenhum associado quererá votar num mandato de 4 anos para, ao fim da primeira época, haver logo mudança de presidente. Por isso só temos que assumir que Pinto da Costa quer e vai cumprir os 4 anos que tem pela frente.

Aliás, se houvesse de facto intenção de Pinto da Costa em passar a pasta, então não se teria alterado os estatutos. É muito simples: o artigo 89 dos estatutos do FC Porto previa o seguinte. «Na hipótese de os Presidentes da Direcção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal manifestarem até ao dia 20 de Março do final do triénio, das suas disponibilidades para continuarem em exercício de funções e não surgir qualquer candidatura até 15 Abril, haver-se-à o seu mandato prolongado por mais 1 ano.»

Tendo em conta que não houve candidatos, a atual direção não precisaria de se candidatar para o 14º mandato: bastava avançar para o ano extra em causa e, quiçá, dar tempo a eventuais interessados para avançarem (se bem que provavelmente só o farão quando Pinto da Costa se retirar, pois ninguém quererá ficar sob a pressão de ter antecipado, oficialmente, o fim da era Pinto da Costa). Mas face à mudança de estatutos, então só se pode admitir um compromisso absoluto com o clube para os próximos 4 anos. Muito provavelmente será o último mandato de Pinto da Costa, mas que pelo menos seja apresentada a base para os próximos 4 anos; os associados querem saber em que estão a votar. E não querem votar num presidente que se retire ao fim 1 ou 2 anos de mandato.

Uma curta nota pelo meio, a propósito de alguns comentários que têm surgido, com uma analogia política que se fará entender: para se ter o direito a ter uma voz crítica sobre o governo, não é preciso formar um partido, nem fazer carreira de político; da mesma forma que ter algumas opiniões populares e fundamentas sobre o governo não qualifica ninguém para o substituir ou para ser político. Para bom entendedor...

Adiante, estas foram as palavras de Pinto da Costa à imprensa. Não sabemos, pode ter sido uma mera bicada aos candidatos, um toque de ironia. Mas uma coisa é o que Pinto da Costa diz à imprensa. Outra é o que diz aos associados, ou, como já disseram, entre família. Isto claro, a propósito do que disse Vítor Serpa, que confirmou que falou com Pinto da Costa durante 15 minutos na Gala dos Dragões de Ouro e que foi o próprio presidente a convidá-lo. Pedro Marques Lopes, um dos portistas mais notáveis da nossa praça, confirmou que esteve à conversa com os dois na Gala.

Ou Vítor Serpa e Pedro Marques Lopes mentiram, ou Pinto da Costa mentiu. E nenhum adepto pode ser inocente ao ponto de não reconhecer para que lado está a pender a balança. Como não há registos audiovisuais da intervenção do presidente na AG, há quem já fale em más interpretações: uns dizem que Pinto da Costa garantiu que não convidou, nem sequer viu Vítor Serpa na Gala; outros dizem que Pinto da Costa só disse desconhecer quem convidou Vítor Serpa, e que não terá falado com ele. 

Jornal A Bola, a outra «versão»
Seja como for, algo falhou aqui. Poderão dizer que isto é uma coisa insignificante - e até é, quando comparado com tantas outras coisas dos últimos anos. Mas o problema está mesmo aí: mentir numa questão tão insignificante quanto esta, não à imprensa, mas a sócios que o olharam nos olhos? Porquê? Para quê?

Nenhum erro poderá ser tão grave quanto não admiti-lo. Se aconteceu como com Suk, em que o homem lhe caiu ali nos braços, tudo bem, há que ser politicamente correto, educado, cordial. Mas mentir, nunca. Até podiam convidar Luís Filipe Vieira e Bruno de Carvalho: nada seria tão grave quanto mentir nesta questão. E alguém mentiu. Depois, só há duas coisas piores do que a mentira: fingir que nada aconteceu ou insistir na mesma.

Na questão de Casillas, é de destacar que não foi proposta propriamente uma renovação: simplesmente o FC Porto quer ativar o ano de opção que tem no contrato. A única novidade é que, a partir de 2017, o Real Madrid deixa de contribuir no salário de Casillas. Logo, ou Casillas reduz para quase um terço o seu salário em 2017-18, ou terá que ser o FC Porto a suportá-lo (na verdade não será, pois é impossível fazê-lo, portanto só uma grande redução salarial de Casillas viabilizará a sua continuidade no FC Porto). 

Não é necessária grande pressa para renovar contrato com um jogador que terá 36 anos e não terá mercado quando o contrato com o FC Porto terminar (terá 37 no ano de opção), mas percebe-se que Pinto da Costa tenha optado por deixar uma mensagem forte depois da encomenda publicada no El Confidencial. E nisso fê-lo bem. Depois do Euro 2016, Casillas possivelmente perderá a titularidade na seleção espanhola e veremos em que medida o futebol europeu ainda o motiva, sobretudo com a MLS a chamar por ele. Nada que não se resolva à mesa para benefício de todas as partes. Com o valor da palavra presente, de preferência.

PS: A título de curiosidade...

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pinto da Costa fala e janta com os mortos

É uma questão de tempo até este assunto ser amplamente difundido pela comunicação social portuguesa, portanto importa já antecipá-lo. Esta história nasce do El Confidencial, um jornal espanhol que faz qualquer jornalista do Correio da Manhã sentir-se digno de um Pulitzer, e é assinado por José Manuel García, que responde no Twitter pelo nick @butacondelgarci.


Este jornal imputa ao presidente do FC Porto afirmações gravíssimas, acusando-o de apunhalar Casillas pelas costas. O El Confidencial diz que Pinto da Costa afirmou o seguinte em privado: «El fichaje de Casillas ha sido un absoluto fiasco. Iker no sólo no ha cumplido ninguna de las expectativas que teníamos, sino que nos ha costado partidos, la Liga y nuestra eliminación prematura en Champions (...) Su sueldo es inasumible para el club. Si se va a EEUU, porque me han dicho que el New York City lo quiere, será la mejor operación que hayamos hecho.»


Versão original da notícia
Mas esta é a frase chave do El Confidencial, que temos que reter: «De cara al público, Pinto da Costa aparece como un padrino para Casillas, pero el presidente del Oporto, famoso por sus vehemencias, lleva tiempo desabrochando su lengua y cargando contra el ex madridista. Sucedió en los primeros días del mes en curso, durante una cena en el domicilio de José Manuel de Mello, magnate de los negocios en Portugal y simpatizante del Oporto.»

Como seria de esperar, este assunto já se está a espalhar por todo o lado. Já chegou à Catalunha, ao Mundo Deportivo, que diz isto: «Pinto da Costa pronunció estas frases en una cena celebrada a principios de mes en el domicilio del empresario portugués José Manuel de Mello».


Também já chegou ao Brasil, onde a ESPN escreveu isto: «Jorge Nuno Pinto da Costa criticou severamente Casillas, 34 anos, durante um jantar com o magnata José Manuel de Mello, torcedor dos Dragões, no começo de março».

Já é viral, portanto. Mas estão a desviar-se do mais importante deste tema. O El Confidencial diz que Pinto da Costa fez estas afirmações sobre Casillas durante um jantar com José Manuel de Mello. Então está tudo a ignorar a verdadeira notícia aqui. Não é Iker Casillas: é a capacidade de Pinto da Costa em comunicar com os mortos:



José Manuel de Mello, empresário português e fundador do Grupo José Mello, faleceu em 2009. Mas segundo o El Confidencial, foi o confidente de Pinto da Costa durante um jantar no início deste mês, onde o presidente do FC Porto criticou imensamente Casillas. Imaginem as portas que se acabaram de abrir: Pinto da Costa é capaz de comunicar com os mortos! Os ensinamentos do Mestre Pedroto podem todos ser recuperados, pois é só Pinto da Costa sentar-se à mesa para um jantar e absorver o conhecimento do mundo do além. Ou então José Manuel de Mello passou os últimos sete anos na mesma ilha que o Elvis.

PS: Entretanto, o El Confidencial alterou a notícia duas vezes. Primeiro, omitiu por completo que tenha havido um jantar. Depois, voltou a incluir a parte do jantar, mas desta vez dizendo que o suposto jantar foi em casa «da família Guimarães de Mello» (conhecida por ser uma família de sportinguistas, não de portistas, já agora). Independentemente de isto ser sujeito a uma quarta alteração, colocar e reafirmar estas afirmações graves na boca do presidente do FC Porto requer uma reação a nível oficial. O jornalista em questão até já começou a justificar-se no Twitter: primeiro disse que se enganou no apelido; depois diz que afinal estava a falar do filho; depois diz que se enganou ao dizer que era uma família de portistas. Não tarda e estava era a falar do Helton, não do Casillas. Isto já não é uma especulação ou rumor: é um ataque à palavra do presidente do FC Porto sobre um profissional que sempre respeitou e se fez respeitar desde que assinou pelo clube.

Confiança

Em primeiro lugar, há que saudar todos os sócios que marcaram presença em massa na AG. Muitos de pé, ainda mais à porta e outros tantos que, por diversos motivos de força maior, não possam ter estado no evento. Mas houve uma preocupação comum: o presente e futuro do FC Porto. E o clube está vivo. A maior prova disso não foram as respostas que foram dadas na AG, mas sim a manifesta inquietação por parte da massa adepta.


E aqui se vê que o que está em causa não é meramente a ausência de títulos. Sejamos francos, muitos dos adeptos lançam críticas sobretudo quando o FC Porto não está a vencer. Se vencer, muitos deixam de se interessar pelos diversos temas que envolvam a SAD. 

Mas ontem ficou claro que o que está a inquietar os adeptos do FC Porto não é apenas (ou sobretudo) os maus resultados no futebol: é esta postura de indiferença face aos diversos temas, desde a arbitragem aos poderes controladores do futebol português; a defesa pública ao FC Porto; a eventual existência de conflitos de ordem interna; os planos para o futuro imediato.

Pinto da Costa teve o cuidado de tentar responder às muitas perguntas, mesmo sem ser particularmente revelador e, em muitos casos, dizendo que desconhecia ou não sabia. Em alguns casos não havia outra maneira senão ir ao encontro do politicamente correto. Por exemplo, a questão sobre a existência de conflitos entre Alexandre Pinto da Costa e Antero Henrique. Como é óbvio, em planeta algum Pinto da Costa iria admitir o contrário. E até seria pertinente afirmar que era uma não-questão. Afinal Antero Henrique é membro da administração da SAD do FC Porto; Alexandre Pinto da Costa não, é um indivíduo externo ao FC Porto. Logo, não pode ser um conflito interno. Bastava Pinto da Costa dizer que o filho não tem voz ativa no quotidiano da SAD...

Num clube que está unido e em prol do mesmo objetivo, o ideal até seria defender a sua administração ao invés de um empresário que, segundo o próprio, é tratado como tantos outros agentes de futebol pelo FC Porto. Se não há sintonia absoluta no Conselho de Administração, nada mais funciona.

Pinto da Costa já teve a oportunidade de dizer no Porto Canal que Alexandre Pinto da Costa não é mais do que um empresário que só representava um rapaz dos juniores (Rui Pedro, mas na verdade já nem é esse o caso). O mais interessante seria então perceber o seu papel na condição de intermediário de várias transferências do FC Porto. Isso será um tema interessante de aferir aquando da apresentação da proposta para o 14º mandato. 

Num regime presidencialista, é normal que Pinto da Costa seja sempre o máximo responsável. Mas Pinto da Costa deu a entender que (já) não controla tudo o que se passa em seu redor no FC Porto. Terá sido a primeira vez que o fez publicamente. O presidente disse por exemplo que não conhece os conteúdos do Dragões Diário. 

Mas o Dragões Diário assume posições oficiais do FC Porto. E se Pinto da Costa desconhece em que posição oficial o FC Porto se assume, é preocupante. A palavra de Pinto da Costa tem que ser sempre a primeira e última a ser tida em conta, pois é o presidente. Para quem não se recorda, em setembro, quando Vítor Baía falou do alegado telefonema a Luís Filipe Vieira, o próprio presidente falou ao Dragões Diário para desmentir o tema. Se Pinto da Costa falou ao Dragões Diário para reagir a afirmações de um adepto e antiga glória do FC Porto, certamente que é de esperar que faça o mesmo perante quaisquer ataques externos. E além disso, mesmo que Pinto da Costa não leia tudo o que o Dragões Diário escreve, sabe perfeitamente quem delegou para essas funções. Mas segundo o e-mail citado pelo associado que falou neste caso, o Dragões Diário remete tudo para os «superiores» e diz que só escreve o que mandam. Em que ficamos?

Pinto da Costa também disse desconhecer que Vítor Serpa e António Magalhães tenham sido convidados para a gala dos Dragões de Ouro. Ok. O diretor do jornal A Bola até fez questão de elogiar, nessa semana, a grande mudança do FC Porto, que tinha passado a ser um clube exemplar e profissional, enquanto Sporting e Benfica andavam em guerrilhas. Por outras palavras, tínhamos voltado a ser aquele clube simpático e porreiro de antes dos tempos de Pedroto. Não se sabe então quem convidou Vítor Serpa e António Magalhães, mas Pinto da Costa garantiu que o clube não voltará a fazê-lo. Se o garantiu, é porque foi detetado o erro.

A história do Ferrari e de Lopetegui voltou a ser comentada. Como já aqui foi tratada, não vale a pena repetir - o ex-treinador do FC Porto se quiser que se defenda ou desminta. Mas ficou a ideia clara de que já não havia confiança em Lopetegui desde o ano passado, e ainda assim a mesma foi reforçada publicamente duas semanas antes do treinador ser despedido. Mas estamos a entrar em território também já debatido. Só que falar em «inadaptação ao futebol português», ao fim de 18 meses, não faz sentido.

O presidente admitiu ainda que sendo uma AG do clube, não da SAD, levou a que não se aprofundasse alguns temas. Nenhum dos associados que teve a palavra falou na questão do contrato de Rúben Neves, mas diga-se que não é uma situação nova nem se trata de um ato isolado. Falar sobre a política de contratações/renovações do clube implicaria outro enquadramento, que levaria horas a discutir. Além disso, Pinto da Costa admitiu que não controla tudo o que se passa no FC Porto. E de facto, a renovação de Rúben Neves não tem a sua assinatura, e se há autonomia entre outros membros do Conselho de Administração, seria interessante ouvi-los também falar. No caso de Pinto da Costa, sobre a questão Alexandre Pinto da Costa, poderia sim questionar-se o porquê de ser o presidente a assinar a transferência de Atsu para o Chelsea e depois aparecer a Energy Soccer, do filho, no papel de intermediária. Mas nem as perguntas nem as explicações aprofundaram-se nesse campo.

Pinto da Costa culpou então as arbitragens e condenou o consulado de Vítor Pereira. Só é de lamentar que não sejam assumidas mais posições públicas neste sentido. O FC Porto não pode ser o clube que diz que não ganha por causa dos árbitros; mas não pode ser o clube que fica mais escandalizado por perder 2 ou 3 jogos do que por rival ser beneficiado numa dúzia deles. Equilíbrio é a chave. Rever as culpas próprias tendo sempre em consideração os fatores externos.

Noutro campo, Pinto da Costa criticou comentadores como Rodolfo Reis, Manuel Serrão ou Guilherme Aguiar. Descobrimos que Pinto da Costa passou a ver estes programas, pois o presidente sempre afirmou, nas suas intervenções públicas, que não via este tipo de debates televisivos e que até os repugnava. Ora se Pinto da Costa sempre tratou este tema com indiferença, porquê agora imputar responsabilidades a pessoas que não estão diretamente ligadas ao FC Porto? Se o clube quer estar melhor representado nos programas em causa, então que faça como Benfica e Sporting e indique os seus comentadores.

A livre crítica, sobretudo por pessoas que não estão diretamente ligadas ao FC Porto, não pode ser censurada. Uma coisa é fazer o que Carlos Abreu Amorim fez: não foi dar opinião, foi fazer acusações generalizadas, que têm que ser sustentadas. Porque uma coisa é estar no campo da opinião, sustentando-a com factos; outra é limitar-se a chavões para lugares comuns, como «varria esta gente toda». Ok, varria. Mas varria porquê? Desconhecendo se Manuel Serrão, Rodolfo Reis ou Guilherme Aguiar fizeram essas acusações, se estão nos seus programas a título pessoal, então o FC Porto não pode intervir. Aliás, eles estão lá enquanto adeptos do FC Porto. Logo, pode muito mais rapidamente um adepto anónimo do FC Porto insurgir-se contra isso do que o próprio clube a nível oficial. 

Outra questão, e que Pinto da Costa abordou pela segunda vez, tem a ver com a relação portugueses no plantel vs. mística. O presidente do FC Porto comparou a equipa de 2011 a esta, lembrando que Rolando, Moutinho e Varela jogaram a final de Dublin, e que agora Danilo, Rúben e André André têm sido muito utilizados por Peseiro. Fazer uma comparação destas é surreal.

O FC Porto não ganhou a Liga Europa por ter o Rolando, o Varela e o Moutinho. Ganhou por, além destes jogadores, ter Otamendi, Álvaro Pereira, Fernando, Guarín, Hulk, Falcao.. E a mística não está na nacionalidade: está na devoção que cada profissional tem perante o FC Porto. Nenhum adepto pensa que ser português e advir da formação do clube é sinónimo de mística. Não é. A mística está no profissionalismo, na devoção, na qualidade e num contexto competitivo favorável. Um tema que não faz o menor sentido. James e Hulk não sabiam o que era mística, mas tinham classe mundial nos pés. Se experimentarem contratar mais destes, de certeza que ninguém se queixa que não há mística. Mas quando se vai buscar ao Marítimo um pacote quase ao preço por que chegaram James ou Hulk (cujos contornos também nunca foram os mais claros, é verdade, mas o Incrível acabou por valer cada cêntimo)...

Por fim, dizer que essa tentativa do jornal A Bola, sabe-se lá por ideia de quem, tentar criar um clima de intimidação e conflito, ao referir que as claques iam aparecer em peso e que a AG iria aquecer, foi tão triste quanto mal sucedida. Houve algum barulho de ruído típico (mais em tom crítico a membros do Conselho de Administração do que numa tentativa de abafar quem falava, diga-se), mas no final levantaram-se questões que tocaram nas feridas. Só uma das intervenções nada acrescentou, limitando-se ao chavão de jura de amor eterno. E é de realçar que os momentos que motivaram mais euforia e aplausos vieram das questões colocadas, não das respostas que foram dadas. 

No final, há quem tenha gostado das intervenções de Pinto da Costa, e há quem sinta que pouco ou nada foi explicado, que ficou muita coisa por dizer e que foi assustadora a forma como o presidente do FC Porto admitia que não sabia ou desconhecia alguns temas. A reter fica isto: os associados do FC Porto jamais deixarão o clube cair. E isso não é confiar eternamente cegamente em quem está à frente do clube: é puxar por eles, no sentido de manter um sentido crítico presente. É verdade, temos que estar todos unidos: mas essa união só funciona se estiver assente num projeto vitorioso, de clarividência, transparência, com que todos se identifiquem e em que todos remem para o mesmo lado, colocando o clube à frente dos interesses pessoais. A maior prova de que o FC Porto está vivo, (in)felizmente, acabou por nascer da sua massa associada.

Ficamos agora à espera que Pinto da Costa e restantes parceiros apresentem o seu programa para o 14º mandato. E aí caberá a cada associado perceber se está a votar no programa para os próximos 4 anos ou se está a votar em memórias e desejos do passado. Os associados deixaram claro que querem continuar a confiar em Pinto da Costa. E isso não é uma confiança que deve ser dada como garantia, mas sim que deve ser correspondida e honrada. Confiança não só pelo passado, mas sobretudo pelo futuro próximo.

Como Sardoeira Pinto terminava: Viva o Futebol Clube do Porto!

PS: Nas 24 horas seguintes à Assembleia Geral, o FC Porto emite um comunicado a questionar o serviço público da RTP, outro contra a postura do Sindicato de Jornalistas no caso da agressão a um operador de câmera (um problema de civismo, não de clubismo, e que o autor dos atos seja devidamente identificado e punido à margem do FC Porto) e Pinto da Costa fala ao JN para abordar a «vigarice» que afastou o FC Porto do título passado. Vimos mais ações em 24 horas do que em largos dias. Que seja para continuar.